31/10 - Warnstedter Bauernquadrille
A “Warnstedter Bauernquadrille” é uma dança de Halloween?
O Halloween nomeia os costumes tradicionais da noite de 31 de outubro para 1º de novembro, originalmente difundidos na Irlanda católica. Nos Estados Unidos, os imigrantes irlandeses mantiveram e expandiram esses costumes.
Desde a década de 1990, o Halloween ao estilo dos EUA também se espalhou por alguns países da Europa. Dessa forma, podemos dizer com certeza de que não existem danças típicas alemãs para essa comemoração.
Mas então por que esse tema foi abordado?
Apesar de não ter relação com a comemoração americana, encontra-se na região do Harz, na Alemanha, três lugares muito antigos que, segundo a crença popular, seriam um “Hexentanzplatz”, local de culto pagão, onde se celebrava da noite de 30 de abril para 1º de maio inicialmente a chegada da primavera e, posteriormente, a “Walpurgisnacht”, a Noite de Santa Walburga.
Acreditava-se (ou ainda acredita-se) que, nessa noite, as bruxas se encontravam por lá, por isso, esses locais eram chamados de “Hexentanzplatz”.
Então a “Warnstedter Bauernquadrille” é uma dança das bruxas?
Na verdade não. Ela faz parte das danças típicas da região do Harz, mas ela é uma quadrilha dos camponeses locais. Warnstedt é um vilarejo que fica entre Thale e Quedlinburg.
A riqueza arquitetônica de Quedlinburg está na lista do Patrimônio Mundial da UNESCO. Lá, é possível encontrar cerca de 1.300 casas em estilo enxaimel de seis diferentes séculos. As vigas dessas casas costumam ser tortas, como se tivessem se curvado ao peso dos séculos. Muitas vezes, elas são decoradas com elementos esculpidos.
Curiosidade: o senhor Geraldo Kleine, que esteve à frente da Casa da Juventude e Associação Cultural Gramado por muitos anos, nasceu em Neinstedt, localidade que também fica entre Quedlinburg e Thale, cerca de apenas 5 km de distância de Warnstedt.
Com certeza, a região merece uma visita por sua história e por seu legado cultural.
Que tal aprender essa dança conosco?
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a música da dança em https://youtu.be/eXss6groSxs . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
30/10 - Sascha
Na canção “Sascha”, o personagem é um menino ou uma menina?
No Brasil, a denominação “Sasha” ficou muito famosa com o nascimento da filha da Xuxa, em 1998. Logo depois, entre os grupos infantis, ficou muito conhecida a dança “Sascha” e ela seria sobre um menino russo. E agora, é um nome masculino ou feminino?
“Sascha” é um nome de origem eslava usado tanto para menino quanto para menina. Ele é o apelido para os nomes “Alexandre” e “Alexandra”, que em português seria semelhante a “Xande”.
Nesta canção, “Sascha” é um menino. Ele não é um garoto de muitas palavras, mas tem grandes habilidades: cuspir grandes arcos e mexer as orelhas. O pai dele queria ficar rico com seus cavalos. Muitas pessoas pagavam até dez Kopeken por hora para dar uma volta. Mas o Sascha gostava mesmo era de aves. Os equinos, ele mantia sob as rédeas. Às vezes passava a mão neles, às vezes os beliscava no traseiro. Claro que os cavalos não deixaram por isso. Quando ele menos esperava, eles o morderam no traseiro e rasgaram suas calças.
Acredita-se que a melodia tenha origem russa, apesar de não ser conhecida qual a canção tradicional que pode ter dado origem a ela. Encontra-se também a informação de que o texto em alemão foi escrito por Anton B. Kraus. A canção se tornou muito popular entre os professores de música, por ter uma estrutura simples. Logo, apesar de não ser uma dança típica, ela caiu também no gosto dos grupos de danças, especialmente após a publicação do livro da editora Fidula Verlag “Tanzlieder für Kinder” (o mesmo das danças “Cha-cha-cha” 19.07.2023 e “Ponypferdchen” 04.10.2023) na década de 1970. Com a gravação do coral “Kölner Kinderchor” é possível perceber que a criança que faz o canto solo tem sotaque russo, em homenagem à possível origem da melodia e do garoto Sascha.
Curiosidade: A canção começa com o verso: “Sascha, Sascha, ras dva tri”. Essa é a contagem “um, dois, três” que, em russo, se escreve: раз два три.
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29/10 - Peitschentanz
Existem muitas “Peitschentänze”, as Danças do Chicote?
Contam que o brasileiro Rui Barbosa, para mostrar sua erudição, fez um discurso usando 18 sinônimos da palavra “Chicote”. Açoite, chibata, rebenque, látego, muxinga, relho, vergalho e vergasta, foram alguns deles. Era claramente um instrumento muito utilizado, inclusive aparecendo em danças.
Na Baviera e regiões alpinas, até no norte da Itália, é conhecida a “Goaßlschnalzen”, “Goaßlschnöllen” no Südtirol. Ela teria surgido como forma de comunicação: os cocheiros e carroceiros usavam os estalos dos rebenques para notificar sua chegada ou sinalizar uma área perigosa. Desse hábito surgiram canções e, por sua vez, movimentos associados a coreografias, por mais que seja uma prática próxima à percussão.
Na região de Salzburg, em Flachgau, e na Baviera, em Rupertiwinkel, acontece também uma tradição com relhos: o “Aperschnalzen”. É realizada uma competição em grupos, geralmente a cada três anos. Como esse evento ocorre próximo ao Carnaval, é conhecido como “Faschingschnalzen”.
Já na Pomerânia, segundo o “Tanz- und Folkloreensemble Ihna”, em muitas aldeias na época de Pentecostes, os animais eram enfeitados e postos a pastar, já que chegava o clima quente em maio. A ordem dos rebanhos era definida por uma corrida entre os pastores, havendo apostas. A primeira pessoa a colocar o gado no pasto era o herói do dia. Depois desse período, eles reuniam-se com os seus colegas das outras aldeias para uma briga de chicote, onde batiam e lutavam. Este costume está na “Peitschentanz”, que tem coreografia de Eike Haenel.
O que se vê, de modo geral, é que essas tradições vem do uso prático dos açoites no dia a dia, nos animais e também nas pessoas, e passavam a ser ressignificados como prática de arte popular. O mesmo aconteceu com as coreografias de varas, de espadas, de vassouras, entre outras. São maneiras das comunidades eternizarem seus usos e costumes através das danças, que também se manifestam através de palavras.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja uma variante da dança em https://youtu.be/Js2OZfjFaYE . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
28/10 - Schirmerdörfler
A “Schirmerdörfler” é irmã da “La Varsovienne”?
Como as influências de um local podem atravessar fronteiras e chegar a outras? Algumas conexões parecem improváveis, contudo podem ser reais. Seria esse o caso da “Schirmerdörfler”, que tem características do estilo “Varsovienne”? Para descobrir isso é necessário conhecer um pouco melhor a região de onde essa dança veio.
Segundo Walter Bucksch, “Schirmdorf, no distrito de Zwittau, era uma localidade em Schönhengstgau, a maior ilha de língua alemã nos Sudetos. Essa era uma região histórica da Boêmia e da Morávia e estava localizada a aproximadamente 150 km a leste de Praga e 180 km ao norte de Viena. [...] As cidades maiores incluíam Landskron, Zwittau e Mährisch-Trübau. Em 1945 e 1946 a maior parte da população alemã desta área foi expulsa”.
O nome da “Schirmerdörfler” viria dessa localidade. Por estar próxima de Praga e Viena, é provável que muitos ritmos da moda tenham chegado, direta ou indiretamente, à região de Schönhengstgau via esses polos culturais. Seria o caso de variantes da “Varsovienne”? Existem várias danças do “estilo de Varsóvia” em comunidades de língua alemã, como a “Warschauer”, “Göös op de Deel”, “Friederike”, “Massiner”, “Iseltaler Masolka”, entre outras.
Observando a “Schirmerdörfler”, se pode verificar várias características das “Varsoviennes”, como na métrica da música, na estrutura das figuras, partes da coreografia, entre outras, mesmo que não tenha a tradicional mazurca. Entretanto, não encontramos fontes que evidenciem um parentesco direto delas.
A “Schirmerdörfler” ganhou mais visibilidade com a popularização da “Sudentendeutsche Tanzfolge”, um Pout Pourri em que ela é a terceira da sequência. Sendo ou não da família de danças da “Varsovienne”, ela tem um rico valor cultural, se mantendo como memória viva das antigas comunidades alemãs dos Sudetos, hoje praticamente inexistentes, no território da República Tcheca.
