Trabalhei a minha vida toda na rádio. Estive, há pouco, a fazer as contas e, tudo somado, são 17 155 dias de um percurso longo e rico, no qual tive oportunidade de conhecer pessoas e lugares que me marcaram. mPude trabalhar em grandes e pequenas rádios, em rádios nacionais, locais e regionais, em dois continentes. São ( foram ), na verdade muitos dias.Já há tempos andava a germinar na minha cabeça a decisão de parar, de deixar e de me distanciar da rádio. Diria que, aos poucos, ela se foi distanciando de mim porque, simplesmente, foi deixando de ter "gente" dentro. Gente que foi substituída pelas máquinas, pelo poder das redes sociais. Ela, a Rádio, transformou-se em negócio, puro e duro. Talvez não pudesse ser de outra forma. Mas desumanizou-se. A "aldeia global" em que vivemos faz com que, claramente, a oferta exceda em muito uma cada vez menor procura. E agora já não há espaço para os "dinossauros" e, também, posso dizer sem me enganar que "estou farto dela ", da Rádio. Com serenidade tomei a minha decisão. No dia 31 de Dezembro deste ano sairei, definitivamente, "do ar". Não lhe guardo rancores. Estamos "quites" eu e a Rádio. Dei-lhe a minha vida e ela deu-me muito. Este espaço resulta dessa decisão. Da necessidade que sinto, nestes poucos dias " por andar " de reflectir e de partilhar o meu percurso de vida. Não que seja importante para quem quer que seja a não ser para mim. Não tenho expectativas de que possa interessar a quem quer que seja. Apenas este desejo de partilhar factos, acontecimentos, pessoas e figuras que ao longo de 17 155 dias me acompanharam.. Nada mais do que isso
Primeiro computador electrónico com disco rígido, o RAMAC 305, pela empresa IBM
Para além da ida à "matiné" de Sábado à tarde no velho cinema Águia, os putos brincavam o dia todo, sujando os pés e as mãos e o resto tudo ao ar livre, na terra e nos baldios circundantes dos espaços caseiros. Não havia televisão, nem computadores, nem jogos electrónicos, nem internet, nem telemóveis mas havia a...Rádio. O meu avô Gabriel, apreciador de ópera, sentava-se aos fins-de-semana no cadeirão ao lado daquele móvel para ouvir do gira-discos, as suas óperas preferidas e, aqui e ali, mudava para a função Rádio!. O Então emissor Regional da Zambézia, que emitia a sua programação em onda média e, também, em onda curta, não trabalhava 24 horas por dia, mas apenas umas horas por dia. Haveria de lá entrar alguns anos depois, disso falarei mais adiante, mas naquele início dos anos 60 era um mero "audio espectador", postado ao lado do senhor meu avô. Por esses anos a Rádio tocava a Celly Campelo e o seu "Banho de Lua", a Bossa Nova ensaiava os seus primeiros passos e recordo-me de ouvir o "Blame It On The Bossa Nova" na voz de EYDIE GORME. Dessa época recordo-me de ouvir também o Tristão da Silva e "Aquela Janela Virada para o Mar"! Não pude aperceber-me de que, em abril de 1960, os Estados Unidos lançam o primeiro satélite meteorológico, do lançamento, nesse ano, do primeiro computador electrónico com disco rígido, o RAMAC 305, pela empresa IBM, de que em 12 de abril de 1961, o russo Yuri Gagarin se tinha tornado o primeiro homem a entrar no espaço, de que em Junho de 1960 tinha ocorrido a Revolta de Mueda, muito mais a Norte... O mundo estava a mudar rapidamente mas, para mim, era, ainda, a "Idade da Inocência"...
O velho, moderníssimo na época, aparelho Grundig, haveria de me revelar outro mistério e sabor. Para além da ópera do meu avô e das músicas do Emissor Regional da Zambézia, haveriam de chegar os relatos de futebol das "gloriosas" jornadas europeias do Benfica ouvidos, em onda curta da Emissora Nacional de Lisboa, na voz do Artur Agostinho, imitados depois, até à exaustão, pelo meu irmão que haveria de seguir a carreira de forma notável. Para mim era "pura magia"...ouvir aquelas coisas todas a saírem dos altifalantes daquele Grundig imponente e maior do que eu... O " bichinho " aos poucos ia entrando na corrente sanguínea sem que eu desse conta. Afinal estava ainda, como disse antes, na "Idade da Inocência"... Mais tarde haveria de ter o privilégio de conhecer e de trabalhar com o Artur Agostinho na Rádio Renascença. Mais tarde haveria de trabalhar, também, na Onda Curta ( serviço Internacional ) da Emissora Nacional... Mal poderia imaginar por aqueles dias...
Por aqueles primeiros anos dos 60 a sociedade de Quelimane, à imagem do Portugal de então, era feita, na generalidade, por bem comportadinhos. Por isso, podem imaginar a lufada de "ar fresco" que a chegada dos Beatles, em 1962, representou para a gente mais nova, sobretudo. Os cabelos compridos, as botas " à Beatle " - haveria de ter umas - e um som novo inundavam a nossa imaginação. Não que a Rádio - o Emissor Regional da Zambézia - os tocasse, nada disso. Tomei deles conhecimento pelos singles que a minha prima Karla trazia quando vinha de férias de Lourenço Marques onde estudava. E também era demasiado "inocente" para poder perceber o quer que fosse por aqueles dias. Mas foram, os Beatles, o pretexto para "cravar" o avô Gabriel para que me comprasse umas pastilhas elásticas que traziam, na embalagem, cromos dos "4 de Liverpool". O avô acedia com a condição, peremptória, de que era totalmente interdito ir "mascar" a pastilha para o seu lado. Em 1962 eu já estava na escola primária - no velho colégio Nuno Álvares, e a música começava, aos poucos, a entranhar-se na corrente sanguínea, catalisadora do que mais tarde seria um dos itens que me levaria à Rádio. Nesse ano, para além dos Beatles, o Papa João XXIII excomungava Fidel Castro, e o Presidente Kennedy decretou o embargo a Cuba. O Burundi, Argélia e o Uganda tornaram-se independentes. No ano anterior, a Índia Portuguesa, tinha "escapado" ao império e anexada na União Indiana. O Mundo estava a mudar bem depressa mas, para mim eram ainda, anos de inocência..A Rádio não tocava os Beatles...por enquanto, naqueles dias...
