Bem, na filosofia, ao contrário da ciência, acontece aquilo que, linguagem técnica, chamamos uma "salganhada de opiniões". Um pensa isto, o outro aquilo, ainda outro difere dos outros dois, etc. Há uma infinidade de opiniões, interpretações, discussões, perspectivas, etc. Por isso, para não perdermos o fio à meada, vamos tentar distinguir bem aquilo com que todos concordam.
Aquilo que todos concordam:
Há vários níveis de certeza, por exemplo, eu acredito que a moeda que tenho no bolso não é falsa, mas se a vida de um amigo meu dependesse disso provavelmente tentaria ir a um banco para ter a certeza. Também posso ter uma grande confiança em que o autocarro amanhã vai chegar a horas à paragem, mas se for apanhar o avião vou tentar estar mais cedo na paragem, porque o autocarro pode passar mais cedo.
Depois há aquelas coisas que quase ninguém sabe mas que muitos afirmam com convicção. Já alguém viu um árbitro a declarar com toda a convicção um fora de jogo que não o era? Já alguém viu um cidadão a condenar um político ou a defender outro sem qualquer prova da inocência ou culpabilidade de quem defende ou acusa? Afinal o Carlos Cruz é culpado ou vítima?
O facto de não sabermos nada sobre um assunto não nos impede de nos pronunciarmos sobre ele, até de matarmos ou de morrermos por ele. Por exemplo, algumas pessoas acham que fazermos caricaturas de Maomé é suficiente para a pena de morte! Isto apesar de Deus, provavelmente, nunca lhes ter dito tal coisa pessoalmente!! Mas nós podemos acreditar em tantas coisas...
Aqui estão algumas coisas em que as pessoas de facto acreditam:
Que os homens não foram à lua (foi tudo uma encenação)
Que a terra é plana (e não uma esfera achatada)
Que as galáxias não existem
Que não descendemos dos mamíferos
Que o nosso planeta tem menos de dez mil anos
Que a mulher foi feita a partir da costela do Adão
Que bater com a cabeça no muro das lamentações pode ser um sinal de virtude
Que um gato preto pode dar azar
Nas previsões astrológicas dos jornais
etc, etc, etc...
Aliás, o poder das crenças é tão forte que, segundo um estudo feito por antropólogos em algumas tribos "primitivas" o simples facto de um feiticeiro lançar um mau olhado a um membro da tribo fazia com que a pessoa morresse alguns dias depois. Trata-se, para os antropólogos, do poder da crença. Ou seja, se uma pessoa acreditar que vai morrer, pode mesmo acabar por morrer.
Até agora chegámos a duas conclusões importantes:
Há muito mais coisas em que se pode acreditar do que coisas que se podem saber com certeza
Aquilo em que acreditamos tem uma influência enorme na nossa vida
Pronto, isto tudo é consensual. Agora o que não é consensual é até que ponto devemos ou não confiar em coisas que não são certas. A nossa vida prática parece impossível se não acreditarmos pelo menos em algumas coisas (por exemplo, que vou estar vivo amanhã para vos dizer: está este texto na net, que estive a escrever ontem, para vos ajudar para o teste). Se eu estivesse sempre a pensar que amanhã já teria ido "desta para melhor" certamente que não estaria para aqui a escrever estas baboseiras.
O problema é que há coisas que são muito mais prováveis que outras. Por exemplo, quando lançamos uma moeda ao ar é extremamente improvável que ela aterre em equilíbrio no lado mais fino. É muito mais provável que assente sobre a "cara" ou "coroa". Da mesma forma, já estou vivo, faz hoje 13762 dias (a acreditar neste site), seria muito improvável que logo o 13763 fosse o último!
Em geral acreditamos em coisas:
Que nos dizem e ninguém desmente (tens de trabalhar para viver)
Que nos dizem e não nos damos ao trabalho de investigar (sexta-feira treze é dia de azar)
Que nos parecem plausíveis (uma vida humana tem mais valor do que a vida de um elefante)
Que são convenientes (faço tudo bem, o mal são os outros)
Que são agradáveis (é possível ganhar o euromilhões)
Que são prováveis (é mais provável ser atropelado três vezes seguidas e ficar vivo do que ganhar o euromilhões)
Que investigámos (que coisas é que investigaste a sério?)
Ora bem o problema é relativamente a esta última parcela. As coisas que investigámos!!
Investigar dá um bocado de trabalho. Implica imaginar alternativas. Implica pesar os prós e contras de cada uma das alternativas para muitas vezes se chegar à conclusão de que não se tem bem a certeza.
Afinal, tanto trabalho para quê? Se funciona! Quer dizer, se aquilo em que eu acredito funciona, se tenho amigos, se sou (relativamente) feliz, se vou sendo bem sucedido, isso deve querer dizer que o conjunto das minhas crenças deve ser correcto. Para quê estar a mudar uma equipa (de crenças) que funciona? Numa equipa que funciona não se mexe e por isso, estas coisas da epistemologia parecem não ser para mim.
Este é o pensamento da maior parte das pessoas. Em grande parte é o nosso pensamento. Por exemplo em Portugal antigamente havia a ideia de que a mulher era tanto mais pura quanto mais parecida fosse com a Nossa Senhora. Hoje em dia talvez seja mais a Fergie ou a Angelina Jolie, mas a ideia é a mesma. Uma miúda que se tente parecer com a imagem perfeita da sua comunidade vai ser muito bem vista. E, se funciona, porquê questionar?
A verdade, infelizmente para o nosso futuro como espécie, é muito inconveniente do ponto de vista social. É muito mais fácil milhares ou milhões de pessoas pensarem a mesma coisa, mesmo que seja algo muito estúpido, porque, nesse caso, vão todos na mesma direcção. Ninguém se atropela. Agora, quando começamos a questionar, percebemos que a verdade não é assim tão simples, cada um chega às suas próprias conclusões, cada um pensa pela sua própria cabeça, é uma confusão!
Deste ponto de vista, a filosofia, a verdadeira filosofia, ou seja, a verdadeira procura pelo saber, pela verdade, pelo fim das ilusões, tem uma utilidade muito discutível em sociedades com milhões (por vezes centenas ou milhares de milhões de indivíduos) que devem todos, para viver em conjunto, cingir-se pelas mesmas normas e valores.
Felizmente para a construção de grandes aglomerados populacionais, a humanidade em geral é profundamente avessa à investigação filosófica e por mais que se fale do poder libertador do pensar por si próprio e do papel que a dúvida e a investigação têm para esse voo, para essa descoberta da individualidade, da liberdade, da criatividade, por mais que se fale nisso, a maior parte das pessoas continuará a contentar-se com seguir as modas.
Podemos falar portanto com todo o à vontade, sabendo de antemão que, por mais que possamos expor o carácter mecanizante da crença, por mais que mostremos o quanto acreditar no que não se sabe nos transforma em máquinas inconscientes, fugindo do medo e procurando para sempre o inalcançável prazer, poucos ouvidos estarão realmente dispostos a deixar que a informação passe ao cérebro, pois é para o corpo muito mais confortável continuar a vida de vícios e prazeres superficiais que a vida oferece a quem não pensa por si.
Mas não será todo este texto apenas mais uma tentativa de encontrar seguidores? Afinal onde está a verdade? O que é que podemos considerar absolutamente certo? Em que é que podemos confiar?