Um dia, já lá vão mais de vinte anos, a propósito de uma reportagem que tive de elaborar para a TSF, procurei antigos combatentes na guerra colonial portuguesa, na zona centro norte do país. Falei com algumas dezenas de soldados.

De entre eles, um já "entrado" ex-fuzileiro da marinha de guerra portuguesa que havia sido dos primeiros a ir para "Angola em Força" logo no principio da guerra, aí por 1962.

Das histórias que me contou houve uma que não pude deixar de fixar: Fazendo patrulha a bordo de um barco da marinha no rio Kwanza, quando este se embrenha no meio da floresta densa, ele - este velho fuzileiro - e os cerca de dez colegas que seguiam a bordo, de repente sentiram movimento estranho na floresta á beira-rio.

Alerta, viraram-se todos para o local e puderam, disse-me, avistar a estranha coisa que parecia ser meio mulher meio peixe a mergulhar nas profundezas do rio.

O que aconteceu por mais de uma vez, mas não muitas vezes, como teve ocasião de repetidamente reafirmar.

Pouco à-vontade com o relato, na expectativa de que eu o fosse achar meio doido...

Ao longo da vida tenho-me habituado a respeitar o que os outros me contam sem quaisquer juízos de valor.

O que quer que aqueles soldados tenham visto, mesmo que resultado de ilusão de óptica, ou de qualquer outro tipo, ficou nas suas mentes como, na realidade, sendo algo meio mulher meio peixe. Isto é, sereias. Nome que não referiu porque certamente demasiado erudito para ele que olha as coisas da forma mais simples em que os nomes pouco ou nada importam.

Não sei se acredito em sereias no sentido mítico do termo. A tal mulher, meio mulher, meio peixe.

Mas vivendo nos Açores faz muito tempo não posso, de quando em vez, deixar de olhar o mar que envolve estas ilhas de bruma e ficar na expectativa de ver uma mas, mais do que isso, de poder ouvir o seu canto que dizem ser mágico...especial.

Cada um é para o que lhe dá.

Por isso, quando tive de escolher o nome para o blog lembrei-me desta velha história que, a ser verdadeira, coloca no plano real a existência das sereias.

Se elas existem então, por certo, terão poucos habitats tão perfeitos como estas ilhas encantadas no meio do mar.

E juntariam, por certo, a lenda das suas existências a muitas outras que se entrecruzam entre os homens a terra e o mar...