Entre 1976 e 1979, integrei a equipa do Contraponto - Antena Um da RDP - Realizado pelo José Manuel Nunes. Foi o melhor, e mais marcante, projecto de Rádio em que participei e onde muito pude aprender, quer com o José Manuel Nunes, quer com os outros companheiros de redacção. A propósito escrevi um texto no antigo "Canto" que fui buscar para o poder partilhar convosco.
Há uns dias atrás deparei-me, no facebook, com uma foto da neta do meu amigo José Manuel Nunes. Deixei um comentário ao "Avô babado" e ele respondeu: "Pois é João, o tempo passa". Grande verdade meu caro Zé Manel.
Um pouco mais de trinta anos sobre aquele dia em que eu, jovem, entrei naquele mundo que tinhas criado com engenho e muita arte: O Contraponto. O Mário Figueiredo tinha decidido seguir o seu caminho a porta abriu-se.
Cheguei na convicção de que eu era "muito bom" - coisas da idade - porque, apesar de novo já andava naquelas coisas há uns anos. A verdade é que, muito pouco tempo depois descobri que era "um zero á esquerda".
Quando, do alto da minha pretensa sabedoria te apresentava um trabalho e me dizias " está uma merda! vai fazer de novo".
Confesso que cheguei a pensar em desistir e mudar de rumo a minha vida. Mas, se por um lado me dizias o quão mal estava feito o que eu fazia também me apoiavas e incentivavas naquilo que eu fazia razoavelmente.
Recordo aquele debate, que me deixaste conduzir contigo, em que questionámos os barões da indústria farmaceutica a propósito de um medicamento - o Tranxene, ainda lhe recordo o nome - vendido em Portugal sem contra indicações e com mais de 15 páginas de contra indicações nos Estados Unidos.
Uma coisa em que eu tinha tropeçado quando, com o professor Delgado Domingos, do Instituto Superior Técnico, tentavamos fazer o que estava ao nosso alcance para evitar a central nuclear de Ferrel.
Recordo-me de como fiquei "inchado" com esse debate.
De como vibrei com aquela reportagem que nos levou, a ti e a mim, ao centro daquele incêndio medonho na serra de Sintra em que, dentro de um jipe da Guarda-florestal, nos misturamos com aqueles homens que, ao mesmo tempo, apagavam o fogo criminoso e vendiam rifas mais abaixo para angariar fundos para as suas corporações.
São apenas dois exemplos. Consegui vencer a vontade de ir embora e fiquei. Não sei muito bem se bem ou mal. Mas fiquei. Contigo aprendi muitas coisas meu amigo.
A planear, planear, planear.
A ser descomprometido mesmo para com os meus pares quando o interesse de todos se sobrepõe aos nossos próprios interesses.
São valores que nunca deixei de ter presentes em todo o percurso que fiz a partir daí até hoje. Por isso nem sempre fui muito bem-amado. Mas, ao olhar para os dias andados, não teria sido capaz de fazer diferente, como me ensinaste. Até que chegou o dia inevitável: aquele em que o João David Nunes nos bateu á porta para nos dizer que aquela administração, não lhes recordo o nome - tenho essa inata tendência de esquecer os nomes dos filhos da puta -, a mando do Proença de Carvalho, por sua vez a mando do Mota Pinto, tinha decidido acabar com o Contraponto.
Abriu-se a porta a que cada um de nós tivesse seguido o seu caminho. O que posso dizer-te, meu caro Zé Manel, é que a partir daquele momento nada voltou a ser igual, pelo menos para mim.
Nunca reencontrei a alegria daqueles dias em que naquele último andar do Quelhas, do velho convento, incomodávamos os vizinhos do lado com as nossas gargalhadas tiradas pelo meio do árduo trabalho que fazíamos todos os dias.