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27/10 - Räge-Schottisch
A “Räge-Schottisch” é a dança da chuva suíça?
A Oberbaselbieter Ländlerkapelle, uma famosa banda de música típica da Suíça, comemorou seu 20º aniversário em 1991 e lançou, comemorativo à data, um LP - “Longplay” ou “Disco de Vinil”. É bom lembrar que os CDs ainda não eram comuns naquela época. Este disco, que se chamava “Früsch ab der Röhre”, continha uma música composta pelo baixista Dr. Erich Roost, fundador da banda: a “Räge-Schottisch”.
A composição mais famosa de Roost é um pouco mais antiga, chamada “Der Geissbock Stinkt” - “o Bode Fede”, do disco de 1982. Essa melodia foi inspirada em uma apresentação que ele realizou, onde teve que tocar por muito tempo sob uma cabeça de cabrito montanhês empalhada. O problema é que este troféu de caça, aparentemente, não estava bem “preparado” e fedia muito. Esse mau cheiro o distraiu a noite toda.
Mas retornando a "Räge-Schottisch", Annelies Aenis ouviu essa melodia e rapidamente montou uma coreografia para ela. Foi como se as figuras correspondentes a cada parte viessem à sua cabeça. Surgiu assim a dança do “Chote da Chuva”, que por muitos é considerada engraçada.
Alguns anos depois, um dedicado dançarino encontrou a letra para cantá-la. O texto fala, em sua primeira parte, sobre a chuva caindo em seus cabelos cacheados, deixando sua cabeça completamente molhada. Na segunda conta que o tempo piora ainda mais, trovejando e ventando na tempestade: ele fica todo ensopado. Na terceira parte ele recupera o juízo: com ou sem tempo bom, ele continua dançando alegremente.
A "Räge-Schottisch" é mais um exemplo da bem sucedida união das músicas populares contemporâneas e das coreografias formadas com base em passos típicos. Uma construção que é simbólica, mantendo tradições, independente do momento. Como diria o ditado, "faça chuva ou faça sol", o importante é dançar. Só se espera que os dançarinos molhados não fiquem doentes… e nem acabem fedendo como um bode.
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26/10 - Tiroler Figurentanz
Quantas figuras tem a “Tiroler Figurentanz”?
Ela é longa! Segundo Karl Horak, em seu conhecido “Tiroler Volkstanzbuch”, a “Figurentanz” tem 22 figuras. Para uma dança típica, isso realmente é muito. A “Agattanz”, que é extensa, tem 15. Uma coreografia repleta de detalhes e informações. Mas ela é uma legítima Volkstanz austríaca?
O nome “Figurentanz” representa simplesmente uma dança de figuras. Em vários manuais há referências a esse tipo de coreografia. Na Áustria são muito populares, como nas Ländler, com suas distintas partes, onde os pares se entrelaçam. A “Tiroler Figurentanz” ficou assim conhecida para diferenciar-se das demais. Ela também é chamada de “Tiroler Figurenlandler”, ou “Figurentanz aus dem Unterinntal”, destacando que ela é do Baixo Vale do Rio Inn.
Sua estrutura traz uma típica dança de cortejo. Apresenta praticamente um álbum das figuras tradicionais da Áustria, iniciando com a simples posição cruzada - Kreuzfassung -, passando pelas distintas formas de compor janelas, agregando giros complexos e, inclusive, mostrando dois sapateados - “Schuhplattler”. Dependendo do grupo que a executa pode ocorrer de alguma parte ser acrescida ou retirada.
Na maior parte das fontes não há dados sobre os autores, contudo Waltraud Froihofer atribui ela a Hermann Jülg, em um movimento de criação de novas danças austríacas. Provavelmente seria uma colagem de várias coreografias. Horak apresenta a data de 1942 como ano em que a “Tiroler Figurentanz” foi mostrada em um evento de danças em Thaur bei Innsbruck, com formas semelhantes encontradas em Mils bei Solbad Hall e Tulfes.
Essa “Figurentanz” é mais um exemplo de manifestação que busca agregar elementos tradicionais à identidade regional, sendo vista como legítima por quem a interpreta. Um verdadeiro passeio pelas figuras austríacas, se diferenciando das outras danças regionais por ser extensa. Se fosse comparada ao ato de cortejar, seria como um pedido de namoro de longos anos…
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25/10 - Tantoli
“Tantoli” é uma parente da Tarantela?
Apesar de o nome “Tantoli” lembrar um pouco a Tarantela ou parecer ser de algum país de língua latina, sua origem não tem nenhuma relação com essa suposição.
Embora ela seja encontrada em suas variações em diversos países como Dinamarca, Finlândia, Noruega, Suécia e regiões de língua sueca na Estônia, a maior parte dos registros apontam que sua origem seja o centro da Suécia.
Uma das publicações mais antigas em que consta essa dança é o “Lekstugan”, do final do século XIX, com danças típicas, organizado pela associação de grupos de danças suecas. Posteriormente, ela chegou até a ser publicada em coleções de danças na Alemanha, se popularizando entre os alemães.
Essa sequência de variações do xote, é acompanhada frequentemente de cantos, como por exemplo, esta letra registrada na região de Västmanland, cuja tradução é mais ou menos assim:
“Eu e minha garota íamos dançar polca,
Mas quando chegamos, eles estavam dançando Tantoli.
Minha menina, ela sabia dançar; mas eu, infelizmente, não sabia,
Portanto, era melhor deixarmos assim!”
Apesar de a presença humana na região de Västmanland ser muito antiga, não é possível definir quão antiga é a “Tantoli”. De qualquer forma, sabe-se que ela faz parte do patrimônio histórico-cultural da região
Västmanland oferece experiências inesquecíveis para fãs da cultura e amantes da natureza. A sua paisagem variada inclui as florestas profundas de Bergslagen e o idílico vale Mälar. O próprio lago Mälaren é repleto de baías tranquilas e fotogênicas e ilhas desertas.
Cerca de 20.000 descobertas arqueológicas de diferentes épocas provam que Västmanland é de grande importância histórica. Qualquer pessoa interessada na história nórdica deve visitar o cemitério de Anundshög, cujas peças possibilitam um excelente retrato da região desde a Idade do Ferro até o período Wiking.
Às vezes, é nas danças mais simples que encontramos histórias extraordinárias.
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24/10 - Deeper Fischertanz
A "Deeper Fischertanz" é de qual vilarejo pomerano?
Ora, ela é do vilarejo de Deep! Mas é o “Kolberger Deep” ou o “Treptower Deep”? Ah, é aquele que é uma aldeia de pescadores. Ora, os dois são aldeias de pescadores. Então, é aquele onde fica a foz do rio Rega. Mas em ambos vilarejos encontra-se uma foz desse rio! E agora?
Vamos ver o que o pesquisador pomerano Willi Schultz nos conta sobre a dança:
“É solstício de verão e os camponeses de Gribow, no Ostsee, comemoram sua festa de São Pedro. Claro que eles convidaram também seus vizinhos, os camponeses de Deep. Os incansáveis músicos de Kolberg tocam dança após dança. Os jovens não perdem uma! Ninguém pensa em voltar para casa.
Durante o intervalo, as moças de Deep lembram que precisarão voltar para casa a pé. Mas elas não se preocuparam, ainda dava tempo para mais uma dança! Os músicos tocam uma melodia conhecida e todos aproveitam os últimos instantes. Ao fim, chega a hora de os jovens de Deep se despedirem e tomarem o caminho para sua aldeia, pois, em breve, os primeiros raios de sol vão surgir no horizonte e vai começar mais um dia de trabalho.”
Ao lado de Gribow fica o vilarejo de Kolberger Deep. Dessa forma, o mistério está resolvido. Mas é interessante observar a relação de ambas aldeias com o rio Rega. Em Kolberger Deep, fica a antiga foz do rio Rega, enquanto que em Treptower Deep encontra-se a nova foz, um canal construído no século XV para ser o porto da cidade de Treptow.
É nessa mesma região ao longo do rio Rega que encontrava-se o traje de “Belbuck”, assim chamado por ser originário da região administrada pelo Mosteiro de Belbuck. Dessa mesma região, no final do século XIX, emigrou uma família pomerana para o Rio Grande do Sul. É a família Deutsch. Depois de uma longa viagem, chegaram ao Brasil em 1890 e fixaram residência na então colônia General Osório, que deu origem à cidade de Ibirubá e, depois, de Quinze de Novembro.
