Árabe e Hebraico Esboço Comparativo

Árabe e Hebraico

Um esboço comparativo

Última atualização 2 de agosto de 2000

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Essa gramática é mais uma tentativa minha de aprender essas línguas do que de explicá-las. É a única gramática comparativa dessas duas línguas que eu vi na minha vida - não há nada parecido na Web, e, embora haja livros se semitística, nunca os li. Acho que contribuirei para a compreensão de que judeus e muçulmanos são irmãos próximos (se bem que nem todo judeu fala hebraico e nem todo árabe é muçulmano).

1. Fonética e transliteração

Como é meio complicado escrever como os alfabetos árabe e hebraico no computador, usarei um sistema de transliteração simples mas exato. A parada glotal simples (;alef no hebraico e hamza no árabe) será indicada por um ponto-e-vírgula (;), a parada glotal grave (cayin/cayn) pela letra “c”. As consoantes laringais ou enfáticas, especialmente abundantes no árabe, serão indicadas por maiúscula, exceto, como é tradicional, pelo par enfático de [k], que será indicado pelo “q”. As vogais longas serão indicadas pelo acento agudo, e o sh’wa hebraico pela apóstrofe. É claro que, ao contrário do árabe que tem apenas três, o hebraico tem, ao menos na marcação vocálica escrita, mais de doze vogais. Aqui, contudo, serão resumidas em a, e, i, o, u.

Quando houver encontros como k+h, t+h, etc., o grupo será separado por um hífen (k-h; t-h). A pronúncia será indicada entre [colchetes].

A pronúncia do hebraico aqui indicada é a do hebraico em sua forma original, isto é, de antes de ter desaparecido como língua falada há uns dois mil anos. A pronúncia do hebraico moderno é bem mais simples: desapareceram as paradas glotais, os sons [th], [dh], [gh] se simplificaram para [t], [d] e [g], as consoantes enfáticas [q], [S], [H] e [T] transformaram-se em [k], [s], [kh] e [t]. O [w] equivale hoje a [v]. Essas transformações foram efetuadas já na época em que o hebraico era apenas língua litúrgica para que os judeus de diversos países pudessem aprendê-lo com mais facilidade.

A sílaba tônica em árabe é sempre a última a ter ou uma vogal longa seguida de consoante ou uma vogal qualquer seguida de duas consoantes. Em palavras que não preenchem essas condições, o acento cai na primeira sílaba. Em hebraico, tende a ser a última e, mais raramente, a penúltima.

2. Panorama geral das línguas semíticas

Como eu mencionei acima, ambas as línguas árabe e hebraica são línguas semíticas, apesar de o hebraico, juntamente com o aramaico, ser do sub-grupo ocidental e de o árabe pertencer ao grupo sudoeste. Mas as duas línguas tratadas apresentam claras similaridades entre si e vale a pena estudá-las paralelamente - eu espero, porque é o que eu estou fazendo. As línguas semíticas, juntamente com o egípcio, as línguas camíticas, berberes e cuxíticas (somaliano), formam a família de línguas Afro-Asiática. Línguas dos primórdios da civilização humana como o egípcio, o fenício e o acadiano (mas o sumeriano não) são línguas Afro-Asiáticas, portanto relacionadas com o árabe e o hebraico.

O hebraico em si começou a ser falado há mais de três mil anos, antes de os judeus serem monoteístas, mas os registros mais antigos datam de 900 a.C. Por volta da época de Jesus, o hebraico contudo já se encontrava em fase de extinção como língua falada, tendo sido substituído gradativamente pelo aramaico, e mantido apenas pelos poucos alfabetizados - principalmente como língua religiosa. A língua materna do judeu Jesus não era a mesma de seus antepassados bíblicos, como Moisés e Abraão, pois estes se comunicavam em hebraico e Jesus em aramaico. Toda a ação do Novo Testamento se desenrolou em aramaico, embora este tenha sido escrito em grego. Com a destruição de Jerusalém pelos romanos em 67 d.C., acaba de vez o uso falado da língua hebraica e o povo judeu inicia a “diáspora”, a migração para outras partes do mundo. E só voltariam definitivamente em 1948, com a fundação do Estado de Israel, data que também marca a volta do hebraico como língua viva não mais restrita à liturgia judia. Portanto, o hebraico é uma língua ressucitada. E ela legou muitas palavras às língua européias modernas, principalmente de origem bíblica. Palavras e nomes próprios como Maria, João, Jesus, José, Rafael, Gabriel, Miguel, Sara, Débora, sábado, páscoa, amém, aleluia, bálsamo, jubileu, querubim, éden, leviatã e muitas outras são hebraicas.

