Com o processo de descolonização e a vinda para Portugal dos chamados "retornados" chegou uma vaga de profissionais de rádio que foram integrados na Emissora Nacional.
Os modelos, e os meios, de rádio praticados quer em Angola, quer em Moçambique, estavam muito à frente daquele que se vivia em Portugal.
A juntar a este número de profissionais chegaram outros tantos vindos do Rádio Clube Português, quando Almeida Santos decidiu nacionalizar a rádio em Portugal criando um "caldo" chamado RDP cujo modelo de funcionamento preservou o satus quo da Emissora Nacional.
O descontentamento progressivo desses profissionais foi-se radicalizando à medida que foram sendo marginalizados na progressiva partidarização da "nova" rádio pública.
A dada altura essa gente começou à procura de uma alternativa e constituiu-se uma cooperativa a que se chamou TSF, que tinha por objectivo imediato a produção de conteúdos de Rádio para venda e, a médio prazo, a obtenção de um alvará que lhe permitisse dar vazão aos sonhos contidos, e castrados, dessa geração de profissionais.
A oportunidade acabaria por chegar na segunda metade dos anos 80 com o aparecimento das rádios piratas e consequente abertura do espectro rádio eléctrico.
O Emídio Rangel liderou, entretanto, o processo de criação da TSF Rádio Jornal, a 29 Fevereiro de 1989, antecedido por um intensivo curso de preparação que tinha por finalidade juntar gente experiente com sangue novo.
E assim foi. Um dos lemas da TSF era: "Por uma boa história, vamos ao fim da rua, vamos ao fim do mundo".
Era emblemática a premonição do jingle que esteve na base de uma mudança no panorama radifónico em Portugal, mexendo com todas as chamadas "grandes estações" onde se incluiu a RDP.
O aparecimento da TSF incomodou em demasia Cavaco Silva, na altura Primeiro-Ministro, que no concurso público, apenas classificou o projecto para a menos potente das frequências de Lisboa.
A TSF, uma rádio de notícias e informação pintou o "caneco" sob a liderança do Rangel. Nada, nem ninguém, impedia que se fizesse de tudo para que as notícias fossem bem tratadas. No fim da rua ou no fim do mundo.
Era um modelo de rádio caro, bem financiado pela publicidade angariada, junto dos estratos A e A+ da população para quem era dirigida. Mas ainda assim continuaria a ser cara até ser insuportável.
Acabaria por ser vendida à Lusomundo do Coronel Luís Silva, depois à Controlinvest do senhor Oliveira e, pelo meio, a muitos e duvidosos capitais, primeiro angolanos e depois chineses.
O Emídio Rangel deixaria a liderança da estação aquando da venda da mesma à Lusomundo assumindo, nessa altura, a liderança do projecto da SIC do Dr. Balsemão e esteve na génese da SIC Notícias, uma espécie de TSF com imagem.
Foi a sua resiliência que permitiu construir uma marca que se mantém até hoje, embora hoje, seja uma muito pálida imagem dos primeiros anos.
A mim, pessoalmente, custa-me que, ao se assinalarem datas, o nome do Rangel nunca apareça. Trabalhei com ele, também sonhei com ele, e sei que os medíocres de agora ainda temem a sua sombra.
Mas a história da rádio em Portugal, também da televisão, não apagará o seu nome.
Emídio Rangel morreu, vítima de cancro, a 14 de Agosto de 2014.
Desde o início do projecto da TSF que o Emídio Rangel imaginava uma rádio de cobertura nacional. Daí os primeiros passos nesse caminho através da "cadeia nacional de rádios" que, um pouco por todo o país, transmitiam os noticiários da TSF, bem como alguns apontamentos da programação da estação. Nos Açores esse papel integrante dessa cadeia nacional de rádios foi a Rádio Horizonte, na Terceira e em São Miguel.
Mas o projecto estava incompleto sem uma frequência no Porto que pudesse fazer concorrência à Rádio Nova, propriedade do grupo empresarial de Belmiro de Azevedo.
Emídio Rangel tanto perseverou que acabaria por conseguir uma frequência na cidade invicta que tinha tudo para dar certo não fosse a circunstância de um erro no casting para dirigir localmente o projecto.