Entre 1962 e 1966 a vida continuou rotineira e calma. Da Rádio tinha "descoberto" o programa dos miúdos feito pela Maria Adalgiza e pelo Fernando Rebelo escutado, talvez, não me lembro, na onda curta do RCM. Mas, em 1966, a minha vida iria mudar e...mudou! Fomos, a família, viver para o prédio onde se situava o Emissor Regional da Zambézia e o meu irmão começou, nesse anos, a trabalhar na rádio. Era emocionante a família juntar-se à vota do rádio para ouvir a voz do meu irmão, com o meu pai "inchado" de orgulho no primogénito. Abriu-se, por isso, a porta para eu entrar pela primeira vez num estúdio de rádio. Podem imaginar o deslumbramento de um puto de 10 anos a ver aquele mundo de máquinas sofisticadas, de sons de outro universo. Ao final do dia, trabalhos de casa feitos e banho tomado, lá descia eu dois andares para me ir sentar no estúdio à frente da Elisabete Antunes vendo-a trabalhar, escolher as músicas, colocar discos nos pratos, acertar e colocar no ponto as músicas.Era o fascínio absoluto! Aquilo transformou-se numa rotina para os meus dias de então. A Elisabete Antunes tinha um programa para os mais pequenos transmitido, se bem me lembro, aos Sábados de manhã.A malta miúda lá ia ao programa cantar, contar histórias, declamar. Claro que me propus e fui declamar um poema - já na altura era dado às coisas da poesia. Uma verdadeira emoção assistir aquilo tudo. A malta ia gravando as suas intervenções para, depois, o técnico competente "montar" o programa. Hoje diz-se editar fruto do aportuguesamento do "edit" constante nos software de edição de audio com que as rádios actuais trabalham. Depois foi esperar pelo Sábado para ouvir o resultado. A família, e uns amigos, ouviram mas fiquei com a sensação de que não me levaram "muito a sério"... Dessa época para além do meu irmão e da Elisabete Antunes recordo a voz da Graça Pinto Serrano pela sua característica de "graves" de que sempre continuei a gostar. Neste ano Portugal de Eusébio e companhia tiveram uma participação "mágica" no campeonato mundial de futebol em Inglaterra, Indira Ghandi foi eleita pela primeira vez primeira-ministra da ìndia, Jonas Savimbi fundou a UNITA e Salazar deu uma entrevista ao New York Times. A Rádio tocava Merci Chérie de Udo Jürgens que tinha vencido, nesse ano, o festival euro visão da canção...
Pelo que fui já escrevendo nos primeiros posts deste blog puderam, por certo, perceber que a Rádio foi entrando, aos poucos no meu universo, pequeno universo. Mas o melhor (?) estava para chegar. Em 1968 a família mudou-se para Lourenço Marques, onde cheguei a meio do segundo período escolar. Com 12 anos, foi uma enorme mudança na minha vida. Da pacatez de Quelimane confrontava-me com um "mundo novo", desconhecido, recheado de desafios. Quando cheguei tinha pela frente os exames do "Segundo ano do Liceu" e entreguei-me à tarefa de me preparar para o efeito. Não houve muito tempo para muito mais. Lá fiz o exame e passei. Recebi de presente um Rádio transístor, daqueles pequenos que tinham uma capa em couro e dava-me, em onda média, a possibilidade de descobrir uma Rádio totalmente nova, com grandes profissionais, com grandes vozes - na altura eram os locutores - o Rádio Clube de Moçambique. Claro que o transistor ficou plantado na minha secretária de estudo, sempre ligado. Entraram no meu quotidiano as vozes do Sampaio e Silva, do Fernando Rebelo, do Álvaro de Lemos, do António Luís Rafael, da Lisete Lopes, da Maria de Lurdes, da Maria Regina, da Maria Helena Lopes e outras de que, mais do que certo me estarei a esquecer. A ida para Lourenço Marques, o exame do segundo ano do Liceu feito com sucesso e a consequente oferta daquele rádio iriam mudar por completo a minha vida e, mais do que isso, condicioná-la até hoje. mEm 1968 iniciou-se a Guerra do Vietname, Martin Luther King ganhou o prémio Nobel da Paz e foi assassinado em Memphis, a União Soviética invadiu a Checoslováquia colocando fim à "Primavera de Praga". A Rádio não "falava" destas coisas, submetida ao regime de censura em vigor. Foi em 1968 que Salazar caiu da cadeira abrindo, com isso, as portas para que Marcelo Caetano ascendesse ao cargo de Primeiro-ministro. A Rádio falava disto, à sua maneira... Do lado da música davam-se os primeiros passos no rock duro com o aparecimento do Jethro Tull e dos Led Zeppelin. Os Beatles lançaram o "Álbum Branco" talvez o primeiro "duplo" da história da música (não estou totalmente certo disto). Os Bee Gees lançavam os primeiros singles. Podiam ouvir-se na Rádio.
O transistor, de que falei , viria a revelar-se determinante nesta história. Como referi ficou colocado na minha secretária de estudo e sempre ligado. Ao longo desse ano lectivo passava as minhas tardes de "estudo" com os compêndios abertos à minha frente mas muito longe deles, apercebendo-me de novos donos por detrás daquelas vozes mágicas. Desse ano recordo, para além de todos os outros que aqui já lembrei, as vozes do Leite de Vasconcelos, do Eugénio Corte Real, do João de Sousa, da Ausenda Maria, da Maria Eugénia, do Hélder Fernando, da Graça Albuquerque, do João Gomes Leitão e de tantas outras, quiçá tão importantes como estas, mas que a memória foi apagando com andar dos anos. Deste tempo ficaram-me programas como o "Tic tac", "O Bondiazinho", o "Doce Lar", o "Ainda é Bom dia", o "Sexta-feira à Noite", do Álvaro de Lemos, as "Noites de Teatro", às Quartas-feiras, da Sara Pinto Coelho, a "Noite e o Ouvinte"...eram muitos e não estarão, por certo, aqui todos como lhes seria devido. Como podem ver o "transistor" de capa de couro, em Onda Média, estava sempre ligado. O resultado desse (ab)uso do transistor foi um valente "chumbo" no meu terceiro ano do Liceu. O meu pai, professor de Matemática, e homem pouco dado as essas coisas de "chumbos", determinou o meu castigo para as férias grandes. Funcionava, no Liceu Salazar, a Rádio Mocidade, que pouco tinha ouvido até essa altura. A RM funcionava à noite durante a semana e, aos fins de semana, em período mais alargado e ainda não tinha sido objecto de muita atenção da minha parte. O meu pai, para me aplicar o castigo resultante do chumbo, falou com o Dr.Nogueira, professor de Geografia no Liceu, por ser o director da Rádio Mocidade, com a intenção de eu ali passar, cumprindo o referido castigo, as minhas férias grandes.Uma tarde o meu pai pegou em mim e levou-me às instalações da Rádio Mocidade para falarmos com o Dr Nogueira.Chegámos, entrámos e, disseram-nos para esperarmos porque o Dr. Nogueira estava a gravar um programa.Sentámo-nos na sala de entrada da rádio aguardando enquanto, através de uma coluna gigantesca, conseguíamos ouvir o que estava a ser gravado dentro do estúdio. O programa das Forças armadas do Jorge Nuno Pinto da Fonseca com a colaboração, e voz da Isabel Cruz ( na altura o apelido dela era outro porquanto ainda era solteira ) - e que grande voz. Estava ali sentado a cogitar com os meus botões que se o meu castigo pelo chumbo iria ser cumprido ali "tava-se bem", muito bem até.Acabada a gravação, o Dr. Nogueira saiu do estúdio e foi-me apresentado. Acertaram-se os os detalhes do meu castigo para aquelas férias. O que eu estava longe de imaginar nessa tarde Junho de 1969 era que aquele castigo iria ser um "castigo" de vida e ...para a vida! Caramba, também não precisava de ser tanto. Afinal só tinha chumbado ano, não tinha morto ninguém!...(rsrsrs). Em 1969 o primeiro homem, Neil Armstrong, passeou na Lua ( ouvi com o meu pai a reportagem através da onda curta da Emissora Nacional na voz do Raul Durão - de que viria a ser colega uns anos mais tarde - enviado especial a Houston para o efeito, teve lugar o Festival de Woodstock e Salazar morreu. Do lado da Música, Carlos Santana, Janis Joplin, Elthon John, Supertramp, Creedence Clearwater Revival, Jimi Hendrix, Bob dylan e Joan Baez andavam "no ar". Posso dizer que naquele meu "Ano D" não poderia ter estado em melhor companhia!