O hebraico tem quase cinco milhões de falantes, quase todos em Israel. Mas é conhecido como língua litúrgica por milhões de judeus espalhados pelo mundo e que usam outra língua no dia-a-dia.

O aramaico, língua dos antigos arameus, se espalhou pelo Oriente Médio há 3.000 anos, se tornando a língua boa parte dos povos de lá. Os arameus eram um povo de comerciantes da atual Jordânia que, contudo, conseguiram se estabelecer por todos os reinos da região. O aramaico se tornou então a língua franca do Império Assírio-Babilônico, por volta de 500 a.C. (a partir da dinastia Aquemênida). Essa língua desenvolveu um alfabeto próprio de 22 letras, derivado do fenício, e que foi a origem do alfabeto hebraico atual, também com 22 letras perfeitamente correspondentes. Esse aramaico tardio também é chamado de siríaco, assírio-aramaico ou, em suas variantes mesopotâmica, caldeu (em latim chaldaeus).

Os fenícios, que também falavam uma língua semítica, foram os inventores do alfabeto fonético. Dado à estrutura semítica de sua língua, escreviam apenas as consoantes e isso era suficiente. Os gregos pegaram esse alfabeto por volta de 900 a.C. e usaram algumas consoantes laringais, que em gregos seriam inúteis, para designar as vogais. O fenício, o aramaico e o hebraico eram bastante próximos um do outro e podem ser chamados de línguas semíticas canaanitas ou de noroeste.

Já a história do árabe é bem diferente. Os árabes eram na Antigüidade um povo politeísta tribal e atrasado do sul da península arábica. Nessa era, que os árabes chamam de aljahiliyya (a ignorância), eles eram divididos em muitos clãs que sempre guerreavam entre si, e poucas eram as cidades e as pessoas educadas. Um dia , em 622 d.C., um árabe de vinte e poucos anos, Maomé, começou a receber uma série de mensagens “divinas” de extrema beleza posteriormente chamadas de “alqur;án” (a recitação, leitura, do verbo “qara;a”, ler). Maomé e seus seguidores foram perseguidos por uns vinte anos mas no fim a nova religião pegou, e foi chamada simplesmente de “;islám”. Com uma nova religião monoteísta em suas mãos, os árabes se equipararam com os povos mais civilizados do norte (judeus e cristãos), se organizaram melhor e aproveitaram esse progresso para conquistar terras mais agradáveis do que o deserto da Arábia. Em menos de dois séculos, eles invadiram o Egito (pondo um ponto final nessa civilização milenar, já quase morta na época), a Pérsia (que também nunca mais foi a mesma e passou a chamar-se Irã) e diversos outros povos. O aramaico quase se extinguiu (hoje ainda é falado na Turquia e Síria) e o árabe passou a ser a língua de muitos povos conquistados, exceto os Persas que mantêm sua língua até hoje, o persa moderno (que não é relacionado com árabe, é uma língua indo-européia), embora tenham abandonado a escrita cuneiforme milenar e adotado a escrita árabe. Os turcos, que se originaram do atual Cazaquistão e foram invadindo o Oriente Médio por volta do ano 1000 d.C., converteram-se ao islamismo, adotaram o alfabeto perso-arábico (que só seria substituído pelo alfabeto latino em 1928) mas mantiveram sua língua, o turco, uma língua altaica que não é nem remotamente parecido com o árabe. Os árabes invadiram o sul da Itália e a Península Ibérica, deixando nas línguas desses países milhares de palavras. No português, 5% do vocabulário geral é árabe. A cultura árabe, que era a mais avançada do mundo até a a Europa tomar a frente por volta de 1500, legou milhares de contribuições ao mundo inteiro. Não há língua que não tenha palavras árabes. Da matemática à filosofia, da química à arquitetura, o mundo ganhou muito dos árabes.

O árabe tem cerca de 160 milhões de falantes e é a sétima língua mais falada do mundo, oficial em 21 países. Mas a língua falada no dia-a-dia varia muito de acordo com a região. Há pelo menos cinco dialetos principais: o levantino, falado na Síria, Líbano, Palestina e Jordânia; o do golfo pérsico, falado na Arábia Saudita, Kuait, Bahrein, Catar e Emirados Árabes unidos; o egípcio, no Egito, Sudão, partes da Líbia e partes ocidentais da Arábia Saudita; oiraquiano; e o magrebino, falado no Marrocos, Argélia e Tunísia. Essa divisão, porém, é muito simplificada, pois o árabe falado no Iêmen, em Omã, no Sudão e em outros países também cada um suas características próprias.

