A conquista de Loulé aos Mouros constitui uma página heróica da história da Humanidade, a acreditar no que conta a Crónica Inédita da Conquista do Algarve. Tanto de um lado como do outro, sucederam-se casos de bravura e de nobreza dignos de menção. E se a sorte das armas coube á hoste de D. Paio Peres de Correia, que em seguida ao cerco (de dias ou de semanas, que nisso não concordam as fontes) entrou numa cidade fantasma, memória dos factos e da lenda coube aos vencidos Muçulmanos.
Era então governador do Castelo de Loulé um mouro nascido em Tânger e primorosamente educado, desde criança, dentro dos princípios da sua religião. A par da sua convicção religiosa, era um combatente exímio e experimentado e um conhecedor dos segredos da magia. Tinha três filhas que muito amava e que se prezava de educar dentro das mais rigorosas tradições da sua terra: Zara, Lídia, e Cassima.
Duas noites antes da entrada dos cristãos em Loulé, o governador, reconhecendo que em breve a vila cairia nas mãos dos cavaleiros de D. Paio, saiu com as três filhas do castelo, por uma pequena porta. Pensava o mouro que ninguém dava pela surtida, visto estar toda a vila a descansar da atalaia constante em que vivia de dia. Não contou, porem com os cristãos que moravam fora da muralha e que de certo modo comemoravam já a conquista que D. Paio viria a conseguir. Deste modo, quando ele se dirigia com as filhas a uma fonte próxima, alguns cristãos puderam presenciar, silenciosamente a uma estranha cena. Chegando o triste grupo à fonte, as raparigas beijaram entre soluços mal contidos a barba do governador, e postaram-se todos em redor dela. Começou o homem a salmodiar umas preces muito tristes e monótonas, cheia de música pausada e doce.
Isto ouviram os cristãos, pois não tiveram coragem de se aproximar o suficiente de modo a poderem ver bem o que se passava. E espantados ficaram de ver voltar só o velho governador, de cabeça caída sobre o peito como quem chora baixinho. Ainda foram até á fonte para ver o que teria sido feito das três meninas, mas delas nem rasto.
Na noite seguinte, os mouros abandonaram secreta e silenciosamente a cidade em direcção a Quarteira, onde eram esperados por algumas embarcações que os levariam a Tanger.
Partiram ne esperança de em breve voltarem com gente suficiente para retomar Loulé, mas discórdias várias da sua raça impediram a concretização desta ideia. Assim, o velho governador de Loulé, desesperançado de desencantar as suas filhas, passeava tristemente pelas praias de Tânger, alongando o olhar em direcção á pequena fonte onde também deixara o coração.
Certo dia, chegaram a Tânger alguns cristãos prisioneiros. Entre eles vinha um carpinteiro de Loulé, que o governador imediatamente reconheceu. Posto á venda no bazar, comprou-o o mouro, esperando tirar dele alguma notícia. Hesitou muito antes de se lhe dirigir, mas, por fim, decidiu-se e pediu-lhe notícias da sua terra. E respondeu-lhe o cativo:
- Quando de lá saì, falava-se muito do encantamento das filhas do governador...
- Tu conhece-lo?
- Não!
- E o que se dizia desse encantamento? Como souberam disso?
- Parece que alguns cristãos viram o mouro sair do castelo com as filhas, em direcção á fonte. Depois ouviram uns cânticos e quando viram o governador voltar, vinha sozinho.
Uma lágrima brilhou nos olhos do velho, hesitou, e teimosa, desceu-lhe pelo rosto até se perder nas longas barbas. Reparando o mouro no ar de espantado do carpinteiro ante aquela cena, disse baixinho:
- Esse pai sou eu...
- Pois o meu amo dispõe de mim como lhe parecer!...
O mouro olhou tristemente o cativo, abanou a cabeça como quem não está certo do que fazer, e recolheu ao quarto sem dizer mais palavra.