Tenho saudades dos nossos bifes muito noctívagos na Trindade. Das conversas que terminávamos abruptamente quando o João Coelho "rapava" da caneta para desenhar a quilha dos barcos açorianos nas toalhas de mesa.
Era o sinal de que a noite tinha acabado.
Para recomeçar dali a pouco.
É verdade, meu caro Zé, que o tempo passa..."é um doido a correr..."! Obrigado por tudo o que ensinaste. Sobretudo a olhar o poder, os poderes, olhos nos olhos. Sem tibiezas, nem medos...Sei que, um dia destes havemos de nos reencontrar, onde quer que seja. Sei sim!
Estaríamos, se bem me lembro, aí pelo ano de 1978 quando o José Manuel Nunes se lembrou de fazer uma emissão do "Contraponto" a pretexto de uma homenagem que o TEUC - Teatro dos Estudantes da Universidade de Coimbra - pretendia prestar ao Professor Paulo Quintela, nessa altura com mais de 80 anos. Fui o escolhido para ir, uma semana mais cedo, para Coimbra afim de preparar essa emissão. Nesse trabalho tive a oportunidade de conhecer boa parte dos grandes nomes daquela Coimbra mítica dos anos 50 e 60, em que a academia acolheu muita gente de primeira linha, no pensamento filosófico português. Aprendi muita coisa que já sabia dos livros e muitas mais que não vinham em lado nenhum a não ser no passa-palavra de geração para geração. Pude aperceber-me que os grandes homens das letras são gente muito simples, pelo menos aqueles, que falavam com naturalidade das coisas, das pessoas, do mundo...pude perceber, nos contactos de rua, que a maior parte dos habitantes da cidade conheciam o velho professor mas, mais do que isso, o que ele tinha feito, quer do ponto de vista cívico, quer do ponto de vista científico. Depois foi a descoberta do Professor propriamente dita. Que passeou comigo pela baixa coimbrã, contando-me histórias deliciosas que fui gravando e utilizei na emissão especial. O José Manuel Nunes chegou no dia da emissão e esta acabou por ser um grande sucesso e ter um grande impacto na altura. Na minha memória, deste trabalho, ficaram duas coisas: A primeira, a figura de Paulo Quintela, o homem de letras que lia, e traduzia, Goethe, os textos utilizados nas belíssimas canções de Schubert, homem simples, cheio de sentido de humor e pleno de uma vida dedicada ao pensamento e à sua compreensão. A outra, no final da emissão a velha Renault 4 da RDP não quis andar e ficou empanada em Coimbra. Eu e o Zé Manel tivemos de vir no comboio correio, que passou em Coimbra eram umas 3 da manhã e chegou às 8 a Lisboa, num percurso inesquecível e, sobretudo, muito, demasiadamente, lento...
Aí por 1977, era Primeiro Ministro Mário Soares, a redacção do "Contraponto" da Antena 1 da RDP decidiu fazer uma ronda de entrevistas com representantes dos partidos políticos com assento parlamentar na Assembleia da República um ritual que era seguido, se bem me lembro, duas vezes por ano. O CDS de então indicou Adelino Amaro da Costa para estar presente nos estúdios da RDP no velho Quelhas. Durante todo esse dia o Igrejas Caeiro ( que o diabo tem ) verdadeiro capataz político do PS no cargo de director de programas tentou dissuadir a redacção da bondade da iniciativa. O gajo não gostava de ouvir os "outros" na "sua"antena. A malta uniu-se e não desarmou pelo que, à hora certa, o programa foi para o ar com o Adelino Amaro da Costa. No final, quando estavamos a sair do estúdio, apareceu o Igrejas Caeiro, braços abertos naquele seu jeito de actor de teatro de segunda categoria, sorriso largo, dizendo: "meu caro Adelino, que prazer tê-lo aqui como testemunha das oportunidades que nós damos à oposição". Eu ia deixando cair os papeis que trazia na mão, estupefacto pela desfaçatez do dito senhor...