A língua escrita e formal, apesar dos dialetos, é padronizada e única. Há falantes do árabe também no Irã (onde a língua nacional é o persa, uma língua sem afinidades com o árabe além de empréstimos e do alfabeto), em Israel, em partes da Turquia (o turco também não é relacionado com o árabe, é um idioma altaico, escrito com o alfabeto latino), no Máli, no Níger, no Chade, na Mauritânia, além de em núcleos de imigrantes em diversos países da Europa e América - especialmente Estados Unidos, Canadá, Brasil e Argentina (o ex-presidente Menem é de origem libanesa).

Para uma visão bem completa da gramática e da escrita árabes eu realmente recomendo o livro “Teach Yourself Arabic” com fitas (a fonética árabe é realmente louca!). Esse está realmente muito próximo do que eu considero um curso auto-didático perfeito. Falta apenas mais exemplos e um vocabulário maior, em duas vias (há apenas árabe-inglês) . Outra boa obra é o “Modern Literary Arabic”.

Para gramáticas dos dialetos árabes, há livros com cassete da série Coloquial da Routledge para os dialetos egípcio, do Golfo & Arábia Saudita e Levantino. Eu possuo o do Golfo & Arábia Saudita, que é o melhor, pois os outros são muito pequenos. Para o dialeto egípcio, minha fonte foi o Arabic for Travellers da Berlitz, e quanto ao dialeto levantino, utilizei o brasileiro Árabe Coloquial com Caracteres Ocidentais sem Mestre, que é fraquíssimo, inconsistente e incoerente, mas custa só R$ 30.

Quanto a dicionários, a maioria é muito ruim. O único recomendável para iniciantes (segundo meu Teach Yourself) é o ótimo “Langenscheidts Taschenwörterbuch Arabisch” (alemão-árabe/árabe-alemão) que vem com tanto a grafia árabe quanto com a pronúncia em Alfabeto Fonético Internacional em ambas as partes. É esse que eu tenho. Para quem não fala alemão, a coisa é difícil. Meu Teach Yourself recomenda apenas o “Dictionary of Modern Written Arabic” (só árabe-inglês) da editora J. Milton Cowan. Inglês-árabe, ainda segundo o Teach Yourself, o único razoável é o “Al-Mawrid” de M. Malbaki, Beirute, 1967.O grande cuidado que se deve tomar ao se comprar um dicionário de árabe é verificar se ele foi escrito para árabes oiu para ocidentais. Pois no primeiro caso, é comum o árabe vir sem a vocalização. Já vi dicionários assim à venda em São Paulo.

A denominação “semítico” foi cunhada em meados do século XVIII por um lingüista alemão e deriva do personagem bíblico Sem (ou “Shem”), descendente de Noé, que segundo a tradição foi o antepassado de certos povos do Oriente Médio. “Shem”, em hebraico, significa “nome” (em árabe, ;ism).

3. Morfologia

A primeira coisa que impressiona uma pessoa não familiarizada com nenhuma língua semítica ao deparar-se com as gramáticas do hebraico e do árabe é a seu exotismo. Suas estruturas não se assemelham a nenhuma língua da Europa ou da Ásia oriental. Elas são as únicas grandes línguas que se escrevem da direita para a esquerda, e quase sempre sem as vogais! Isso significa que uma palavra pronunciada [Sefer] (= livro, em hebraico) é escrita “Sfr”. Deve-se conhecer a língua muito bem para que se obtenha uma pronúncia correta. Mas, felizmente, há um sistema para se denotar as vogais em ambas as línguas, que compreende pontinhos e traços colocados acima ou abaixo das consoantes, usado em gramáticas, dicionários e, devido à métrica, em poesia.

