Este vídeo alega que é possível, da altitude de um voo comercial (30-35 mil pés) ver acidentes geográficos situados a 500 milhas (800 km) de distancia. Sabemos, pelo modelo esférico da Terra, que a partir dessa altitude o horizonte se encontra a cerca de pouco mais de 220 milhas de distancia do observador. Portanto, se a alegação do vídeo for correta, isso seria uma prova da planicidade da Terra. Ou pelo menos, de que o seu raio não seria cerca de 6300 km, mas sim cerca de 13 mil km.
Como mostramos a seguir, a alegação é infundada.
O vídeo consiste de duas partes: uma introdutória onde se resume o que foi encontrado, e a seguir o vídeo, quase contínuo, aparentemente sem cortes, do voo entre Los Angeles (Califórnia) e imediações de Phoenix, Arizona, quando o vídeo é interrompido, aparentemente pela entrada de nuvens.
O vídeo foi feito com uma câmera não especificada, provida de um filtro infra-vermelho que remove a região do espectro eletromagnético abaixo de 900 nanometros. Isso permite um maior contraste e portanto maior alcance ao longo da linha de visada. O fator de zoom da câmera é 60 X, com uma distancia focal do lado curto, pequena o suficiente para que se possa distinguir a curvatura do horizonte. O que é irônico, em um trabalho que pretende provar que a Terra seria plana.
Tanto o espalhamento de Rayleigh quanto a absorção por aerossóis e partículas são menores na região do infra-vermelho, daí a vantagem de um sistema desses para fazer imagens de alvos muito distantes e a baixa altitude, como é o caso do horizonte. O autor menciona que o filtro é centrado na região de 950 nanômetros. Essa região espectral é grandemente afetada pelo vapor de água na atmosfera. Portanto, a câmera tem boa capacidade de penetração no ar limpo e em situações de névoa seca, mas em ar úmido a transparência fica muito reduzida. Podemos também esperar que nuvens compactas vistas `a distancia apareçam com grande contraste. Esse é um dos fatores que contribui contra a alegação do autor, como mostramos a seguir.
A imagem do teodolito que o autor publica não pode ser confirmada com nenhuma outra imagem do horizonte visto de altitude através de um HUD (Heads Up Display) de aeronaves comerciais. O HUD produz uma referencia de nível dos olhos, a linha verde contínua e horizontal nas imagens ao lado. O ângulo de queda do horizonte observado, situa-se na faixa de 2,5 a 3 graus, nas altitudes de cruzeiro de aeronaves comerciais. Que é o valor calculado com o modelo esférico da Terra com cerca de 6330 km de raio. Bem diferente do 1,9 graus obtido pelo autor. Note a linha horizontal, e a escala angular vertical (pitch ladder) que permite medir o ângulo de queda do horizonte no HUD.
Um aplicativo que gera um inclinometro, instrumento simples usado em obras civis, também mostra a queda do horizonte a partir de altitude, como na imagem ao lado (eu mesmo fiz, com um iPhone, voando a 3 km de altitude). Novamente, em desacordo com as alegações do autor.
O resultado do experimento se resume a estas imagens. Os alvos apontados são indistinguíveis de nuvens. Não se pode afirmar que sejam montanhas. Especialmente com a presença de nuvens em toda a área.
A escala não obedece `as leis da perspectiva.
Fazemos aqui uma análise do vídeo para verificar de forma independente a veracidade das linhas de visada e distancias alegadas pelo autor.
Para isso, acompanhamos o vídeo em paralelo com o Google Earth, identificando marcos geográficos quando possível. Com isso, e com a marcação temporal no vídeo, é possível estabelecer a velocidade do avião. É também possível traçar a rota real seguida pelo voo, com um certo grau de precisão. E identificar as linhas de visada usando os marcos geográficos e a própria estrutura do avião (asas e janela) como referencia angular.
A reconstrução da rota, até o ponto de primeira visada ao Humphrey's Peak, é esta:
Os marcos geográficos usados, e os instantes onde são visíveis do avião, foram:
Velocidades variando dessa forma são normais, especialmente quando deixando uma Terminal Area, zona em torno de grandes cidades onde o tráfego aéreo é bem denso. Nessas áreas, existem limites de velocidade, tipicamente 300 mph. O controle de trafego aéreo está o tempo todo enviando solicitações `as aeronaves na região, e mesmo em outros pontos da rota, para que acelerem ou retardem a velocidade, para conseguir manter todas aeronaves dentro dos limites permissíveis de distancia uma da outra.
A visada ao Humphrey's Peak com os alvos vistos atrás dele ocorre aos 45:25 minutos do vídeo. Isto é, 4,7 minutos após a passagem sobre Blythe. Usando as velocidades de 520 e 600 mph, determinadas anteriormente, podemos determinar limites para a região de onde a visada teria ocorrido: entre 40,7 ou 47,0 milhas , respectivamente, de Blythe. Esses pontos estão indicados ao final da rota no mapa acima.
A visada aparece no mapa abaixo. Esse resultado está de acordo com o mapa apresentado logo no início do vídeo (0:50).
Durante a visada na direção do Humphrey's Peak, o avião se move, fazendo as posições relativas do pico e dos alvos variarem devido `a perspectiva variável. A análise dessa ocorrência nos permite estabelecer de forma independente as distancias a que esses alvos estariam do observador.
