Tive um pai que me amou e uma mãe que me cuidou.
Um pai que me soltou para crescer e uma mãe que me prendeu para abater. Sem julgamentos, ambos o fizeram pelo melhor, mas até dentro do melhor existe o bom.
Esta madrugada sem sono, revi-me em fotos a preto e branco, enquanto soprava o vento e uns pássaros voam cegos em direcção da luz, desafiando-se no ultimo momento antes de se estatelarem.
Na calma da noite uma movimentada dança de sons exibia-se para mim. Enquanto isso liguei a dois amigos. Não atenderam, era tarde.
O sono teimava em me partir aos bocadinhos de uma fadiga que não me faz dormir. Penso em trabalho, na minha filha e nos meus amigos. Penso na Ofélia, personagem pessoana que tanto me seduz. Vivo um dia dentro da noite e dentro da noite adormeço o dia.
Os bares cheios de fumo de outrora, onde tocava, the cure e talking heads, já não existem.
Vivem agora em ruínas dentro de mim, espaços de olhares fixos e fugidios, onde as palavras presas se soltavam, e os corpos esguios, adormecidos e adormentados, se colavam por uma noite prenha de juventude e abertura espiritual ao momento.
Não se via magotes de gente em burburinho, era tudo mais silencioso e vivido. Ou eram os meus ouvidos e os meus olhos, que estavam mais sossegados do desassossego da decadência. Era muito bom não ser permitido.
Ofélia rangeu as dobradiças da porta que chiaram e entrou.
Tinha um vestido cortado a direito de chita a enfeitar-lhe o cabelo, e uns chinelos de cabedal com uma fivela amarela. O cabelo era tão selvagem como o seu peito adivinhado por baixo do tecido em tons rosa e verde água. Fixou-me como se esperasse que eu lhe dissesse algo.
Apresentei-lhe com um gesto no olhar o bailado da passarada em direcção da luz.
Deu os passos que a separavam da janela, de onde se avistava o festim. Tentei adivinhar o pensamento que lhe brotou dos lábios rosa, quase da cor do vestido. Não disse nada, nem sei se pensou.
Os lábios estavam agora mais da cor da carne. Os olhos fundos e profundos, vertiginosamente acompanhavam as asas debruadas à sua frente.
Disse-lhe: - Senta-te Ofélia.
Sentou-se, como se sentar fosse o prolongamento de um abraço. Sentou-se de uma forma graciosa e educada. As mãos esguias, feitas de dedos compridos, escondiam-se entre os joelhos.
Os cabelos mudavam de cor, de cada vez que uma nuvem passava pela lua. Ora a lua a iluminava, ora ela iluminava a noite.
Aquele silêncio diário de Ofélia prendia-me. Era como se tivesse nascido com o meu sentir, com as minhas palavras, as minhas lágrimas, os meus sorrisos, a minha esquizofrenia e a minha sanidade.
Levantou-se como se o soalho não existisse, silenciosamente do barro fresco de uma bilha, encheu um copo com água e bebeu quase nada.
Depois, sentou-se no chão e encostada ás minhas pernas pediu para que lhe lesse o poema que eu lhe tinha escrito. Eu li.
É quase nova esta noite outra vez,
Não range a porta,
Nem o degrau,
Mesmo que ruído faças algum,
Não oiço nos teus pés de seda,
O som das tuas passadas,
Preciso do teu abraço,
Ou desgraço,
Vem,
Espero-te,
É quase nova esta noite outra vez.