A morfologia (= estrutura das palavras, forma das palavras) do hebraico e do árabe é baseada no sistema das raízes de três consoantes (ou, às vezes, quatro ou duas). Consiste de consoantes esqueletais que carregam um conceito geral e que são preenchidas por certos esquemas de vogais e às vezes afixos (= sufixos e prefixos) para assumir um significado mas específico dentro daquele conceito geral. Por exemplo, em árabe, a raiz K-T-B possui o conceito geral de escrita e coisas do tipo. Preenchida com o conjunto apropriado de vogais e às vezes afixos, pode se tornar um verbo (kataba= ele escreveu; ;aktubu= eu escrevo), alguns substantivos (kitáb= livro; maktúb= escrito, carta) e outras coisas (em hebraico essa raiz é K-T-V, mas livro é Sefer, e kitav é “um escrito”. Essa raiz S-f-r deu o árabe Sifr = zero, cifra). Os preenchimentos vocálicos são geralmente os mesmos para todas as raízes, então você viu que K-T-B ganhou o prefixo ma- +1a.consoante+2a. consoante+ú+3a. consoante, e virou “maktúb”= escrito, carta. Pois então a raiz B-L-L (molhar) se tornaria “mablúl” (molhado), além de outras formas. Nem todas as raízes possuem um significado claro, como em português, em que a raiz “plicar” têm “complicar”, “explicar”, “implicar” sem um sentido muito claro em comum.

Obs.: tá; marbúTa significa “t amarrado”, onde marbúTa é o feminino singular de marbúT, particípio passado do verbo rabaTa, amarrar.

3.1 Substantivos e o artigo

Os substantivos semíticos podem ser precedidos por um artigo definido, que é mais um prefixo do que uma partícula separada. Em árabe é “al-” (alif +lám) e em hebraico “ha-” (he). Supõe-se, contudo, que o artigo hebraico tenha sido originalmente [hal], com a perda posterior, por assimilação à consoante seguinte, do [l] final.

Em árabe e hebraico, o artigo é o mesmo para o masculino, feminino, singular, plural e dual. Mas em árabe há a assimilação, na pronúncia, do artigo por algumas consoantes iniciais da palavra seguinte: alrajul= [arrajul] (rajul= homem). Essas consoantes são n, l, DH, T, D, S, sh, s, z, r, dh, d, th e t.

Os substantivos podem ser masculinos ou feminos, ir para o dual (plural de dois) e para o plural. Os substantivos femininos terminam, na pronúncia, geralmente com o fonema [a], que em si não é marcado na escrita mas vem indicado pela letra tá; marbúTa (um h com dois pontinhos) no árabe e pelo he no hebraico, sons que teoricamente seguiriam esse [a], mas são mudos. Na verdade, essas grafias têm uma razão histórica. No árabe clássico e provavelmente no hebraico pré-escrita, esse [a] final feminino era pronunciado [at] e seguido das desinências dos três casos que as antigas línguas semíticas tinham: nominativo, acusativo e genitivo. No árabe essas desinências eram -un, -an e -in. Portanto o que em árabe atual é pronunciado [waraqa] era [waraqatun]. E, é claro, os substantivos masculinos também: hoje [kitáb], antes [kitábun]. Ao levar o artigo difinido, o [n] final caía: [alwaraqatu] e [alkitábu]. Como a desinência caiu, no caso dos femininos o [t] final ficou exposto e deixou de ser pronunciado, deixando apenas um [a]. O acadiano também possuía um declinação, com -um, -am e -im. Devido a isso, essas terminações são chamadas em árabe de nunação (tanwín) e em acadiano de mimação, pois o nome das letras m e n nas línguas semíticas é respectivamente nún e mím.

Declinação do árabe clássico:

Para o dual, havia duas terminações: -áni [alif + nún] para o nominativo e -ayni [yá; + nún] para ambos acusativo e genitivo. O nún final doi dual era perdido na forma constructa (ver abaixo). No plural, usava-se as mesmas terminações do singular, exceto nos casos do plural externo, mais raro, onde havia as terminações -ún/ín (nom/gen-acus) para substantivos masculinos designando homens e para os demais -átun/-átin (nunados), onde o [n] final caía se o nome fosse acomapanhado de artigo. No árabe literário moderno, o dual e o plural ainda têm essas diferenciações sempre que sejam escritos diferentemente, mas no árabe falado o dual ganha apenas -ayn e o plural externo masculino humano apenas -ín.

Substantivos árabes terminados em consoante são masculinos exceto uns dez, como ;umm, ;ukht, shams, yad, ríH (mãe, filha, sol, mão, vento).

Não há declinação em hebraico, mas uma palavra com o artigo ha- que for objeto direto da oração deve ser precedida da preposição especial “;eth” (que só serve para isso): “qaf ;eth habasar” (=pegue a carne; “basar”= carne; “qaf”= imperativo do verbo “laqaH”, pegar). Bereshíth bara; ;èlohím ;eth hashamayim we;eth ha;eretz (no princípio, criou Deus o céu e a terra).

