Minha querida
De ti guardo na memória aquele dia quente em que chegaste vinda de uma terra, na altura para mim, tão longínua. Fiquei, não me lembro bem porquê - talvez por falta de espaço no carro - na loja dos avós à espera dos tios e primos que vinham de avião naquele dia. Fiquei pasmado quando, ao entrares, te colocaram no chão, e gritaste durante um tempo que me pareceu infindo...tomavas balanço para gritares mais um bocadinho. Cogitava com os meus botões acerca de onde ias buscar aquele fôlego todo. Foi o nosso primeiro encontro. De resto, tenho para mim, que foste o primeiro bebé que vi de perto, que conheci de perto. Ficava ao lado da tua mãe enquanto ela te dava colheradas de gelatina verde com pedaços de banana e acho até, que algumas vezes, ela me permitiu que te chegasse com a colher á boca. Não regateavas a doçura do manjar. A ternura que senti por ti naquele primeiro isntante mantém-se viva até hoje. Depois, bem depois, foram tantos os dias andados sempre perto, sempre cúmplices um do outro. Para mim eras, sempre foste, aquele valor seguro que as coisas certas encerram. Fazias parte de mim sem mais nada nem porquês...Estavas sempre lá assim como eu. Depois, bem depois, de repente, perdemo-nos um do outro. Se queres que eu te diga nem eu sei porquê, nem como, nem quando, nem onde...perdemo-nos e...pronto! Amíude pensava em ti, por onde andarias, como estarias. E em cada uma das vezes que pensei em ti o sorriso doce vinha-me aos lábios. É certo que poderia ter feito mais para te reencontrar e não fiz. Mas o não ter feito tem muito que ver com aquilo que te disse umas linhas acima...onde quer que fosse eu sabia que estavas lá e que um dia havíamos de nos reencontrar. Estiveste doente e eu não soube. Estive doente e tu não soubeste...o tempo, e a distância, guardaram-nos da dor que nesses momentos inevitavelmente nos toca. E um dia destes abri o facebook e lá estava uma bandeirinha vermelha sinalizando o teu pedido de amizade. Corações ao alto, aceitei de pronto. Falámos, trocámos recordações e palavras. Na imensidão de tantas palavras que, ao longo dos anos, ficaram por dizer. Fiquei feliz por te reencontrar e por saber que continuas lá...sempre! Tantas palavras teremos ainda de dizer para podermos esconjurar a ausência de tantos anos. Minha querida prima és a mais doce e a mais antiga recordação que tenho na minha vida. Nem sei dizer-te do afecto que sinto por ti, que sempre senti por ti. Apenas quero dizer que o puto que olhava para ti, ao mesmo tempo inquieto e fascinado, na fotografia continua aqui. Mais velho, um tanto sábio, outro tanto desencantado, outro tanto encantado - o paradoxo é só aparente - caminhando no trilho soalheiro e manso do mar revolto que me embala nestas ilhas mágicas em que, se abrirmos bem as janelas da alma, ouvimos o doce canto das sereias a chamar por nós...Mas, na essência sou eu, o mesmo puto que olhava para ti ao colo da tua mãe...Gostaria muito que não nos perdêssemos uma vez mais...para que as palavras de Sofia não assumam toda a verdade e beleza que encerram...