Há muito, muito tempo atrás, as bagas profundamente vermelhas da amoreira, eram brancas como a neve.
Dois jovens, ele o mais belo e ela a mais encantadora donzela de todo o Oriente, viviam na Babilónia, em casas tão juntas que uma das paredes era comum a ambas. Foram crescendo lado a lado e aprenderam a amar-se mutuamente.
Queriam casar mas os pais não o permitiam. Sabemos que o amor não pode ser proibido e quanto mais coberto é, mais a chama do fogo atiça. Alem disso, o amor é capaz de arranjar sempre uma solução para obter o pretendido.
Consideravam impossível continuar separados, cujos corações transbordavam de amor. Naquela parede que ambas as casas partilhavam havia uma pequena fenda. Não há nada que um apaixonado não descubra, quando procura um meio de estar o mais próximo possível do ser amado.
Os dois jovens descobriram-no através dela, sussurravam doces palavras de amor, ele de um lado e ela do outro. Todas as manhãs á hora em que o alvorecer apagava o brilho das estrelas e os raios do sol já tinham absorvido a geada dos campos, dirigiam-se a passo furtivo até junto da fenda e ai ficavam em doces murmúrios.
Chegou o dia, contudo, em que já não podendo resistir por mais tempo resolveram esquivar-se nessa mesma noite e atravessar a cidade ás escondidas até ao campo, onde finalmente poderiam estar juntos sem qualquer embargo.
Combinaram encontrar-se num lugar bem conhecido junto de uma amoreira carregadinha de bagas brancas como a neve e perto da qual havia uma fonte. O sol mergulhou no oceano e as trevas envolveram a terra. Na escuridão, ela saiu no maior silêncio dirigindo-se para o local aprazado.
Ele ainda não tinha chegado; não obstante ela ficou á espera dele. De repente, porem, distinguiu o vulto de uma leoa. O animal tinha morto alguém - trazia as patas ensanguentadas...vinha saciar a sede na fonte. A jovem conseguiu pôr-se a salvo, mas ao fugir, apanhada de surpresa, deixou cair a capa.
Quando a leoa regressou ao covil, fez a capa em pedaços, antes de desaparecer no bosque. Quando ele chegou alguns minutos depois, na obscuridade, vê os farrapos ensanguentados da capa e as pegadas nítidas da leoa.
Era inevitável a conclusão - ela tinha sido morta. Ele considera-se culpado por ter deixado o seu amor vir sozinha para um lugar tão cheio de perigos. Levanta os restos da capa, espezinhados, e beijando-a mais uma vez, levou-a para junto da amoreira. Completamente tresloucado, arranca a espada e espeta-a no coração. O sangue a espargir tingiu as bagas de vermelho escuro.
Entretanto, ela ainda aterrorizada pela leoa, resolveu regressar para junto da árvore, o local para o encontro marcado, a amoreira de cintilantes frutos brancos. Não o encontrou, viu na verdade uma arvore, sem que o brilho branco se deslumbrasse nos ramos. Perplexa, fitava a planta e alguma coisa se mexia no chão. Horrorizada, espreitando por entre as sombras certificou-se de que ali havia alguém.
Era ele banhado de sangue, prestes a expirar. Voou para ele e enlaçou-o, beijou-lhe os lábios frios, implorando-lhe que a olhasse e que lhe falasse, "Sou eu a tua amada!", exclamou a chorar. Ouvindo pronunciar a sua voz, ele entreabriu os olhos para a contemplar pela vez derradeira.
Ela viu a espada que caíra da mão dele, ao lado, a sua capa toda manchada e esfarrapada. Assim compreendeu tudo. Exclamou "Também sei amar, só a morte seria capaz de nos separar!" e mergulhou no coração a espada ainda húmida do sangue da sua vida.
O fruto escuro da amoreira é o único testemunho perpétuo desses verdadeiros apaixonados, cujas cinzas se encontram reunidas numa única urna, pois nem a morte conseguiu separa-los.