Karlla Girotto

dormência

Experiência do agora. A gente sabe. E é porque somos habitadas por um corpo anterior ao corpo-vida-agora e ele é o que sabe. Ele come inhame e se lambuza, o corpo que come e desinflama, expurga, expulsa o pus que o corpo-vida-agora produz.

Nós, o corpo-inhame, reivindicamos as palavras e a nossa baba é pura matéria mole mastigável em nossa boca e língua. Palavras atravessam nossa carne e regurgitam massas fermentadas em expansão de organismos vivos. Pedaços inteiros de vida caem de nossas entranhas e fazem seus caminhos na terra. Cuspimos longe e cuspimos perto, traçamos rotas e caminhos. Cuspimos na terra as nossas inflamações e ela nos devolve plantas imensas com seus sumos roxos, vermelhos, pretos escorrendo por cima dos nossos corpos. O corpo-inhame e o corpo-pus. A-gente agora somos muitas, a-gente somos plantas e juntas, nos curamos;

Reivindicamos viver por nós mesmas, viver e continuar, que parem de nos matar! Cuspimos organismos vivos fermentados na cara de quem mata. Reivindicamos habitar os ocos e as covas e buracos, estar perto das velhas donas dos mundos, as que sabem usar o fogo e os ventos – reivindicamos habitar todos o mundos.

A ação consistiu em plantar inhames e cúrcumas em algumas praças e canteiros do Jd. Europa/São Paulo.

1. Este é o bairro que foi construído no final da década de 20 do séc. XX e destinado à classe dominante paulistana – o que se mantém até os dias atuais. Nele, moram ou possuem propriedades, políticos, ruralistas, empresários, corpos diplomáticos, celebridades. Com enorme concentração de riqueza e ruas despovoadas, atualiza com perfeição o conceito de regime colonial capitalístico racializante e classista* que rasga o tecido social brasileiro. Todas as ruas foram batizados com nomes de países ou capitais européias.

2. O inhame é bastante conhecido como um dos alimentos com maior concentração de ativos depurativos, com propriedades desintoxicantes, analgésicas, anti-inflamatórias, entre muitas outras. A cúrcuma é um alimento riquíssimo e praticamente sagrado para os adeptos da ayurveda (medicina ancestral indiana), tem variados usos medicinais atuando principalmente em tecidos inflamados.

3. Entre os agricultores, costuma-se dizer que os tubérculos “dormem” no inverno (de maio a agosto) e começam a brotar a partir de setembro, sendo outubro e novembro os meses de seu auge. O plantio destes tubérculos em agosto traz a informação de que estarão dormindo pelos próximos meses mas isso significa também que enquanto dormem, eles multiplicam em 20 mil vezes a sua potência de criação (nutrientes e substâncias) porque precisarão desta força para perfurar a terra e brotar.

4. No começo de março/abril, quando as pessoas puderam se dedicar ao confinamento, foi muito impactante saber que a terra mudou a vibração sísmica, os ruídos na crosta terrestre diminuíram. Um amigo comentou: “imagina se todas as pessoas do planeta pudessem pisar com os pés descalços na terra ao mesmo tempo, um acontecimento surgiria, uma vibração outra.”

5. Eu penso na cura como algo molecular, sutil – um espaço interseccional e micropoliticamente produtivo –, um tipo de ensinamento que se instaura e reorganiza aquilo que estava doente, a anomalia. Não é um apaziguamento nem um fechamento, é sustentar uma vibração até que uma irresolução possa se tornar um acontecimento de outra ordem, da ordem da vida.

*termo usado por Suely Rolnik em diversos de seus escritos