Viagem ao Norte


Dia 20 - Sonora~Dourados

postado em 22 de set de 2011 07:21 por Carta Pecuária

Quem disse que no último dia a gente não teria história para contar? 

Estávamos lá arrumando as motos quando me apareceu a Rê Bordosa, personagem de Angeli. Mas o Angeli não matou essa personagem no HQ? O que ela estava fazendo ali, louca, vendida, mais para lá do que para cá, cabelo todo desgrenhado, cigarro entre os dedos? Não dando a mínima para meus devaneios ela entra dentro do carro e joga ali no chão mesmo uma lata vazia de Budweiser, lembra-se que esqueceu alguma coisa não sei aonde e sai desatinada novamente para dentro do hotel.

Que bom, saímos do hotel pegamos sol. Ontem estava frio. O tempo mudou de noite. Achei que iria me lascar. Mas não. Esquentou durante o dia e fez sol até Dourados, com uns chuviscos já perto de casa.

Paramos primeiro em Campo Grande, onde o Márcio e o Jardim moram. A turma da Confraria da Motocicleta estava nos esperando no posto. Aquela festa. Fotos. Brindes com latinhas de cerveja. Não bebi. Tinha que pegar mais 220 km até minha casa. Foi legal. Despedimos e saí para almoçar na casa do Jardim.

Lasanha! Hmm, adoro lasanha. Depois de tantos dias só comendo o que dava, nada mal uma comidinha caseira. Estava sentindo falta disso. Na casa do Jardim as suas filhas e esposa e neto e genro o receberam com festa. Foi legal ver isso, ou seja, alguém "de fora" ver o carinho que a família tem pelos seus entes. E pela gente também, me trataram com bastante carinho.

Mas, barriga cheia, pé-na-areia. A saudade da minha própria família bateu mais alto e falei para o Jardim que iria seguir viagem. Ele me emprestou sua capa de chuva. No rumo de Dourados o tempo estava meio fechado. E fui embora.

Como disse, é duro segurar o acelerador nessa hora. Mas me controlei. Fui pianinho, sem pressa. O mais difícil tinha ficado para trás. Cada quilômetro percorrido, cada desafio, casa obstáculo e pensamentos de que não daríamos conta de terminar a estrada foram voltando na minha mente. Tudo isso geram agora um tempero especial, uma vontade louca de rever minha família, uma ânsia de ir partilhando aos poucos todas essas emoções e sentimentos com quem está ali para te escutar e rir com você, quase revivendo todos os momentos como se estivessem conosco. 

De certa forma, elas estiveram mesmo, dentro do coração.

Dizem que é ótimo o dia que a gente sai em viagem, mas é melhor ainda o dia que a gente volta. É verdade.

Chego cansado, moído, peito doendo, costas doendo, meus pés cheio de bolhas estouradas, minhas roupas parte delas terei que jogar no lixo, a moto, coitada, precisando urgentemente e desesperadoramente de um banho, igual ao dono... mas chego feliz, em paz, a cabeça mais descansada do que nunca.

Valeu tudo. Foi, em muitos sentidos, muito melhor e muito pior do que imaginava. Isso daqui que fiz não é Disney, se é que você me entende. Por isso foi ótimo.

Fim.

Dia 19 - Sorriso~Sonora/MS

postado em 22 de set de 2011 07:07 por Carta Pecuária

Bota trânsito nisso! Estrada estreita, sem acostamento, carretas zunindo ao seu lado debaixo desse sol quente e desse vento lateral. Estão mexendo na estrada ao redor de Nobres. Valetas e asfalto ruim em plena serra, péssima combinação.

Tocamos o dia inteiro. Ao chegar em Cuiabá, dobramos à esquerda para subir a chapada. Fomos até o Mirante olhar a paisagem. Não deu para ver muita coisa, o ar estava cheio de fumaça. Parecia que tinha alguma queimada na região. Almoçamos por ali mesmo no restaurante Morro dos Ventos. Já tinha vindo aqui antes umas três vezes, sempre bom atendimento, sempre boa comida. E a paisagem, o visual... é de tirar o fôlego.