Irei hoje interromper a narrativa sobre o meu percurso para a retomar mais à frente.
Tratarei de, nos próximos dias, falar da Rádio Mocidade, a minha primeira casa, do Dr.Nogueira, que me marcou para a vida, e da Rádio em Moçambique por aqueles dias de 1969.
Gostaria, igualmente, de dizer, aqui chegados, que não pretendo fazer deste blog uma cronologia científica e exacta, apenas pretendo deixar aos meus amigos e, sobretudo aos meus seis filhos e dois netos, um registo para memória futura sobre algumas coisas que a vida da rádio, me foi impedindo de sistematizar.
Ainda antes de avançar gostaria ainda de dizer que muito do que aqui escrevi, escrevo e vou escrever, resulta de um exercício de memória, e de memórias, de um percurso de quase 50 anos e que estes relatos se situam à luz das emoções de várias épocas recordadas, na sua maior parte, a uma distancia considerável.
Omissões de nomes, de programas, de situações não estão, de todo, relacionadas com sentimentos menores. Todos os que se cruzaram comigo ao longo deste enorme percurso, uns mais outros menos, deixaram marcas e saudades. Mesmo aqueles com quem entrei em choque e foram, naturalmente, alguns.
Não pretendo ofender, nem melindrar ninguém.
Posto isto vamos ao que interessa: Rádio Mocidade!
A História da Rádio Mocidade está bem retratada num blog "desenhado" pelo Dr. Nogueira http://radiomocidade.blogspot.pt/,
Ali podem encontrar uma história mais detalhada. No essencial a Rádio Mocidade era uma rádio de gente nova, na sua grande maioria estudantes de diferentes níveis de ensino, servida por sede, estúdios e emissores próprios. Havia sempre um núcleo de "mais velhos" que ia enquadrando a chegada dos "mais novos". Produtores, Técnicos ( sonoplastas e controladores de emissão ), locutores. Na essência era isto do ponto de vista da estrutura dirigida pelo Dr. Nogueira que delegava competências num chefe de produção e num chefe da técnica. Os programas era feitos por equipas que se juntavam por elos de afinidade e a rádio funcionava de Segunda a Sexta das 19 às 22h00 e, aos Sábados e Domingos a partir, ou das 12, ou das 13 horas, até às 22h00. ( Se estiver errado espero a competente correcção por parte de amigos que aqui venham )Tudo era cumprido com rigor e cada um de nós sabia exactamente o que fazer.Havia programas para todos os gostos, naturalmente, marcados pela irreverência de gente nova.Era, verdadeiramente, uma escola de Rádio e dela saíram profissionais que se notabilizaram em rádios portuguesas, Recordarei apenas, a título de exemplo, a Ivone Ferreira, o Luís Arriaga, o Fernando salgado.Dos primórdios da Rádio Mocidade, ainda no sótão do salão de festas do Liceu, que eu não conheci, recordarei os nomes de Pedro Rebelo de Sousa - irmão do Presidente da República - e o Luís Filipe Arriaga.Quando lá cheguei a equipa de mais velhos, referências para os outros todos, enquadrava nomes com o Pedro Neto, o Fernando Salgado, a Isabel Pinto, a Odete Freire, a São Gonçalves, O José Garcia, entre muitos outros.Quem chegava ali de novo olhava para aqueles senhores com a sensação de que " o respeitinho é muito bonito e...a gente gosta"...
Pois claro!
Algures, no inicio dos anos 70, dei a entrevista, que abaixo transcrevo, ao suplemento Cartaz do jornal Diário de Moçambique que se publicava em Lourenço Marques. Se a memória não me falha ao jornalista Mário José. Mal eu sabia o que a vida me reservava, no que à rádio diz respeito.
Fica aqui para memória futura:
VOZES QUE NOS FAZEM COMPANHIA JOAO MANUEL Do grupo de vozes que na Rádio Mocidade fazem normalmente locução João Manuel coloca-se entre os mais veteranos, apesar dos seus três anos de actividade. Na Rádio Mocidade onde o entusiasmo tem que superar dificuldades de ordem diversa, onde o querer tem que ir, a pouco e pouco, construindo popularidade e conquistando novos ouvintes, os que colaboram nas suas emissões estão sujeitos, por deveres de estudantes, a por vezes interromperem a sua actividade. Mas, no caso desta voz que hoje nos faz companhia e que com assiduidade faz também companhia àqueles que escutam a R.M, a sua presença mantem-se, não apenas no contacto directo com o ouvinte, mas também na colaboração que presta nos sectores técnico e de produção. João Manuel, na calma aparente do seu falar manso e sem pressa, traz camuflada uma força de vontade que o tem levado a realizar tudo quanto tem projectado concretizar---Tenho tido sorte, mas as dificuldades são muitas e por vezes a incompreensão também é grande e numa altura que deveria ser mais branda, se levarmos em atenção o trabalho que a Rádio Mocidade tem feito. Não nas esferas oficiais, que as entidades contactadas têm sido sempre de enorme gentileza, refiro-me ao apoio imprescindível para as nossas iniciativas, a estímulo por aquilo que fazemos e por aquilo que gostaríamos de fazer. E certo que de há três anos para cá noto que a RM tem progredido, mas talvez por exigência minha ou dos meus colegas, gostaríamos que esse progresso tivesse sido mais rápido. Foi há três anos que entrei, antes eu era um simples ouvinte e simpatizante. Nada sabia do "interior" desta emissora.---- E como é que se deu a sua entrada para a Rádio Mocidade? ---Parece incrível, mas é verdade, uma simples dedicatória pôs-me em contacto coma então locutora São, que tinha ao seu cuidado "Pop 22369"( nº do telefone do estúdio).As dedicatórias eram telefónicas e eu fiz uma. Dessa conversa nasceu uma hipótese de visita à Rádio Mocidade e daí veio outra hipótese, a de fazer produção. Comecei a colaborar no "Pop 22369" e foi neste programa que me estreei na rádio. Depois a minha colaboração estendeu-se ao "Quadrante Universitário”, feito por um grupo de universitários que deixando a Rádio Universidade, passaram a colaborar na RM. Desse grupo do "Quadrante" só eu e duas raparigas não éramos da Universidade. Quando o técnico do "Quadrante", Zé Garcia, foi para a Metrópole, pensei em aprender o essencial sobre técnica de som. Para essa aprendizagem entrei eu e a São. Estagiámos e tempos depois começamos a dar assistência a programas.-----E quando é que o João Manuel começou propriamente a fazer locução? Cerca de quatro meses depois de ter principiado a fazer técnica aos programas e também devido á ida para a Metrópole do meu colega Jorge Rodrigues. Ele tinha a seu cargo o programa " No mundo do Jazz" e pediu-me para fazer o seu lugar, ao lado da Maria Dília. A partir dessa altura dividi-me entre a locução e a técnica. -----E para qual pende mais a sua preferência? ----Elas completam-se na sua diferenciação, contudo, a locução, por me pôr em contacto directo com o ouvinte, atrai-me mais. Faço ainda produção. Trabalhando simultaneamente nessas três facetas colaboro no "ALTERNANTE ZERO" sobre os pioneiros da cidade; "NOVA ANTENA”, às terças á noite, na técnica, que a locução é feita por Maria Helena Lisboa Santos e Lila Rafael, esta filha do locutor António Luís Rafael, do Rádio Clube. O ambiente na RM é excelente; há camaradagem, há entendimento e sentido de entreajuda. Só assim com esse espírito de equipa é que se consegue manter "no ar" diariamente a nossa emissora e3 com uma programação que não nos envergonha. Até pelo contrário.-----Gostaria de vir a ser profissional?----Não pensei nisso. Agora agrada-me estar como estou a Radio Mocidade e estudar o meu 6º ano de económicas. O resto, só o tempo o dirá .