O plural

O plural em hebraico é bastante simples. Os substantivos masculinos ganham -ím e os femininos ganham -ót. Contudo, às vezes certas palavras de duas sílabas ou mais têm uma de suas vogais transformadas em sh’wa, ou seja, uma vogal muito curta, quase inexistente.

Já em árabe o plural é um tanto complicado. Existem palavras complexas, geralmente de mais de quatro consoantes, que formam o plural de maneira similar à hebraica, adicionando -ún (-ín no acusativo-genitivo e na linguagem coloquial) no caso de alguns substantivos masculinos designando homens e -át para os demais. Mas essas são exceções.

A maioria dos substantivos árabes forma o seu plural através da alteração do jogo vocálico que sua raiz recebe, ocasionalmente também recebendo um ;a- como prefixo. Dentre esses, os substantivos de quatro consoantes são os únicos inteiramente previsíveis. Se possuem uma vogal curta entre C3 e C4, seu plural segue a fórmula CaCáCiC. Se possuem entre C3 e C4 uma vogal longa, o plural fica CaCáCíC. Note também que a terminação feminina cai no plural.

Plural das palavras quadriliterais árabes

Obs: substantivos CvCCvvC referentes a pessoas têm opcionalmente o plural CaCáCiCa: ;ustádh > ;asátidha (professor).

No caso dos substantivos de três ou duas consoantes, não há regra segura. Deve-se sempre consultar um dicionário. Mas há algumas diretrizes básicas que podem auxiliar a entender os plurais desses substantivos.

- Palavras CiCCa tendem a formar plural CiCaC: qitca > qitac (pedaço) - nukta > nukat (piada).

- Palavras CuCCa tendem a formar plural CuCaC: lucba > lucab (brinquedo) - súra (escrito s-w-r-a) > suwar (imagem).

- Palavras CvCC podem formar plural CuCúC: qalb > qulúb (coração) - cilm > culúm (ciência) - jund > junúd (tropa)

ou ;aCCáC: film > ;aflám (filme) - shakl > ;ashkál (forma) - lawn > ;alwán (cor).

- Palavras CáCiC podem formar plural C1uC2C2áC3 > sákin > sukkán (morador) - ;iH > suwwáH (turista). Algumas dessas palavras têm também plural CaCaCa: Tálib > Tulláb ou Talaba (estudante).

- Palavras CáCiC (ou CáCiCa) tendem a fazer plural CawáCiC: sáHil > sawáHil (costa) - qácida > qawácid (regra).

- Palavras com terminação feminina e vogal longa em C2 tendem a fazer plural CaCá;iC: jarída > jará;id (jornal) - jazíra > jazá;ir (ilha, no plural também “Argélia”).

A forma constructa

Para construções possessivas, o árabe usa simplesmente a ordem de palavras “propriedade + proprietário”, sem preposição, e o proprietário deve vir sem artigo: alkitáb rajul (o livro do homem). O hebraico usa a preposição “shel”, mas também tem uma construção análoga à arabe, sendo que a primeira palavra pode passar por mudanças como a adição de um sufixo ou mudanças internas das vogais. Essa construção chama-se forma constructa nas gramáticas ocidentais.

3.2 Adjetivos, pronomes e advérbios

Em árabe, um adjetivo que concorda com um substantivo indicando objeto inanimado no plural deve assumir a forma feminina singular. Os adjetivos geralmente ganham -a (escrito com tá; marbúTa) para se tornarem femininos.

As línguas semíticas (assim como as línguas latinas e o grego) não distinguem muito bem entre substantivos e adjetivos, o que fez com que a seguinte peculiaridade surgisse: em vez de eles dizerem “o livro grande”, eles passaram a dizer “o livro, o grande”, como se tivessem dizendo “o livro, aquele que é o grande”, portanto o artigo definido deve preceder ambos o substantivo e o adjetivo: em árabe alkitáb alkabír (kitáb= livro; kabír= grande) e em hebraico haSefer hagadol (Sefer= livro; gadol= grande). Note que o adjetivo obrigatoriamente deve vir após o substantivo.

Os graus do adjetivo

O adjetivo árabe possui um comparativo de superioridade com a fórmula ;aCCaC. Mas, se C2=C3, a fórmula passa a ;aCaCC. Veja: kabír (grande) > ;akbar (maior) - kathír (muito) > ;akthar (mais) - jadíd (novo) > ;ajadd (mais novo). Adjetivos complexos como maftúH (aberto), burtugalí (português), muD-Hik (ridículo), masíHí (cristão) etc. não podem se submeter a essas mesmas regras por terem mais de três consoantes. Nesses casos, usa-se um substantivo relacionado ao adjetivo seguido do advérbio ;akthar (mais). A preposição da comparação é min (de): aljarída ;ajadd min alkitáb = o jornal é mais novo que o livro - huwa ;akbar min alwalad = ele é maior que o menino.