Antes de mais é preciso dizer que muita da informação da TSF em Lisboa tinha como "pano de mesa" a informação política. Depois é preciso não esquecer que o Porto deu ao país grandes nomes da Política ao longo dos tempo, em especial depois do 25 de Abril. Mas esses grandes nomes, mal conseguiam notoriedade, tinham de a afirmar em Lisboa. Não digo que está certo, mas era, é, a realidade.
Logo fazer uma aposta de informação política no Porto era reduzi-la a informação de paróquia em que nem os portuenses estavam interessados. Uma comissão política concelhia ou distrital vale muito pouco em termos de interesse relevante para quem ouve.
Depois esse espaço estava já muito bem coberto pela Rádio Nova.
O Jornalista João Paulo Meneses, talvez o mais arrogante e medíocre, jornalista que tive oportunidade de conhecer ao longo da minha vida profissional, apostou nessa direcção, esquecendo o enorme potencial em que o Porto em particular, e toda a Região Norte, eram profundamente ricas ao nível empresarial, económico e financeiro. Com gente que não vem para Lisboa, que está lá, sempre. Essa deveria ter sido a aposta mas não foi.
A TSF Porto estava, por isso condenada a prazo. Sem ouvintes e sem receitas, acabaria por ser encerrada e reduzida a uma mini delegação da TSF Lisboa.
O clássico caso em que o indivíduo só consegue enxergar o umbigo e esquecer todo o contexto.
Assim nasceu, viveu por pouco tempo, e teve uma morte em cujo funeral ninguém compareceu.
Objectivo: Entrevistar Jonas Savimbi. 1991. A entrevista, depois de muitos contactos, teria de ser feita presencialmente, na Djamba. Para lá chegar um sem fim de burocracia e de acertos porque a chegada de avião da equipa teria de ser em Windhoek, na Namíbia. À espera uma coluna militar da UNITA levaria os jornalistas até ao líder. Não diria que havia um sentimento de medo puro, mas sim algum receio sensato. Os elementos que compunham a coluna militar foram de uma educação extrema e sentia-se que estava ali um exército organizado com uma cadeia de comando eficaz.
Quando os jornalistas chegaram à Djamba foram recebidos pelo que, poderia considerar-se, o "relações públicas" ou, para melhor se compreender, o assessor de imprensa de Savimbi.
Uma reunião em que foram concertados os assuntos que fariam parte da entrevista, marcada para a manhã seguinte. Quanto a fotografias apenas ao líder e as outras seriam fornecidas pela asessoria. O Operador de imagem da outra equipa tinha marcado o lugar para as 3 câmeras que iria utilizar e seria supervisionado por dois elementos destacados pela UNITA para o controlarem.
O Nascer do Sol africano, indiscritível, saudoso na memória, um pequeno almoço ao ar livre a que se seguiu a "apresentação" ao grande líder. Sorriso aberto, tínhamos estendido as mãos para o cumprimento, que ele ignorou, abraçando um e dando beijinho na outra.
Munidos de papeis com as linhas gerais acertadas no dia anterior veio a pergunta: o que são esses papeis? a resposta simples de que continham os temas acertados no dia anterior com os tópicos aceites para a entrevista. Soltou uma gargalhada e disse. Rasguem, deitem fora os papeis e perguntem o que quiserem que eu só respondo ao que quiser. Afinal não vieram de tão longe para estarem de papel na mão.
Uma hora e meia depois, entrevista feita, seguiu-se uma visita guiada ao quartel general. Todo o material de registo de som e imagem ficou sob vigilância de elementos da guarda pessoal do Chefe.
Depois um almoço uma longa conversa sobre tudo menos política e guerra. Uma conversa mais intimista, mais pessoal, em que o líder da UNITA aproveitou para derramar sobre os jornalistas o seu inegável charme pessoal.
A meio da tarde chegou o táxi aéreo que veio buscar as equipas para as levar de volta a Windhoek.
Trabalho feito, missão cumprida, o regresso a Lisboa com escala em Londres.
Pouco importa avaliar se Savimbi tinha, ou não, razão na guerra sangrenta em que se envolveu e envolveu Angola e o acabaria por matar. O que fica na "retina da memória" é que ele acreditava profundamente nas suas convicções e o que a história viria a demonstrar depois da sua morte é que ele, se calhar, não estaria de todo equivocado...