Felizmente ainda está entre nós. O Dr. Nogueira era o Director, e fundador, da Rádio Mocidade. Era, simultaneamente, professor de Geografia no Liceu onde eu andava e meu professor vários dos anos lectivos que frequentei. Da rádio tínhamos o privilégio de o tratar por um amigável "doutor" em vez do cerimonioso "Sotor". Para além disso, em matéria de intimidades, a coisa ficava por aí. Nas aulas o respeitinho era mais do que muito e não era um "mãos rotas" nas notas. Tenho para mim que era mais exigente para os que, sendo seus alunos no Liceu, eram seus pupilos na Rádio. De resto esse nível de exigência verificava-se em todos os momentos. Enquanto director da Rádio e sendo nós, na sua maioria, estudantes, estava sempre atento à nossa vidinha escolar e sempre pronto para nos dar um "puxão de orelhas" quando nos "distraímos" do essencial ( o estudo ) para nos fixarmos no acessório ( a rádio ). Como director da Rádio não se "dava por ele". Nem era preciso. Sabíamos que "estava lá" mesmo sem o vermos. Quanto a mim hoje, passados tantos anos, tenho a firme certeza de que a melhor maneira de se ser director é sê-lo sem que se dê por isso, sinal de que a "matéria dirigida" está a funcionar que nem uma "máquina oleada". A última vez que falei, e estive com ele, já estava em Lisboa a trabalhar na Emissora Nacional. Encontrei-me por acaso com ele ali para os lados de Benfica e perdemo-nos a conversar num final de tarde. Uma conversa em que retenho o orgulho dele pelo facto de "um dos seus" fazer parte do universo da uma Rádio Nacional. O que posso dizer dele, tantos anos depois? Um Homem Bom... Sem a mais pequena dúvida. Devo-lhe muito, Devo-lhe afinal toda uma vida.
Que Deus o guarde por muitos e bons anos.
Obrigado doutor.
Retomando o fio à "meada" da história volto aquele dia em que, acompanhado pela autoridade paterna, me apresentei na Rádio Mocidade afim de "cumprir" o castigo pelo chumbo escolar. O Dr. Nogueira mandou-me estar presente no dia seguinte, da parte da tarde, nos estúdios da Rádio para fazer um "teste" de voz. À época a voz, a sua qualidade, era essencial para se ser locutor. À hora combinada compareci nos estúdios e lá estavam a Odete Freire e o Fernando Salgado. A Odete, que tinha uma incrível doçura na voz, era a chefe de produção e responsável, nessa qualidade, pela escolha do texto que eu iria ler para testar a minha voz e o Fernando Salgado o técnico que iria gravar a minha prova. Lá me sentei no estúdio e li o texto. Quando acabei disseram-me que teria de esperar pelo resultado da reunião do júri, constituído pela direcção da rádio e chefias. O resultado chegou dias depois e eu tinha "reprovado" no teste de voz. Recordo que naquela altura eu tinha 13 anos, a caminho dos 14, e a minha voz adulta ainda não estaria totalmente formada. Por isso, a naturalidade daquele resultado. Havia muito cuidado, na época, com a qualidade das vozes que falavam na rádio. Fiquei triste mas não desisti e resolvi procurar alguma coisa que pudesse fazer. Do lado da técnica havia duas categorias: os controladores de emissão que estavam presentes durante a emissão dos programas gravados, assegurando que, durante os mesmos, nada acontecia que impedisse o bom ritmo da emissão, e controlava a modulação da emissão de modo a que não houvesse "distorção" no ar e os outros, gente mais experiente, que sonorizava as gravações e assegurava as sonorizações em directo. Na altura os locutores estavam na cabine e só se preocupavam em falar, ficando tudo o resto à responsabilidade do técnico de serviço. Foi na primeira condição que comecei as minhas funções na Rádio Mocidade. Aos Domingos à tarde entrava às 13 horas e cuidava de abrir a emissão da Rádio ligando o emissor e colocando no ar um programa gravado enquanto a equipa do Quadrante Universitário, liderada pela São Gonçalves, preparava o programa que iria começar às 14 horas.O Quadrante Universitário começava às 14 e terminava às 17 ficando eu ali, especado a assistir à azáfama do programa sob o cuidado técnico do José Garcia, hoje médico, e a locução da São Gonçalves e o Hélder Fernando, além outros nomes que não me ocorrem neste momento. Às 17, terminado o Quadrante. a equipa saía para ir lanchar à Cristal e eu cuidava de colocar no ar o programa das Forças Armadas do Pinto da Fonseca. A equipa do Quadrante assegurava, igualmente, a partir das 18 um programa de discos pedidos, o POP 2369, número de telefone usado pelos ouvintes para solicitarem as faixas musicais pretendidas. Ora eu saía da Rádio às 18, depois de terminado o meu trabalho de controlador, e "corria" para casa para poder participar no programa dos discos pedindo a minha faixa musical fazendo a respectiva dedicatória a uma das namoradinhas inocentes da época usando um pseudónimo, para que não gozassem comigo. O pseudónimo era MN ( símbolo químico da manganésio - obra do acaso ). Um dia a São Gonçalves descobriu quem era o MN e chamou-me incentivando-me a começar a fazer uma rubrica para o "Quadrante Universitário". Dessa forma entrei, para além do mundo da técnica nesse outro da produção.Eu escrevia o texto, escolhia as músicas e depois a São e o Zé Garcia faziam o resto da magia.
Estávamos em 1969...
Esta história que começou logo no início dos anos 60 ao pé do velho rádio do avô paterno desenrolou-se durante aqueles quase 10 anos. Como pude ir descrevendo em 1969 eu já estava "por dentro" da Rádio. Sem qualquer valor relativo, para mim era de um elevado valor absoluto. Estava, ainda que de castigo, onde queria estar, com quem queria estar. Havia por ali um sentimento de felicidade absoluta. A equipa do "Quadrante Universitário", liderada pela São Gonçalves, a primeira onde pode, com propriedade, dizer-se que trabalhei, era constituída por estudantes universitários, dissidentes da Rádio Universidade que encontraram acolhimento na Rádio Mocidade. Podem imaginar um miúdo de 14 anos a privar com gente "graúda", na casa dos 19, 20 anos, estudantes do ensino superior. Para mim foi uma dádiva de aprendizagem indescritível. Aquilo "puxou por mim", fez-me perceber que havia um "mundo" bem maior do que aquele onde tinha existido até então. Foi com eles que privei, pela primeira vez, com "coisas" proibidas, tais como a música de Francisco Fanhais, do José Almada, do Zeca Afonso. Foi com eles que percebi a verdadeira dimensão do festival de Woodstock. Com eles aprendi a procurar Jorge Amado, Pablo Neruda, Teilhard Chardin. Havia, na realidade, um enorme mundo que se me abria desse convívio... A São Gonçalves iria sair dali a pouco tempo - a engenharia electrotécnica a isso obrigaria - o Zé Gacia também - havia por ali um curso de medicina - o Hélder Fernando seguiria a profissão na Delta Publicidade - seríamos depois colegas na RDP, antes de ele ter ido para a TDM, em Macau, onde viria a reformar-se, antes do regresso a Portugal. O fim do "Quadrante Universitário, deixaria em mim um "profundo vazio" mas abriria portas para o "dia seguinte", onde, aos poucos, iria aprender a "voar sózinho".