No dia seguinte, ao sol posto, o cristão estranhou uma batida na porta do seu cubículo. Gritou que estava aberta e , surpreendido, viu entrar o seu senhor, que lhe disse:
- Estás então disposto a prestar-me um serviço?
- O meu amo manda e eu obedeço.
- Preciso que vás a Loulé, desencantar as minhas filhas!
- Por terra não sei o caminho, e por mar nunca aprendi a guiar uma almadia nem uma zabra , senhor!
- Não é preciso. Vem comigo!
Lá foi o carpinteiro com o mouro, entre curioso e medroso do que lhe iria acontecer, pois, de repente, lembrou-se de ele era conhecedor de magias. Da portada do velho viu, sobre um catre quase tão miserável quanto o seu, um par de alforges e, no meio da quadra, um alguidar cheio de água. Entraram e o governador fechou a porta dentro, virou-se para o carpinteiro e, olhando-o fixamente como que a tentar roubar-lhe a vontade , disse:
- Antes de tudo, vais jurar-me pelo teu Nazareno que cumprirás á risca o que te vou dizer!
- Juro, meu senhor, juro!
Ao mesmo tempo que tirava de uma caixa três pães, o mouro ia revelando:
- Em cada um destes pães está escrito o nome de cada uma das minhas filhas. Na véspera de S. João, á meia-noite, vai até á fonte onde elas estão e abeira-te. Deita-os então lá para dentro, dizendo alto o nome de cada uma delas: Zara, Lídia e Cassima. Depois volta para casa e esquece o assunto!
O carpinteiro ouviu atentamente as instruções do mouro, examinou os pães que estavam diferentemente marcados conforme o nome de cada uma mourinha e, fim meteu-os nos alforges.
O mouro, por seu lado, observou com satisfação o procedimento do escravo e, com voz tremula, disse-lhe:
- O mais difícil é o que se segue...
- O quê meu amo?
- A viagem.
- Pois... daqui até ao Algarve deve ser muito longe!
- Vês aquele alguidar com água?
-Vejo
- Para chegar ao Algarve basta-te prudência e diligência.
- ...
- Põe-te daquele lado do alguidar e dá um salto para trás. Se lhe passares por cima de um pulo, ver-te-ás imediatamente á porta da vila; se não conseguires, cais afogado no mar...
O carpinteiro coçou aflito a cabeça. Passaram-lhe pelos olhos a mulher, os filhos, a sua terra, dos quais tinha saudades. Mas valeria tudo isso o risco da sua vida? Para que se metera ele naquele assunto!... Havia era de pedir que fosse outro no seu lugar!... Bom, mas afinal já que tinha ido até ali, continuaria até ao fim.
E respondeu:
- És valente!
O carpinteiro aproximou-se então do alguidar com os alforges ás costas e mediu bem a distância a saltar.
Entretanto, o velho mouro ia dizendo:
- Espera um pouco, que é necessário que o sol esteja na conjunção devida. Faltam apenas dois minutos.
Mas, entretanto, quero que saibas que se desencantares as minhas filhas serás recompensado de muitas maneiras.
- Senhor?...
- O que é mais?
- Andarei muito tempo no ar?
- Já vais sabe-lo. É agora, salta!
Agarrado aos alforges que continham os pães, o carpinteiro saltou e desapareceu.
Dirigiu-se o mouro á mesquita, onde ajoelhou frente ao nicho que há em todas as mesquitas e representa a porta do templo de Meca, chamada alquella, e, durante muito tempo, ali ficou recolhido em oração. Tão embebido estava que não deu pelos outros muçulmanos que por ali passavam, dizendo:
- Está em oração o Çala bem Çala (o justo dos justos)!
Quando por fim o velho se levantou, todos se curvavam á sua passagem, porque ele era um homem muito respeitado, quer pela sua fama guerreira, quer pela fé viva e quem sabe se também pela infelicidade.
Enquanto isto se passava em Tanger, o carpinteiro atravessava os mares como uma águia e pousava ás portas de Loulé, pela madrugada.
