Ele nunca havia conseguido definir as suas direções. Seu pensamento era uma excrescência que se ramificava indeterminadamente. Por isso era tão difícil entrar nos edifícios sociais. Havia sempre que deixar um pouco de si do lado de fora.
Amália vivia com um homem mau. Junto a ele, sua vida e a vida de seus filhos estavam constantemente ameaçadas. Apesar disso, ela podia entrever, pelo buraco da fechadura do quarto em que o homem mau a trancava, a possibilidade de estar ao sol.
Um dia, o homem mau bebeu mais do que o costume e chegou em casa com um revólver, acusando Amália de não ser a mulher com a qual sempre havia sonhado. Acusou-a também de ter lhe dado filhos fracos e desbotados, e acertou-lhe um tiro na barriga.
Por sorte, o tiro não atingiu nenhum órgão vital e Amália sabia que se recuperaria, contudo, considerou proveitoso manter-se em estado de prostração. É claro que os filhos ficaram desesperados e começaram a morrer também. Num cálculo arriscado, Amália decidiu permitir que eles morressem um pouco, mas não completamente.
Então, o homem mau, perturbado pela ideia de que seria necessário dar um fim aos cadáveres, bebeu ainda mais, vomitou e desmaiou sobre o próprio vômito, esquecendo-se de trancar a porta de Amália. Sem perder tempo, Amália agarrou os filhos e fugiu para a noite escura.
Fora da casa, a vizinha entregou-lhe as chaves de um carro. Amália instalou-se nele com os filhos e foi embora. O plano era encontrar um lugarejo pequeno e escondido o suficiente para começar uma nova vida. Uma vida saudável, em que os filhos pudessem brincar ao sol.
Mas, Amália havia deixado algo na casa do homem mau.
É fato que eles haviam saído só com a roupa do corpo, mas sempre se pode trabalhar e comprar roupas novas. Não era isso que Amália lamentava.
Junto ao homem mau, Amália havia deixado um sonho difuso, um desejo incompreendido, uma palavra calada por tanto tempo. E ela não estava certa se conseguiria viver sem isso...