A indeterminação do conceito de ‘proposição’ no Da Certeza de Wittgenstein: por uma superação da disputa entre as leituras proposicional e não-proposicional
Tiago Drumond Silva (UFMG)
Em Da Certeza [DC], Wittgenstein fala de certezas como ‘proposições’ (§152, 341, p. ex.). Em outros trechos, o conceito de certeza de que Wittgenstein trata parece ter uma natureza contrária às características essenciais do que usualmente se entende como uma proposição: as certezas estão além da justificação e não são justificadas ou injustificadas (DC 359), não são verdadeiras nem falsas (DC 205), e é logicamente impossível duvidar delas (DC 454). Em decorrência disso, surge um debate acerca de DC entre duas leituras: a leitura proposicional e a leitura não-proposicional, que buscam entender se o conceito de ‘certeza’ é um conceito proposicional ou não-proposicional, i. e., se as certezas de DC são proposições ou não. No entanto, há uma terceira opção de leitura que ficou conhecida como leitura terapêutica, que enfatiza – com base no parágrafo 320 de DC – a noção de que o próprio conceito de proposição não é nítido e de que seus limites são indeterminados, o que supostamente eliminaria a necessidade de fixar o caráter proposicional ou não-proposicional das certezas.
Assim, faz-se necessário entender, primeiro, se a disputa entre as leituras proposicionais e não-proposicionais têm alguma razão de ser. Se sim, deve-se investigar qual é o estatuto proposicional das certezas de Wittgenstein: se são proposições, são proposições de que tipo e como devemos entender seus aspectos não-proposicionais? Se não são proposições, por que Wittgenstein se refere a elas usando o termo ‘proposição’? Alguns intérpretes (Coliva, 2010; McGinn, 1989) defendem que a despeito de seus aspectos não-proposicionais, as certezas devem ser entendidas como proposições; outros (Moyal-Sharrock, 2004; Stroll, 1994), justamente em decorrência de seus aspectos não-proposicionais, argumentam que as certezas não podem ser entendidas como proposições.
Por outro lado, se a disputa entre as leituras proposicionais e não-proposicionais é uma disputa ilegítima – como defendem os proponentes da leitura terapêutica –, é preciso entender por que razão.
Pretendo mostrar que todas essas questões dependem de outras que considero anteriores a nível de importância: o conceito de proposição é um conceito determinado? Em DC, Wittgenstein acredita ser possível encontrar condições necessárias e suficientes para fixar o conceito ‘proposição’?
A tarefa se dá, portanto, nos seguintes passos:
(1) Identificar quais noções de ‘proposição’ Wittgenstein sustenta ao longo de seu desenvolvimento filosófico anterior às notas de DC e (2) identificar se essas noções dispõem, ou não, de condições necessárias e suficientes que as determinam como conceitos. Tendo elucidado o percurso filosófico de Wittgenstein acerca da matéria em questão, pretendo também (3) identificar se DC apresenta um caso específico e inédito de ‘proposição’ ou se a noção de ‘proposição’ presente no texto dá continuidade a ideias de algum outro texto anterior do filósofo. Finalmente, a partir dos resultados alcançados, vou (4) defender uma das três interpretações supracitadas (proposicional, não-proposicional e terapêutica).
A solução a que chegarei é a de que as leituras terapêuticas (Conant, 1998; Minar, 2005) são mais fiéis aos propósitos de DC. Isto porque Wittgenstein afirma claramente no §320 que “o próprio conceito de ‘proposição’ não é nítido”, demonstrando certo pessimismo quanto à possibilidade de que se encontre condições necessárias e suficientes para fixar seu uso. A disputa entre leituras proposicionais e não-proposicionais é, desse modo, ilegítima, e se baseia numa suposição infundada segundo a qual deve necessariamente existir algo fixo e estável que determina, para todos os contextos, o estatuto das certezas. A conclusão é que Wittgenstein não pretende oferecer nenhuma teoria sobre as certezas, mas apenas diagnosticar e dissolver as imagens equivocadas que tornam mandatória a dúvida radical do cético, mostrando que as certezas funcionam sem necessidade de justificação adicional.