Olá, caro(a) aluno(a) do ensino médio. Seja bem-vindo a mais uma disciplina do curso. Dessa vez, estamos iniciando a disciplina de Produção, Serviços e Turismo Rural do curso Técnico em Agronegócio. Temos uma longa jornada pela frente, mas se você chegou nessa disciplina é porque já percorreu algum caminho até aqui. Espero que continue tendo um bom desempenho em seu curso e que, logo mais, receba seu tão sonhado diploma de nível médio técnico.
Nesta lição, como é seu primeiro contato com a disciplina, farei uma introdução ao assunto de nossa disciplina e adentrarei em sua primeira temática. O objetivo desta primeira lição será definir o que é turismo rural, qual a sua visão e os principais conceitos que você deve aprender para melhor visualização do assunto. Te convido a vir comigo e juntos caminharmos em direção a mais uma jornada de construção de conhecimento. Bora lá?!
Neste ponto do curso, você com certeza já deve ter ouvido falar que o setor rural é um importante setor para a economia. Você também já sabe que este é um setor extremamente lucrativo, mas altamente arriscado. Talvez, o que você ainda não compreende bem são as diferentes possibilidades de exploração que este setor possui. Ao pensarmos sobre esse assunto, torna-se importante que pensemos em suas funções como meio de exploração turística, de prestação de serviços, e não apenas como função de produzir alimentos, como poderíamos pensar há algumas décadas.
Sendo assim, pense que devemos ao menos comparar e analisar a viabilidade de projetos de turismo rural como alternativas, ao mesmo tempo em que devemos avaliar seu impacto no ambiente, comunidade, atuação do produtor rural e tudo o que existe em cada região. Dessa forma, inicialmente, precisamos pensar em o que na verdade significa ou pode ser considerado turismo rural. Vamos descobrir juntos então?
Em uma reportagem publicada pela revista da Universidade Estadual Paulista - UNESP, foi retratada a situação de algumas propriedades antigas/históricas que estavam em famílias coloniais por aproximadamente 200 ou 300 anos. Essas famílias foram pressionadas a fecharem e demolirem seus prédios por falta de incentivos fiscais, apoio financeiro ou passagem de tradição familiar intergeracional.
Na reportagem intitulada “Os castelos do Café”, propriedades do estado de São Paulo enfrentavam, na época, uma situação muito próxima a que muitas outras enfrentam em períodos recentes em diversos locais: falta de apoio, falta de interesse pela parte dos novos herdeiros, falta de habilidade de gestão de negócios, aptidão para visualização de oportunidades e de gerenciamento, para que assim, através do turismo, fosse possível preservar os patrimônios culturais da humanidade, promover experiências memoráveis de turismo para a população, gerar empregos diretos e indiretos, e permitir o comércio e desenvolvimento rural local (CHRISTANTE, 2012).
A pergunta que fica com esse exemplo da lição de hoje é: quantos espaços que existem por mais de dois ou três séculos deixaremos se perder antes de tomarmos as devidas providências? Escolhi apresentar a você essa reportagem para que você já comece a ver aqui motivações para atuar nesse importante setor que estudaremos. Transformar esses locais em áreas de lazer, com piscinas, campos de futebol ou outras atividades de lazer, poderia ser considerado turismo rural e salvaria estes importantes patrimônios culturais da humanidade? Ainda que alguns possam se enquadrar como atividades de turismo rural, ainda poderia ser pensado de forma mais ampla e social, e você como Técnico(a) em agronegócio pode contribuir muito com situações semelhantes a essa apresentada!
Iniciamos nossa conceitualização com a primeira coisa que pode ter passado em sua mente ao decidir iniciar a disciplina: o que significa turismo rural?
Podemos tentar responder essa pergunta consultando a literatura disponível, mas já te adianto que não é pouca coisa. Na verdade, preciso dizer a você que talvez eu não possa te dar a resposta dessa pergunta nessa lição.
Mas como assim, professor? Não estava nos nossos objetivos responder a isso na lição de hoje? Sim, estava! Mas essa discussão também está em pauta há algumas décadas, porém ainda não há um consenso. Sendo assim, pretendo deixar aqui registrado algumas das principais respostas da literatura com relação a essa definição.
Acredito que você conseguirá compreender essa questão de não haver uma resposta concreta para a pergunta, pois ao longo do curso você provavelmente conheceu outros termos em que não há consenso, como com relação à própria delimitação do que é o espaço rural e sobre o próprio agronegócio. Assim como esses termos, definir turismo rural é realmente um assunto complexo.
