Volta à página inicial
O "Auto da Barca do Inferno" é um auto que nos mostra que, após a morte, vamos parar a um rio que havemos de atravessar. Faz parte da chamada Trilogia das Barcas, uma coletânea de peças de teatro do autor português Gil Vicente.
A Trilogia das Barcas
Esta obra maior do teatro português do século XVI divide-se em três partes consecutivas:
Auto da Barca do Inferno (1517) – A primeira parte, onde as almas são julgadas e encaminhadas para o Paraíso ou para o Inferno.
Auto da Barca do Purgatório (1518) – A segunda parte, focada num espaço de purificação.
Auto da Barca da Glória (1519) – A terceira e última parte da trilogia.
Gil Vicente inspirou-se na lenda de Caronte, da antiguidade clássica. Na mitologia grega, Caronte é o barqueiro do Hades, que carrega as almas dos recém-mortos sobre as águas dos rios Estige e Aqueronte, que dividiam o mundo dos vivos do mundo dos mortos. Uma moeda para pagá-lo pelo trajeto, geralmente um óbolo, era por vezes colocado dentro ou sobre a boca dos cadáveres, de acordo com a tradição funerária da Grécia Antiga.
Gil Vicente, neste auto, substituiu Caronte por dois barqueiros (Diabo e Anjo) e o destino final (Infernos) pelo Inferno ou Paraíso.
Ao criticar os costumes, hábitos e vícios da sociedade, Gil Vicente queria transmitir uma moral a toda a sociedade; pretendia que todos, ao verem a peça, se rissem, mas, em simultâneo, criticava os '' podres '' da sociedade daquele tempo.
Estrutura
O auto não tem uma estrutura definida, não estando dividido em atos ou cenas, por isso, para facilitar a sua leitura, divide-se o auto em cenas à maneira clássica, de cada vez que entra uma nova personagem.
Personagens
As personagens desta obra são divididas em dois grupos: as personagens alegóricas e as personagens–tipo.
No primeiro grupo, inserem-se o Anjo e o Diabo, representando respetivamente o Bem e o Mal, o Céu e o Inferno. Ao longo de toda a obra estas personagens são como que os «juízes» do julgamento das almas, tendo em conta os seus pecados e vida terrena.
No segundo grupo, inserem-se todas as restantes personagens do Auto, nomeadamente o Fidalgo, o Onzeneiro, o Sapateiro, o Parvo (Joane), o Frade, a Alcoviteira, o Judeu, o Corregedor e o Procurador e os Quatro Cavaleiros.
Fazendo uma análise das personagens, cada uma representa uma classe social, ou uma determinada profissão ou mesmo um credo. À medida que estas personagens vão surgindo, vemos que todas trazem elementos simbólicos, que representam a sua vida terrena e demonstram que não têm qualquer arrependimento dos seus pecados.
Humor
Surgem ao longo do auto três tipos de cómico: o de carácter, o de situação e o de linguagem.
O cómico de carácter prende-se com a maneira de ser de uma personagem (personalidade, comportamento, apresentação ou temperamento).
O cómico de situação resulta da situação ridícula criada pela própria personagem face ao que se está a passar em palco.
Por fim, o cómico de linguagem tem que ver como o modo como as personagens se expressam (calão, latim macarrónico, interjeições ou ironia), provocando o riso.
Argumento
Este auto considerado por Gil Vicente como sendo um auto de moralidade (peça de carácter didático-moral onde as personagens encarnam vícios ou virtudes com o objetivo de moralizar a sociedade) inicia com uma dedicatória à Rainha D. Leonor (presença do mecenatismo), recorrendo a captatio benevolentiae (Expressão da retórica latina que significa literalmente “conquista da benevolência”, muito difundida em todas as literaturas , quando um escritor quer ganhar a simpatia de alguém, interpelando-o no sentido de receber louvor e solidariedade para a causa que está a ser defendida).
Feito o elogio à Rainha, Gil Vicente apresenta o argumento da peça: quando morremos (“no ponto que acabamos de espirar”), as nossas almas dirigem-se a um rio, que tem de ser atravessado para atingirmos o nosso destino final (Inferno ou Paraíso). No cais, para atravessar o rio, encontram-se dois barcos com os respetivos barqueiros, um deles passa para o paraíso e o outro para o inferno.
O primeiro a chegar é um fidalgo, a seguir: um onzeneiro, um parvo, um sapateiro, um frade, uma alcoviteira, um judeu, um juiz, um procurador, um enforcado e quatro cavaleiros.
O seu percurso em cena é praticamente idêntico em quase todas as personagens. Um a um dirigem-se à barca do Diabo, carregando com eles os seus pecados (símbolos cénicos). Perguntam para onde vai a barca, mas ao saberem que vai para o inferno, ficam apavorados e dizem-se dignos do Céu. Aproximam-se, então, do Anjo, que os condena ao inferno pelos seus pecados.
O Fidalgo, o Onzeneiro, o Sapateiro, o Frade (e a sua amante), a Alcoviteira (Brísida Vaz), o Judeu, o Corregedor (juiz), o Procurador e o Enforcado são todos condenados ao inferno pelos seus pecados. Apenas o Parvo é absolvido pelo Anjo. Os Cavaleiros nem sequer são acusados, pois deram a vida a lutar pela Igreja.
Precisas de uma ajuda para compreenderes/reveres esta obra de Gil Vicente? Podes consultar este resumo.
Este quadro, contém um resumo do "Auto da Barca do Inferno", retirado do manual Paratextos 9, da Porto Editora. Aqui podes recordar as personagens, a classe social a que pertencem, o(s) símbolo(s) cénico(s) e o(s) significado(s) do(s) mesmo(s), o percurso cénico, a sentença, os argumentos de acusação e de defesa, as características e os comportamentos das personagens, a crítica social (aspetos criticados) e os tipos de cómico.
A linguagem do "Auto da Barca do Inferno" (1517), de Gil Vicente, caracteriza-se pelo uso do português quinhentista. Por essa razão, há palavras ou expressões que provavelmente desconheces. Este glossário vai ajudar-te.
Já conheces esta animação/audiolivro do "Auto da Barca do Inferno"? Diverte-te a vê-la e a ouvi-la. Também podes vê-la no Youtube.
Faz estas atividades sobre o "Auto da barca do Inferno", de Gil Vicente:
Exercícios sobre o "Auto da barca do Inferno"