E você conhece a origem de sua família? Conte aí para nós!
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23/10 - Wittenauer Tortanz
“Wittenauer Tortanz” é uma dança de torres ou de portão?
Na Alemanha, existem vários “Tore” famosos, como o Brandenburger Tor - Portão de Brandemburgo - em Berlim. Ele é assim chamado, pois, antigamente, ali, ficava o portão da cidade, onde começava o caminho de Berlim à Brandenburg. Mas será que existe algum portão que dá caminho a Wittenau? Um Wittenauer Tor?
Na verdade, não existe.
Então a dança não se refere a um portão?
Bom, na verdade, a dança leva o nome de “Tortanz” não por causa de um antigo portão de alguma cidade, mas por causa da figura formada pelos pares na dança. Com mãos dadas, eles formam uma passagem para os outros dançarinos. Em português, costuma-se dizer que é uma dança de torres. Assim, A “Wittenauer Tortanz” é uma dança de torres de Wittenau.
Wittenau é hoje um bairro de Berlim, no distrito de Reinickendorf. Ele tem origem em um antigo vilarejo chamado Dalldorf, que foi renomeado em 1905 para Wittenau em homenagem a um antigo líder local já falecido, o senhor Petter Witte. Não se sabe ao certo a data de fundação da comunidade, mas, segundo alguns registros, teria sido no início do século XIII.
Durante a Idade Média, Wittenau era uma pequena vila de agricultores e fazia parte da Floresta de Tegel, uma vasta área florestal. No século XIX, a industrialização começou, e o vilarejo experimentou um crescimento com o desenvolvimento de fábricas e áreas residenciais. Posteriormente, durante a Segunda Guerra Mundial, ela sofreu danos significativos devido a bombardeios.
Após a guerra, Wittenau foi reconstruída e se tornou um bairro vibrante. Sua história reflete as mudanças que a cidade passou ao longo dos séculos, indo de uma pequena vila a um moderno bairro de Berlim.
A “Wittenauer Tortanz” faz parte das novas danças de Berlim, de autoria do professor Volkhard Jähnert (Volkstanzkreis Reinickendorf) e, hoje, faz parte do repertório de grupos não apenas de Berlim, mas também de outras regiões da Alemanha e também do Brasil!
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22/10 - Schwäbische Mazurka
A “Schwäbische Mazurka” imitou a “Niederbayrische Mazurka”?
Quando há uma sequência complexa de dança, com mais figuras e longa melodia, é difícil encontrar uma similar que não tenha uma base comum. É quase como ganhar na loteria. Por isso, dizer que a “Niederbayrische Mazurka” e a “Schwäbische Mazurka” são quase iguais por mera sorte é um tanto inocente.
Primeiramente, “Niederbayrische Mazurka” teria sido coletada nos anos 1930 em Salzweg, localidade vizinha à Passau, ambas na Baviera, motivo pelo qual ela também ficou conhecida como “Mazurka aus Salzweg” ou “Passauer Mazurka”. Contudo, em seu registro original consta simplesmente o nome “Mazurka”. Já a “Schwäbische Mazurka” não apresenta um local exato da coleta da coreografia. Sabe-se que ela usa a canção “Nodl net a so”, de Hohenlohe, em Baden-Württemberg, como sua melodia. A Suábia e a Baixa Baviera também não se distanciam tanto uma da outra. Seriam ambas a mesma dança, mas com nomes diferentes?
Quanto às suas estruturas, inegavelmente as coreografias são idênticas, só com a inversão das partes 1 e 2. Os movimentos são realizados em duas etapas, cada uma com 16 compassos. As figuras trazem peculiaridades que não são vistas em outras danças de ambas as regiões, como o exemplo dos giros em seis passos, seguidos de mazurcas. As melodias, mesmo que diferentes, seguem uma estrutura similar, com o mesmo ritmo e métrica.
A partir desta análise, se pode dizer que a “Schwäbische Mazurka” e a “Niederbayrische Mazurka” possuem uma ligação comum, mesmo não sendo cópias uma da outra. Podem ser, inclusive, a mesma dança, mas com designações e músicas diferentes. Contudo, se futuramente dados comprovarem o contrário, sendo elas similares por casualidade, uma coisa é certa: todas as conexões improváveis do mundo foram gastas nessas duas coreografias. Uma pena. Podiam ter usado essa sorte toda para ganhar na loteria ou, no mínimo, na rifa da quermesse.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a “Schwäbische Mazurka” em https://youtu.be/uTJ_7QU75fQ e a Niederbayrische Mazurka, https://youtu.be/lyK2XlnYaNc . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
21/10 - Der Graf von Luxemburg
A “Der Graf von Luxemburg” é um jogo de cerveja?
Uma canção em Baden-Württemberg é a “Der Graf von Luxemburg”, que tem sua dança presente na “Schwäbische Tanzfolge”. Mas quem é esse “Conde de Luxemburgo” que aparece também em jogo, opereta, música popular e filme?
A música tradicional apresenta um conde que tinha 100.000 Talers - uma moeda da época - e que em uma noite perdeu todo seu dinheiro. A canção já aparece em registros do século XIX, sendo que foi publicada em um livro infantil em 1914. Veja a letra:
„Der Graf von Luxemburg
Hat all sein Geld verjuckt juckt juckt, (2x)
Hat hunderttausend Taler
In einer Nacht verjuckt juckt juckt …
[...] Tütüüüh!“
Ela também era uma “Trinklied”, para cantar e beber, com um “Bierspiel” - “jogo de cerveja”: enquanto cantavam, os bebedores tinham que apontar figuras em um cartão ou quadro. Para cada palavra da música tinha um desenho diferente, como pulgas para “juckt”, castelo para “Luxemburg”, saco de dinheiro para “100.000 Taler” e assim por diante. A cada erro tinham que tomar uma cerveja. Com o tempo, ao cantarem mais rápido e estarem embriagados, os acertos diminuíam… para a alegria do taberneiro.
Já a opereta “Der Graf von Luxemburg”, de Franz Lehár, estreou em 1909. Ela apresenta uma história sobre prazer e dinheiro. Ela se passa entre um carnaval de rua, uma área boêmia e um foyer da ópera parisiense. A partir dela surgiu a música “Sind Sie der Graf von Luxemburg”, de 1968, de Dorthe Kollo, e um filme alemão, de 1972. Por mais que essas narrativas tenham o mesmo tema da canção, de um nobre que perdeu tudo, as comparações terminam aí.
E quem é o conde de Luxemburgo? Difícil de responder. Segundo pesquisas, poderia ser Johann von Luxemburg und Böhmen, com o epíteto de “o Cego”, que viveu de 1296 a 1346. Ele teria perdido muito dinheiro, por mais que não tenha empobrecido por isso. De toda forma, isso é uma suposição. A cultura popular sabe bem criar seus próprios personagens.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a opereta em https://youtu.be/fCi2OxShn-k e a dança em https://youtu.be/fJPB1NtXisI . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
20/10 - Ich bin ein Musikante
Onde fica o “Schwabenland” do “Ich bin ein Musikante”?
Uma antiga canção que ganhou novo destaque, depois da popularização dos vídeos infantis na Internet, foi o “Ich bin ein Musikanten”. Nela as crianças cantam, dançam e teatralizam. Vejamos uma parte da música:
“Ich bin ein Musikante
und komm aus Schwabenland
Wir sind die Musikanten
und kommen aus Schwabenland
Ich kann auch spielen auf meiner Geige:
Wir können auch spielen auf der Geige
Simsimserlim, …
Na canção os participantes contam que são músicos e que vêm da Suábia. A cada estrofe um apresenta um novo instrumento musical, imitando, supostamente, como é o som dele. No exemplo é escolhido o violino - Geige. Nas versões mais tradicionais da “Ich bin ein Musikanten” aparecem o trombone, trompete, clarinete, tambor, flauta, fagote, piano, trompa, triângulo, entre outros.
Já a dança era assim: dentro do círculo estão dois participantes, sendo que um deles vai apresentar seu instrumento musical. À medida que a melodia se repete, um novo “músico” sai da roda e toma à frente da fila, reiniciando o processo. Termina quando todos tiverem feito seu solo. Caso haja uma roda grande, é preciso conhecer muitos instrumentos.
