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A série fotográfica Tudo Dança, Transmutação trata de mulheres e do seu estar no mundo em que filtros de todas as ordens impedem uma visão clara do agora. Deste modo, medos irracionais afloram, barreiras e muros crescem por todos as partes e passam a separar os considerados de dentro dos considerados de fora.
O mundo torna-se outra vez binário, excludente com aqueles que não se encaixam, que fogem à norma estabelecida. Tal modo de ser se adensou a partir do choque civilizacional provocado pelo COVID-19. As mulheres têm sido uma das maiores vítimas desse modo de ser. No Brasil, por exemplo, o número de feminicídios e agressões às mulheres cresceu significativamente. Tais mulheres são vítimas de uma sociedade doente, machista, egóica e destrutiva que não respeita as diferenças e não aceita a recusa do outro, principalmente das mulheres. Vivemos um incômodo civilizacional e a figura feminina neste contexto sofre injunções de todos os tipos.
Todavia, daí também advém sua força. O vermelho que tinge as imagens é o sangue vertido pelas mulheres, seja o de sua feminilidade ou o sangue provocado pelo agressor. Essas imagens falam de um passado e de um presente que ainda oprime as mulheres de todas as etnias. Nesta série que apresento, os corpos muitas vezes mostram-se nus e lascivos numa afrontam as instituições machistas, formadas ao longo da história escrita pelos homens. Queimadas, açoitadas, abusadas durante séculos, neste trabalho as mulheres mostram os seus corpos, superfície carnal em disputa. Aparentam estar presas ao modelo que lhes foi outorgado pelo opressor, mas são livres e o vermelho é também a ira de Lilith contra seus algozes. Lilith foi a primeira mulher de Adão que, segundo a tradição, no ato sexual se recusou a ficar por baixo de Adão e exigiu os mesmos direitos que ele. As mulheres, nesta série, se afirmam e remetem, com alguma ironia, a uma história de submissão.
As imagens apresentadas nesta exposição foram produzidas a partir do arquivo pessoal da artista e de imagens apropriadas de fotógrafos anônimos ou imagens de sites de venda de imagens da web. Trata-se de superposição de imagens filtradas em vermelho. O palimpsesto construído pela artista refere-se a uma inconformidade com a ideia de planicidade despertada pela imagem fotográfica no senso comum. A intenção é mostrar que as imagens não são unidimensionais como sugerem sua bidimensionalidade, mas possuem camadas, sentidos de quem as produz e de quem a elas se abrem.