Recordo de forma muito impressiva da emissão especial da Rádio Mocidade na noite de fim-se ano de 1969 onde a última música lançada por Bob Dylan tocava na Rádio... "Times They Are a Changin"!
E se estavam...
No inicio da nova década a Radio Mocidade "prosperava". As diferentes equipas davam o "litro" para fazer bons programas, davam corda à imaginação para, sem custos, levar a água a bons moinhos. Recordo, por exemplo, a organização dos ralis paper pela equipa do Luís Fonseca, do Quim Carvalho, do Fernando Salgado, mas em que todos colaboravam. Lembro-me de pedir ao Roberto Bordino, meu colega no Liceu, e mais tarde locutor da Rádio, para desenhar os cartazes - tinha um jeito danado para o desenho, de ir bater à porta do Rui Cartaxana para que os cartazes fossem impressos na gráfica da revista Tempo ( nunca disse que não ), de correr o comércio de Lourenço Marques a pedir prémios para os concorrentes. Era um trabalho que mobilizava a equipa toda e faziam-se grandes coisas. Pelo meu lado continuava com a "técnica". Por esses dias passei a gravar o Auto-Rodas, um programa dedicado ao desporto automóvel, produzido e apresentado pelo António Garcia que, ainda hoje, está ligado a esta modalidade. Esse tempo em que passei pela técnica viria a revelar-se de grande utilidade, anos mais tarde, na minha vida profissional. Por várias razões: primeiro porque me fez ter um enorme respeito pelo trabalho dos meus colegas do som, alguns deles verdadeiros magos nessa arte, depois porque me permitiu nunca pedir o impossível mas exigir o limite. Para além do que ia fazendo na Rádio Mocidade não deixava de ouvir o Rádio Clube de Moçambique, tentando perceber como a "gente grande" fazia e, sobretudo, porque faziam assim e não de outra maneira. Sempre tive o (bom) hábito de me questionar sobre as coisas que me envolvem. Dessa altura recordo nomes como O Manuel Tomás, o José Manuel Gouveia, o Pedro Laranjeira, O José Gonçalves, o Ricardo Branco, o Ribeiro da Silva, o Carlos Albuquerque, o Noel Cardoso e tantos outros, alguns dos quais iriam, mais tarde, acompanhar-me, ensinar-me, tanta coisa. Os técnicos faziam parte desse universo de magia que envolvia a rádio.Em 1970 Muhammad Ali, o famoso pugilista norte-americano, anuncia a sua retirada definitiva do mundo do boxe e morriam Bertrand Russel e o General Charles De Gaulle.Em 1970, numa conferência de imprensa, Paul McCartney anunciou o fim dos Beatles mas, em Inglaterra, nascia um novo som, o dos Queen, liderados por Fredy Mercury.
Como escrevi mais atrás tendo em vista o cumprimento do "castigo paterno" cheguei à Rádio Mocidade para cumprir "pena", depois do meu chumbo.
Ainda hoje subsiste em mim a dúvida quanto a esse mesmo castigo e às suas razões. O meu pai sabia bem que o meu chumbo tinha ficado a dever.se, essencialmente, ao facto de passar as minhas horas de estudo a ouvir rádio e a sonhar com aquele mundo. Se para cumprir castigo me levou, justamente, para a rádio, então sou, muitas vezes, assaltado pela ideia que, do alto da sua sabedoria de pai, o meu percebeu que era aquilo que eu queria e, sendo assim, nada melhor do que me levar para o local onde se aprendia o ofício, A Rádio Mocidade era isso mesmo, um enorme espaço de aprendizagem. onde, com liberdade, é preciso que se diga, aprendíamos e testávamos os nossos próprios limites.Como estarão recordados, à minha chegada à RM, fiz um teste de vos e fiquei reprovado.Em 1971, por volta dos meus quinze anos, estava eu de serviço a controlar a emissão, quando verifiquei que um programa não estava gravado. Liguei para o Dr. Nogueira a dar conta e a pedir instruções e ele respondeu-me "tout court": FAZ TU EM DIRECTO!.
Oops pensei eu. estou lixado. Estreia ao microfone, sozinho na rádio e em directo. Peguei na "girafa" que suportava o microfone, trouxe-a para o lado da "técnica", respirei fundo e fiz o programa. Não deve ter corrido muito mal porque, na sequência, comecei a fazer locução e a a ter a responsabilidade de programas próprios, num andamento que durou até hoje. Falarei desse percurso mais à frente. Por esses dias a Rádio Mocidade ia-se renovando com a chegada de gente nova. O Roberto Bordino, que veio fazer, a meu desafio, um programa sobre a nova, na época, música italiana - ele era italiano e tinha uma boa discoteca pessoal -, o Delfim Rui, também desafiado por mim, ingressou na técnica, O Veloso da Silva, também para a parte técnica, o Jorge Rodrigues - o mini técnico e, quanto a vozes, o João Carvalho, a Dina Maria, a Ivone Carla ( mais tarde a Ivone Ferreira da televisão ), a Lila Rafael, o João Augusto e, por certo, outros que a memória não reteve.
Havia muita coisa a ser feita em meados daquele ano de 1971. A Rádio Mocidade fervilhava...Em 1971, os Doors lançaram o FANTÁSTICO L.A. Woman!
Entre 1971 e 1972, a Rádio Mocidade acrescentava ao seu portefólio de iniciativas a cobertura muito mediática de provas automobilísticas em directo.
Assim acontecia no autódromo de Lourenço Marques, com destaque para a emblemática " 3 horas de LM ", e outras, e também o mega rali BNU, à dimensão africana da época, uma prova gigantesca, ganha num dos anos em que estive empenhado na cobertura da mesma, pelo português Francisco Romãozinho ao volante de um impressionante Citroen DS boca de sapo prototipo de fábrica.
Para além destas a Rádio Mocidade empenhava-se noutras transmissões, como foram os casos das 24 horas de Natação, dos directos da FACIM e ainda das transmissões a partir das montras do supermercado Montegiro.
Eram novos desafios a que a malta não virava cara.
De resto há um episódio muito engraçado que ocorreu durante as 24 horas de natação. A equipa estava toda mobilizada para a piscina onde as mesmas decorriam. No estúdio ficou o Roberto Bordino que assegurava a continuidade da emissão nos tempos mortos. Já a madrugada ia adiantada quando, a certa altura, a equipa no exterior devolveu a palavra ao estúdio e do estúdio não havia resposta. Insistiu-se e ... nada! do estúdio népia, só silêncio. Decidiu-se que a malta ia aguentando o exterior enquanto um dos membros da equipa galgava as barreiras até ao Liceu, onde ficava o estúdio, para ver o que se passava. Assim se fez e, ao chegar ao estúdio, o colega deparou-se com o Roberto Bordino, vencido pelo cansaço, a dormir a bom dormir...
Enquanto pela Rádio Mocidade as coisas iam "bem obrigado", o Rádio Clube de Moçambique não parava no tempo e ia apresentando novas vozes e novos programas.
Destaco pela impressão da memória o Francisco Munos, o Fernando Ferreira, o Eduardo Hélder e a Maria José Baião.