Sentou-se numa pedra a acalmar o coração e a retomar o folego, enquanto não abriam as portas da vila. Rompeu então o sol, maravilhoso globo de fogo e rosa luminoso saindo da terra sem ruido, sem angústia. Abriram-se as portas, o homen encaminhou-se para casa e bateu á porta.
A mulher, ao abri-la, ficou tão perplexa de o ver que deu um grito que alertou toda a vizinhança. Veio gente ás portas e postigos e, em breve, o homem que chegara de Tanger estava rodeado de gente a querer saber o que por lá passara.
Quando, por fim, o carpinteiro pode respirar, livre de toda a gente, subiu ao sótão onde guardava velhas alfaias e, numa velha arca, escondeu os alforges com os pães. E dali foi a sua vida, ocultando cuidadosamente com quantas mentiras arranjou os factos reais ligados ao seu retorno.
Passaram-se muitas semanas, pois que o tempo de S. João ainda estava longe. Todos os domingos o carpinteiro, se dirigia á fonte, na esperança de vislumbrar algumas das mouras que lhe habitavam as profundezas. Quando a noite chegava e cobria mansamente a terra, o homem voltava a casa, subia ao sótão e, abrindo a arca, longo tempo se quedava olhando os pães que trouxera.
Tantas vezes repetiu este ritual que a mulher, desconhecedora de tudo e cada vez mais curiosa, decidiu aproveitar numa tarde de domingo, em que ele saíra como sempre, para bisbilhotar a arca. E quando abriu a arca, viu espantada, apenas três pães frescos, imaginou que deviam encerrar uma fortuna qualquer que o seu homem lhe esconderia. Pegando então numa faca, enfiou num deles e viu, atónita, correr um fio de sangue. Cheia de medo escondeu o pão entre os outros, fechou a arca e saiu dali á pressa Nessa mesma altura, o carpinteiro, debruçado na fonte, ouviu um grito de tão grande lancinancia, vindo lá do fundo, que lhe puseram os pelos em pé. Voltou para casa procurando em si uma resposta para o fenomeno, inquieto com a desgraça – mas qual ? – que adivinhava e não podia socorrer.
E a mulher nada contou ao marido.
Chegou finalmente a noite de S. João. Cristãos e mouros iniciaram os festejos, que durariam toda essa noite e o dia seguinte. Irmanados na mesma força telúrica e orgiastica que simboliza o apogeu da natureza feita fruto. Nessa noite, porem o carpinteiro não festejou. Mal escureceu, partiu para fonte e sentou-se encostado ao muro, esperando a meia-noite, silencioso e solitário. Levava consigo os três pães que lhe dera o velho mouro, a essa hora tão ansioso como ele, certamente.
Chegada o hora tirou dos alforges o primeiro pão, atirou-o para a fonte e gritou:
-Zara!
Imediatamente começou a formar-se no fundo da fonte uma espécie de globo de espuma, de névoa, de indefinido, que subiu, subiu, e passou por ele como um sonho bom que se esquece.
Atirou o outro e gritou:
- Lídia!
O mesmo fenómeno se repetiu.
Atirou o terceiro e disse:
- Cassima!
Um grito imenso lhe respondeu como se toda dor do mundo se tivesse concentrado naquelas aguas impávidas e serenas.
Repetiu, convicto:
- Cassima.
Um marulho de aguas afastadas e aflitas foi a resposta. Depois sentiu, mais do que ouviu, um gemido e, de súbito, nas bordas da fonte surgiram duas mãos e atrás delas um corpo, uma mulher formosa.
- O que é isto?!
- Sou eu, Cassima, condenada a esta fonte por séculos e séculos.
- Mas … e porquê?!
- Porque a tua mulher, de um golpe, me cortou a perna direita.
- A minha mulher?…Mas ela não sabia o que fazia!
- Sei disso! Foram os fados que assim o quiseram! Ela foi apenas o instrumento. Mas se não fosse tão curiosa…
- E contudo está inocente…
- Acredito! E para veres que não lhe quero mal, ofereço-te este cinto. Ela vai ter um filho em breve. Nessa altura cinge-a com ele.
