Aqui parte da equipa da segunda edição do Sem Margem. Eu, sentado, o Júlio Carvalhal, a Maria de Deus e a Maria Júlia Guerra que, sem fazer parte da equipa, gostava de aparecer para dar apoio moral
Em 1980 o ambiente político em Portugal estava num dos pontos mais altos da sua crispação só suplantada pela que se tinha vivido no PREC.
Depois da queda do primeiro Governo Cosntitucional de Mário Soares, depois de uma moção de censura aprovada na Assembleia da República, seguiu-se novo governo soarista em parceria com o CDS e que durou sensívelmente um ano depois de Freitas do Amaral ter decidido abandonar a coligação.
Seguiram-se os governos de iniciativa presidencial promovidos por Ramalho Eanes, primeiro com Nobre da Costa que não conseguiu fazer passar o seu programa na Assembleia da República, vieram Mota Pinto, que trouxe consigo uma eminência parda que paira até hoje, Proença de Carvalho, e que acabaria também por caír. Decidiu Ramalho Eanes convocar eleições para Janeiro do ano seguinte e nomeou Maria de Lourdes Pintasilgo Primeira Ministra até essas eleições naquele que ficou conhecido como o "Governo dos 100 dias"
Durante este curto reinado de uma das mais inteligentes mulheres que conheci em toda a minha vida deu-se o regresso à RDP do José Manuel Nunes para assumir o cargo de director de programas procedendo-se então à elaboração de uma grelha de programas que supostamente entraria no ar em Março de 1980.
Contudo, pelo meio, realizaram-se as eleições e a AD, de Sá Carneiro e Freitas do Amaral, ganhou as mesmas e lá vieram novamente as habituais mudanças de estruturas na RDP. Afastado do cargo José Manuel Nunes migrou para as "Orquestras" e para o seu lugar foi nomeado director Oliveira Pires coadjuvado, como chefe de departamento, por Maria Leonor.
A grelha esboçada para Março ficou no papel e os novos senhores "tomaram" de assalto a RDP olhando com muita desconfiança para os que faziam parte da tal grelha de programas que não passou de um esboço inconsequente. O novo poder olhava para eles como uns "esquerdalhos" que era importante afastar.
Esquerdalho eu? Talvez uma vez que estas coisas se medem por bitolas subjectivas. Resultado fiquei sem trabalho. Era pago para...não trabalhar...aquilo já me andava a chatear e negociei a minha ida para Cabo Verde. Quando fui ter com a Maria Leonor a dar-lhe conta da minha insatisfação pessoal e da minha vontade de me ir embora ela, dedo no ar, atirou com um "nem penses". Vais ficar cá e vais trabalhar com o Júlio Carvalhal num programa que vão pensar para o período entre as 16 e as 18 horas, de segunda a sexta feira. Embora eu fosse realizador e o Júlio locutor deixámos essas paneleirices de lado e nasceu o "Sem Margem" - um programa de João Manuel Alves e Júlio Carvalhal.
Nasceu sob a desconfiança do novo poder. Tínhamos dois vigilantes: um o "seis patas", o Pinto Coelho, que creio se a memória não me falha, tinha sido intendente do emissor regional dos Açores por uma temporada, e o Cerejo, o "Caça-aviões" por causa de um "tique" que o possuia e o levava a estar com a cabeça sempre levantada e a rodar sem parar da esquerda para a direita e vice-versa.
Face a esta desconfiança cedo percebemos que tínhamos de andar de "pés de veludo": para tocar uma do Zeca Afonso tínhamos de tocar duas da Amália a cantar Camões e Alegre.
Outro problema com que nos deparámos era saber para quem trabalhávamos - coisa a que o Ricardo Saló - num texto magnífico - recorda e reproduzimos aqui abaixo. Eu vinha de anos sucessivos a trabalhar de noite e o Júlio, confesso que já não me recorda, também não era da tarde.
As discussões de planeamento entre os dois, levadas a cabo no Galeto em Lisboa à frente de 2 Irish Coffee, esbarravam sempre na mesma pergunta: Mas para quem trabalhamos? quem são? onde estão? Que idade têm? são homens ou mulheres? do Norte ou do Sul, do litoral ou do interior?
Até que um dia, ali logo nas primeiras semanas, certamente por inspiração do irish coffee, nasceu a ideia de criarmos um "Clube SEM MARGEM".
Convencemos o Oliveira Pires a mandar fazer uns milhares de cartões - já não me lembro de quem foi o autor do logotipo - fui ter com a Rita da Editora Bertrand que nos ofereceu milhares de livros e depois foi simples: Pedimos repetidamente na Antena que os nossos ouvintes que nos escrevessem para se inscreverem no Clube porque iriamos ter milhares de livros para oferecer. Na Carta de inscrição deveriam constar: Nome, idade, morada e grau académico.Foi um boom recebemos milhares de cartas que a Celeste Carapinha, a melhor secretária de redacção com quem trabalhei durante toda a minha vida de rádio, tratou, enviando os cartões e fazendo seguir os muitos milhares de livros que os sócios foram ganhando.
Para nós era inestimável: já sabíamos quem nos ouvia e onde, o seu género e a média das suas habilitações literárias.
A partir daí foi fácil e o programa acabou por ter um grande sucesso, tão grande que nos convidaram para fazer uma segunda série, com equipa reforçada. Mas essa é uma outra história...
No primeiro ano, assinalado aqui em baixo pelo Ricardo Saló, a equipa era constituida por mim, pelo Júlio, pela Celeste Carapinha. O Pedro Pyrrait de quem nunca mais ouvi falar e do Ricardo Saló que chegaria pouco depois com as preciosidades musicais pouco conhecidas e quiça um pouco mais marginais, com que nos presenteava como só ele sabia.
O "Sem Margem" foi um magazine de informação geral transmitido entre 1980 e 1982 na Antena um da RDP, entre as 16 e as 18 horas, Um programa de João Manuel Alves e Júlio Carvalhal, O meu amigo e antigo colega João coelho conseguiu arranjar-me um excerto que partilho convosco
Esta entrevista foi gravada a 20 de Abril de 1989 para o Programa Sem Margem, a poucos dias da estreia, na RTP, da série Retalhos da Vida de um Médico, obra emblemática do escritor.