Falarei mais adiante das agências de publicidade que tinham programas no Rádio Clube de Moçambique e que muito contribuíram, com a sua criatividade e profissionalismo, para o sucesso da estação de Rádio.
Mas não quero terminar este post sem deixar aqui de destacar aqui as Produções Golo e, em especial, o João de Sousa, um grande relator desportivo - de quase todas as modalidades - e, sobretudo um grande comunicador.
O João de Sousa tinha uma imagem de "marca" nos seus programas - lembro-me do "Bomdiazinho" e do "Guiando e ouvindo Música" - onde não faltava nunca a faixa Sha la la i need you, dos Shuffels.A certa altura da música a orquestra pára por uns segundos para seguir quase de imediato. O João de Sousa aproveitava essa "pequena branca" e metia lá um jingle da Golo.
Eu achava isso FANTÁSTICO...
Depois de todo o percurso, a que já fiz referência, os dias iam correndo sem grandes sobressaltos.
Por um lado a Rádio Mocidade, por outro as muitas horas perdidas (ganhas) a ouvir o Rádio Clube de Moçambique e, por fim, os estudos, tarefa prioritária. Como já referi num post anterior a emissão do Rádio Clube de Moçambique tinha programas próprios e outros produzidos por agências de publicidade que, em directo - a partir dos próprios estúdios do RCM - ou por ligação entre os estúdios das agências a o RCM, através de linhas físicas, ou gravados e com as bobines entregues no RCM. Muitos dos profissionais do RCM - locutores e técnicos - prestavam serviços nas agências de publicidade e, muitos dos que começavam por trabalhar nas agências de publicidade acabavam por ali encontrar uma montra que, nalguns casos, lhes garantia depois a entrada para o RCM. Tudo isto quer dizer que a Rádio era um bom mercado de trabalho e bem pago para os padrões da época. Um belo dia, não consigo lembrar-me nem de como nem porquê, recebi um telefonema, na Rádio Mocidade. da Senhora dona Lena Matos, proprietária da Arco-Íris Publicidade, pedindo-me para passar pelos escritórios da agência, ali nas imediações do cinema Gil Vicente, porque ela, e o marido, precisavam de falar comigo.
Dei "corda " nos sapatos e lá compareci na hora acordada.
Devo dizer que a senhora era do estilo "despachada" e sem "papas na língua" (graças a Deus ainda é viva, bem como o marido, e minha amiga no facebook) e, ao iniciarmos a conversa ela disse-me que queria contratar-me para fazer o "Paralelo 26", emitido no Programa A do RCM, entre, creio, as 16h30 e as 17h00 e que ia pagar-me 1400 escudos por mês pelo trabalho. Trabalho que seria feito aos Sábados de manhã, dia em que gravava os programas para a semana toda, nos estúdios da agência. Podem imaginar a minha enorme e transbordante felicidade. A minha voz (EU) ia passar naquela rádio que, há tantos anos, eu ouvia com toda a atenção. Claro que aceitei até porque - e isso não tinha importância nenhuma - era, achava eu - e acho -,bem pago. Por termo de comparação, naquela altura o meu pai, licenciado, professor de Matemática, ganhava o ordenado mensal de 7 200 escudos, trabalhando " que se desunhava " a semana toda, pelo que os meus 1400 por 4 horas por semana eram um pequeno "luxo". Mais do que tudo isto o facto de gravar os programas todos aos Sábados de manhã permitia-me continuar a colaborar com a Rádio Mocidade e manter a boa performance nos estudos.
O mundo, o meu mundo, era, por aqueles dias, mais do que perfeito.
Dessa fase recordo um episódio que vale o que vale a título de exemplo do tempo que se vivia. Os programas gravados eram entregues em bobine no RCM e seguiam para a comissão de censura para aprovação e só depois seguiam para a emissão. Ora, recordo-me, que num dos programas gravados, incluí uma faixa do Zeca Afonso ( O Milho Verde, tema da música popular portuguesa ). A Bobine veio recambiada para a agência porque o programa tinha sido "chumbado" pela comissão de censura. Era preciso tirar aquela faixa. A senhora dona Lena Matos ligou-me e lá fui eu para resolver o problema tendo substituído o Milho Verde do Zeca Afonso pelo Milho Verde da Tonicha. Pronto, assunto resolvido, a comissão de censura contente e os dias continuaram iguais...
Como escrevi no Post anterior, em 1972, comecei a trabalhar na Arco-Íris Publicidade. Salvaguardei, no contrato que fiz com a senhora dona Lena Matos, a possibilidade de continuar a fazer um pequeno apontamento num programa da autoria do Francisco Munoz, que ele produzia para a Elmo, aos Domingos à tarde.Uma vez, ainda antes da Arco-Íris, dei corda nos sapatos, fui falar com o Francisco, já com uma maquete na mão, e perguntei-lhe se ele queria, sem custos, aquilo. Ele disse que sim, e por isso, na altura do acerto com a Arco-Íris, salvaguardei aquele apontamentozinho de entrevistas de rua editadas para o Programa "Domingo à tarde" da Elmo. Por aqueles dias a Elmo, e a rádio em Moçambique, perderam, de uma assentada, o Leite de Vasconcelos, o Manuel Tomás e o Eugénio Corte Real, do melhor que havia por aquelas paragens. O próprio Francisco Munoz acabaria por se ir embora, regressando a Portugal criando, com isso, um vazio na Elmo que ficou apenas com a Ausenda Maria. Por via desse laço, o tal apontamento que eu ia mantendo, a Dora, gerente da Elmo, um dia ligou-me e perguntou-me pelo meu irmão, avaliando da possibilidade de ele ir substituir, parcialmente, as baixas atrás referidas. Ora o meu irmão tinha regressado a Portugal, terminada que estava a comissão de serviço militar e, esse regresso, não pressupunha retorno a Moçambique. Por isso, dei conta à Dora desse facto e, durante o telefonema, um pouco "atrevidote", a certa altura da conversa, disse: ele não está, mas eu ESTOU! - LOL .A Dora deu uma gargalhada do outro lado e disse-me, "pois é verdade, vem cá falar comigo".
Eu fui e acertámos os detalhes. Eu iria fazer um programa diário que a ELMO mantinha no Aeroclube da Beira, o "Olá Bom dia" gravado, e asseguraria as emissões do TIC TAC ( programa da manhã no RCM ) em directo, às Quartas e Sábados, folgas da Ausenda Maria, e cobriria todas as suas ausências, por férias, doença e outros motivos. Ordenado proposto: 7 200 escudos por mês. ainda com 16 anos, quase 17, tudo me parecia um sonho. Aceitei o desafio e fui ter com a senhora dona Lena Matos, expliquei-lhe a situação e ela de forma muito simpática dispensou-me da Arco-Íris para eu poder ir trabalhar para a ELMO, tendo sido substituído pela Ivone Ferreira. A ida para a Elmo tinha, contudo, outras implicações. O trabalho que me tinha sido proposto implicava muitas mais horas de empenhamento e eu tinha pela frente o sétimo ano do Liceu para fazer sem desafiar a "ira paterna". Era, por isso, impossível manter a minha colaboração com a Rádio Mocidade e, com pena, deixei aquela casa que mantive no coração até hoje. Na Elmo, e do meu trabalho, falarei mais adiante. Para já gostaria de reter dois nomes, dois técnicos, com quem tive o privilégio de trabalhar: O José Manuel Gouveia e o José Gonçalves. Para além do muito que me ensinaram, revelaram-se amigos de uma vida.