De acordo com os autores Silva, Vilarinho e Dale (1998), turismo rural constitui-se como uma atividade que une a exploração econômica a outras funções, como a valorização do ambiente rural e da cultura local. Segundo os autores, não são raras as vezes que essa valorização do ambiente representa o diferencial mais atrativo da atividade. É nesse momento que começa a primeira divergência da literatura.
Isso porque, para outros autores, a realização de qualquer atividade de lazer realizada em local rural pode já ser considerada como turismo rural. Não pretendo te deixar confuso(a), mas sim demonstrar que na vida, na academia e na pesquisa científica não há problemas quando algo tem mais de um significado. Somente é necessário que cada um defenda o seu posicionamento. E é isso que os autores conceituais dominam muito bem (CAMPANHOLA; SILVA, 1999).
Isso é até curioso, não é mesmo? Porque se você prestou atenção nos autores, percebeu que nesse caso um mesmo autor entremeia as duas definições que apresentei, ou seja, participou dos dois trabalhos, porém em um defende um conceito mais amplo, englobando atividades como turismo ecológico, de aventura, cultural, de negócios, social, de saúde, esportivo e demais, desde que realizadas no meio rural, e em outro trabalho mais refinado defende apenas os conceitos que realmente destacam a atividade rural com maior peso.
Como temos uma disciplina inteira para tratar desta temática, me comprometo a apresentar a você as mais diversas definições.
Com relação às modalidades de turismo rural, as estudaremos mais para frente em nossas lições, mas adianto a você que são muitas, e as que mais se destacam no Brasil são as de agroturismo (nas quais o turista entra em contato com a atmosfera e os hábitos locais, ou seja, está presente em um local onde é praticado atividades rurais) e ecoturismo (em que se pretende conscientizar sobre locais naturais e sua preservação e da comunidade local), que, particularmente, são as que mais fazem sentido para nosso estudo em nosso curso, pelo seu papel na vida do produtor rural e todo seu potencial de geração, mas já chegaremos nestas questões. Essas informações são apenas para te deixar com curiosidade para saber o que virá nas cenas dos próximos capítulos!
Com relação ao caráter que o turismo rural deve empenhar, isto não tem muita divergência na literatura atual: tem de ser de caráter sustentável, sobretudo de origem na agricultura familiar, levando em conta o meio ambiente e a cultura local em sua composição. Sendo assim, o turismo rural se torna de extrema importância ao desenvolvimento rural de muitas regiões, desde a execução do próprio serviço rural até a criação de atividades comerciais alternativas, podendo auxiliar o produtor rural a conseguir uma renda extra em sua atividade agrícola. E, a partir disso, temos outro ponto: a participação da renda gerada pela atividade de turismo rural na renda total da propriedade ou atividade agrícola.
Esse é mais um dos embates da pesquisa, pois enquanto alguns defendem que para ser considerado turismo rural a parcela da renda deveria ser maior do que a de resultado da própria atividade agrícola da propriedade, outros autores defendem a possibilidade de o produtor rural obter essa atividade como complementar a sua renda, que continua na atividade rural tradicional. No entanto, apesar das diferentes opiniões sobre o que é o turismo rural, encontramos uma certa concordância em dizer que a atividade agrícola precede a do turismo rural, independentemente do posicionamento com relação a sua proporção!
O que acontece é que, em alguns casos apresentados na literatura, algumas regiões que despertaram interesse no turismo rural enfrentaram problemas com relação aos pequenos produtores. Eles se sentiram pressionados a vender suas propriedades para grandes incorporadoras pela valorização de suas terras, indo assim trabalhar na cidade. Tempo depois, alguns por não se ajustarem na cidade acabam por tentar voltar às suas origens, mas não conseguiram recomprar suas antigas terras pela alta de preços, e acabaram tendo que trabalhar onde anteriormente eram os donos. Isso foi retratado, por exemplo, em um trabalho feito por Teixeira (1998) na região de Friburgo, no estado do Rio de Janeiro. No estudo, esses ex-proprietários voltavam para suas antigas terras, porém agora para trabalhar, pois os locais tinham sido transformados em chácaras de recreio ou sítios de lazer, e os trabalhos executados eram como caseiros, auxiliares, vigilantes, pedreiros, entre outros serviços.