O adjetivo hebraico não possui uma forma peculiar para o comparativo de superioridade. No hebraico bíblico, usa-se apenas o adjetivo na forma básica mais a preposição min (de) seguida do objeto a ser comparado: hú; gadol min hayeledh = ele é maior que o menino. No hebraico moderno a preposição é mi ou min e há uma palavra separada equivalente a “mais”.

Não há superlativo em árabe e em hebraico. Usa-se apenas o artigo definido mais o comparativo de superioridade no caso do árabe e o artigo mais o adjetivo básico no hebraico.

Os demonstrativos

Os pronomes

Para o adjetivo possessivo pessoal, o árabe e o hebraico usam um conjunto de sufixos adicionados à coisa possuída, sendo que o hebraico também pode usar palavras possessivas invariáveis após a coisa possuída, que são derivados da preposição shel mais o sufixo possessivo. Os sufixos possessivos em hebraico e em árabe são:

Os pronomes oblíquos também vêm na forma de sufixos, que acontecem de ser iguais aos possessivos acima, exceto pelo da 1a. pessoa singular, que é em ambas as línguas. Em hebraico, a adição desses sufixos causa algumas modificações na vocalização da palavra. Muitas vogais se tornam sh’wa, como na formação do plural e na forma constructa.

Os pronomes pessoais retos (sujeito da oração) são:

3.3 Verbos

Os verbos também são conjugados através do jogo vocálico imposto sobre o esqueleto consonantal. Em árabe os verbos não têm infinitivo, mas em hebraico eles têm. A forma básica ou dicionarizada do verbo é a 3a. pessoa masculina singular do perfectivo (sim, os verbos semitas variam em gênero!), que é a forma mais simples a partir da qual todas as outras podem ser derivadas. Normalmente, as gramáticas ensinam primeiro o aspecto perfectivo dos verbos e só depois o imperfectivo. Note-se que os verbos semíticos não variam de acordo como tempo verbal, e sim de acordo com o aspecto verbal. O que isso significa será explicado mais tarde.

Não há verbo “ser” nem “estar”, então para se dizer “o livro é grande” simplesmente se remove o artigo do adjetivo: alkitáb kabír / haSefer gadol (apesar de o hebraico ter algumas partículas de “ser/ estar” que também podem ser utilizadas).

Os verbos semíticos são razoavelmente mais simples de serem usados do que os portugueses, mas sua morfologia é tão exótica que muito cuidado deve ser tomado.

Aqui está a tabela do paradigma do verbo simples. Os chamados temas derivados serão dados depois.

Na conjugação perfectiva hebraica, o k vira kh pois nesse tipo de raiz as letras p, k e b se são a primeira da raiz viram f, kh e v se não são seguidas de vogal. A 1a. pessoa singular do futuro é pronunciada [ekh’tov] no hebraico moderno. No imperfectivo, a sílaba tônica em hebraico é a última.

Verbos que apresentam em sua raiz consoantes como w, y, ; e em que as duas últimas consoantes iguais, como em H-b-b (amar, em árabe), apresentam geralmente algumas peculiaridades em suas conjugações. A voz passiva não é feita com verbo auxiliar como nas línguas indo-européias modernas, mas tem uma conjugação própria. Em árabe, o passivo perfectivo de kataba é kutiba e o imperfectivo é yuktabu. Em hebraico, a raiz veste a fórmula niCCaC, ou seja, katavfica niktav no perfectivo e yikatev no imperfectivo.

Quando C2 é semivogal (w, y)

O radical do meio (w,y) desaparece no perfectivo, deixando um a longo, e no imperfectivo ressurge como portador de vogal longa [ú] ou [í].

Exemplos árabes: q-w-m (levantar-se) = qám, yaqúm; n-w-m (dormir) = nám, yanúm; m-w-t (morrer) = mát, yamút,

Exemplos hebraicos: q-w-m (levantar-se) = qam, yaqúm.

Quando C2=C3

As duas últimas consoantes se fundem no perfeito. No árabe, a fórmula do perf. é CaCC e do imperf. é yaCvCC. No hebraico, CaCC e yiCvCC.

Outras peculiaridades

Quando C1= n em hebraico, esse n desaparece no imperfectivo.