Depois do almoço naqueles minutinhos para fazer o quilo ficamos de conversa com um pessoal do Acre que estavam por alí e que tinham também feito a BR-319 aqueles dias. Tinham ido até Manaus comprar duas camionetes e voltaram pela 319. Pessoal gente boa, engraçado.

Seguimos praticamente sem parar até Rondonópolis. Vindo por dentro, pela Chapada dos Guimarães e passando por Campo Verde a gente sai do trânsito pesado das carretas que atravessam a serra entre Rondonópolis/Cuiabá. Foi uma dica do Márcio esse caminho, uma boa dia afinal.

Dali adiante o fluxo de caminhões reduz bastante e foi um tiro até Sonora, enfim!, no Mato Grosso do Sul.

Chegamos ali, um vento danado, e um frio. Eita, será que teremos que enfrentar o frio amanhã dessa maneira?

Estou ansioso para chegar em casa! Sei que nessas horas o correto é desacelerar, ir mais tranquilo. É um trabalho mental. No Chile foi a mesma coisa. Quando a tente tá na reta final, quer chegar logo e fica imprudente. Muita calma nessa hora, Rogério.

Dia 18 - Teles-Pires~Sorriso

postado em 22 de set de 2011 06:38 por Carta Pecuária

O Nelson e o Jardim foram pescar cedo. Antes disso teve um incidente com uma tartaruga tracajá envolvendo o Nelson sobre o qual não quero comentar. Perguntem para o Nelson.

Ficamos Jardim e eu limpando o rancho e começando a acender o fogo. Peguei o frango para fazer. Na hora não me toquei, mas por incrível que pareça, frango foi a coisa que mais comi nessa viagem. Nos rios, nos barcos, na Amazônia só nos foi servido frango. Frango ensopado, frango frito, frango, frango. Não sei se a carne bovina é cara por lá, ou se não tem na região, ou se é difícil de manter congelado. Muito frango mesmo.

Bom, de qualquer forma, peguei o tal pacote de frango temperado e coloquei na brasa. Fiquei meio receoso já que em casa ou na fazenda a gente normalmente faz carne bovina, frango sempre foi uma coisa demorara para assar, achei. Mas, ali, com tempo de sobra, tome-lhe brasa!

Como disse, a gente ficou limpando o estabelecimento. O Jardim buscou várias vezes água no rio nesses baldes de 20 litros. Fiquei na vassoura com sabão. Depois o rodo. Não é que ficou limpo?! Um abraço para todas as faxineiras!

O time voltou do rio cheio de histórias para contar. O Nelson perdeu o óculos de sol dele. Há um mistério aqui, entretanto. Disse que foi um peixe grande que puxou a vara com carretilha e escapou da mão dele. Para não dar o prejuízo pro Gilmar, dono da vara e da carretilha, vai o Nelson para dentro d'água mergulhar sem rumo e espalmando o vazio até achá-la. Achou a vara, mas perdeu o óculos. 

Depois teve outra história misteriosa. O Nelson, novamente ele, voltou para o rancho com um corte no rosto, indo do canto da boca até perto da orelha. Segundo testemunhas a vara do Márcio, envergada por um peixe grande (Sempre peixe, né? Não poderia ser enrosco?) Arrebentou a linha e a vara, no seu voleio de retorno encontrou o rosto do Nelson no meio do caminho.

Resultado da pescaria, Nelson perdeu os óculos e ganhou uma cicatriz comprometedora, o Márcio perdeu o suposto peixe e o Gilmar... bom, o Gilmar pegou dois peixes de verdade. Não me lembro quais agora.

Almoçamos, tiramos aquele cochilo depois de tanto trabalho extenuante e, quando o sol esfriou, levantamos acampamento de volta para Sorriso. Ao sair do rancho era a minha vez de perder os óculos escuros! Que coisa. Hmmm, peraí, ele estava comigo na hora que estava arrumando as coisas para ir embora... hmm, deixa voltar e dar mais uma olhada. Tava em cima da cadeira da sala, o Jardim achou. Menos mal! Depois de tanta perrenga que esse óculos já passou, enfrentando o deserto do Atacama no Chile e a Amazônia, meio que me afeiçoei a ele.

