Olá, estudante do curso Técnico em Agronegócio1 Seja bem-vindo a mais uma lição da disciplina de Produção, Serviços e Turismo rural. Na última lição desenvolvemos uma compreensão abrangente sobre a importância da infraestrutura, instalações e equipamentos no contexto do turismo rural. Vimos como podemos conceber e analisar estratégias integradas que promovam o crescimento sustentável, a diversificação de experiências e a gestão eficiente das atividades turísticas em áreas rurais.
Na lição de hoje, temos como principais objetivos destacar a importância das associações no contexto do turismo, enfatizando a colaboração eficaz, a cocriação de valor e o fortalecimento de relacionamentos entre associados para promover o desenvolvimento sustentável e o sucesso coletivo no setor. Venha nessa aventura pelo mundo do associativismo e cooperativismo dentro do setor de turismo, sobretudo o rural!
Diante das inúmeras associações existentes no cenário do turismo, surge a necessidade de aprofundar a compreensão sobre os desafios enfrentados por essas organizações e as estratégias que podem ser adotadas para superá-los. Como a gestão participativa impacta a eficácia das decisões nas associações de turismo rural? Como garantir a participação comprometida dos membros, envolvendo não apenas a governança e a administração, mas também fomentando inovações e o desenvolvimento de novos serviços?
Ao explorar o conceito de cocriação de valor, surgem questionamentos sobre como as associações podem envolver ativamente os turistas nos processos de criação de valor para proporcionar experiências personalizadas. Além disso, como essa cocriação de valor influencia não apenas a avaliação do destino turístico pelos visitantes, mas também suas decisões futuras, incluindo a intenção de revisitar o destino?
Diante desses desafios e considerando o papel das associações regionais na promoção e desenvolvimento do turismo, como essas entidades podem fortalecer seus laços, integrar-se eficazmente e enfrentar questões variadas, desde a captação de recursos até a promoção turística e conservação dos recursos naturais?
Esses e outros questionamentos nos motivam a refletir sobre o papel e o potencial das associações no contexto do turismo, buscando caminhos para otimizar suas contribuições e enfrentar os desafios inerentes ao setor. Então, vamos estudar sobre eles na lição de hoje!
O case de hoje é baseado em fatos. Há alguns anos, nas comunidades do Rio Sagrado de Cima, Canhembora, Brejumirim e Candonga, situadas na Reserva da Biosfera de Floresta Atlântica na região de Morretes no Paraná, uma história começou a surgir. Em 2006, o Instituto LaGOE iniciou uma jornada de pesquisa-ação participativa que se transformou em um exemplo vivo do impacto positivo que o estudo e a aplicação prática podem ter no contexto do agronegócio (GRIMM; SAMPAIO, 2011).
O desafio era o seguinte: conservar os modos de vida tradicionais dessas comunidades e preservar a rica biodiversidade da microbacia do rio sagrado, localizada no Sudoeste da reserva. O projeto, concebido como uma incubadora social, delineou quatro objetivos significativos. Primeiramente, buscava construir um diagnóstico participativo local da ecossocioeconomia da microbacia, integrando conhecimento científico e a sabedoria local na identificação de problemas e soluções.
Em paralelo, o projeto almejava fomentar iniciativas que servissem como um processo de ensino e aprendizagem para homens e mulheres das comunidades, complementando a educação formal e promovendo um desenvolvimento territorial sustentável. Uma parte essencial da jornada era a reconstrução de uma memória social e cultural, resgatando antigas e incorporando novas formas de intercâmbio e tecnologias sociais apropriadas (GRIMM; SAMPAIO, 2011).
O ponto alto desse esforço foi a criação de um arranjo socioprodutivo e político de base comunitária (APLTur.Com), focado na responsabilidade socioambiental. Esse arranjo englobava a extração, produção, distribuição e comercialização de uma variedade de produtos, desde artesanato e ervas naturais até alimentos derivados de produtos in natura, bem como a oferta de serviços de turismo comunitário, sustentável e solidário (GRIMM; SAMPAIO, 2011).