Os particípios

O particípio passivo em árabe é formado pelo acréscimo do prefixo ma- mais a raiz na forma CCúC: katab (escreveu) > maktúb (escrito) - fataH (abriu) > maftúH (aberto).

Em hebraico, não se usa prefixo exceto nos temas derivados. A fórmula do passivo é CaCúC: katav (escreveu) > katúv (escrito) - qaTal (matar) > qaTúl (morto, matado). Em alguns temas derivados, há o prefixo m’- ou ma-.

Temas derivados

Da mesma maneira que as línguas indo-européias derivam verbos pela adição de perfixos e sufixos, as línguas semíticas o fazem pela adição de prefixos, infixos e pela alteração do jogo vocálico que suas raízes recebem.

Nem em árabe nem em hebraico, há verbo “ter”. No seu lugar se usa a preposição “para” + possuidor+ coisa possuída. Em hebraico ainda se usa a particula de existência “yesh” (=há) entre o possuidor e a coisa possuída: l'netanyahu yesh Sefer= Netanyahu tem (um) livro.

Quando há uma locução verbal do tipo “eu posso fazer” em árabe, na verdade se diz “eu posso faço”, já que não há infinitivo.

6. Os numerais

Os numerais em árabe e hebraico bem que poderiam ser classificados como adjetivos ou substantivos, pois morfologicamente se comportam, em grande parte, como tais.

Uma estranha carcterística do uso dos numerais em árabe e habraico é que, a partir de 3, é a forma feminina que vai com substantivos masculinos e vice-versa. O número 1 não é usado, basta dizer uma palavra no singular sem artigo para que 1 esteja subentendido. Tampouco há necessidade de se usar o numeral 2, já que nas duas línguas as palavras possuem a forma dual. De três a dez, usa-se normalmente o numeral seguido de uma palavra no plural (no caso do árabe, esta palavra vai para o genitivo).

Bônus: numerais em diversas línguas afro-asiaticas:

4. Sintaxe

Quanto à sintaxe, as línguas semíticas, em muitos aspectos, se assemelham ao português falado errado. Por exemplo, coloquialmente dizemos “a casa que eu moro lá”, “a mulher que eu comprei o livro dela”, ao invés de “a casa em que moro”, ou “a mulher cujo livro comprei”. Pois em árabe e hebraico ocorrem construções praticamente idênticas às do português “mal falado”. Só há uma conjunção em árabe, ;ann, e um pronome relativo, ;alathí, que são usados para todas as orações subordinadas.

Bibliografia

Modern Hebrew, An Essential Grammar (ed. Routledge)

Every Day Hebrew (ed. NTC)

Teach Yourself Biblical Hebrew

Teach Yourself Arabic

Colloquial Arabic of the Gulf and Saudi Arabia (ed. Routledge)

Arabic for Travellers (Berlitz)

Taschenwörterbuch Arabisch (ed. Langenscheidt)

Teach Yourself Arabic Verbs and Essential Grammar

Fase II - Junho de 2000

No início deste mês procurei levar a fundo meu estudo de línguas semíticas, especialmente do árabe. Esta segunda seção é para compartilhar algumas de minhas descobertas e conclusões não só sobre as línguas semíticas mas também sobre como é possível aprendê-las sozinho. Enquanto que para a seção anterior eu apenas procurei ter uma noção muito básica e geral sobre a estrutura do árabe e do hebraico, agora pretendo levar meu conhecimento à fluência total se não em hebraico, pelo menos em árabe. Agora eu aprendi o alfabeto árabe (antes só conhecia o hebraico, mais fácil) e tenho um bom vocabulário básico bem como conhecimentos mais detalhados de sua estrutura verbal, nominal, fonética e sintática.

O árabe é uma das línguas mais complexas que eu já encontrei. O alfabeto, por exemplo, não só é difícil em si como não representa todos os sons da língua - sons, aliás, que desafiam nossas laringes. Portanto não basta aprender o valor de cada letra e como colocá-las fisicamente juntas umas das outras, mas é preciso ter uma noção de quais vogais curtas são mais prováveis de aparecer numa palavra.