Chegamos em Sorriso, saímos para comer um lanche na praça e, satisfeitos, porém cansados, fomos dormir. Amanhã é hora de voltar definitivamente para casa! Amanhã o dia tem que render. O objetivo é entrar no Mato Grosso do Sul e dormir em Sonora ou Coxim, mas antes disso teremos que pegar o trânsito violento da passagem por Cuiabá.

Dia 17 - Sorriso~Teles Pires

postado em 20 de set de 2011 13:40 por Carta Pecuária

Não saímos tão cedo. Demos uma empurrada com a barriga.  

Alugamos um carro -- Mille -- e acompanhamos o Gilmar carregado de sua traia de pesca até o pesqueiro. E bota traia nisso! A carretinha estava completa com canoa, motor, varas, carretilhas, tuviras, etc. Ah, sim, e o kit básico de sobrevivência em um rancho: carne para assar e cerveja.

Tenho que dizer aqui uma coisa. Pescaria não é o meu passeio preferido, mas com a turma que a gente estava ficou ótimo.

Show o rancho viu. Dois andares, muito bonito. Estava com cara que faziam um par de dias que não era usado, mas isso não foi problema. Rapidinho demos um jeito nisso.

Mas em outras coisas a gente teve que improvisar. Não tinha bomba d'água. Não tinha gás. O jeito foi buscar água no rio -- ali do lado -- e queimar a lenha que fomos encontrando na clareira. 

Ficou melhor que a encomenda. Fizemos churrasco de tarde e um carreteiro de noite. 
De tarde subimos o rio até a Praia do Cortado, um ponto famoso aqui no Teles Pires. É ma praia de areia na beira do rio, no rebojo  de uma ilha que divide naquele lugar o rio em dois. Tomamos banho ali mesmo e voltamos para o rancho. Já era na boca da noite quando chegamos.

Daí foi palhaçada até a hora de dormir, e a hora de dormir foi a hora que acabou a gasolina do motor.

Dormi na rede novamente. Acho que estou gostando da coisa.

Dia 16 - Vilhena~Sorriso

postado em 18 de set de 2011 15:04 por Carta Pecuária


"Rogério, se prepare que hoje você vai conhecer o celeiro do Brasil."

De certa forma, é verdade.

De Comodoro, passando por Sapezal e seguindo até Sorriso o que ví foram lavouras. E lavouras. E mais lavouras. Algodão e milho à perder de vista, literalmente.

O povo daqui é do sul. Em Dourados uma boa parte também é, mas aqui a coisa é mais gritante ainda. Acho que nunca vi tantas mulheres e marmanjos louros, queimados pelo sol forte do norte.

Antes de entrarmos na reserva dos índios Parecis, passamos pelo rio Papagaio. Passamos tão rápido, mas deu para ver que a água é bem limpa e do lado da ponte tem uma espécie de balneário. Me lembrei de Bonito na hora.

Daí, naquele calor. Estava já perto da hora do almoço. Porque não? Decidimos voltar.

Rapaz, foi a melhor coisa que fizemos! Paramos no balneário para um banho rápido naquela água Brrrrr! gelada! Naquele calor, estava valendo. A cerveja desceu que nem água. 

Almoçamos por lá mesmo. Putz, como valeu. Adoro esses acontecimentos inesperados. Está aí, ponte do rio Papagaio, antes de entrar na reserva dos Parecis. Vale a parada.

Pegamos depois de algum tempo no meio de lavoura a BR 163. Se na região de Dourados/Campo Grande já tem trânsito forte de caminhão nessa mesma estrada, aqui, então, a coisa é profissional. Bota caminhão nisso! Subindo e descendo nessa perigosa e estreita estrada sem acostamento.

Aqui, não conta para ninguém. Deu vontade de continuar nela e pegar a Transamazônica lá em cima. Não conta para minha esposa, senão ela me mata.

