Os signos na 1ª Investigação lógica
Saulo Grassi Mendonça (UFMG)
O objetivo da presente comunicação é trazer à luz uma das questões propostas por Husserl na primeira das seis Investigações lógicas: a multivocidade da palavra ‘signo’ e seu desdobramento na relação entre indicações e expressões no contexto do discurso comunicativo, enfatizando a importância dessa distinção no desenvolvimento do pensamento de Husserl. A palavra, considerada em si mesma, não passa de sons proferidos, rabiscos em uma folha de papel ou sinais com as mãos. Da mesma forma, muitos outros objetos ou estados-de-coisas [Sachverhalte] utilizados signitivamente não possuem nenhuma relação intrínseca com aquilo que designam: eles só “ganham vida” a partir do momento em que passam a ser considerados não como meras coisas, mas como signos; em outros termos, a partir do momento em que entram em uma relação extrínseca com outros objetos ou estados-de-coisa, passando então a designá-los ou expressá-los. As diferenças na natureza e no modo dessas relações geram as distinções entre os diferentes tipos de signos: naturais e artificiais, indicações [Anzeichen] e expressões [Ausdrücke]. São signos naturais a fumaça em relação ao fogo, fósseis em relação à existência de animais pré-históricos extintos, etc. Signos artificiais, por sua vez, são aqueles que surgem a partir da intervenção de um ser pensante; nesse sentido, temos signos que são apenas índices, como bandeiras ou objetos mnemônicos, e signos que exercem tanto funções expressivas como indicativas: é o caso da palavra.
A essência da indicação está na “inferência” (em sentido diverso de uma inferência lógica) da existência de algo a partir de um objeto ou estado-de-coisas presente. Uma palavra exerce função indicativa na medida em que serve de índice para certos tipos de atos psíquicos da parte daquele que a profere; apesar disso, tais atos não são necessários para que haja uma expressão. Portanto, aquilo que realmente caracteriza a palavra é sua função expressiva.
A expressão é caracterizada por estar sempre relacionada a uma significação [Bedeutung]. Esta corresponde àquilo que é dito, a uma objetividade fixa e imutável, mas distinta daquilo acerca do qual algo é dito, i.e., do objeto ou referência. A partir da expressão (em seu uso comunicativo), é possível inferir indicativamente diversos tipos de atos da consciência; dentre eles, ocupam uma posição especial as intenções de significação, que são os ‘mediadores mínimos’ entre uma palavra e sua significação. A presença de uma intenção de significação é suficiente para unir o âmbito real das palavras ao âmbito ideal das significações, ainda nos casos em que isso ocorre de modo vago ou meramente simbólico, i.e., sem a presença de ‘imagens preenchedoras’, que são alcançadas pelos atos que preenchem a significação.
Portanto, seja de modo intuitivo ou meramente simbólico, é apenas por meio da consciência que ocorre a vinculação entre a linguagem e o sentido ideal. É apenas neste momento que se percebe a importância da distinção entre indicações e expressões: Husserl, superando o psicologismo, afirma a idealidade da significação e nega que as expressões expressem qualquer tipo de conteúdo mental. Porém, ao introduzir as indicações e, mais que isso, ao atribuir uma função indicativa às expressões, abre o espaço necessário para considerações ‘psicológicas’ no âmbito da lógica. Além disso, com base em seus estudos iniciais sobre a representação na aritmética, Husserl acrescenta uma nova camada de complexidade com a distinção entre a compreensão de uma expressão e seu preenchimento vivificador correspondente. Ambas as distinções terão grande importância na fenomenologia.