Sharif Dean com Do you love me era presença obrigatória em todos os programas de rádio...
Como referi no post anterior regresso à Elmo ( ainda a ela voltarei no próximo ) para falar dos dois técnicos com quem mais trabalhei durante aqueles, quase, dois anos, o José Manuel Gouveia e o José Gonçalves. Trabalhei, igualmente, com o Hélder Matias, mas por pouco tempo. Do José Manuel Gouveia posso dizer que, da memória desses dias, ficaram retidas a sua "adrenalina pura" e boa disposição contagiantes. Era um mago do som. Era espantoso vê-lo sonorizar os spots no estúdio da Elmo, num tempo em que não havia computadores, softwares de edição, nem mp3. A magia fazia-se na ponta dos dedos. E o Zé sabia o que fazia. Se sabia. Uns anos mais tarde haveríamos de nos reencontrar profissionalmente nas noites desportivas da Europa na RDP Antena um onde a adrenalina era exactamente a mesma. Lembro-me bem de chegar às seis da manhã ao Rádio Clube de Moçambique para fazer o Tic Tac e, mais de trinta graus de temperatura cá fora, encontrar o estúdio a sete graus - tinha de ir munido de camisola para trabalhar - porque o Zé não gostava de trabalhar "encalorado". Com ele pude aprender muito, em particular que o impossível era difícil mas que, com jeito, se podia fazer.
Quanto o José Gonçalves trabalhei mais com ele nas gravações do "Olá Bom dia" para a Emissora do Aeroclube da Beira. Por oposição ao outro Zé ( o Gouveia ) o Gonçalves era a calma personificada, dono de um humor subtil e muito refinado. Com ele pude aprender que em Rádio, tal como na vida, "pensar duas vezes antes" é muito útil.
Viria a reencontrá-lo, em termos profissionais, na Rádio Renascença no Porto, num fim-de-semana em que tive de lá ir fazer a emissão da Católica num Domingo de manhã porque os estúdios de Lisboa estavam em manutenção. Para além das lições de vida e de trabalho que os dois Zés me deram na Elmo, subsistiu uma amizade forte e inquebrável vida fora. Até hoje. E isso, para mim, é o mais importante!
A Elmo, depois da Arco-Íris Publicidade ter servido de "porta de entrada", foi, verdadeiramente, o ponto de partida para uma "rádio" "mais a sério" na minha vida. Nessa altura, em 1973, não tinha nos meus planos trabalhar na Rádio nem vir a ser um profissional de rádio estando, por esses dias, a preparar a minha entrada no curso de Economia da Universidade de Lourenço Marques. A Elmo tinha o "carisma" de ter feito alguns dos programas que marcaram os dias da rádio em Moçambique, servida por nomes como o Leite de Vasconcelos, o Eugénio Corte Real, o Francisco Munoz. Foi com esse temor que, sob a tutela da Dora e gerente da agência, enfrentei aqueles programas em directo em que substituía a Ausenda Maria nas suas folgas ( Quartas e Sábados ) e férias quando estas tinham lugar. Com igual temor, e respeito, lá ia gravando um programa diário para a a emissora do Aeroclube da Beira, programa da manhã, com três horas de duração, gravado em tempo real. Hoje, um programa de três horas, grava-se em 30 minutos para fazer nas calmas, com pausa para café e tudo. Foi uma experiência muito rica, em que muito pude aprender, sobretudo no que concerne ao respeito que o microfone suscita a quem quer fazer por ali o seu caminho de vida. Embora, como disse acima, a Rádio, por aqueles dias, não fizesse parte dos meus propósitos de vida futura, confesso que andava animadíssímo e "feliz da vida.
O 25 de Abril de 1974 não tardaria a chegar e estava na Elmo quando ele aconteceu...
O Mundo, o meu mundo, naquele ano de 1973 estava a pouco tempo de uma enorme reviravolta!
O ano de 1974 começou comigo a trabalhar na Elmo e a concluir o meu último ano do Liceu.
Pelas minhas contas aquela coisa da Rádio iria durar até Junho, Julho e, depois, o grande desafio era o curso de Economia na Universidade de Lourenço Marques a assumir a prioridade na minha vida ficando, se fosse viável, algumas (poucas ) horas para o que pudesse fazer na rádio. Mas em Abril deu-se a revolução e, com ela, uma catadupa de acontecimentos que desaguariam no 7 de Setembro e, mais tarde, na minha suspensão de voz no RCM, que me retirou, de imediato, da Elmo, tendo sido substituído, e bem, pelo meu amigo Gulamo Khan, que haveria, mais tarde, de perder a vida no acidente que vitimaria Samora Machel. Sem poder trabalhar, com o curso de economia suspenso na Universidade de LM, andava, por aqueles dias, sem tino nem saber o que faria da vida. Em Dezembro fui preso e passei o Natal e o fim-de-ano na cadeia da General Rosado. Quando saí, os meus pais tinham decidido, partir para Portugal o que viria a acontecer em finais de Janeiro de 1975. Acabei por vir com eles sem saber, ao certo, o que iria encontrar num país que não era o meu mas sabendo, no mais fundo de mim, o que deixava para trás. Vim por solidariedade com os meus pais pressentindo as dificuldades que eles viriam encontrar mas com uma enorme mágoa dentro de mim, agravada pelo facto de, poucos dias antes da minha partida, ter recebido uma carta do RCM dando-me conta de que a interdição da minha voz tinha sido levantada depois de explicada, e comprovadas as minhas razões, a minha permanência nos estúdios do RCM durante o movimento do 7 de Setembro. Ou seja, poucos dias antes de deixar tudo para trás, recebi a nota de que poderia ficar a fazer o que então já era uma das coisas mais importantes da minha vida - a Rádio. Sei que o 25 de Abril provocou mudanças de vida em toda a gente e, neste blogue, não vou perder tempo, porque não é o lugar apropriado, a fazer juízos de valor sobre aqueles dias. Apenas sei hoje e soube sempre que não deveria ter deixado Moçambique naquele dia 25 de Janeiro. Não sei, se tivesse ficado, aonde a vida me teria levado mas nunca me senti um ser humano do Norte. Sou por cultura profundamente marcado pelo Sul e vivi sempre como que inadaptado acima do Equador. Um dia uma amiga minha, na véspera de mais uma mudança de vida, no jantar de despedida, ofereceu-me um livro de contos de Mia Couto: Na Berma de nenhuma estrada. Essa amiga, que me conhecia bem, leu-me bem e acertou com o livro. Na berma de nenhuma estrada foi como me tenho sentido nos últimos 42 anos. O meu regresso marcaria, tal cereja em cima do bolo, o meu destino de forma definitiva: em vez do curso de Economia, atirado para as "calendas ", por necessidade de sobrevivência, era a única coisa que sabia fazer, a Rádio era o que restava e...tomou conta de mim.
No Verão de 2018 ensaei fazer uma série de entrevistas com alguns dos protagonistas vivos que fizeram a história da Rádio em Moçambique. Confesso que não fui muito bem sucedido na ideia primeiro, porque sendo Verão na altura, muitos se encontravam fora e, depois, passado o Verão fui eu quem não tive tempo, nem perseverança, para voltar ao assunto, pelo que só se fizeram 3 entrevistas
Gabriel Alves é meu irmão mais velho. E muito do meu percurso se lhe deve. Pela admiração que sempre nutri pelo seu trabalho e pela forma como fazia aquilo parecer simples. Por isso esta, mais do que uma entrevista, é uma conversa entre dois irmãos sobre um tema que os une: a Rádio. Gabriel Alves iniciou o seu percurso na Rádio, em 1966, no Emissor Regional da Zambézia, em Quelimane. Contava na altura da entrevista com 70 anos de idade e trabalhava em Televisão no segmento de Desporto.