Chegamos em Sorriso, onde o amigo do Márcio estava nos esperando com cerveja gelada. Ah, esse negócio de viajar pelo Mato Grosso tá rendendo. Que povo hospitaleiro, mal a gente chega e já oferece uma cerveja gelada para a gente.

Ficamos ali um pouco na casa dele e logo depois saímos para jantar. Estávamos cansados, moídos pelo calor, tensos por causa do trânsito da estrada e preocupados com a vida. Você pode ver isso claramente nos nossos rostos, abaixo.




Dia 15 - Porto Velho~Vilhena

postado em 18 de set de 2011 14:40 por Carta Pecuária


Saímos ao redor das sete horas da manhã. Abastecemos e pegamos estrada. 

Não tem muito o que falar de hoje. Só as palhaçadas básicas quando se junta essa cambada de homens. 

Sol forte e pancadas de chuva durante o dia. Me arrependi de ter enviado a roupa de chuva de volta para casa em Manaus. Rogério besta. 

Frio ao chegar em Vilhena. Ainda bem que não mandei minha blusa corta vento. Senão tava lascado. Moto é assim, a gente não sente o frio e nem o calor extremo quando está pilotando. Mas o corpo sente. Desidrata no calor ou pode chegar à hipotermia no frio, e não precisa estar muito frio para isso ocorrer. No mundo de motociclistas de viagem a gente escuta histórias de sujeitos irem para o hospital por não usarem roupas apropriadas para o clima, ou não ingerirem bastante água.

O Nelson bateu com o dedão do pé nessas tartarugas, 
esses sinalizadores na estrada, chegando em Vilhena. Do jeito que ele pulou da moto pareceu que tinha quebrado. Daí foi no médico, mas não quebrou não. Foi só uma bela de uma pancada. Mas ficou roxo. Apelidamos ele de Nelson Tartaruga.

Dia 14 - Humaitá~Porto Velho

postado em 16 de set de 2011 06:54 por Carta Pecuária   [ 16 de set de 2011 07:49 atualizado‎(s)‎ ]

Encontramos o Nelson e o Márcio no café-da-manhã. Foi um encontro festivo. Damos risadas, contamos histórias, eles e nós. Tivemos ali uns momentos bem divertidos.

Por causa da minha queda da moto, rir, tossir, espirrar e especialmente, soluçar fazem meu peito doer pacas.

Encontramos também um inglês que está dando a volta ao mundo em uma Land-Rover. Não é um sujeito novo, deve ter ao redor de 60 anos. Disse que já rodou mais de 1 milhão de km e essa não é sua primeira volta ao mundo. Deve ser verdade. De ali ere iria até o Ushuaia, no sul da Argentina. 

Fomos tirar as motos do barco. Tiveram que ficar por lá. Mais uma aventura descê-las por essas tábuas.



Bom, ficamos de conversar e decidir sobre o que fazer. Ponderamos as chuvas. Ainda estão caindo. Agora cedo mesmo chequei a previsão e consta chuvas na próxima semana até Altamira. Discutimos o cansaço e o acréscimo de tempo por causa da demora de passar pela 319. Avaliamos também as motos pesadas e o tanto que fica LISO a transamazônica quando chove.

Daí a gota d'água -- os jipeiros que encontramos no hotel nos aconselharam a rever nosso roteiro. Tinham acabado de chegar de lá e disseram que estava liso demais e escorregadio e que iria ser muito perigoso, cansativo e demorado fazer de moto.

Somando tudo isso, decidimos adiar a ida na transamazônica nessa oportunidade. É com tristeza, porém com convicção na segurança que é melhor assim. Iremos, se Deus quiser, ano que vem, Jardim e eu.

Se gostei disso? Não. Fiquei triste. Mas era o certo.

Bom, virando a página nessa questão, agora a cabeça já se inclina pensando na volta para a casa. Pegamos a estrada para Porto Velho, a mesma que pegamos na vinda de lá dias atrás. Aquela palhaçada, né? Quando se está em um grupo de amigos. Só risada. Foi legal. Chegamos em PV e fomos ao shopping almoçar. Depois disso, hotel. Tinha trabalho para fazer, tinha que escrever a Carta Pecuária, entre outras coisas. Fui dormir eram 2 da manhã.