Escolhi trazer a você essa história inspiradora, pois ela demonstra como a pesquisa e a ação podem transformar não apenas paisagens e modos de vida, mas também as perspectivas de sustentabilidade e prosperidade em comunidades agrícolas. Vamos nos aprofundar nesse assunto?
Quando pensamos em avaliar a existência ou possibilidade de associações de turismo, vemos que já existem inúmeras associações no Brasil e no mundo. Isso porque, como já sabemos ao se unirem, as pessoas conseguem encontrar melhores condições de atuação. Seja pelo fato de diluir seus custos, ou pela parceria realizada entre os diversos atores desse processo. E não seria diferente com esse setor tão desafiador que é o de turismo.
Uma das avaliações que podemos fazer é em relação ao chamado arranjo socioprodutivo de base comunitária. Na gestão de associações no turismo, inclusive no turismo rural, é um desafio criar e manter um ambiente participativo que promova uma identidade compartilhada. Isso é crucial desde a liderança até a administração, onde a participação dos membros melhora a tomada de decisões sem cair em assembleísmo.
Segundo Sampaio et al. (2010), o termo "assembleísmo" está relacionado ao conceito de "sobredemocracia" em espanhol, indicando uma situação em que as pessoas falam muito, mas decidem pouco devido à falta de uma metodologia eficaz para a tomada de decisões. Isso destaca a importância de processos decisórios eficientes para evitar que a participação excessiva prejudique a eficácia das ações conjuntas. Essa dinâmica é particularmente relevante ao avaliar associações no contexto do turismo rural, onde a colaboração eficaz é crucial para o sucesso sustentável.
A ideia é que essa participação seja comprometida, envolvendo não apenas a governança e a administração, mas também impulsionando inovações e o desenvolvimento de novos serviços. Isso não apenas amplia a visão econômica, mas também motiva o trabalho diário, criando um ambiente cooperativo mais forte. É uma lógica econômica que impulsiona empreendedores ou organizações associadas a incorporar componentes essenciais. Isso inclui o desenvolvimento pessoal, equilibrando o trabalho produtivo (ligado à responsabilidade que leva ao reconhecimento profissional e status social, afastado de valores consumistas) e o trabalho reprodutivo (voltado para atividades domésticas e comunitárias). Além disso, a sensação de pertencimento a um grupo, comunidade ou projeto compartilhado, juntamente com a ideologia ou compromisso social, desempenha um papel crucial (SAMPAIO et al., 2010).
O Arranjo Socioprodutivo de Turismo de Base Comunitária (APLTur.Com), segundo Sampaio e Coriolano (2009), oferece oportunidades para práticas artesanais tradicionais de comunidades locais. O termo APLTur.Com combina "arranjo produtivo local" (APL), também conhecido como cluster em inglês, que destaca a perspectiva socioprodutiva, e "arranjo institucional" (AI), explorado em ciências políticas e planejamento de desenvolvimento regional, enfatizando a perspectiva sociopolítica.
As iniciativas APLTur.Com são colaborativas e articuladas, indo além da competitividade utilitarista para privilegiar ações em uma rede horizontal de cooperação. Isso reflete a complexidade da economia real, envolvendo organizações de autoprodução e comunitárias, como associações e cooperativas. Essas iniciativas geralmente se baseiam em métodos artesanais, muitas vezes negligenciados pela economia formal e reduzidos aos limites da economia informal, conforme destacado por Sampaio e Coriolano (2009). Essa abordagem promove uma visão mais inclusiva e sustentável no contexto do turismo de base comunitária.
O processo de início do APLTur.Com começa com a definição dos espaços territoriais e microrregionais que formam a rede socioprodutiva e política. Isso inclui a identificação das organizações e de suas interações dentro deste arranjo. Durante as oficinas metodológicas, é crucial convidar atores sociais que representam não apenas os aspectos sociopolíticos, mas também o comércio que abrange o arranjo socioprodutivo.