O Dr. Joaquim Nogueira, nascido em 1935, licenciado em Geografia pela Universidade de Coimbra, professor do Liceu Salazar, em Lourenço Marques, foi fundador, e director, da Rádio Mocidade.
Luís Fonseca começou o seu percurso na Rádio Mocidade em Lourenço Marques saindo depois para integrar as Produções 1001, agência de publicidade que produzia programas emitidos nas diferentes ondas do Rádio Clube de Moçambique.
Não deixa de ser interessante, e de fazer pensar, o conjunto de números retratados num estudo do OBERCOM – RÁDIO – PORTUGAL , divulgado em 2017, que dá conta da evolução das audiências do meio rádio em Portugal entre 2002 e 2016. O gráfico referente às audiências do meio rádio em Portugal, em 2016, demonstra que, com base na premissa aceite, e testada, de que só 30 por cento da população em Portugal ouve rádio, número, de resto, semelhante ao que se verifica na grande maioria dos países europeus, os valores percentuais quando traduzidos, nos levam a perceber que os valores, em números, conquistados por cada rádio chegam a ser insignificantes. Senão vejamos Se considerarmos que Portugal tem 10 milhões de habitantes, apenas 3 milhões escutam regularmente rádio, e quando falo em rádio, falo do universo de rádios em broadcasting, ou seja, aquelas que podem ser escutadas pelas vias tradicionais de conjunto emissor/recetor, o que deixa de fora o fenómeno novo, e muito pouco testado, das rádios online, isto é as que apenas se podem ouvir na internet. Olhando para o gráfico das audiências de 2016 em Portugal constatamos que a RFM, na liderança, conquista 22,4% dos ouvintes que escutam rádio o que, traduzido em números, significa um conjunto total aproximado de 650 mil ouvintes “espalhados” por todo o país e pelas 24 horas do dia. A Rádio Comercial, a segunda mais ouvida, com 14,7%, consegue 430 mil ouvintes. A Antena 1, a rádio pública, atinge os 5,9%, ou seja, cerca de 180 mil ouvintes e a TSF, a Rádio de notícias, 4,8%, menos de 159 mil ouvintes. Do Universo testado, e descodificado, no gráfico aparecem 13 rádios, aquelas por suposto, mais ouvidas pelos portugueses, restando para as restantes cerca de 400 19%, ou seja 600 mil ouvintes. Se, neste caso, fizermos um conta simplista, a de dividir os 600 mil ouvintes por 400 rádios, o número obtido seria de 1500 ouvintes por rádio, valor médio. Os valores acima referidos dizem-nos apenas, de modo geral, como se distribui a audiência de rádio, sendo que, dentro desse universo maior, há outros que se prendem com as horas do dia, se é dia de semana ou de fim-de-semana, se é este ou aquele estrato etário, ou segmento sócio profissional, se se trata de campo ou de cidade, se de homens ou de mulheres. Quero dizer que, se uma determinada rádio, a TSF por exemplo, tiver menor número global de ouvintes, pode ser líder, apesar disso, no universo do segmento socio-profissional de topo. Contudo nenhum destes universos específicos faz apagar a tristeza em que, ao longo dos anos, se tem vindo a transformar a audiência de rádio. Fazer rádio custa dinheiro, sai caro, requer investimentos avultados e custos de exploração, nalguns casos, insuportáveis. Tratando-se de um negócio as empresas proprietárias poupam cada cêntimo como podem, poupança que se traduz, inevitavelmente, na perda de qualidade e na consequente perda de ouvintes. Volto a recorrer ao exemplo da TSF, que conheço bem, para comparar a TSF dos anos 80/90 com a TSF de hoje. A diferença situa-se entre a noite e o dia. Se acrescer o facto da publicidade rádio ser a mais barata na pirâmide do bolo publicitário, se levar em conta que, tanto as centrais de compras, agências publicitárias e empresas em geral, pagam aos operadores em prazos que variam entre os 90 e os 180 dias podemos imaginar as consequências que se traduzem, mais uma vez, na construção das condições de degradação do produto oferecido e, uma vez mais, a consequente perda de audiências que se tem vindo a acentuar de acordo com o OBERCOM RÁDIO, de forma significativa desde 2002. A realidade nos Açores não é diferente da realidade nacional. É, em tudo, idêntica. Para pior se pensarmos que o universo populacional, disperso por 9 ilhas, é de uma dimensão global e local, muito reduzido. Se aplicarmos as mesmas contas, por exemplo, na ilha Terceira, teríamos que, para uma população de 60 mil habitantes apenas 40 por cento ( já estamos a dar “de barato” mais 10 por cento do que a média nacional ) apenas 24 mil habitantes ouvem regularmente rádio. Se imaginarmos que a ilha Terceira é servida por 8 emissoras rapidamente se pode concluir que a audiência média de cada rádio, em termos globais, conta com “meia dúzia” de ouvintes divididos por 24 horas por dia. Imagino, por coerência de raciocínio, que alguma destas rádios que são ouvidas na ilha Terceira, quando confrontadas com a chamada “audiência instantânea”, a mesma venha a situar-se no chamado “zero estatístico”, termo usado para as margens de erro dos estudos de opinião. Os resultados não são nada animadores para quem faz e para quem gosta de rádio. O desânimo não será, por certo, o melhor remédio para reverter o estado de coisas, mas pode ser catalisador de ponto de partida na procura de novos caminhos. A rádio, tal como qualquer negócio, não se faz sem investimento. Se uma sapataria não investir na compra de sapatos para posterior revenda, está condenada a fechar as portas. Os clientes acabariam por se cansar em percorrer o caminho na procura em vão de sapatos para comprar… Dirão muitos que para investir é necessária capacidade para o fazer. É certo. Mas se não se fizer caímos neste enorme vazio que está à vista de todos, mesmo de quem não quer ver. Por mim, 50 anos depois de a ter “abraçado” já não me faz grande diferença. Há muito que não oiço rádio, deixei de fazer parte desse universo para passar para o lado dos 70% que deixaram de a ouvir. A tecnologia, felizmente, dá-me oportunidade de ter acesso às notícias que me interessam, às música de que gosto, sem ter de ouvir disparates de quem, sem estar preparado, “faz “ da rádio um quintalzinho para os amigos como se tratasse de um churrasquinho de fim-de-semana. Falarei, apenas, em jeito de rodapé das rádios online. É um fenómeno que está por estudar com atenção. O Universo da concorrência é brutal porque se desenrola à escala planetária. Dei por mim, há dias, a ouvir uma rádio online de Blues e Jazz, que tem a sua sede em Cingapura e que bem me soube ouvir… Sendo certo que este universo das rádios online encontra os seus públicos em “nichos” de gostos e preferências bem definidos. É, por isso, um mundo em que não há lugar a propostas consistentes de rádios generalistas. Quando duas linhas acima falei de nichos devo exemplificar que um nicho de melómanos com apetência para ouvir Jazz, ou Bossa Nova, ou Mozart online, é um “nicho” com milhões de potenciais ouvintes que dispõem de uma oferta quase ilimitada na rede. ..