FOTOS CRÔNICAS e CONTOS POESIAS BIOGRAFIA
Nas férias escolares de julho de 2002, aproveitando duas semanas de descanso,
fui visitar minha mãe que mora numa grande cidade no interior paulista, depois
de quilômetros de carro já estava abraçando a mulher mais querida da minha vida.
Fiquei muito feliz por encontrá-la saudável, mesmo com 83 anos de uma vida
exemplar. O dia passou voando e quando percebemos já era noite, cansada da
viagem fui dormir.
Certas horas da noite, acordei ouvindo um barulho estranho, ergui minha cabeça
do travesseiro para ouvir melhor. O som era assim cocoricó, levantei-me assustada
e segui em direção do barulho, percebi então que o som vinha da direção do
apartamento da vizinha, aproximei-me da parede e ouvi novamente cocoricó,
incrédula pensei: é uma galinha?!!! Mas como poderia ter uma galinha viva dentro
do apartamento da vizinha? Encabulada não consegui mais dormir, esperei todos
da minha família levantarem para tomarmos o café da manhã, foi quando minha
mãe que notou o cansaço em meu rosto perguntou:
– Filha o que há com você, parece que não dormiu bem?
Respondi-lhe abatida:
– Dormi sim mãe, estou bem.
Disfarçando as olheiras escuras, resolvi contar tudo para minha mãe:
– Mãe senta aqui nesta cadeira e me ouve por favor, a senhora conhece a vizinha
do apartamento ao lado?
– Claro que sim, minha filha, por quê?
– Então mãe me conta tudo, ela é casada, solteira, mora sozinha ou com amigos?
– Por que tanto interesse filha. Até parece estar preocupada com alguma coisa,
acalme-se e tente explicar-me melhor?
Respirei fundo e comecei a contar do barulho da noite passada, o qual não me deixou
dormir, contei que havia ouvido uma galinha cacarejando no apartamento da
vizinha, este era o motivo de não ter dormido bem, minha mãe sorriu e falou-me:
– Você deve ter sonhado minha filha, como era esse barulho?
Respondi-lhe rápido:
– Era mais ou menos assim, cocoricó, cocoricó, ou seja, uma galinha viva!!!
Dava também a impressão que suas unhas afiadas riscavam um tecido fino esticado,
lembrando-me um lençol de seda ou cetim. Juntos estes sons de deslizar de unhas
e o cocoricoooooó...
– Filha, você deve estar equivocada porque a vizinha do apartamento ao lado é uma
senhora viúva, tem três filhas moças, e que trabalham muito, quase não as vejo. São
muito bonitas, andam bem vestidas, muito elegantes, ouço sempre comentários dos
outros moradores de que elas são moças de sorte, são muito bem remuneradas. Dá
pra ver pelos carros que elas possuem. Você sabe minha filha, nos condomínios há
muitas fofocas...
Enquanto minha mãe falava, eu me via criança, lendo uns livros infantis e o que mais
gostei de ler foi o conto “As galinhas dos ovos de ouro”. Acreditava que um dia iria
encontrar uma galinha dessas e ficaria rica com seus ovos de ouro. Hoje, adulta,
estou acreditando mais ainda. Se no apartamento vizinho da minha mãe, em área
nobre, no quinto andar de edifício residencial, existe uma galinha viva como
moradora; e que desfruta as regalias e luxo das pessoas mais privilegiadas. E olha
que são tão poucas diante da pobreza de uma grande parte da população brasileira.
Com certeza, acreditava, esta galinha deve ser descendente da galinha dos ovos de
ouro da história infantil. Tudo isso me interrogava quando minha mãe notou meus
olhos dispersos pensando longe e murmurou:
– Pronto! quando ela está assim, o melhor é deixá-la sozinha, com certeza está
percorrendo o caminho da ficção, suas fantasias e sonhos. Vou esperar ela voltar
para nossa realidade.
Acariciou meus cabelos carinhosamente e então disse-me:
– Querida filha, vê se não demora muito nesse mundo de sonhos, afinal você veio
me visitar, ou não?!