O autor é desconhecido e existem muitas variantes da letra e da melodia, como pode ser visto na Renânia do Norte-Vestfália, Turíngia, Silésia, além de partes de língua alemã da antiga Boêmia. Existem registros impressos dela já na primeira metade do século XIX. Poderia ter sido originalmente uma ironia promovida por músicos viajantes que, depois, chegou às crianças. Existe uma hipótese de que a “I am the Music Man” teria tido sua origem na “Ich bin ein Musikanten”.
Mas onde é o “Schwabenland”? Na prática essa área não tem delimitação exata, sendo mais definida pelas populações que mantêm essa identidade suábia. Como uma referência mais ampla, se poderia pensá-la estando em uma grande parte do sul da Alemanha - principalmente Baviera e Baden-Württemberg -, ultrapassando as fronteiras da Suíça e Áustria.
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19/10 - Salzburger Dreher
A “Salzburger Dreher” é de Salzburgo?
Fazer essa pergunta parece pegadinha, tipo “qual a cor do cavalo branco do Napoleão?”. Contudo, não o é. Essa dança é mais um caso daqueles que tem uma cidade no nome… e ela não é de lá. A “Salzburger Dreher”, assim, não vem de Salzburgo, na Áustria, e sim foi registrada nas proximidades da Floresta da Baviera. Ela aparece tanto em Mühlviertel, na Alta Áustria, como em um distrito bávaro pertencente à Nottau, na Alemanha.
Salzburgo é uma importante cidade austríaca, a quarta maior do país, na fronteira com a Alemanha, sendo a capital do Estado homônimo. Lá é o berço de Wolfgang Amadeus Mozart; o local tem uma arquitetura ímpar; apresenta museus de valor inestimável - como o castelo Hohensalzburg - e foi o cenário do clássico “A Noviça Rebelde”. Só por esses atributos já parece justificável que uma dança queira ter uma “pontinha” de afinidade com este Patrimônio Mundial da UNESCO.
Voltando à dança, fora o nome, não se encontram outras relações dela com a cidade. A coreografia não teria muita relação com o estilo salzburger. Segundo Walter Bucksch, provavelmente a tenham chamado de “Giro de Salzburgo” por alguma referência errada.
Há também curiosidades quanto à música. A sua primeira gravação é anterior a 1914 e é atribuída à Stadtkapelle Straubing, da Baviera - já com o nome “Salzburger Dreher”. A letra da sua canção, presente na segunda parte, também não tem conexão com a cidade austríaca, sendo uma variação da “Ja i bins halt a Lump”, que conta os dissabores da vida de um homem que perdeu tudo o que tinha.
Mesmo não nascendo lá, a “Salzburger Dreher” chegou a posteriori em Salzburgo. Atualmente consta dentre as danças da região, tendo uma anotação que informa a sua real procedência. De certo modo, o nome não mais engana, já que “hoje” ela também “vive” nesta cidade. E respondendo: a cor do cavalo “branco” de Napoleão é realmente branco… pelo menos um dos seus 50 equinos era branco… e Bonaparte não esteve com ele em Salzburg.
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18/10 - Aram sam sam
"Aram sam sam" é uma dança árabe?
Uma música muito popular em atividades infantis na Alemanha, como nas escolas e no Carnaval, é a "Aram sam sam". Autores ou origem exata são desconhecidos, contudo o texto da canção provavelmente vem de um dialeto árabe do Marrocos. Teria se espalhado nas comunidades de língua alemã a partir de conjuntos musicais que a adotaram a partir dos anos de 1960. Vejamos sua letra:
“Aram sam sam, Aram sam sam,
Guli, guli, guli, guli, guli ram sam sam.
Arafi, Arafi, guli, guli, guli, guli, guli ram sam sam”
Ela não é traduzida no alemão e não se conhece a versão original, assim como não se sabe o significado do título, que é similar a sua primeira frase. Já o termo "Guli” supostamente significa “diga-me”. Outra dúvida é sobre o termo “Arabi” ou “Arafi”, que poderia ser “A rafiq” - "um amigo" ou "um companheiro". Mas seria realmente esse o significado? Como o texto da canção transita entre distintos idiomas, podem ter ocorrido diversas mutações na letra e melodia.
E ela é uma dança típica? Claramente não é tradicional e muitos nem a consideram com uma "coreografia". Para estes ela é caracterizada como "música com movimentos". Trata-se de um contexto muito presente entre as crianças, de andar e promoverem gestos enquanto cantam, não tão diferente das cirandas lusófonas.
Mas nem todos gostam dela. Segundo um olhar social da atualidade, a canção apresentaria um preconceito com a língua árabe, como se fosse uma confusão de sons, desvalorizando-a para quem não a entende. Além disso, na coreografia são realizados movimentos semelhantes às posições da oração islâmica, que podem gerar claras controvérsias. De toda forma, é uma leitura da atualidade frente a um olhar menos politicamente correto do passado.
Indiferente do ponto de vista do ouvinte, fica uma pergunta: a minha tia do Marrocos, da canção "Meine Tante aus Marokko" conhece a "Aram sam sam"? Eu não sei a resposta. Terei que aguardar a vinda dela para fazer a pergunta... se ela realmente vier.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a canção em https://youtu.be/gwA9GfYIYus . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
17/10 - Kuhländler Dreher
O Rei Víbora aparece na “Kuhländler Dreher”?
Na República Tcheca existe uma comunidade que outrora era conhecida por ser uma ilha de língua alemã na região: o Kuhländchen. Lá se mantiveram preservadas por gerações muitas canções, músicas, danças e também lendas. Uma dessas histórias fantásticas é especialmente conhecida: dos Reis Víbora - “Otternkönige”.
Contam que toda casa tinha que ter uma víbora doméstica. Essa serpente, segundo a crença popular, era considerada um bom espírito que guardava a casa, além de trazer boa sorte, afastar doenças e todas as influências nocivas. Mas os moradores não deveriam incomodá-la se ela aparecesse, pelo contrário, era sugerido colocar para ela leite recém ordenhado em um local tranquilo perto de casa.
De toda forma, dentre essas cobras do Kuhländchen uma era diferenciada. Segundo a lenda, o “Otternkönig” é uma víbora macho três vezes mais forte do que as outras. Uma vez por ano, em determinada época, ele usava uma coroa de ouro na cabeça. Se fosse de prata, então era a rainha, que sempre seguia acompanhada por sua comitiva de serpentes. Contam histórias sobre as tentativas de roubarem essas jóias reais, mas sempre o ladrão acabava derrotado por esses répteis.
Assim como essa lenda, é também muito apreciada nessa região e no Odergebirge uma dança, que Karl Horak chamou de “Kuhländler Dreher” - o Giro de Kuhländchen. Seus movimentos teriam alguma conexão com os “serpenteios” dos “Otternkönige”? É improvável. A coreografia seria ligada a romance e noivado. O nome original, “Of Brawe naus” e canção trazem versinhos sobre um deslocamento para a vila de Brawe… e nada falam de cobras.
De toda forma, como saber das possíveis influências indiretas em uma ilha linguística? O ritmo forte da “Kuhländler Dreher”, por exemplo, estaria também expresso nas narrativas locais? Quem sabe o casal da realeza das víboras tivesse também uma história romântica. É assim que as lendas sobrevivem.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a dança, no minuto 07:15, em https://youtu.be/AcuNdPeblM0 . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
16/10 - Hunsrücksafari
“Hunsrücksafari” é a dança do Robin Hood do Hunsrück?
Que tal fazer um passeio pelo Hunsrück? Ou quem sabe um safári?
Apesar de o Hunsrück contar com algumas danças típicas regionais, poucas são amplamente conhecidas. A coordenadora do Tanzensemble „La Volte“, Ilona Kramer, aproveitou esse moderno trabalho de Heini Wahl, compositor e músico, criador de várias canções em homenagem ao Hunsrück, e criou uma coreografia para seu grupo. Apesar de não ser uma dança típica, ela traz em sua letra diferentes elementos histórico-culturais da região.
A canção nos leva por uma viagem pelo Hunsrück, seguindo a trilha do “Schinderhannes”. Assim era conhecido no final do século XVIII o jovem ladrão Johannes Bückler. Famoso e temido por todos, ele foi responsável por vários assaltos e roubos na região, muitas vezes bastante brutais.
Com o tempo, ele virou uma lenda, especialmente a partir de histórias contadas (nem sempre condizentes com a verdade). Com o tempo, ele acabou se tornando um verdadeiro personagem regional e sendo conhecido como o Robin Hood alemão, ou o Robin Hood do Hunsrück: aquele que roubava dos ricos para dar aos pobres (o que não era bem verdade).
