Mas, o que é de fato a adultização? Esse conceito significa o encurtamento da infância — quando crianças e adolescentes são expostos cedo demais a comportamentos, linguagens e responsabilidades que não combinam com a idade deles.
Essa realidade está bastante conectada ao excesso de telas e à hiperconectividade. A presença intensa no ambiente digital não afeta apenas a saúde mental — impacta também a atenção e a construção da identidade desses jovens. Ou seja, quanto mais tempo passam online, sem uma supervisão cuidadosa, maior o risco de contato com conteúdos que não são adequados para a idade.
"Nada mais é do que você acabar quebrando o ciclo da fase da infância dessa criança. A partir do momento em que a gente quebra o ciclo desse desenvolvimento, e faz essa criança ou adolescente entrar em um contexto adulto, a gente está colocando essa criança no processo de adultização", explica Michelly Antunes, líder do programa Nossas Crianças, da Fundação Abrinq.
Esse processo pode acontecer de várias formas: seja ao sobrecarregar a criança com tarefas de adulto — como torná-la responsável por cuidar dos irmãos ou ajudar nas finanças de casa —, ao impor uma cobrança excessiva sobre desempenho escolar ou esportivo, ou ainda ao permitir que ela tenha acesso a conteúdos inadequados para a idade dela, como vídeos sexualizados.
✔️Não confundir autonomia com adultização
Guilherme Polanczyk, professor da Faculdade de Medicina da USP, afirma que muitos pais têm a ideia de que acelerar o desenvolvimento de uma criança pode torná-la mais madura.
"A gente vê isso em crianças muito pequenas, com um ano e meio, que os pais querem tirar fraldas [...] Muitas vezes, têm a tendência [dos pais] de ficarem orgulhosos quando os filhos eventualmente não querem mais brincar. 'Não, ele não gosta mais de brinquedo, só gosta de videogame'. Ou quando as crianças deixam de brincar e vão para as maquiagens."
Mas, segundo Polanczyk, pular etapas não é saudável. Isso porque o nosso cérebro evolui conforme nos desenvolvemos — e, nos primeiros anos de vida, ainda não estamos preparados para lidar com pressões, tarefas e emoções que não são adequadas para nossa idade.
"Passar por todas as etapas do desenvolvimento, elaborar bem, vivê-las, certamente vai tornar alguém mais emocionalmente saudável, inteiro, e com mais recursos lá na frente."
✔️Os efeitos da adultização
Esse fenômeno de adultização vem sendo estudado há mais de 100 anos. Um relatório do Comitê Interdepartamental sobre Deterioração Física, produzido pelo governo britânico em 1904, já alertava para os efeitos negativos da adultização das crianças.
Com o passar dos anos, novos estudos revelaram que pessoas submetidas à adultização têm mais chance de sofrer de ansiedade, depressão, dificuldade de socialização, falta de empatia, problemas no processo de aprendizagem e dificuldade de atenção.
E quando esse processo envolve questões relacionadas à sexualidade, como acesso a conteúdos pornográficos, ou comentários sobre o corpo, pesquisas também observam prejuízos relacionados à autoimagem, à autoestima e ao risco de uma sexualização excessiva.
Ou seja, a adultização não apenas prejudica a pessoa no início da vida, mas acarreta consequências graves para a fase adulta.
✔️O papel da internet
Embora a adultização seja um fenômeno antigo, ela ganhou uma nova dimensão com as redes sociais. Com acessos mais frequentes às telas e à internet, as crianças passaram a ter contato com muito conteúdo — e, muitas vezes, viraram elas próprias criadoras e influenciadoras nas redes sociais.
A pesquisa recente, TIC Kids Online Brasil, realizada pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), mostrou que 93% dos brasileiros entre 9 e 16 anos, ou seja, mais de 24 milhões de crianças e adolescentes, são usuários da internet. E, desses 24 milhões, mais de 20% já acessaram a internet antes de completarem seis anos de idade.
Esse acesso precoce não vem sem consequências. Segundo Guilherme Polanczyk, da USP, as redes sociais desempenham um papel significativo na formação de desejos das crianças. A busca por curtidas, comentários e compartilhamentos pode gerar alterações importantes no cérebro.
Pesquisas científicas indicam que a constante exposição às redes sociais ativa o circuito de recompensa do cérebro — e, em algumas pessoas, pode provocar uma enxurrada de dopamina, um neurotransmissor ligado ao bem-estar.
Esse mecanismo pode ser altamente viciante — já que a dopamina gera o desejo de repetir a experiência, com mais frequência e mais intensidade —, ainda mais em crianças, cujas estruturas cerebrais ainda estão em formação.
✔️Como identificar uma criança 'adultizada'
O neuropediatra Anderson Nitsche afirma que há sinais que os pais podem identificar em uma criança que passa por esse processo de adultização.
"Um deles é uma irritabilidade mais frequente, qualquer coisa irrita e ela fica brava, responde de forma grosseira, inapropriada. Tem também um certo embotamento, fica mais reclusa da própria família, a escola começa a reclamar que ela não brinca mais tanto com as outras crianças", destaca.
No caso de exposição a conteúdos sexualizados, Nitsche afirma que as crianças costumam falar mais sobre o assunto e dizer palavras e jargões que são usados por adultos.
"Isso normalmente acaba impactando o próprio rendimento escolar."
Segundo especialistas, caso os pais ou responsáveis percebam esses sinais, é importante observar se algo pode ser mudado no dia a dia pra garantir que a criança volte às fases de desenvolvimento esperadas pra idade dela. Isso envolve menos cobranças ou mudanças na forma de conversar e abordar temas sensíveis em casa. Buscar a orientação de profissionais da saúde, como pediatras ou psicólogos, também pode ajudar nesse processo.
✔️Como proteger as crianças
Do ponto de vista coletivo, há uma discussão sobre como proteger os jovens do ambiente digital. Evelyn Eisenstein, coordenadora do Grupo de Trabalho Saúde Digital da Sociedade Brasileira de Pediatria, defende a elaboração de políticas públicas e legislação para lidar com o tema.
"Criança nenhuma é robô, criança nenhuma é objeto de algoritmo. Temos que ter lei. Tem que ter moral, tem que ter limites. Então, uma vez que nós temos uma lei, as pessoas sabem como vão ser responsabilizados e a gente vai saber até onde vai."
Vários projetos de lei sobre o assunto foram apresentados nos últimos anos. Atualmente, o que está mais avançado é o PL 2628, que já foi aprovado no Senado Federal e estabelece deveres de cuidado das plataformas digitais com os mais jovens, a remoção de conteúdos que violem os direitos dos menores de idade e a criação de mecanismos de controle parental.
"Nesse momento, existe um movimento internacional de regulação das mídias, do que nós chamamos de big techs. Estamos falando em problemas de saúde pública. Então temos que ter uma regulação. Os pais precisam entender do que se trata. A escola precisa entender do que se trata", afirma Evelyn Eisenstein.
Este e outros temas fazem parte da “👨👩👦👦 Escola de Pais MS”, um espaço dedicado ao compartilhamento de informações e reflexão sobre assuntos relacionados à educação e que estão presentes em nosso dia a dia, há mais de 40 anos.
Acompanhe e mantenha-se atualizado!