Diante do meu silêncio ela levantou-se e saiu . Eu fiquei bolando um plano para
chegar perto das possíveis donas da galinha. Observei os raios do sol refletirem nos
vidros da vidraça da janela da sala e olhei na direção do play-ground e vi a piscina
cheia de pessoas, muitas mulheres deitadas se bronzeando. Raciocinei rápido, em
poucos segundos já estava de maiô, tirei de dentro da mala um livro que havia levado
para lê-lo “ Tuiuiú Brother”, de José Pedro Frazão, desci rápido as escadarias, o
elevador só usava para subir, na altura do segundo andar o cansaço diminuiu meus
passos e mais calma cheguei até a piscina. Procurei um lugar mais conveniente
para o meu objetivo, coloquei os óculos de sol, abri o livro fingindo estar lendo,
afinal estava ali não como banhista e sim como detetive procurando mulheres
bonitas e elegantes. Dez minutos após, todos os espaços ocupados, pensei – elas
estão aqui... Levantei-me e segui em direção à ducha para refrescar-me, molhei-me
bastante, na volta desconfiei de três moças se bronzeando que encaixavam
perfeitamente nas descrições que eu procurava. Fui em direção das fulanas, espaço
estreito, pedindo licença, até que cheguei ao lugar das possíveis criaturas e sem
querer, querendo, tropecei no pé de uma delas e espalhei pingos de água dos
meus cabelos molhados. Aflita parei pedindo perdão e uma delas muito gentil
respondeu-me:
– Não foi nada, fique tranqüila!!!
Acho que fui uma boa atriz, até começaram a conversar comigo, era tudo o que
eu queria, a mais novinha delas perguntou-me:
– Você é moradora nova? Nunca a vimos por aqui antes!
– Não, eu sou de Campo Grande, MS, estou visitando minha mãe, ela que mora
aqui, infelizmente estou voltando amanhã, o trabalho me espera.
A moça com cabelo curtinho perguntou-me:
– Campo Grande, MS, fica pertinho do Pantanal, deve haver muitas aves bonitas
mesmo neste Estado, das inúmeras aves exóticas, você tem preferência por uma
em especial?
– Sim, gosto muito das garças brancas, são aves serenas, voam em bandos, elas
me passam muita paz.
De repente começou a chover forte, em segundos esvaziou o local, inclusive as
moças. Eu as perdi de vista e só me restou ir também embora. Já no apartamento,
minha mãe disse:
– Filha tome seu banho, arrume suas malas, com calma, abasteça e verifique os
pneus de seu carro, faça isso tudo hoje à tarde para você ir dormir cedo esta noite.
Amanhã, minha querida, deve estar bem descansada para dirigir com atenção, estas
rodovias são muito perigosas.
Obedeci minha mãe, dormi a noite toda, acordei cedinho, tomei um delicioso café,
juntei as bagagens e fui levando para o carro, acomodei tudo, OK. Abracei minha mãe
pedindo sua bênção, ligue a chave no contato e saí, um tanto tristonha pela despedida,
quando havia andado uns quarteirões notei um papel preso no pára-brisas do carro,
atrapalhando minha visão, tirei o papel e guardei-o no porta-luvas. Segui viagem até
Campo Grande.
Finalmente em casa comecei a tirar as bagagens do carro, tira isso, tira aquilo, uma
bagunça. Abri o porta-luvas, achei um papel e lembrei-me do papel que havia tirado
do limpador de pára-brisas quando acabara de sair do condomínio de minha mãe.
Observei e descobri, era um bilhete, onde se lia: “Boa viagem Garça Branca do
Pantanal, espero não vê-la tão cedo, não sabia que as garças brancas sacudiam guizo
em sua calda, nem que tinham veneno em seu bico. Assinado: Cocoricó”.
Transtornada reclamei, não é possível!!! Uma galinha alfabetizada, ainda mais
prepotente e mal educada, não vou deixar isso assim. Voltarei nas próximas férias e vou
pegar essa galinha, depená-la, pena por pena, deixá-la pelada, esquartejá-la e farei uma
canja, apimentada, do jeito que eu gosto. Vou saboreá-la lentamente, gole por gole,
para sentir seu sabor, deve ser diferentes das outras galinhas comuns que compro em
supermercado.
Deus queira que seu veneno não seja tão cruel quanto os das garças brancas do Pantanal...
Deus queira!!!
DOLORES GUIMARÃES
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