Entre analíticos e fenomenólogos: Alexius Meinong e sua teoria dos objetos
Maria Luiza Rodrigues Lopes (PUC-SP)
Alexius Meinong (1853-1920) foi um filósofo de destaque do século XIX que, assim como Brentano, Husserl e Frege, pertenceu ao período anterior à cisão da filosofia contemporânea entre as tradições analítica e hermenêutico-fenomenológica. Embora hoje não ocupe uma posição central no cânone filosófico, Meinong é amplamente conhecido por sua obra Über Gegenstandstheorie (1904), traduzida como Sobre a Teoria do Objeto. Nos últimos anos, esse trabalho vem sendo redescoberto, sobretudo por autores da tradição analítica, dada a originalidade das reflexões de Meinong sobre objetos intencionais. Seu pensamento tem sido revisitado tanto para enfrentar problemas das lógicas extensionalistas (Jacquette, 2015) quanto para discussões em filosofia da matemática, ontologia e semântica. Contudo, Meinong compreendia suas contribuições como um desdobramento direto da fenomenologia brentaniana, ainda que o próprio Brentano não as reconhecesse dessa forma.
Na obra Psicologia do ponto de vista empírico (1874), Brentano reintroduz o conceito medieval de “inexistência intencional”, o que gerou intensos debates, especialmente em razão do uso dos termos “inexistência intencional” e “objeto imanente”. Esses termos levaram a interpretações equivocadas e até mesmo a acusações de psicologismo e imanentismo. A resposta mais elaborada a essa terminologia de Brentano veio de seu aluno Twardowski, que, em sua refinada análise tripartite da intencionalidade, problematizou também a tese de que toda representação possui um objeto. Para ele, ainda que não existam representações sem objeto, há representações cujo objeto não existe, isto é, representações dirigidas a objetos “inexistentes”.
Embora esse debate na escola de Brentano tenha resultado, em parte, de uma leitura equivocada do autor Bolzano e do que ele entendia por “representações em si”, a questão sobre o objeto de todo ato mental se tornou o ponto de partida para a ontologia meinonguiana. O objetivo desta comunicação é justamente apresentar o cenário filosófico de Meinong e evidenciar que sua filosofia pode ser entendida como uma radicalização da filosofia de Franz Brentano. Dessa forma, esta comunicação pretende não apenas discutir a lenta e, por vezes, negligente recepção de Meinong pela filosofia contemporânea, mas também evidenciar que, embora pouco estudada pela tradição fenomenológica, sua filosofia parte de problemas essenciais já apresentados por Brentano. Para isso, propõe-se a) reconstruir o horizonte filosófico de Meinong; b) expor quais são os conceitos fundamentais de sua teoria dos objetos; e c) apresentar a importância dos estudos sobre Alexius Meinong para a compreensão dos debates sobre intencionalidade.