Karl Popper, um filósofo vienense do início do século XX, estudou a fundo o problema da indução de David Hume e concluiu, tal como Hume, que não podíamos saber com certeza absoluta que o futuro iria ser igual ao passado.
Popper distinguiu-se do chamado "Círculo de Viena" (a maior parte dos seus colegas filósofos) porque estes achavam que à medida que íamos observando um certo acontecimento a repetir-se (por exemplo o sol a nascer), iria aumentando a probabilidade de ele nascer amanhã. Tal como se observássemos que uma moeda dava sempre cara ao fim de dez mil vezes, poderíamos pensar que era muito mais provável dar cara da próxima vez (talvez estivesse viciada, podia ter duas caras por exemplo).
Popper, pelo contrário, pensava que aquilo que dava interesse às teorias era a sua improbabilidade. Ou seja, quanto mais provável fosse uma teoria menos interessante seria.
Por exemplo, suponhamos que alguém me diz que no próximo euromilhões sairão números. Assumindo que não acontece nada de estranho no próximo euromilhões (por exemplo sairem letras ou desenhos de lontras) esta teoria tem um grau de probabilidade 1, ou seja, é certo que isso irá acontecer. Mas ela não me diz nada de novo sobre o mundo pois faz parte da descrição do concurso do euromilhões que todas as semanas saem números. Esta teoria não pode ser falsificada. Ou seja, nada pode acontecer num euromilhões normal que possa contradizer a teoria pois ela não proíbe nenhum número de sair.
Da mesma forma se eu disser: hoje vai ser um dia bom para fazer amigos (uma frase possível de certos conselhos astrológicos), o que é que pode acontecer que demonstre que a teoria é errada? As frases são tão vagas que, aparentemente, pode acontecer qualquer coisa no meu dia pois tudo é permitido pela teoria. Ou seja, trata-se de uma teoria que também não é falsificável.
Agora, se eu disser que no próximo euromilhões não vai sair o número 1, nesse caso já se trata de uma teoria falsificável. Mas é uma teoria extremamente provável, e por isso, não muito interessante. Certamente que, mesmo que a teoria seja verdadeira, não me vai ajudar muito a ganhar o euromilhões. Uma teoria que dissesse que só sairiam números pares, ou que sairia o número 1, já seria mais útil e seria cada vez mais improvável de estar certa. Uma teoria que me dissesse exactamente quais os números que iriam sair no próximo euromilhões seria extraordinariamente improvável, por isso, caso estivesse correcta, seria extremamente útil.
Da mesma forma se alguém me dissesse: amanhã às 11:51 vais encontrar uma nota de 500€ no Marquês de Pombal, isso seria extremamente útil e provavelmente levar-me-ia a tentar estar nesse sítio àquela hora!
Em geral portanto, quanto mais precisas são as teorias mais acontecimentos proíbem e, precisamente nesse sentido, são mais improváveis que as outras.
A ideia de Popper é que aquilo que separa a ciência de outras formas de investigação, ou seja, aquilo que permitiu à ciência evoluir tanto nos últimos séculos, é precisamente a vontade de encontrar teorias muito facilmente falsificáveis. Por outro lado, outros tipos de investigação, como a psicanálise ou a astrologia, contentam-se com teorias muito prováveis e difíceis de falsificar. Ou seja teorias do tipo: há uma tendência para te acontecer uma coisa má um dia destes, ou os teus problemas são devido a uma repressão de que nem tu próprio te apercebes. Estas teorias são infalsificáveis pois não há nenhum acontecimento que possa mostrar que elas são falsas.
Aparentemente pode parecer que uma teoria que não se pode mostrar falsa até é boa. Mas na realidade ela não é interessante pois não nos diz nada (ou muito pouco) sobre o mundo. Mas a teoria de Newton, por exemplo, que descreve o movimento dos planetas com um rigor muito grande, pode facilmente ser demonstrada como falsa caso um planeta se afaste da sua órbita por menos de 0,1 por cento. Quase todas as teorias científicas são assim, proibindo valores e acontecimentos com uma margem de erro muitas vezes inferiores a 0,00000001 por cento. Apesar de essas teorias serem facilmente falsificáveis são muito úteis, segundo Popper e é a sua busca que caracteriza a ciência.