Mas a gente também decidiu não voltar direto para casa. Já que estamos tão longe, vamos fazer um percurso alternativo. Qual seria um passeio alternativo para quatro caboclos de moto? Decidimos pescar no Teles Pires!

Dia 13 - Vovó Ana, Rio Madeira - Humaitá

postado em 14 de set de 2011 13:07 por Carta Pecuária   [ 14 de set de 2011 19:31 atualizado‎(s)‎ ]

Dormir dentro de uma lata de sardinha foi uma experiência interessante. 

Hoje foi o dia do bate-papo. Encontramos o Indiano, disse que fala várias línguas, é advogado formado em Mumbai e mora em Bogotá, na Colômbia. Disse que veio ao Brasil para conhecer a região. No final da viagem chegou junto em mim em um momento que estava sozinho e me disse que tinha sido roubado e queria ver se eu não podia emprestar para ele 35 reais, dinheiro do ônibus até Porto Velho. Desconversei. Qual é, para cima de mim?

Depois o Barqueiro. Disse que era de Rondonópolis e que tinha descido o Rio Madeira de rabeta desde Porto Velho até a foz dele com o Amazonas. Agora estava voltando. Tinha vendido o casco e ia levar para casa o motor, que estava no porão do barco. Disse que gastou 28 dias para fazer esse percurso de rabetinha, visitando as comunidades (todas, segundo ele) na beira do rio. Viveu de ajuda, comendo na casa dos ribeirinhos, peixe e farinha.

Depois o Mestre de Obras. Era um senhor de 75 anos, segundo ele disse. Estava voltando para Humaitá para terminar o hospital que ele estava trabalhando. Tinha
ficado afastado por causa de uma cirurgia e estava pronto para recomeçar. Estava com a esposa e três crianças. 

"São seus netinhos?", perguntei. Um menino de 11 anos chamado Adriano, uma menina de 8 chamada Alessandra e um bebê de colo, esqueci o nome. 

"Não, são meus filhos com essa mulher.", ele me respondeu. Era a terceira mulher dele.

Passamos por muitos barcos e balsas de garimpo. O garimpo está voltando no Rio Madeira, depois, dizem, de muitos anos sem isso. 

Passamos em um comércio flutuante que fica encostado na beira do rio. Ele serve como bar, supermercado e zona, para os garimpeiros alongados naquele fim de mundo. 

E assim fomos passando o dia. A menina, Alessandra, cismou comigo. Me tirou para Cristo. Fiquei brincando de pique-pega, uni-du-ni-tê, esconde-esconde... sei 
lá, agora me esqueci de tudo que fizemos. Fiquei cansado! Me lembrou a canseira que minha filha me dá em casa com essas brincadeiras de vez enquando.

De noite, começou a chover. Forte. Deus do Céu. Uma ventania de dar medo. Aquele vento úmido, gelado pela noite. O barco é bem calafetado, não tem goteiras, ainda bem.

Só tinha uma goteira. Aonde? Em cima da minha rede!

E agora? O barco super lotado, chovendo. Fiquei sem lugar para colocar a rede. Virei um sem-rede.

Uma parênteses. Tô de saco cheio de bater a cabeça no teto. O barco tem teto baixo em ambos os pisos. Pelas minhas contas bati 35 mil vezes até agora. E contando.

E chuva... até passar, bem de noite. Esperei. Uai, parou de gotejar no local original que eu estava. Hmm, bom... vou para lá de novo. Deu certo! Estou indo dormir. Amanhã, Humaitá!

Na realidade dormi pouco hoje. Chegamos eram meia-noite em Humaitá. O Jardim ficou brabo, pensa num homem brabo porque o barco não parou na rampa conforme tínhamos combinado com o comandante. Teríamos que deixar para descarregar as motos quando amanhecesse no domingo de manhã.

Estávamos ansiosos para chegar em Humaitá. Até aqui a viagem está seguindo o roteiro original original mesmo, antes de alterarmos a volta por terra pela 319, coisa que acabou não ocorrendo. 