Andava eu muito pelos primeiros dias da minha carreira. Ao longo dela fui-me habituando aos filhos da puta que, tal como Caeiro, iam fazendo daquelas cenas pelos locais por onde fui passando. A "filhaputice" não tem cor partidária apenas existe e...pronto! Como anos mais tarde descobri que, na RDP Açores, havia um par de auscultadores guardado para quando o Mota Amaral lá ia falar ao povo, mais ajustados à dimensão das suas orelhas...um dia destes, quando alguns dos protagonistas saírem de cena, aqui contarei alguns episódios que testemunhei de forma directa e que são bem elucidativos da falta de democracia em que Portugal tem vivido depois do 25 de Abril.
Vem isto a propósito da agitação que reina, quer no país quer na região, provocada pelas alegadas tentativas de interferência de políticos junto de jornalistas. Sendo certo que a ser verdade, as mesmas não deveriam suceder e deveriam até ser severamente punidas não deixa de ser menos verdade que nunca, ao longo de mais de trinta anos, ouvi um conselho de redacção ou sindicato pronunicarem-se sobre os jornalistas que saltam das redacções para serem assessores de imprensa de políticos, numa promiscuidade assustadora e reveladora de total despudor, remetendo para as calendas os principios que, noutars ocasiões, defendem veementemente. A verdade é que nunca ouvi nenhuma estrutura representante da classe dos jornalistas clamar contra essa promiscuidade. Talvez porque nesse caso os ordenados, e as mordomias, tenham sabor a caviar. Pois....
O Contraponto foi um magazine diário de informação, de segunda a sábado, emitido na Antena um, em Lisboa, entre 1976 e 1980. Realizado por José Manuel Nunes integrou muitos nomes competentes da rádio de então. Tive a possibilidade de a integrar e, com todos, em especial com o José Manuel Nunes. O meu amigo e colega João Coelho fez-me chegar um pequeníssimo excerto de uma grande reportagem que tive a oportunidade de fazer. Aqui a compartilho
Aí por 1977 o José Manuel Nunes fez um segmento do Contraponto dedicado ao, então, mais recente livro de Fernando Namora, recentemente publicado por aqueles dias. Desse segmento constavam um ou dois poemas que o Zé me pediu para ler afim de ilustrar com outra voz a peça que estava a preparar. Assim fiz. Essa peça foi exibida num Sábado á noite, dia em que era eu quem conduzia a emissão. De entre outros conteúdos chegou à altura de exibir a peça do Fernando Namora. Quando a mesma acabou o técnico de serviço fez-me sinal de que tinha uma chamada para mim. Coloquei um disco e vim ao lado de fora do estúdio atender o telefonema. Do lado de lá o próprio Fernando Namora que, num jeito simples, me deu os parabéns pela forma como tinha dado expressão aos seus poemas. Disse-me que gostaria de conhecer-me e ficou aprazado um café em sua casa na avenida Infante Santo, em Lisboa. Lá chegou o dia e apresentei-me a meio da manhã em casa do escritor que apenas conhecia da leitura dos seus livros que apreciava.
Recebeu-me de forma simples e, durante o café combinado, conversámos de tudo e de nada. Ele mais da sua aldeia na Cova da Beira e eu de Moçambique, concluindo que éramos os dois uns "desenraízados".
Retenho a forma calma e o tom baixo em que sempre falava. Foi uma manhã muito agradável. Depois disso tive oportunidade de o entrevistar várias vezes para outros projectos de Rádio em que estive envolvido.
Sempre que, depois dessa data, lançava um livro novo nunca se esquecia de me enviar um exemplar autografado.
Não sei se posso, se não seria abuso, dizer que me tormei amigo dele. Mas mantivémos, até à sua morte, uma cumplicidade resultante, talvez daquele desenraizamento de que falei mais acima.
Era um homem bom que muita falta ficou a fazer à literatura portuguesa.