A HERANÇA MEDIEVAL NA FUNDAÇÃO DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA DA AÇÃO
Daniel Lucas Leite de Macedo (PUC-SP)
A obra Intention (1957) de G. E. M. Anscombe é frequentemente apontada como o marco inaugural da filosofia contemporânea da ação. Com esse texto, a autora deslocou o foco da análise moral para a compreensão da estrutura da ação humana, fornecendo categorias conceituais que se tornaram indispensáveis na discussão ética posterior. No entanto, esse gesto inovador não pode ser compreendido sem levar em conta a tradição medieval na qual Anscombe se formou e à qual retorna de modo criativo, especialmente ao pensamento de Tomás de Aquino.
O objetivo desta comunicação é explicitar que a teoria do duplo efeito, frequentemente atribuída apenas ao medievo, ganha uma reformulação decisiva em Anscombe, que a reinsere no centro da filosofia moral contemporânea. Ao analisar a estrutura da ação, a autora sustenta que a descrição de um ato depende da intenção sob a qual o agente o realiza, e que tal distinção é crucial para separar o que é escolhido diretamente do que é apenas previsto ou tolerado. Essa ênfase no aspecto intencional ecoa, de maneira clara, a reflexão tomasiana sobre os objetos da vontade e da ação. Como observa Wiseman (2016), para filósofos ou teólogos familiarizados com os escritos de Tomás, a teoria da ação apresentada em Intention é imediatamente reconhecível, a ponto de o livro poder ser lido como uma explicação e defesa da filosofia prática tomasiana, servindo de base tanto para a moral católica quanto para a própria doutrina do duplo efeito.
Assim, Anscombe não apenas recupera o núcleo do raciocínio medieval como o projeta para o contexto do século XX. Sua crítica ao utilitarismo e ao consequencialismo, ao insistir que nem todo resultado previsível pode ser imputado como intenção do agente, reabre a possibilidade de uma ética fundada em princípios objetivos de ação. Assim, sua filosofia moral, embora escrita em um ambiente analítico e contemporâneo, pode ser lida como uma reelaboração dos fundamentos em filosofia prática já delineados por Tomás.
A importância dessa recepção aparece também em intérpretes contemporâneos. John Finnis, por exemplo, chegou a afirmar que, no geral, a influência de Tomás sobre o pensamento de Anscombe foi ainda maior do que ela mesma deixou transparecer. Essa observação ajuda a compreender como a sua contribuição à filosofia contemporânea não é apenas a de inaugurar um novo campo de estudos, mas também a de ser um elo entre a filosofia medieval e a análise conceitual moderna.
Esta exposição buscará, portanto, explorar esse duplo movimento: de um lado, mostrar como Anscombe está na origem da filosofia da ação no século XX; de outro, evidenciar como esse nascimento se deve a uma herança medieval que, longe de ser apenas pano de fundo, constitui a substância mesma de sua proposta. O cotejo com Tomás de Aquino, especialmente em sua formulação do princípio do duplo efeito, permitirá não apenas ressaltar a originalidade de Anscombe, mas também compreender como a filosofia contemporânea se alimenta, de modo decisivo, da tradição que a precedeu.