Lá iríamos decidir nosso destino. Continuaríamos no projeto de fazer a transamazônica? Notícias de chuva não faltavam. Até mesmo dentro do barco a gente olhava para o lado em que supostamente estava a transamazônica e todo dia era água que caía.

Ou voltaríamos para casa? Vamos ver no que vai dar a coisa, e se os dois colegas Márcio e Nelson não vão ficar chateados com a possível mudança no roteiro.


Dia 12 - Manicoré~Barco "Vovó Ana", Rio Madeira

postado em 13 de set de 2011 10:38 por Carta Pecuária

Chá de Manicoré. 

Praticamente conhecemos todo o centro da cidade. Se quiser saber onde compra água em garrafas de dois litros, a gente sabe. O resto da cidade só vende em copinho. A cidade para no meio dia. Calor demais. 

Daí, de tarde, lá pelas três da tarde, cansados de Manicoré, fomos para o barco.

Mas antes disso, as motos a gente tinha trocado de barco ontem à noite. Nós mesmos fizemos o serviço, apesar de ter estivador para isso, mas os sujeitos queriam 50 reais e achamos caro. Era só passar de um barco para o outro, e eles estavam atrelados lado-a-lado. 

Qual a dificuldade disso?

Muita. Deu um trabalho danado. Havia um desnível significativo entre um barco e outro. Isso fez o vão que passaria as motos ficar muito pequeno. Tive que 
desmontar a bolha da minha moto para podermos passar na abertura. Ai, minhas costas! Dei um mal jeito na hora... moto pesada demais e pendeu para o lado. 

Agora vi. To lascado no peito, minhas mãos inchadas, os pés estrupiados por causa das chuvas dos dias anteriores e agora mais isso!


Passamos também a moto do Jardim. A moto dele não tinha como desmontar a bolha, então tivemos que passar meio deitada. Deu trabalho porque o local era sem jeito de pegar. Não dava espaço, o segundo barco tinha o teto baixo demais (mais sobre isso amanhã).

Cansados, suando às bicas, subimos para perto de nossas coisas. Nem tomamos banho nessa noite. Impraticável o banheiro porque na suíte a luz fica desligada quando o barco está parado. Como não tem ventilação e nem iluminação, mesmo com lanterna não dá para ser usado. Outro dia vamos dormir sem banho. Que beleza. Não dava nem para dormir na suíte. Largamos nossas coisas trancadas por lá e armamos nossa rede já no outro barco.

Hoje, depois de dar a última volta por Manicoré, ali perto das redes conhecemos o João Lucas, um técnico da Embratel que corre o estado dando manutenção nos 
equipamentos da Empresa. 

Aliás, um parênteses aqui. Em todo loca que a gente encontrou funcionários da Embratel fomos muito bem recebidos e tratados com muita educação. 

De qualquer forma, o João Luiz nos alertou para o problema do roubo dos pertences pessoais quando o barco está atracado. Falou para não sair de
perto de nossas coisas. O sujeito chega e finge que vai montar a rede e tal, só para de madrugada, enquanto o barco ainda está atracado e o povo, dormindo, pegar a mala de um desavisado.

Quando a gente armou as redes, o barco estava vazio. Daí foi enchendo, enchendo, enchendo. Peraí, vai caber? Encheu mais o dobro. Moça, não cabe mais! Cabe sim, é só arrumar as redes. E encheu mais o mesmo tanto.

A gente dorme colado. Não tem jeito. Literalmente tinham quatro redes 
sobrepostas. A minha e mais três. O Jardim, escolado, arrumou logo um lugar que não oferece risco de "superlotação". Por outro lado, sente mais frio de noite.

De qualquer forma, se mexia uma rede, todas mexiam. E para ir dormir? Já dormi em rede, mas faz muitos anos. Desacostumei. Pelo visto, vou ter que acostumar novamente na marra. Esperei ficar com bastante sono para ir dormir. Também, quando fui, desmaiei.