Assim como no Brasil temos o Lampião e sua Maria Bonita, o Schinderhannes também tinha sua amada: a jovem Juliana Blasius, conhecida como Julchen. Ela participava do bando de Bückler e, vestida às vezes de homem, praticava assaltos com o grupo. Foi ela que deu a luz ao filho do Schinderhannes, Franz Wilhelm.
Na vida real, a rotina do bando do Schinderhannes não era nada encantadora. É apenas na Literatura que ele se transforma em um Robin Hood do Hunsrück. Contudo, o seu fim não foi nada heróico. Por seus atos, Bückler foi condenado em 1803 à morte na guilhotina em praça pública junto com outros dezenove de seu bando. Julchen foi poupada, sendo condenada apenas à prisão.
Apesar de não ser uma dança típica, ela consegue aproximar os descendentes de alemães do Hunsrück no Brasil à terra dos seus antepassados.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja o filme “Schinderhannes” em https://youtu.be/Lko93aqvSI0 . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
15/10 - Hiatamadl
A “Hiatamadl” é uma música do Hubert von Goisern?
Muitas músicas populares se imortalizaram na voz de cantores famosos, sendo algumas delas com coreografias típicas. Isso aconteceu com a dança “Hiatamadl”, que está na “Schwäbische Tanzfolge”? Ela é a mesma do Hit musical “Koa Hiatamadl”, do cantor austríaco Hubert von Goisern?
Hubert von Goisern é um artista versátil com uma carreira consolidada e lota estádios com gerações de fãs. O seu repertório dialoga com sonoridades regionais e internacionais: ele destacou-se pelas pontes feitas entre o contemporâneo - como o rock, o pop e o blues -, e as tradições locais, com seus dialetos e canções populares. Mostrou-se como um divisor de águas.
Elucidando a pergunta anterior, a música de Hubert “Koa Hiatamadl” - podendo ser traduzida como “Nenhuma Pastora” -, que fala das preferências de um rapaz por moças “cheinhas”, foi inspirada na “Hiatamadl”, por mais que não seja a mesma. As duas melodias e a letra se parecem. O que diz o refrão do texto contemporâneo?
“Koa Hiatamadl mog i net
Hot koane dick'n Wadln net
I mog a Madl aus da Stadt
Wos dicke Wadln hat”
Se poderia traduzir como, “não gosto de nenhuma pastora [de animais], pois ela não tem panturrilhas grossas; gosto da moça da cidade, a qual as têm”. Se observa no refrão a soma das frases principais da música original, contexto que também é apresentado nesta dança típica.
É curiosa a frase “Sche san de Landlatanz” de Hubert, quase desconexa da música. Poderia ser traduzida como “bonita é a dança da Landler”, apresentando uma relação regional, ou “bonita é a dança do interior”, que poderia ser uma referência à própria “Hiatamadl”. O autor não esconde sua “musa inspiradora”, ao contrário, explicita a apropriação da cultura popular.
Esse caso mostra o bem sucedido diálogo entre as culturas tradicionais e o mercado atual. Trata-se da necessidade da sociedade em se reencontrar através das identidades regionais, sem abdicar de um cenário globalizado.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a dança em https://youtu.be/j2iMJATny2s . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
14/10 - Rutsch hi, rutsch her
Para onde escorregam na “Rutsch hi, rutsch her”?
Existe um conjunto de danças que fazem parte das “Wechselhupftänze”, por terem como movimento principal a troca de posição dos pés através de pulos. Está entre elas a “Rutsch hi, rutsch her”, assim como a “Herr Schmied”, a Rutscher”, “Wechselhupf”, “Hühnerscharre”, “Das Federbett”, “Strohschneider”, “Strohsackwalzer”, entre outras.
Uma das “Rutsch hi, rutsch her” foi recolhida no Hessen, no Odenwald. Nesse registro há três partes, que se intercalam: 1. passo de troca, 2. lateral nos círculos , 3. valsa. Há também variantes homônimas onde não se realiza a terceira etapa, substituindo a segunda por giros em passo de chote.
Por mais que muitas dessas “Wechselhupftänze” tenham relação com o mecanismo de cortar o feno, como se vê explicitamente na “Strohschneider”, segundo Hans von der Au, a “Rutsch hi, rutsch her” teria outro princípio, como se pode ver na letra:
“Rutsch hie, rutsch her,
Rutsch zu der Mad ins Federbett,
Rutsch zu der Mad ins Bett!
'Bin hie gerutscht un her gerutscht,
Und zu der Mad ins Bett geflutscht”
Segundo ele, em tempos antigos, essa dança tinha um significado de “promoção da fertilidade”. A letra “picante” da canção, que destaca que o rapaz vai “escorregando para lá e pra cá, com a moça para o cobertor de penas” já mostra isso. Essa estrofe teria sobrevivido graças ao relato de idosos. Não por acaso uma coreografia irmã da “Rutsch hi, rutsch her” chama-se “Das Federbett” - por mais que se pudesse traduzir como “cama de penas”, o termo faria referência a uma espécie de edredom de plumas. Outros versos, mais suaves, aparecem com essa mesma melodia.
Isso mostra, mais uma vez, como canções e danças populares não se prendiam à moral e “bons costumes”, mesmo que, em muitos casos, folcloristas tenham tentado fantasiá-las como “puritanas”. Vê-se que associar momentos íntimos ao “edredom” não é invenção do Big Brother na TV.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja uma versão da Alsácia em https://youtu.be/sDiQsaZNoXE . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
13/10 - Schüddel de Büx
Por que se sacode a calça na “Schüddel de Büx”?
Uma das danças mais representativas dos pescadores de Mönchgut, na Ilha de Rügen, é a “Schüddel de Büx”. Traduzida, ela significa algo como “sacuda a calça”. Mas por qual motivo se sacode as calças (e as saias) durante esta dança?
Segundo um registro do final do século XIX, esta dança era comum em toda a Ilha de Rügen, mas estaria caindo no esquecimento. Apenas na Península de Mönchgut, ela ainda estava presente nas festividades. Inclusive, em um romance da época, há a referência de que os pescadores da Península de Mönchgut dançavam a “Schüddelbüchs”.
O pesquisador Willi Schultz registrou uma canção que a acompanha. Seus versos vão relatando o que precisa ser feito durante a dança, como por exemplo, o passeio com o par no centro do círculo e a tão marcante figura de sacudir as calças (e as saias).
Será que todos sacodem as calças apenas porque a canção assim diz? Segundo alguns relatos orais, essa prática seria bastante comum entre os pescadores, pois, como trabalhavam no mar, era comum que suas calças molhassem. E, sacudindo, elas secavam mais rápido.
É interessante observar que os pescadores da Península de Mönchgut, vestem por baixo uma calça justa por dentro das botas e, por cima, uma com pernas largas que passam sobre as botas. Assim, quando eram atingidos pela água, ela acabava escorrendo, mantendo o corpo e especialmente os pés secos e protegidos.
Em uma publicação sobre a dança, Schultz relatou uma cena da “Schüddel de Büx”:
“Era um lindo dia de verão. As calças brancas dos homens brilhavam sob os casacos azuis como espuma nas ondas do Mar Báltico. E agora era hora de dançar. Hannes, o trompetista, gritou para a multidão: ‘Schüddel de Büx!’ Ei, quão rápido os rapazes encontraram suas moças! E os músicos começaram com uma alegre fanfarra de trompa e violino, clarinete e baixo, e todos cantando: “Lüd, Lüd, nu geiht dat an!”
Animados, todos dançavam e cantavam a “Schüddel de Büx”.
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12/10 - Eins, zwei, drei, bei der Bank vorbei
“Eins, zwei, drei, bei der Bank vorbei”: uma dança típica ou uma esquete teatral?
Entre as danças típicas, o primeiro registro feito da “Eins, zwei, drei, bei der Bank vorbei” foi o de Anna Helms em seu quarto livro “Bunte Tänze” em 1928. A coleta da dança se deu a partir da junção de trechos encontrados em diferentes localidades de Holstein (norte da Alemanha), inclusive sua melodia.
Por volta de 1876, em Berlim, foi lançada uma pequena esquete teatral chamada “Itzig Hirsch in der Tanzstunde” (Itzig Hirsch na aula de dança). Como alternativa ao título aparece “Eins, zwei, drei, bei der Bank vorbei!”. Ela foi escrita por A. Alexander, com música de Fritz Kaiser.
