Volta à página inicial
Entra uma mulher com uma criança (que é um rapazinho de sete anos).
CRIANÇA (apontando com o dedo o Infante) – Mãe, o Infante, o que é que ele está ali a fazer, sozinho, a olhar para o mar?
MULHER – Está a ver.
CRIANÇA – Mas não se vê nada. É só mar.
MULHER – Ele vê melhor do que nós.
CRIANÇA – Ah? Eu pensava que ele não via. No outro dia encontrei-o no caminho e disse: «Bom dia, meu Senhor». Mas ele não me viu.
MULHER – Ele vê bem o que está longe.
(Enquanto acabam de falar entra um velho com barbas compridas e brancas.)
VELHO – Era melhor que visse o que está perto. Já todos murmuram e muitos já troçam. Há doze anos que o Infante D. Henrique manda os seus barcos em busca deste cabo. E já a gente do povo e os próprios nobres falam deste Infante com muito escárnio porque de todas as suas navegações, trabalhos, estudos e despesas nunca lhe virá senão desgraça sem nenhum proveito. Pois que há no mar? Distância, solidão, nevoeiro, abismos, temporais, sede, fome, naufrágios, morte. Em breve o Reino estará cheio de crianças órfãs e de mulheres viúvas. Do mar não vem nem glória nem proveito.
Sophia de Mello Breyner Andresen, O Bojador, Editorial Caminho