É evidente que toda atividade comercial necessita de colaboração, apoio do poder público e de diversas instituições para seu pleno desenvolvimento, e nesse caso, o turismo rural necessita igualmente desse apoio – ou talvez até em maior grau. No entanto, no caso do pequeno agricultor, já tem por condição específica a alta dependência de recursos de financiamentos e subsídios para que execute as atividades de agricultura e/ou pecuária, e isso também fica bem nítido quando se fala em transformar uma propriedade em um ambiente propício ao turismo rural.
Em resumo, podemos dizer que o turismo rural e o turismo em área rural podem ser distintos. Sua principal diferença está com relação à motivação que se dá à atividade realizada, seu empenho e integração ao meio em que se encontra situado. Enquanto o turismo no meio rural pode ser entendido como todos os movimentos turísticos que acontecem em terras tidas como rurais, o turismo rural se destina apenas àqueles em que se permitam a realização de atividade típicas da vida no campo, com possibilidade de entender os aspectos locais, realizar atividades do convívio camponês, relacionadas à montaria, à plantação, às pastagens, ao sabor dos alimentos colhidos direto da fonte, com pouco processamento, estímulo à produção orgânica, baixo ou nenhum uso de agrotóxicos, entre outros fatores.
E, particularmente falando, é esse tipo de atividade que realmente entendo como sendo do setor rural e que deveria realmente ser chamada de turismo rural, não é mesmo?! No entanto, como a ciência não é feita de opiniões, nem de relatos de experiências, ainda persiste o debate histórico. E a você, enquanto Técnico(a) em Agronegócio, cabe entender o que vem sendo discutido para repassar ao produtor rural as informações mais recentes disponíveis e auxiliá-lo nesse processo de tomada de decisão.
Chegamos à fase de aplicação de todo o conhecimento que aprendemos na lição de hoje. É claro que, como foi nossa primeira lição, a tarefa de hoje será relativamente mais fácil do que algumas que virão pela frente. Digo isto de forma franca, pois como se trata de uma construção de conhecimento, por mais que você já traga consigo conhecimentos de outras lições ou temáticas, estamos começando a definir os temas que nos acompanharão ao longo de mais um ano.
O grau de dificuldade deve aumentar nos próximos desafios propostos, mas você estará preparado para evoluir e estar apto(a) a desenvolvê-los a cada momento. Sendo assim, na lição de hoje, te convido a olhar para o agronegócio e pensar em alguma situação que o cerca ou que te cause curiosidade e anotá-la em um papel. Pense em alguma propriedade, atividade ou setor específico.
Será que alguns desses locais que você pensou agora fariam parte do turismo rural? Será que é possível empreender e transformar qualquer tipo de atividade agropecuária ou qualquer setor do agronegócio em uma oportunidade de turismo rural lucrativo? Será que já existe alguma propriedade em alguma região do Brasil que tenha tido uma ideia parecida com a sua? Como será que ela foi recebida pela população, potenciais clientes, meio ambiente, comunidade e demais fatores e atores impactados?
São tantas perguntas possíveis que eu me limito a deixar apenas essas na lição de hoje. Então, mãos à obra, porque o agro não para e a gente também não. Faça uma pequena lista, mesmo que em tópicos, e converse com seus colegas de sala sobre suas respostas e dúvidas. Vamos iniciar essa disciplina com toda a força necessária para que tenhamos um ótimo ano!
CAMPANHOLA, C.; SILVA, J. G. da. Panorama do turismo no espaço rural brasileiro: nova oportunidade para o pequeno agricultor. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE TURISMO RURAL, 1., 1999, Piracicaba. Anais [...]. Piracicaba: FEALQ, 1999. p. 9-42.
CHRISTANTE, L. Os castelos do café. Revista Unesp Ciência, n. 37, ano 4, dez. 2012.
SILVA, J. G. da; VILARINHO, C.; DALE, P. J. Turismo em áreas rurais: suas possibilidades e limitações no Brasil. In: ALMEIDA, J. A.; RIEDL, M.; FROEHLICH, J. M. (org.). Turismo rural e desenvolvimento sustentável. Santa Maria: Centro Gráfico, 1998. p. 11-47.
TEIXEIRA, V. L. Pluriatividade e agricultura familiar na região serrana do estado do Rio de Janeiro. 1998. Dissertação (Mestrado em Sociedade e Agricultura) – Curso de Pós-Graduação em Desenvolvimento Agrícola, UFRRJ, Rio de Janeiro, 1998.