Itzig Hirsch conta que havia conhecido uma moça, mas ela não iria com ele ao baile, pois ele não sabia dançar. Então, ele foi à procura de um professor de dança. Hirsch queria aprender uma polca, uma valsa e um galope. Mas o professor informou que ele precisaria aprender também uma quadrilha. Porém, como estavam sozinhos, ele não conseguiria ensinar uma quadrilha. Itzig alertou que o professor precisaria dar um jeito, senão iria procurar outra escola de dança.
E o que o professor fez? Para marcar as posições da quadrilha, colocou em frente a Hirsch um banco (Bank) - para representar o par contrário -, de um lado, sua esposa (Frau) e, do outro, sua empregada (Magd). Todos em posição, o professor começou a tocar a música e a cantarolar alguns versos que orientavam o que Hirsch deveria fazer na dança:
“Um, dois, três,
Passando pelo banco,
Pela esposa, pela empregada, passando pelo banco,
De volta pro lugar, dois, três!”
Seguindo essa sequência, ele aprenderia os passos.
Analisando as datas dos registros, é possível que a música da esquete tenha sido bastante conhecida no período e, durante suas pesquisas, Helms possa ter se lembrado dela ao encontrar alguns trechos de diferentes coreografias.
De qualquer forma, essa são apenas suposições. Mas uma certeza se tem: Itzig Hirsch aprendeu a dançar como queria!
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11/10 - Rühler Springer
“Rühler Springer” foi composta por Bach?
Os moradores da Turíngia são dançarinos entusiasmados. A dança faz parte de suas festividades. É de lá que vem a “Rühler Springer”. Sua descrição teve como base alguns registros históricos encontrados pelo pesquisador Arno Schlothauer. Seu nome nos mostra que ela é da cidade de Ruhla.
Em um registro de 1813, além da partitura, encontra-se uma breve descrição da dança. Contudo, entre os anos de 1867 e 1908, ela não foi mais executada na região. Então, para que pudesse ser reconstruída, foi preciso contar com a ajuda de algumas pessoas mais antigas que já haviam dançado ou menos assistido a dança.
Em sua publicação, Schlothauer fez uma ressalva: caso algum grupo quisesse causar uma boa impressão com a “Rühler Springer”, precisaria executá-la com, no mínimo, seis pares, os quais deveriam dançar de forma ligeira e vivaz. Além disso, é pré-requisito ter força nas pernas, além de coração e pulmão saudáveis, uma vez que, quando a “Springer” é dançada, se tem a impressão de que “a casa vai cair”. Além da versão registrada por Schlothauer existem também duas escritas por Aenne Goldschmidt e Thea Maass, a partir de registros do início do século XIX.
Apesar de não ser conhecido o nome de seu compositor, será que ela não poderia ser uma obra de alguém famoso, como por exemplo, Johann Sebastian Bach? Parece exagero, mas Bach tinha um tio em Ruhla, chamado Jacob Bach. Nesse período, Johann Sebastian teria o visitado diversas vezes, tendo tocado, inclusive, em muitas festas locais. Pesquisadores reconhecidos de Bach apontam algumas semelhanças entre algumas peças suas e a “Rühler Springer”, indicando que Johann Sebastian Bach poderia ser mesmo seu compositor ou, ao menos, algum outro integrante da família Bach.
Independente de quem seja o compositor, não esqueça: a “Rühler Springer” é uma dança que precisa ser muito bem preparada e executada com vivacidade! Portanto, faça um eletrocardiograma antes para ver se está tudo em ordem!
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10/10 - Seddinpolka
Onde surgiu a “Seddinpolka”?
Na década de 1920, Herbert Oetke e Heinrich Dieckelmann, com o objetivo de trazer novas danças que pudessem unir o tradicional e o novo tanto na coreografia quanto na música, criaram algumas danças. Após três anos de trabalho, surgiu a coletânea chamada “Schwingkehr” (ver Schwingkehr - 12.02.2023; Märkische Viertour - 24.02.2023; Der Kobold - 17.05.2023; Choriner Vierer - 13.06.2023). É nela que foi registrada a quadrilha “Seddinpolka” - a “polca Seddin”.
Dentro da antiga região do Mark Brandenburg, encontramos “Seddin” como referência a duas localidades: uma próxima a Potsdam e outra na região de Prignitz.
Ao sul de Potsdam, Seddin faz parte da comunidade Seddiner See. O nome do lugar provavelmente vem da palavra eslava “zid”, que representa o adjetivo “líquido”. Os primeiros assentamentos humanos próximos a Seddin datam de mais de 10.000 anos. O vilarejo atual provavelmente remonta a uma vila eslava do rio Elba localizada ao redor da praça da igreja de hoje.
Já a outra Seddin fica a cerca de 140 quilômetros de Berlim na região de Prignitz, no oeste do atual estado de Brandemburgo. Sua origem também é eslava e, apesar de o atual vilarejo ter surgido por volta do século XIV, há registros da presença de moradores desde a Idade do Bronze.
É exatamente desse período a principal referência histórica da região: o “Königsgrab”, um túmulo real. De grande importância arqueológica, no local, foram encontradas várias ferramentas e outros elementos que representam um pouco da vida na região durante aquele período. Calcula-se que os achados tenham aproximadamente três mil anos e indicam que esse seja o último local de descanso de um rei chamado Hinz.
Apesar de tantas referências históricas em ambas as “Seddin”, sabe-se que a dança “Seddinpolka” não é uma dança típica de nenhum desses lugares, mas sim uma representação das novas danças típicas do Mark Brandenburg, criadas durante o Movimento da Juventude Alemã.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a música dela em https://youtu.be/jR2ypbgF_2g . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
09/10 - Masianer
De qual misteriosa cidade vem a “Masianer”?
É muito comum dentre as danças das comunidades de língua alemã terem nomes que fazem referência a um local. Geralmente essas terminam com o sufixo “er”, como a “Lauterbacher”, “Untersteirer Landler”, “Italianer”, “Münchner Polka”, entre outras, mesmo que ela não seja realmente do local indicado. E a “Masianer” se refere a uma localidade?
Segundo Erna Schützenberger e Hermann Derschmidt, a “Masianer” também pode ser encontrada como “Massiner”, “Massianer”, “Kempingerin”, “Wechseltanz” “Henderl, bi bi”. Essa última designação seria em função do texto cantado nos compassos 9 e 16: “Henderl, bi, bi, Henderl, ba, ba,
Wennst ma koa Oa nit legst, stich i di ab”. E é bom não confundí-la com “Marsianer”, já que, com certeza, ela não é “marciana”, vinda de Marte.
A coreografia é popular no sul da Alemanha e tem variações dependendo da região, como vista na Baixa Baviera, em Mühlviertel, em Hemau, em Ruhpolding, entre outras. Composta por um conjunto de passos ternários, os pares “valseiam” tanto para o sentido horário quanto anti horário. Não sendo muito rápida, alcançou diferentes públicos, superando barreiras etárias.
Mas com base no nome, de onde ela seria? Se o termo referenciar um lugar, viria provavelmente de uma localidade de nome “Masian”, ou “Massian”, ou “Massin”, ou “Kemping”,... O problema é que não há registros de comunidades com essas denominações, pelo menos não na área onde essa dança sobrevive. Quem sabe pudesse estar ligada a uma propriedade familiar? Ou será que na transmissão oral a palavra mudou tanto que hoje ela não é mais reconhecível? Não se sabe.
Mistério ou uma história esquecida? Quando as peças desse quebra-cabeças forem reunidas é provável que a “Masianer” ainda tenha muito a contar. A letra de sua canção também guarda narrativas que ultrapassam a simples tradução. De toda forma, haver perguntas sem respostas pode atiçar a curiosidade. O que seria de Marte se os humanos conhecessem os marcianos?
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08/10 - Schottesch Näip
A “Schottesch Näip” era tocada por um músico cego?
No dicionário de Luxemburguês, encontra-se “Näip” como um cumprimento curvado. A “Schottesch Näip” leva esse nome, por causa da reverência entre os pares.
Ela foi encontrada no livro “Die Bauernhochzeit in früheren Zeiten”, que descreve como eram os casamentos dos camponeses antigamente. Na obra, ela também foi registrada com o nome de “Pätterendanz”. Geralmente, após a refeição - e depois de uma cachacinha -, todos se reuniam para essa “gemittléchen Danz”. Era comum que algumas pessoas perdessem até o equilíbrio no momento do cumprimento. Por que será?
Nas danças com cumprimento, era muito comum encontrar alguns versos cantados. O seu luxemburguês está afiado? Esse é o verso cantado pelas moças:
“Léift Meedche looss de Steemetz gon,
e bréngt dech al a Nout.