O que permite a calibração das imagens é a superposição de um pico específico no complexo do Humphrey's Peak, com os alvos. As imagens abaixo mostram dois fotogramas do vídeo, ocorrendo com 11 segundos de intervalo. Veja como os alvos ao fundo se moveram para a direita. Isso é o esperado pela perspectiva, devido ao movimento do avião ser da esquerda para a direita, e os alvos estarem por trás do pico.
Fotograma 45:27, objeto sobre o pico `a esquerda.
Fotograma 45:38, o mesmo objeto, agora sobre o pico `a direita.
Em 11 segundos, o ponto de observação se move de 1,6 a 1,8 milhas para a direita (dependendo de qual velocidade adotamos para o avião).
Outro dado importante é a separação entre os dois picos usados como referencia. Não a separação física, mas a separação projetada na direção perpendicular `a linha de visada. Essa separação pode ser obtida a partir do Google Maps, como no mapa abaixo:
No mapa, as tres setas indicam os tres picos principais, e a linha amarela é a linha de visada. O segmento vermelho corresponde `a separação entre os dois picos mais `a direita, projetada na direção perpendicular `a visada. Esse segmento tem 0,81 milhas de comprimento.
Sabendo que a distancia do observador ao Humphrey's Peak é de 180 milhas, podemos calcular por homologia de triângulos a distancia em que se encontram os alvos por trás do Humphrey's Peak. O resultado é 145 a 180 milhas (dependendo de qual velocidade adotamos para o avião).
Isso faz a distancia entre o ponto de observação e os alvos ser de 320 a 360 milhas (dependendo de qual velocidade adotamos para o avião), bem menor do que as alegadas 450 milhas.
O mapa abaixo mostra como a distancia é insuficiente para explicar os alvos como sendo as montanhas do Colorado.
Se supomos, a título de demonstração por absurdo, que a distancia aos alvos é mesmo 450 milhas, precisaríamos que a velocidade do avião fosse cerca de 30% maior, algo da ordem de 780 mph, para explicarmos o movimento dos alvos por trás do Humphreys' Peak. Jatos comerciais, especialmente os usados em rotas domésticas como esse do vídeo, não ultrapassam 600 mph. Isso é corroborado pelas determinações de velocidade do avião derivadas do próprio vídeo.
Portanto, a alegação de que os alvos são as montanhas do Colorado, não é compatível com os dados extraídos do próprio vídeo. Tudo indica que sejam nuvens. A região está repleta de nuvens de grande altitude (cirrus), que são nuvens que tipicamente ocorrem em torno de 10 km. de altitude. Estas aí no vídeo estão situadas numa distancia tal que são perfeitamente visíveis, mesmo com a curvatura da Terra. O conversor infra-vermelho contribui para melhorar o contraste, tornando visíveis nuvens que normalmente não o seriam se olhadas na região visual do espectro.
Uma segunda visão de alvos `a distancia, que o autor apresenta como sendo visão das montanhas do Colorado, acontece em torno do minuto 50 do vídeo, quando sobrevoando Phoenix, Arizona. A partir da identificação feita anteriormente, podemos fixar a posição dos alvos identificados no Google Earth e navegar até Phoenix. O que obtemos é a figura abaixo. A linha amarela da direita é a que liga o ponto de observação aos alvos identificados anteriormente. A linha da esquerda liga o ponto de observação ao lago Pleasant. Esse lago serve como uma conveniente referencia angular: ambas as linhas amarelas fazem o mesmo ângulo com a mediana da imagem, que corresponde `a rodovia Interstate 70., que segue precisamente a direção Sul-Norte.
A seguir, comparamos a figura da direita, acima, com o vídeo. Usando a simetria entre os dois ângulos em relação `a direção Sul-Norte sobre Phoenix, e a identificação do lago Pleasant, podemos superpor as linhas de visada até o lago e até os alvos, como na figura acima, obtendo assim o ponto no horizonte (azimute) onde os alvos identificados anteriormente estariam. O vídeo confirma (imagens abaixo) que os objetos alegados pelo autor como sendo as montanhas do Colorado, são na verdade os mesmos alvos identificados anteriormente. Estão bem próximos da posição azimutal em que os identificamos, portanto não estão no Colorado, mas bem mais próximos em distancia.
As mesmas duas linhas de referencia amarelas da figura anterior, agora projetadas sobre fotograma do vídeo.
A seta indica o ponto onde a linha amarela da direita cruza o horizonte. Note a presença dos alvos nessa mesma posição.
O zoom que ocorre nos segundos subsequentes é o que o autor usou para alegar que estava observando as montanhas distantes no Colorado.
Se traçarmos a linha de visada do avião até as montanhas do Colorado, elas estariam no ponto identificado pela seta da direita. Esse ponto é identificável usando a mesma técnica usada anteriormente, e a asa do avião como referencia. Nada aparece ali, mostrando que o autor erra ao identificar as nuvens no horizonte com as montanhas.
As alegações apresentadas neste vídeo em favor de uma suposta planicidade da Terra, são inválidas. Dois tipos de alegações foram feitas:
- uso errado da lei de refração de Snel;
- uso inválido das leis de perspectiva;
- interpretação errada na maneira como o modelo do globo terrestre preve o comportamento do horizonte quando visto de altitude;
- inabilidade em interpretar imagens feitas no infra-vermelho próximo.
A analise apresentada na Parte 2, mostra que as alegações no vídeo não são verdadeiras. Podemos afirmar isso baseados em duas identificações independentes dos alvos alegados pelo autor. Em ambas identificações, o autor comete erros na linha de visada. Em um caso, erro na distancia, no outro caso, erro no apontamento. Os alvos são apenas nuvens vistas a uma distancia compatível com a curvatura da Terra.