“Sobre a etiologia da crise: o „virar as costas‟ indiferente das ciências europeias segundo Husserl”
Carlos Diógenes Tourinho (UFF)
O presente trabalho aborda o problema da etiologia da crise das ciências europeias em Edmund Husserl. O trabalho parte da hipótese segundo a qual não poderíamos abordar o problema em questão sem o exame da crítica de Husserl à doutrina do naturalismo, solo das ciências positivas. Mais precisamente, o trabalho procura mostrar, em sua primeira parte, que a crise das ciências é, antes de tudo, o resultado de uma “cegueira inconsciente” das ciências europeias em relação aos contrassensos teóricos e práticos inerentes aos pressupostos naturalistas. Almeja-se, assim, destacar a inseparabilidade entre o realismo filosoficamente ingênuo das ciências positivas (adotado pelas ciências naturais, bem como pelas ciências humanas) e a ingenuidade perigosa de tais ciências (cujos reflexos se fazem notar na formação da humanidade europeia, na primeira metade do século XX). A segunda parte do trabalho mostra que essas mesmas ciências não se apercebem de um desvio em relação à sua marcha teleológica, perdendo de vista a intenção do seu fim autêntico: constituir-se como uma “ciência autêntica” (ideia diretriz que, na visão de Husserl, seria responsável por determinar a ideia de ciência em geral, bem como a dinâmica das realizações científicas). Por fim, o trabalho mostra que, ao incorrerem no referido desvio, tais ciências perdem também a intenção do seu começo, pois ao recobrirem o mundo com fórmulas matemáticas, terminam por perdê-lo de vista enquanto uma espécie de “subsolo” originário das idealizações científicas.