A participação de uma variedade de atores sociais nas oficinas garante uma representação abrangente do APLTur.Com, incorporando não apenas as perspectivas políticas, mas também as dinâmicas comerciais. Essa abordagem, segundo Sampaio e Coriolano (2009), é fundamental para desenvolver estratégias e práticas que atendam às necessidades tanto dos envolvidos politicamente quanto dos participantes do comércio, promovendo assim uma colaboração mais eficaz no contexto do turismo de base comunitária.
Essa forma de associação, conhecida como associação regional, de municípios ou organizações, desempenha um papel crucial na promoção e desenvolvimento da região. Para financiar suas atividades, os associados contribuem anualmente, o que permite cobrir os custos operacionais, incluindo a contratação de uma secretária executiva, entre outras necessidades.
As atribuições dessa associação são diversas e abrangentes, visando o fortalecimento dos órgãos oficiais de turismo da região. Isso inclui a sugestão de estímulos fiscais, a conservação responsável dos recursos naturais, o estímulo à produção agropecuária e industrial, a promoção de um sistema intermunicipal de transportes e comunicação, e a captação de recursos estaduais e federais para resolver questões turísticas na região.
Além disso, a associação busca integrar-se com outras entidades semelhantes, estabelecendo parcerias para fortalecer sua influência e capacidade de implementar soluções eficazes. Um aspecto importante é o estabelecimento de um plano intermunicipal integrado, proporcionando diretrizes e coordenação para o desenvolvimento turístico. A orientação aos municípios sobre materiais de divulgação turística também está entre as responsabilidades, visando promover a região de forma eficaz e atrativa para visitantes. Essa abordagem colaborativa demonstra o compromisso da associação em impulsionar o turismo e resolver desafios regionais de maneira coletiva.
O conceito de cocriação de valor, conforme discutido por Ribeiro (2023), destaca a colaboração entre diferentes partes interessadas para construir valor e gerar benefícios mútuos. No setor do turismo, essa abordagem torna-se cada vez mais relevante, com os prestadores de serviços buscando envolver ativamente os clientes nos processos de criação de valor. Isso é feito para oferecer experiências turísticas personalizadas, tornando os turistas participantes ativos no planejamento e elaboração dessas experiências.
Ao envolver os consumidores na cocriação de valor para produtos e serviços turísticos, eles ganham uma maior certeza de que o produto atenderá às suas necessidades específicas. Isso, por sua vez, influencia diretamente a avaliação que os clientes fazem do destino turístico. Além disso, essa participação ativa resulta em respostas afetivas que têm impacto nas decisões futuras dos turistas em relação aos serviços turísticos. Isso inclui até mesmo a intenção de revisitar o destino turístico.
Essa abordagem de cocriação de valor no turismo está alinhada com os objetivos de criar uma associação, conforme apontado por Sugathan e Ranjan (2019). A ideia central é unir objetivos comuns e tomar decisões de forma coletiva. Ao aplicar o conceito de cocriação de valor, as associações no turismo podem promover a participação ativa dos membros na definição de estratégias e na criação de experiências que atendam às expectativas dos turistas, resultando em benefícios mútuos para todos os envolvidos.
A associação de negócios turísticos demonstra um cuidado especial com seus associados, buscando cultivar relacionamentos saudáveis, duradouros e baseados na confiança. Esse comprometimento inato com bons relacionamentos facilita a cocriação de valor entre a associação e seus associados. O conhecimento prévio desempenha um papel fundamental na adesão de potenciais associados, e, em grande parte, isso ocorre por meio de recomendações boca a boca dos associados mais experientes, uma vez que as associações não investem muito em estratégias de marketing. Notavelmente, a qualidade do serviço é percebida de forma intensa pelos associados, pois mantêm uma relação mais próxima e íntima com a associação, uma dinâmica diferente daquela comumente observada entre hóspedes e hotéis convencionais.