Am Summer feelt de Mann am Haus,
am Wanter feelt der d’Brout.”
A tradução seria mais ou menos assim:
“Querida moça, deixe o pedreiro ir,
ele te trará dificuldades.
No verão, o homem falta em casa,
no inverno, falta pão.
No casamento dos camponeses mais ricos, era comum que um conjunto de músicos fosse contratado para a festa: violino, flauta, clarinete e contrabaixo. Conforme as posses da família, poderiam ser de quatro a dez musicistas.
Já nos casamentos mais simples, era comum apenas um músico: ou violino ou clarinete. Durante a celebração, ele era responsável pelos cantos litúrgicos e, à noite, pela diversão com danças. Um instrumentista muito conhecido na região era o “blannen Theis”, o “Theis cego”. Seu nome era, na verdade, Mathias Schou, e ele costumava ir de vilarejo em vilarejo com seu violino tocar nas diferentes festividades. Apesar de não enxergar, ele era responsável pela animação de muitas festas de casamento e também de quermesses. Todos sabiam que uma festividade com música do “blannen Theis” seria sucesso com certeza.
Apesar de não ter um registro específico, é provável que esse extraordinário músico tenha tocado muitas vezes danças como a “Schottesch Näip”.
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07/10 - Brühtanz
A “Brühtanz” é a dança do café de chicória?
A “Brühtanz” é uma antiga dança de sala de fiar - “Spinnstubetanz”. Foi coletada na localidade de Sparbrod, na região do Rhön, no Hessen, por Hans von der Au, com base nos apontamentos de Joh. Bartelmes. A música é uma variante da “Bohnenpott” / “Bohnenmarie”, conhecida em muitos dialetos, sendo que a segunda parte, com chote, foi apresentada pelo regente Hofmann do grupo musical de Gersfeld.
O nome “Brühtanz” pode ser traduzido como “Dança do Caldo”. Contudo, “Brühe” também pode ser uma infusão, como um chá. Segundo Hans von der Au, aqui o termo é depreciativo, referindo-se à bebida feita aos pobres com raíz de chicória, um substituto ao café. A palavra aparece na primeira frase da música: “Wenn hier ein Topf mit Bohnen steht und da ein Topf mit Brüh, dann laß ich Brüh und Bohnen stehn und tanz mit der Marie”. Já no alemão “Bohnen” não quer dizer somente feijões, tendo também outros grãos chamados assim; neste caso da canção, são de café.
Vendo as coreografias da “Bohnenpott” e da “Brühtanz”, a primeira segue tradicionalmente em pares o estilo “Kreuzpolka”, com uso do contrapasso - “Wechselschritt”. Já a segunda ocorre com dois círculos concêntricos, um das moças e outro dos rapazes, sendo indicado o uso do passo lateral - “Nachstellschritt”, que faz com que os dançarinos batam os calcanhar da esquerda nos da direita, gerando movimento e sonoridade diferenciados. De toda forma, mesmo distintas, como ambas são executadas com ritmos similares, os passos acabam por se parecerem.
Um dado curioso é que Wolfgang A. Mayer, em 1983, escreveu para sua filha uma nova letra para essa melodia tradicional. Nesta composição, na primeira frase, consta a referência à “Katherl” - diminutivo para Katharina. O novo texto se popularizou na região de Munique, ficando mais conhecido na Baviera do que o original, fazendo a “Brühtanz” também ser chamada de “Katherltanz”.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a“Bohnenpott” em https://youtu.be/cTB6jfe5G8o e a dança em https://youtu.be/G3vROYi04ZM . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
06/10 - Vleegerd
“Vleegerd” é uma dança da colheita?
Nas províncias holandesas de Gelderland e Overijssel são encontradas muitas danças típicas. Uma delas é conhecida como “Vleegerd”. Tradicionalmente, ela ocorre em três variações no leste dos Países Baixos. A versão mais popular é provavelmente aquela registrada em 1950 por Anna Sanson-Catz e Anne de Koe em seu livro “Nederlandse volksdansen”. Acredita-se, inclusive, que parte dela tenha sido coreografada pela própria Anna.
Em 1953, a “Vleegerd” também foi registrada no vilarejo de Markelo, na província de Overijssel. Segundo os relatos, ela estaria ligada a antigas danças de roda, como a “Het patertje”, muito popular na região, especialmente nas festas de casamento e em volta da fogueira de Páscoa.
Tradicionalmente, o foco dessa dança está na alternância entre duas figuras: o encontro dos pares ao centro com a troca de lugar e o encontro dos pares ao centro com a troca das moças.
Para alguns, esses movimentos lembravam o trabalho com o “dorsvlegel” (em alemão, “Dreschflegel”), instrumento da lida agrícola usado na malha dos cereais para debulha-los. Em português, essa ferramenta é conhecida como “malho” ou “mangual”.
Durante a debulha, várias pessoas agrupam-se em torno dos grãos, que são espalhados geralmente no chão sobre uma superfície dura, a eira . Então, os trabalhadores acertam os grãos com o mangual. Isso deve ser feito no ritmo correto para evitar que os manguais se batam.
Da mesma forma, o movimento dos pares no centro do círculo deve acontecer no ritmo correto, para que não se choquem. Por isso, acredita-se que o nome da dança tenha surgido a partir dessas figuras realizadas. Assim, na hora de anunciar a dança, ficava mais fácil de todos lembrar! É aquela do “Vleegerd”, no dialeto local.
Apesar de o instrumento que nomeia a dança ser usado no trabalho dos camponeses, não há registros que “Vleegerd” seja uma dança da colheita ou que represente o trabalho no campo. Ela é presença certa em diferentes festividades.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a partir de 1:30 a dança em https://youtu.be/kR1b4Dhubbo . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”: www.imperial.fm.br
05/10 - Alewander
A “Alewander” é uma dança alemã, vindo da França para a Suíça?
Um nome que por muito tempo foi dado por estrangeiros às danças que eram ou pareciam ser alemãs era “Allemande”. A palavra vem do latim “alemamos”. Uma das versões mais aceitas para a origem do termo é que era a forma como os romanos designavam grande parte das tribos germânicas que estavam no entorno do seu império. Não por acaso vem dali “Alemanha” e “alemão”.
Na Suíça existe um conjunto de danças de nome “Alewander” ou “Aliwander” que provavelmente teriam sua base no mesmo termo “Allemande”. Elas se caracterizam por serem coletivas em círculo, com interações entre os pares, e apresentarem variantes da figura “Kette” - “Corrente”. Essas formações, em teoria, que as teriam identificado como tradições alemãs.
Mas quem disse que esse contexto coreográfico era “alemão”, para chamar de “Allemande”? Uma das hipóteses para a chegada deste estilo ao país teria sido a influência de franceses no século XVIII, que teriam adentrado os Alpes. Lá os helvéticos teriam ajustado o nome, música e figuras, agregando novas características.
Herbert Oetke destaca que a versão da “Aliwander” suíça encontrada no Appenzell ainda hoje mantém características tradicionais, como da “corrente” com mãos. Richard Wolfram, sobre a mesma dança, evidencia que outras figuras ainda se mantém vivas ali, como a parte que os rapazes levantas as moças como que em um balanço - como visto em coreografias bávaras - e o movimento delas como se entrassem e saíssem dos cômodos de uma casa.
Na atualidade a “Alewander” é uma clara manifestação da cultura helvética, destacando que suas danças são plurais assim como seus quatro idiomas oficiais. Suas diferentes variantes, sejam de melodias e coreografias antigas ou de novas composições, são exemplos do diálogo dinâmico dos suíços, conectando as tradições e a contemporaneidade, mantendo sua cultura ativa e viva.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a “Appenzell Aliwander” em https://youtu.be/-cSY8GFVsz4 e uma popular “Alewander” em https://youtu.be/mtdyO0pyZck . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, nosso “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
04/10 - Ponypferdchen
Quem é o pequeno Johnny na dança “Ponypferdchen”?
Popular entre os grupos de danças alemãs, a música “Ponypferdchen” teve como base uma melodia de Portugal, adaptada pelo músico Heinz Lemmermann. Posteriormente, Lieselotte Holzmeister, esposa do fundador da editora alemã Fidula, escreveu o texto em alemão para a música. Estava pronta, assim, a canção também chamada por alguns de “Bitte, gib mir noch ein Zuckerstückchen”, que é o seu primeiro verso.
