Se alguém nos perguntasse como é a vida, provavelmente diríamos: há autocarros, aulas para ir, bolos para comer, de vez em quando temos de ir à casa de banho, podemos ver televisão, jogar jogos, conhecer pessoas, etc... essa é uma descrição correcta da nossa vida e da dos nossos amigos mais próximos. No entanto, se alguém se pusesse a investigar como é a vida, não nesta ínfima parte do universo, mas em geral, ficaria com uma imagem bem diferente. Afinal no mundo em que vivemos (o universo) o ouro é mais abundante que a água e os excrementos de vaca um dos componentes mais raros da galáxia. Por todo o lado há milhares de milhões de estrelas e ainda mais planetas, com atmosferas, vulcões, temperaturas extremas... Esse é que é o verdadeiro aspecto do mundo em que vivemos. Podemos nunca o vir a imaginar na nossa vida, podemos ficar para sempre presos ao dinheiro, trabalho, ligações afectivas... mas nem por isso o resto do mundo deixará de existir e de desempenhar o seu papel. Afinal, se estamos aqui hoje, se almoçámos e vamos jantar, é porque pelo menos uma estrela há milhares de milhões de anos atrás "cozinhou" no seu núcleo os materiais que agora nos compõem...
Esta imagem de um universo extremamente vasto e complexo, foi aquilo que a humanidade descobriu quando se pôs a investigar o mundo.
Mas devemos acreditar nessa imagem, agora que nem sabemos se o mundo existe independentemente de nós? Não terão as dúvidas de Descartes mostrado que tudo é incerto?
Bem, na realidade depende do grau de certeza que temos. Se perguntarmos a alguém: já almoçaste? A pessoa responde. Na maior parte dos casos não temos a certeza absoluta se ela nos está a dar a resposta certa. Mas a maior parte da nossa vida é feita de conhecimentos que são apenas muito prováveis. Ou seja, não são absolutamente certos mas são quase certos ou praticamente certos, ou seja, certos para todos os efeito práticos.
Num mundo onde tudo é incerto (excepto a existência de um eu pensante) continua a fazer sentido distinguir entre boas e más hipóteses ou especulações.
Por exemplo a hipótese ou especulação de que o mundo não existe é boa ou má?
Que razões temos a favor dessa especulação? Podemos por exemplo dobrar colheres com o poder da mente? Já acordámos desta vida para podermos dizer que é possível acordar dela para outra realidade? Reparem que mesmo nos filmes onde essa hipótese é aceite existe uma razão qualquer: por exemplo, no filme Matrix, é possível fazer coisas impossíveis como voar, desviar-se de balas e, sobretudo, desaparecer através de um telefone com fio. No filme "Total Recall" tudo acontece como era previsto na simulação. No filme "Vanilla Sky" o Tom Cruise acorda do sonho. Enfim... pelo contrário, na nossa vida real quem é que tem razões para pensar que a realidade é um sonho?
Reparem que não se trata de provas irrefutáveis. Trata-se de um conhecimento provável ou plausível. Será plausível ou provável que tudo seja um sonho?
Vemos que as pessoas que acham isso (alguns casos de esquizofrenia e paranoia) nem sequer conseguem funcionar no mundo real. Vamos supor que acredito nessa ideia, de que o mundo é um sonho. E me é dito que tenho um tumor que tem de ser operado senão morro em pouco tempo. Ora, se acreditar que a vida é uma mera ilusão posso muito bem pensar: "basta mentalizar-me que vou ficar bem e não preciso de nenhuma intervenção médica".
Como acham que se safaria uma pessoa que lidasse com o mundo desta maneira? Não preciso de pagar as contas, de preparar o futuro, de me esforçar para nada, pois tudo é um sonho e nada vale a pena?
Pois, provavelmente iria parar a um hospital psiquiátrico!
A tese de que o mundo é um sonho, como o Descartes disse, não pode ser posta em prática. Não funciona. Mas mesmo isso não basta para nos mostrar que ela é falsa. Mas é suficiente para nos mostrar que não é funcional.
Agora imaginemos que o mundo de facto é real. Afinal há duas hipóteses: ou o mundo é ou não é real. Vamos imaginar agora que o mundo é, mesmo, real.
A primeira coisa espantosa acerca do mundo é o seu tamanho. O mundo é absolutamente gigantesco e a terra com todos os seus Oceanos, montanhas, florestas, desertos, etc, é menos que um grão de poeira na nossa Galáxia. E a nossa Galáxia é um mero grão de poeira no resto do universo que podemos ver (porque pode até não ter fim). Aliás, o universo é tão gigantesco, tanto no espaço como no tempo e na diversidade que, provavelmente, qualquer coisa que possamos imaginar e seja possível existe, existiu ou existirá algures.
A segunda coisa espantosa acerca do mundo é a sua complexidade. O nosso corpo é feito por milhares de milhares de milhões de células, cada uma feita por milhares de milhões de átomos. E tudo isto funciona impecavelmente bem. Em cada segundo acontecem triliões de coisas no nosso corpo, incluindo no cérebro, o que nos permite pensar, sentir, etc.
O mundo é tão grande e tão complexo que nunca ninguém tinha conseguido imaginar uma história tão fantástica. O Budismo aproximou-se, mas mesmo o Budismo foi incapaz de imaginar coisas como buracos negros (onde a matéria se encontra num ponto infinitamente pequeno) ou viagens no tempo e objectos que viajam para o passado para dar origem a si próprios e coisas que existem e não existem em simultâneo (física quântica - gato de Schrödinger).
Tal como a matemática descobriu números irracionais, transcendentais e imaginários, também a física descobriu que o mundo é muito mais estranho do que tínhamos imaginado.
Conclusão:
O mundo é um local misterioso e só parece simples e rotineiro porque andamos "com os olhos fechados". A próxima vez que pensarem na realidade que vos rodeia esqueçam as séries de tv, as rotinas, as crenças, olhem para qualquer coisa à vossa volta e pensem: se isto só existe na minha mente então tudo é muito estranho, mas se isto existe mesmo então veio do interior de uma estrela, é mais complexo do que eu alguma vez irei imaginar, e é parte de um universo maior do que consigo imaginar. Aí sim, estarão mais perto de compreender o que o mundo é, caso seja real.