Sei com toda a certeza que:
Amo a minha namorada
O Benfica é o melhor clube do mundo
Vou morrer
etc
Estas afirmações são de coisas que eu sei ou de coisas que eu acredito?
A diferença é clara: uma crença pode estar errada, pode não corresponder à verdade. Mas haverá alguma coisa que podemos saber com certeza absoluta. Algo relativamente ao qual seja impossível estarmos errados?
Vejamos primeiro a afirmação sobre eu "Amar a minha namorada". Se eu estiver a falar daquilo que sinto por ela, então parece impossível estar errado. Porque se eu, neste preciso momento, estiver a sentir amor por ela, então estou de facto a sentir amor por ela. É como qualquer outra sensação, como ver amarelo. Se eu disser que neste momento estou a ver amarelo parece que não posso estar errado. Eu de facto estou a ver amarelo, apesar, na realidade, os nossos monitores e televisões não serem capazes de emitir luz amarela. O monitor engana-nos e envia vermelho e azul para nos dar a sensação de que estamos a ver amarelo (os monitores só conseguem emitir três cores azul, vermelho e verde - as outras são os nossos olhos que as imaginam).
Mas mesmo que o monitor não esteja a emitir amarelo, mesmo que nenhuma onda electromagnética amarela (com comprimento de 570 nm) chegue aos meus olhos, mesmo assim é absolutamente certo que eu estou a ver amarelo, e eu sei disso pelo simples facto de o sentir. Quando digo: sei que amo a minha namorada, ou sei que estou a ver amarelo, isso é absolutamente certo se me estiver a referir apenas ao que sinto interiormente, sem me pronunciar sobre o que de facto existe fora de mim.
Na realidade, se eu me estivesse a pronunciar sobre o que existe fora de mim, estaria errado ao dizer que estava a olhar para algo amarelo, uma vez que o monitor não consegue emitir luz com essa cor (frequência).
O mesmo se aplica ao Benfica, se o que quero dizer é que eu acho que ele é o melhor clube do mundo, ou seja, que ele é o melhor clube do mundo para mim, bem, então essa verdade só depende de mim.
O grande problema surge quando queremos dizer o que as coisas são realmente, fora de nós. Aí é que, usando uma linguagem técnica "a porca torce o rabo", ou, numa linguagem menos técnica, entramos no terreno da Ontologia. Ou seja, a ciência dos "entes", dos seres, do que existe fora de nós.
Por exemplo, quando digo que sei que vou morrer, não é inteiramente claro que esteja a falar de algo que eu sei com certeza absoluta. Porque, no sentido de morte, do nada, nunca me aconteceu e nunca me poderá vir a acontecer.
Porquê? Bem, há duas hipóteses, ou há vida depois da morte ou todas as religiões estão erradas e não há. Se houver vida depois da morte então a morte é apenas uma ilusão. Porque na realidade eu estou apenas a acordar para outra vida.
Se não houver vida depois da morte, e a morte for apenas o nada, então eu nunca posso experimentar a morte "pois quando ela vier eu já lá não vou estar". Ou seja, eu desapareço antes de a poder sentir. Neste sentido, de morte como nada, ela é algo que eu nunca poderei experienciar, saborear, sentir. A morte nunca poderá fazer parte de uma experiência minha. Pois, quando ela vier eu já lá não vou estar para a ver. Neste sentido nenhuma pessoa pode morrer (isto é, vivenciar a morte). Só o seu corpo, a sua parte física, pode experimentar a morte, decompondo-se, servindo de fertilizante, etc. Mas a sua parte viva nunca se encontrará com o nada. Quando estiver uma não está a outra.
Por outras palavras, só podemos experimentar a morte dos outros. Por analogia dizemos que, se toda a gente morre, eu também vou morrer. É um conhecimento extremamente provável e plausível, sem dúvida, mas não existe sobre ele o mesmo grau de certeza absoluta do que: estou a ver amarelo.
Certo, certo, certo: só aquilo que sinto na primeira pessoa, ou seja "eu vejo, eu sinto, eu acredito, etc". Pode ser absolutamente certo para mim que eu acredito que vou morrer, que acredito que o benfica é o melhor clube do mundo, que vejo amarelo à minha frente, que amo a minha namorada, mas isso não significa que, na realidade, alguma dessas coisas se passe. Talvez esteja a olhar para um monitor que de facto me está a mostrar vermelho e verde, talvez eu não ame de facto a minha namorada mas as imagens que fiz dela, talvez o Benfica não seja realmente o melhor clube do mundo (e o que quer dizer "melhor" neste contexto?), talvez a morte não seja o fim, etc. Todas estas possibilidades são concebíveis! Como dizer que são falsas?
Em conclusão: é fácil ter certezas absolutas no que diz respeito ao que sentimos no momento presente (estar a ver amarelo), mas já não tão certo que haja coisas amarelas fora de mim. O que sinto pode não corresponder ao que existe fora de mim. Entre a minha visão da realidade e a própria realidade, pode haver uma diferença. Como posso saber então, a partir do que vejo da realidade, o que ela é em si mesma?