Passei o PREC - Processo Revolucionário em curso - a fazer emissões na madrugada do então programa 1 da Emissora Nacional. Não fazendo parte de nenhum partido lá ia seguindo, hora após hora, a muito questionável playlist que me punham na frente com os discos correspondentes religiosamente acondicionados numa caixa de madeira com uma etiqueta. Tudo à maneira. A minha intervenção era miníma porque a escolha da música era feita por aquilo a que, na então Emissora Nacional, chamavam "Assistente Musical".
Antes de avançar devo dizer que achava imensa graça ás mulheres da Madragoa que faziam "vigilância Revolucionária" à entrada do Quelhas por onde ninguém ousava passar sem responder a um profundo e alargado questionário.
Dentro da Emissora havia os grupos de vigilância Revolucionária, grupos de disponíveis de vários partidos que, mesmo sem estarem de serviço, nunca saiam lá de dentro.
A coisa tornava-se ainda mais engraçada porque ao tocar um determinado disco tirado dos tais caixotes e correspondente à play list, me entrava porta dentro do Estúdio a Edite Sombrerireiro do PCP a perguntar-me quem é que me tinha mandado tocar aquilo. Cheio de paciência lá lhe explicava que ninguém, talvez o assistente musical que tinha elaborado a programação. Pouco depois começava outra música e lá entra porta dentro a Maria José Mauperrin, do MRPP, a perguntar se estava a tocar aquela música a mando da Edite Sombreireiro. Cheio de paciência e bonomia, lá lhe explicava de novo. Logo a seguir, nova música e de novo a porta a abrir-se com a Zuraida Sambado, do PS, a perguntar se estava a tocar aquela a mando da Maria José Mauperrin. Lá vinha de novo a explicação. Já não me lembro quem era mas certamente a visita seguinte vnha do PSD. Passávamos as noites nisto. Apesar de tudo com alguma boa disposição à mistura e o sono a caminhar noite dentro.
Há porém três momentos marcantes. O primeiro num Sábado em que o General Franco mandou matar pelo garrote dois opositores à sua ditadura. Quando se soube da notícia o ambiente ficou muito carregado culminando a tarde com o apelo feito pelo Artur Albarran na Rádio Renascença que conduziu ao desastroso assalto à praça de Espanha. A Emissora Nacional ficou sem saber o que fazer. Eu estava em fim de turno e não asisti ao que se seguiu.
Outro momento foi o da invasão da Emissora Nacional pelos Deficientes das Forças Armadas durante a madrugada. Estiveram no edifício do Quelhas durante quase uma semana a "comandar" as emissões tornando a estação no apmlificador das suas reivindicações. Foram dias difíceis aqueles de acompanhar aqueles homens estropiados pela guerra colonial onde tinham combatido e pretendiam apenas alguns direitos tendo sido sujeitos a uma carga militar em frente ao Mosteiro dos Jerónimos.
Finalmente a madrugada de 24 para 25 de Novembro de 1975. Estava de serviço quando por volta das 4 da manhã a Edite Sobreireiro me colocou á frente um noticiário redigido à mão para eu ler. O que era impossível. Aqueles gatafunhos eram impossíveis de decifrar quanto mais de ler. Irritada abandonou o estúdio. Voltou pouco depois, pediu ao pessoal que se reunisse no hall dos estúdios e disse: quem está com o nosso General Otelo fica, quem não está pode saír.
Caíu do céu, Eu não estava com ninguém a não ser comigo mesmo e apanhei a oportunidade para saír mais cedo. Só dei pelo que se tinha passado ao fim do dia quando, ao acordar, assisti á substituição do Major Durão na RTP por um filme do Danny Key emitido a partir dos estúdios do Porto.
O PREC chegara ao fim.