A estrutura morfológica não fica para trás em relação à fonetica e à ortografia. A maioria dos plurais é irregular, ou seja, ao se aprender uma palavra, como em alemão, deve-se aprender junto seu plural, mesmo os adjetivos. Por outro lado, a determinação do gênero gramatical a partir da forma da palavra é fácil, pois geralmente as palavras femininas terminam com uma letra especial pronunciada at (modernamente a). O verbo é outra loucura. Há dez conjugações (em português há três) e, embora não seja difícil se lembrar a qual um determinado verbo pertence, seu aprendizado é complicado. E são justamente os verbos mais comuns, os da primeira conjugação, os mais irregulares, pois não é possível saber sem memorizar qual vogal eles levam no presente. É bem verdade que esta vogal é curta e portanto não escrita, e na língua informal praticamente qualquer vogal (a, i, u - só há essas três) vale. Além das dez conjugações, há os verbos “fracos”, bastante comuns, que têm um paradigma próprio (bem, realmente uns cinco). Isso sem mencionar a voz passiva, que tem uma conjugação própria.

No perfectivo, o verbo da primeira conjugação ativa (em oposição à passiva) leva a vogal “a” curta: a raís “drs” faz “daras” (ele aprendeu). No imperfectivo, a primeira consoante perde a vogal, mas, como eu disse, na língua formal é necessário saber qual a vogal que vai na segunda consoante. No caso do verbo “daras” (como não há propriamente um infinitivo em árabe, enuncia-se o verbo pela sua forma mais simples, a 3a. pessoa masculina singular do passado, “ele aprendeu”) o presente se faz com a vogal “u”, e os dicionários indicam esse verbo assim “daras (u)”, donde se formula o radical do presente “drus”.

As demais conjugações, contudo, têm uma paradigma completamente regular e previsível. A segunda conjugação, por exemplo, consiste de verbos que duplicaram a segunda consoante da raiz e têm um significado causativo. “Drs”, raiz com sentido geral de “aprendizado” (daras = aprendeu; madrasa = escola; mudarris = professor, etc.) faz o verbo “darras”, ensinar, cujo radical do presente também é “darras”. Mas como então diferenciar presente de passado? Não se esqueça de que, como está demonstrado na Primeira Seção, o passado recebe afixos diferentes dos do presente. Então (consulte tabela verbal da Primeira Seção) “ele aprendeu” fica “darras” mas “ele aprende” é “yudarras” (quando o verbo é de uma conjugação em que a segunda vogal se duplica, como acontece também na terceira e na quarta, o prefixo do presente ganha vogal “u” e não “a”).

Apêndice 1: Etimologia de 55 nomes bíblicos originários do Hebraico e do Aramaico.

Embora apenas o Antigo Testamento tenha sido escrito em hebraico (com algumas partes em aramaico), a maioria dos nomes do Novo Testamento (que foi escrito todo em grego) são de origem hebraica ou aramaica. Deve-se levar em conta portanto que esses nomes foram helenizados pelos escritores dos Evangélios, e portanto ficaram bastante alterados.

fonte principal: Bíblia On-Line (na verdade um cd-rom)

No Novo Testamento, algumas frases foram registradas no original aramaico. A famosa última frase de Jesus (em Marcos 15:34), foi uma delas. Com o alfabeto grego, temos: elwi, elwi, lima sabacqani; (eloi, eloi, lima sabakhthani?), provavelmente de um original aramaico ;elí, ;elí, lamá sabaqthaní? (meu Deus, meu Deus, porquê me abandonaste?). O ditongo [oy] do grego do início da Era Cristã provavelmente já era pronunciado [i], como no grego moderno. A palavra ;elí é ;el (Deus) mais o sufixo possessivo -í, como no hebraico e no árabe. Lamá (lamed + mim + alep) é a preposição li- (hebraico l- e árabe li-) mais a palavra ma = o quê, quê. O verbo sabaq (deixar, abandonar) está na 2a. pessoa masculina singular do perfectivo, sabaqtha, mais o sufixo pronominal oblíquo de 1a. pessoa singular -ní (como em hebraico e árabe).

Apêndice 2 - Palavras com mesma origem no árabe e no hebraico

Como sempre acontece quando se compara línguas de uma mesma família, muitas palavras que têm a mesma origem não possuem mais o mesmo significado. Quando isso acontece aqui, na coluna “tradução” darei o significado da palavra hebraica + barra + significado da palavra árabe. Mas, pelo que pude apurar, não há mais que 40% de correspondências léxicas entre as duas línguas. Eu poderia criar uma lista enorme de palavras que diferem completamente e mesmo raízes de uma língua que não possuem nenhuma correspondência na outra.

Na coluna hebraica, cognatos aramaicos que por ventura eu descobri estão entre parênteses e com a abreviatura “aram.”

Apêndice 3 - Palavras portuguesas de origem árabe.

As palavras árabes estão sem o artigo definido al-. O significado original é igual ao português quando não há nada indicado na coluna árabe.