Acho que desmaiei por uns 40 minutos até sentir o barco parando no meio do rio. Um cidadão tinha feito cirurgia de apêndice no dia anterior e quis porque quis ir embora de barco. Batata, passou mal, abriu os pontos. Uma correria. Tiveram que colocar eles às pressas na voadeira e mandar de volta para o hospital em Manicoré. 

Voltei a dormir.







Dia 10 e 11 - Rio Amazonas~Rio Madeira~Manicoré

postado em 13 de set de 2011 09:40 por Carta Pecuária   [ 13 de set de 2011 18:20 atualizado‎(s)‎ ]

Tenho que dizer. Achei o máximo o barco. Legal mesmo. Legal por ser tão diferente. Não é confortável, mas quem quer conforto para experimentar esse Brasil desconhecido, ainda mais navegando sobre os maiores rios da Terra?

O povo dorme na rede. Os banheiros são comunitários. As refeições também. Quero dizer, são poucos e caras as suítes disponíveis. Elas tem banheiro privativo e ar-condicionado. Nas circunstâncias do barco, isso é um luxo.


Pegamos a suíte 3. É pequena. Melhor dizendo, micro. É menor que um Uno Mille, em outras palavras. Tem 1,80x1,80x1,90. Ok, não é menor que um Uno Mille, mas a idéia permanece. Não consigo espichar as pernas de noite. Demorei até achar uma posição tolerável para dormir. A sensação é estar dormindo em uma lata de sardinha. Não tem janelas.


O banheiro, meu Deus, o banheiro. É menor ainda. Vaso, chuveiro e pia praticamente desafiam a lei da física que diz que dois corpos não podem ocupar o mesmo espaço ao mesmo tempo. Pois aqui pode. Se quiser cagar levando uma chuveirada e escovando os dentes ao mesmo tempo, dá.

O barco tem três decks, mais o porão de carga. Leva 110 toneladas mais os passageiros. A ponte e as suítes ficam no 2º piso. No 3º fica o bar e a área de lazer, que nada mais é uma área descoberta cheia de cadeiras. O restante está tomado por redes e carga. 

As motos? Ficaram lá mesmo onde os estivadores as colocaram no deck principal, junto com as redes de quem irá dormir por lá. Veja abaixo uma geral do barco, desde o 3º piso até as motos.





Como não tem muito o que fazer, ficamos em uma alternância de ler, escrever no diário, comer na lanchonete no 3º piso ou no quarto mesmo (sim, tem uma mesinha retrátil), dormir ou ficar olhando para o rio vendo a água passar ou ficar olhando para a margem vendo as folhas balançarem. 

O rio, para minha surpresa, é bastante habitado. Pelo que pude observar ele significa a rodovia da amazônia. Passa tudo pelos rios. A vida do interior depende dele. E que vida! Cidades enormes. Borba, Nova Aripuanã, Manicoré são cidades de 20, 30 e 50 mil habitantes. Eis uma foto que tirei na madrugada da quarta-feira.

Chegamos em Manicoré eram 6 da manhã da quinta-feira. Ficamos por ali esperando até a hora do primeiro barco que zarpa para Humaitá chegar. Assim que o barco chegou, fomos falar com o comandante. Ele nos disse que ele atraca muito brevemente em Humaitá e o local não é apropriado para descarregar motos, pois tem uma escada que não oferece segurança para subir com elas. Perguntamos se teria como parar em outro local, pois já tínhamos ficado sabendo que existe um local lá, uma espécie de barranco que facilitaria descarregá-las.

Precisávamos pegar esse barco, ele sairia sexta-feira de manhã, e de tardezinha já estaríamos em Humaitá para encontrar o Márcio e o Nelson que à essa altura já deviam estar chegando por lá.

No bom e velho apreço por turistas que observamos desde Manaus, o que você acha que o comandante nos disse? Você já deve ter adivinhado a resposta.

O que fazer? Tinha outro barco. Chegava de noite na quinta-feira. Só que, putz, só sai na sexta de noite! Teríamos que ficar sem fazer nada em Manicoré por mais um dia. Fazer o quê? Chá de Manicoré.

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