Meu caro Jorge Quando cheguei a Ponta Delgada, no Verão de 1983, estavas à minha espera na casa velhinha da "Gaspar Frutuoso" com um sorriso aberto mas um olhar meio desconfiado ( afinal ainda havia por ali um grande eco de cubanice que me estava na auréola ) de quem pergunta a si mesmo porque raio é que este tipo vem para cá? Sabes, un dias antes, em Lisboa nas Amoreiras, alguém muito "prestável" cuidava de me avisar para ter cuidado contigo. Não liguei nem, estes anos todos depois, consigo descortinar o porquê do aviso sibilino. Mas que importa? importa sim o percurso que fizemos no mesmo espaço com respeito e cumplicidade mútuos. Que se prolongou, de repente, para além das portas do emissor regional e se estendeu para o Correio dos Açores, de que eras director. Perdemo-nos durante alguns anos. Foste para deputado e eu segui outros desafios, noutros lugares. Reencontrámo-nos quando o Carlos Andrade, e a Lusomundo, nos colocaram, de novo, lado a lado. Não profissionalmente, mas como vizinhos. Nunca regateaste a tua colaboração de comentador ácido do nosso quotidiano Ilhéu. Com o desassombro que só te arranjou inimigos. Alguns deles têm derramado lágrimas de crocodilo nas últimas horas. Mas isso já sabes, aí onde estás, e deves estar a dizer com o teu sotaque, bem do Nordeste ( a décima ilha ), "filhos de piuta". De mim, de nós, guardo todos os momentos em que nos demos, sem grande espalhafato, o que de mais importante a vida tem: respeito. Ontem, como de costume, fui, com a Inês, tomar café e estava lá o jornal de hoje - aqui, ás vezes, chega de véspera - decidi folheá-lo e tropecei na tua foto. Julguei, de repente, que eras notícia porque terias erguido mais uma bandeira. Não, nada disso: ali estava crua a tua partida, súbita. Fiquei a olhar a notícia, o jornal, de cara aparvalhada e lágrima ao canto do olho. Pronto, já sei que tem de ser assim, que é assim mesmo. Agora foi contigo, amanhã com outro, depois de amanhã comigo. Mas, porra, podias ter dito alguma coisa. Mas não faz mal porque aí onde estás, depois da adaptação, vais por certo fundar a tua ilha, o teu jornal, a tua rádio, o teu púlpito para questionares Deus. Guarda uma vaga. Para quando for a minha vez de chegar. Adeus Jorge. Até um dia. PS - Post Scriptum ( nada de confusões de que não gostarias ) - Nunca me disseste como é que conseguias, tu, que eras gago e tinhas (cultivavas com empenho o teu sotaque), falar ao microfone fluido e sem sotaque. O Santo Cristo, sem a tua voz a levar o Ecce Homo à diáspora não voltará a ser o mesmo.