O estabelecimento de relacionamentos sólidos e de confiança entre a associação e seus associados gera um sentimento de pertencimento. Esse sentimento encoraja ativamente os associados a participarem nos processos de cocriação de valor, sugerindo melhorias nos serviços e produtos oferecidos pela associação. Além disso, observamos que várias melhorias são implementadas quando há processos de cocriação de valor na associação, originados por diferentes canais, como atendimento presencial, ouvidoria, formulários de avaliação e plataformas de mídias sociais. Essa interação contínua fortalece os laços entre a associação e seus associados, promovendo um ambiente colaborativo e benéfico para ambas as partes.
Bom, na lição de hoje, vou fazer uma atividade mais colaborativa com você. Vamos aplicar os conhecimentos adquiridos na lição para fortalecer e aprimorar o papel das diversas associações no cenário do turismo. Por exemplo, quando olhamos algumas organizações reais do setor, como a ABAV (Associação Brasileira das Agências de Viagens), vemos que ela poderia aprimorar a gestão participativa e a cocriação de valor entre suas agências associadas. A implementação de estratégias que incentivem uma colaboração mais eficaz e a participação ativa dos membros poderia resultar em um ambiente mais cooperativo e inovador. Você tem algumas sugestões de como fazer isso?
No contexto das agências de viagens corporativas, representadas pela ABRACORP (Associação Brasileira das Agências de Viagens Corporativas), a avaliação do arranjo socioprodutivo de base comunitária poderia inspirar iniciativas que promovam a responsabilidade socioambiental nas viagens corporativas, incentivando práticas sustentáveis e colaborações comunitárias nas regiões visitadas. O que acha?
A ABETA (Associação Brasileira de Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura) poderia explorar ainda mais o conceito de cocriação de valor, envolvendo ativamente seus associados na criação de experiências ecoturísticas e de aventura. Essa abordagem poderia não apenas melhorar a satisfação dos turistas, mas também impulsionar o desenvolvimento sustentável nas comunidades envolvidas.
Por fim, a ABRASEL (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) poderia promover uma reflexão sobre a importância da participação dos associados na definição de padrões éticos e práticas sustentáveis na gastronomia e hospedagem, contribuindo para uma experiência turística mais autêntica e responsável.
Resumindo, lugares para aplicar os conhecimentos adquiridos na lição existem aos montes. Essas associações reais podem contribuir significativamente para fortalecer a eficácia, sustentabilidade e responsabilidade social no setor do turismo, promovendo relações éticas e aprimorando a experiência tanto para os associados quanto para os turistas. Existe, inclusive, uma delas voltada ao setor de turismo rural. Que tal pesquisar mais sobre o assunto e me encontrar na próxima lição? Esperarei você por lá.
GRIMM, I. J.; SAMPAIO, C. A. C. Turismo de base comunitária: convivencialidade e conservação ambiental. Revista Brasileira de Ciências Ambientais, n. 19, 2011.
RIBEIRO, T. de L.; DE LIMA, A. A.; COSTA, B. K.; CARVALHO, J. R. O processo de cocriação de valor entre Associação de Funcionários Públicos para Lazer e Turismo e seus associados sob a perspectiva da gerência da associação. Rosa dos Ventos - Turismo e Hospitalidade, ed.15(2), 2023, p. 288-308.
SAMPAIO, C. A. C. et al. Pensando la experiencia de cooperativismo de Mondragón bajo la mirada de la ecosocioeconomía de las organizaciones. Mondragón Bilduma: Economía Social y Cooperativismo, 2010.
SAMPAIO, C.A.C.; CORIOLANO, L.N. Dialogando com experiências vivenciadas em Marrakesh e América Latina para compreensão do turismo comunitário e solidário. Revista Brasileira de Pesquisa em Turismo (RBTUR), v. 3, 2009, p. 4‐24.
SUGATHAN, P.; RANJAN, K. Co-creating the tourism experience. Journal of Business Research, 100, 2019, p. 207-217.