E ofereceu ao carpinteiro o seu belo cinto matrimonial, feito de ouro e pedras preciosas. Depois, entre gemidos deixou-se escorregar até ao fundo da fonte, seu horizonte sem fim.
Triste com o fadário de Cassima, o carpinteiro voltou lentamente para casa, o cinto na mão. Depressa esqueceu a moura, porem porque conforme ia olhando o cinto, o sentido fugia-lhe para o efeito que faria na mulher. E decidiu ver como brilhariam á luz da lua todas aquelas pedras maravilhosas.
Olhando em volta, viu um enorme e secular carvalho e, achando que o tronco era bom para o efeito que desejava, cingiu-o com cinto e foi-se por a alguma distancia para observar o reflexo do luar nas pedras. Qual não foi o seu espanto, porem, quando começou a ouvir um som surdo e rouco, vindo das profundezas da terra, enquanto a arvore desatava a subir, a subir até desaparecer no ar.
Cheio de terror, persignou-se e correu dali para fora em direcção a casa, onde se fechou bem aferrolhado, não fosse acontecer-lhe alguma desgraça. E durante muitas semanas manteve-se sossegado, esperando contudo a prometida paga pelo serviço que prestara ao velho mouro.
Passados alguns meses, estava já quase esquecido o assunto, atravessava o carpinteiro o largo da praça de Loulé, quando viu do outro lado uma mulher que lhe acenava. Não a reconhecendo, tentou aproximar-se, saltando para o efeito a valeta que ia cheia de agua. Imediatamente se sentiu elevar nos ares á velocidade de um tufão, e quando deu por si estava a cair, ileso, no bazar de Tanger. Cheio de medo, sentiu-se agarrado por vários mouros que o reconheceram e o levaram ao velho governador de Loulé.
Nessa altura, o carpinteiro deu-se conta de que a mulher que lhe acenara na praça de Loulé era a moura Cassima, que assim procurara vingar-se pela segunda vez!
O velho governador, quando encarou o homem que os mouros lhe levavam, empalideceu subitamente. Mandou-os embora e, a sós com o carpinteiro, perguntou-lhe rudemente:
- Que fizeste com a minha Cassima, infiel?
- Meu senhor, não tive culpa!
- Bem sei, bem sei, tinha de ser! As outras duas casadas e felizes…só a minha Cassima ali, para sempre, eternamente numa fonte! Felizmente que não ficará só!!
Intrigou-se o carpinteiro com esta ultima exclamação. Ele sabia que naquela fonte Cassima estava só, mas a verdade é que muitas vezes ouvira os conterrâneos dizerem que várias mouras tinham ficado encantadas nas proximidades de Loulé. Assim arriscou:
- Então, há mais infelizes encantados?…
O governador, revirando os olhos como quem entra em êxtase, murmurou baixinho, como quem fala só para si:
- Enquanto existir Al-Fagar nele palpitará um mundo de corações sarracenos…
Depois exclamou bruscamente:
- Sai da minha frente, infiel!
- Para onde, senhor?! A minha família é pobre e não poderá resgatar-me! Depois… não sei o caminho de volta e tenho medo!
- Tens razão, cristão! Tenho uma divida contigo e vou paga-la! Nunca se dirá que um velho crente não cumpre as promessas que faz!
Nessa noite, por ordem do ex-governador de Loulé, o carpinteiro embarcou num navio veniziano que se fez á vela para Faro. Diz-se que chegou tão rico á sua terra que comprou todas as terras e hortas ás quais pertencia a fonte de Cassima. Outros, porém, crêem que depois que o carvalho foi arrancado pela raiz o homem nunca mais voltou á fonte.
A verdade? Que interessa?! Seja ela qual for, a única certeza é que a moura Cassima, passados tantos cem anos, ainda hoje, quer nas rudes noites de Inverno, quer nas noites meigas de verão, chora tristemente o seu encantamento nas encantadas terras de um Al-Fagar perdido.
E como ela muitas outras.