Em 1976 Portugal jogava todas as cartas que tinha na mão para conseguir os apoios necessários para entrar na, então, Comunidade Ecomómica Europeia. Mário Soares, Primeiro-Ministro, andava num lufa lufa para convencer dirigentes políticos a apoiarem a sua causa. Um desses dirigentes, François Miterrand, "pôs-se a jeito" para apoiar. Mas como não há "almoços grátis", colocava como contrapartida a aquisição por parte de Portugal à França de uma central nuclear a instalar ali para os lados de Peniche.
A indignação nacional foi grande e o Contraponto decidiu avançar com uma série de emissões dedicadas ao tema, tentando provar duas coisas: uma, de que em termos de consumo eléctrico, Portugal não precisava daquilo para nada naquele momento, nem de acordo com vários estudos, dali a dois séculos, no que dizia respeito às necessidades energéticas. Outra, de que se tratava apenas de uma questão não só de Política mas, sobretudo, de políticos.
Distribuidas as tarefas calhou-me o contacto com o Professor do Instituto Superior Técnico Delgado Domingos, infelizmente já falecido.
Deparei-me com um génio que, apesar disso, era um homem simples, que explicava as coisas de forma simples, tornando-as perceptíveis aos ouvintes do Contraponto.
Posso afirmar, sem grandes dúvidas, que essa série de emissões em muito terão contribuído, primeiro, para o levantamento do povo de Ferrel que marchou sobre Peniche, mostrando a sua indignação e, depois, os "influencers" da altura que aderiram à indignação contra a ideia posta em cima da mesa pelo Primeiro-Ministro.
Esta task force construída a partir do programa terá levado ao abandono do projecto por parte do Governo do e o tempo, mais de 40 anos depois, veio a demonstrar que, na realidade, Portugal não precisava de energia nuclear para nada, o que que equivale a dizer que teríamos assumido todos os riscos da energia nuclear sem qualquer benefício.
Mas Mário Soares porfiou e conseguiu o apoio para os seus intentos com o seu amigo Felipe Gonzalez, Primeiro-Ministro de espanha, "fechando os olhos" à construção por parte dos espanhóis de centrais nucleares nos rios comuns junto às fronteiras com Portugal.
Mas essa é uma outra estória que contarei aqui um dia destes.