Para sua publicação, Hannes Hepp criou uma coreografia com variações para dois, três ou quatro dançarinos e a gravação da canção ficou por conta do coral “Der Kölner Kinderchor”. Assim, a canção e dança infantil “Ponypferdchen” foi lançada na década de 1970 na coletânea “Tanzlieder für Kinder”.
Posteriormente, o berlinense Volkhard Jähnert também criou uma coreografia para trios com execução da música por Martin Ströfer, publicada em “Neue Tänze aus Berlin”.
Vamos conhecer um pouco mais da canção escrita por Lieselotte Holzmeister?
Em seu texto, ela nos conta um pouco sobre o pequeno pônei chamado Johnny. A criança pede para que alguém lhe dê mais um torrão de açúcar para seu cavalinho, o qual agradece relinchando um “obrigado”. Depois, ela pede que seu pônei seja selado de manhã cedo, enquanto o orvalho estiver caindo. Quando todos os cavalos estiverem brincando: o preto, o alazão e o tordilho. Por fim, a criança pede mais um outro pedaço de açúcar para seu pônei Johnny, pois, depois, irão adiante. E o cavalo pônei vai relinchando, enquanto ela canta e cavalga.
No refrão, as crianças cantam em conjunto:
“Por todo o país, hoje, meu cavalinho trotará.
E então, como recompensa, um torrão de açúcar ganhará.”
Mas, o cavalo pode comer açúcar?
Torrões de açúcar natural, por exemplo, podem ser dados aos cavalos como recompensa depois de uma tarefa bem executada. Mas cuidado! Recomenda-se de 3 a 4 torrões apenas. Contudo, procure um veterinário antes de sair dando torrões de açúcar para o seu pequeno Johnny!
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a dança em https://youtu.be/w7WqGlW5Es4 . Nos acompanhe às quintas-feiras, 20h, no “Boletim Der Hut” em www.imperial.fm.br .
03/10 - Krüz-König
Seria a Krüz-König a dança do Rei de Paus?
Entre os grupos típicos, existe uma dança que praticamente todos querem aprender: a “Krüz-König”. Com coreografia de Ludwig Burkhardt e música de Heinrich Dieckelmann, ela surgiu em 1924, em Hamburg-Altona, e faz parte das “Jugendtänze”, danças relacionadas ao Movimento da Juventude Alemã do início do século XX.
Segundo Burkhardt, ela foi composta de forma intuitiva e espontânea. Pensada inicialmente para a diversão entre alguns dançarinos, ela foi ganhando cada vez mais adeptos. Porém, o auge de seu sucesso aconteceu apenas cerca de vinte anos depois, com o lançamento do disco norte-americano da coleção “Folk Dances For All”, de Michael Hermann, trazendo “The German Kreuz Koenig”. Na introdução, o produtor complementa: “Se os seus dançarinos estão empolgados e executaram com maestria as outras danças, então você poderá recompensá-los com a ‘Kreuz-Koenig’. Ela é a dança que todo mundo quer aprender primeiro”.
Conhecida por muitos como a “dança do vôo”, a descrição original não traz essa figura! Porém, o próprio autor acrescenta: “Nunca pretendi acrescentar a figura do vôo. Mas, após testar uma vez com meu próprio grupo, sugiro que, quando quiserem realizar essa liberdade artística, apenas o façam com dançarinos muito bem preparados.” Por fim, Burkhardt acredita que a “Krüz-König” um dia fará parte das “Volkstänze”.
Por ser tão popular, seu nome também apresenta variações. O original em Plattdeutsch é “Krüz-König”, mas, por causa da publicação americana, ela passou a ser conhecida como “Kreuz-König”, na variante oficial do idioma alemão.
Krüz-König nada mais é do que a carta do baralho conhecida em português como “Rei de Paus”, a qual, conforme o baralho francês, representa “Alexandre, o Grande”, rei da Macedônia e líder da expansão grega pelo Oriente.
Apesar de, até o momento, não conhecermos o motivo da escolha de seu nome, poderíamos especular que teria sido a escolha perfeita para nomear essa grande dança!
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a dança em https://youtu.be/h_4iuW3OqwA e em https://youtu.be/zrGabzsih90 . Nos acompanhe às quintas-feiras, 20h, em www.imperial.fm.br .
02/10 - Mistträppeler
“Mistträppeler”, “Mëschttrëppler” e “Mistträppeler Mazurka” são a mesma dança?
Existem danças ligadas ao ambiente rural que têm praticamente o mesmo nome: “Pisador de Esterco”. Elas são diferentes umas das outras, por mais que tenham pontos em que elas dialoguem.
Quando essas danças foram criadas, a maioria das pessoas trabalhava no meio rural. Assim, grande parte das famílias tinham animais em suas propriedades, em estábulos. Portanto, limpá-los era um trabalho diário. O estrume era levado para fora e depositado em um monte - “Miststock” - e para otimizar o espaço era necessário compactá-lo e deixá-lo bonito, o que podia ser feito à base de pisoteios no lugar certo. Seria essa a origem do termo “Mistträppeler”. A mesma palavra teria sido usada de forma jocosa para chamar as pessoas que cuidavam e alimentavam o gado no curral.
Na Suíça, na região do Emmental, no cantão de Berna, há duas danças com esse tema, que não são a mesma: a “Mistträppeler” e a “Mistträppeler Mazurka”. Ambas são populares, além de serem mazurcas, por mais que a segunda seja a mais conhecida, tendo a coreografia dividida em três etapas - na última repetição agregam uma figura em formato de moinho.
Um dado curioso é que a “Mistträppeler” suíça tem uma “irmã” em Luxemburgo, a “Mëschttrëppler”. Ambas tecnicamente têm melodias similares, entretanto, com coreografias diferentes. Qual teria surgido primeiro? É difícil precisar. De toda forma, nos três casos apresentados as figuras são acompanhadas por passos firmes, representando o pisotear do estrume.
Um dado é importante: indiferente de qual das “Mistträppeler” você estiver dançando, cuidado para não pisar no pé do parceiro. Além de os passos serem mais intensos, causando algum desconforto em quem for pisado, é possível que o outro se sinta comparado a um “cocô”, o que não é nada agradável.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a “Mistträppeler Mazurka” suíça em https://youtu.be/jW_5dBu5Mio e a luxemburguense “Mëschttrëppler” em https://youtu.be/S_K4TfxWlVo . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, nosso “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
01/10 - Kontra med Mølle
A “Kontra med Mølle” faz referência ao moinho de Vejle?
“Quando criança, lembro que tinha um moinho na minha cidade. Na época, eu não entendia muito bem para que ele servia, mas lembro que era um ponto de referência: depois do moinho, seguia o caminho para a casa de meus avós. Meus pais contavam que, quando jovens, precisavam levar o trigo até o moinho.”
Com certeza, você já ouviu ou viveu alguma história semelhante. Ela pode ter acontecido nas comunidades de imigrantes no Brasil ou até mesmo em localidades da Alemanha ou da Itália.
O moinho está presente na vida do camponês de diversos países. Da mesma forma, ele aparece como elemento em suas danças típicas. Será que é esse o caso da “Kontra med Mølle”?
Com origem no sul da Dinamarca, especificamente na região de Vejle (pronuncia-se “vaile” em dinamarquês), a dança leva o nome de “contradança com moinho”. Será que existe algum moinho na região que serviu de inspiração para ela?
Vejle é uma cidade dinamarquesa na costa do mar báltico com tradição comercial. Lá, está localizada a ponte mais antiga do país, construída para ligar o sul e o norte da Dinamarca. E não é que Vejle também é conhecida por um outro ponto turístico importante? Exatamente, um moinho de vento!
Por muitos, ele é considerado o símbolo principal da região. O moinho de vento está localizado em uma colina ao sul de Vejle e, assim, pode ser visto de grande parte da cidade. Dele, se tem uma vista impressionante de toda a região.
Apesar de o atual prédio ser de 1890, há registros de que o moinho funciona no local desde 1846. Ele contribuiu para a história da indústria da moagem na região e foi marcado por grandes acontecimentos, como a ocupação de Vejle em 1864 (durante a Guerra dos Ducados do Elba) e seus dois incêndios (1890 e 1938).
Contudo, nos faltam registros sobre a inspiração para a dança “Kontra med Mølle”. De qualquer forma, tanto a dança quanto o moinho de Vejle são dois importantes legados histórico-culturais dessa região dinamarquesa.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a dança em https://youtu.be/iChHK-SMLzg . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, nosso “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .