31/07 - Der Millionär
Se eu dançar a “Der Millionär”, vou me tornar milionário?
A busca pelo milhão está presente na cultura popular de muitos países. Tanto no Brasil quanto na Alemanha, o jogo de perguntas e respostas com prêmio de um milhão é muito popular. Também no cinema, por exemplo, encontramos diversos personagens em busca pelo tão estimado valor.
E quem não lembra do personagem dos quadrinhos, o muquirana “Tio Patinhas”? A propósito, você sabia que, em alemão, o personagem se chama “Onkel Dagobert” (ou também “Dagobert Duck”)? Se bem que ele está mais para bilionário do que para milionário.
Quem não quer ser um milionário, não é?
Então, se eu dançar a “Der Millionär”, vou me tornar um milionário?
Infelizmente, não é tão fácil assim. Vamos entender a relação desta dança típica com o seu nome.
No estado alemão da Turíngia, foi encontrada uma dança com o nome de “Der Millionär”. O professor Arno Schlothauer descreveu a dança como uma das mais queridas pelos antigos moradores da região de Ruhla. Segundo ele, essa bonita e extremamente agradável dança era executada na região há quase dois séculos. E, como eles a estimavam como algo muito especial, a chamavam de “a milionária”. Sua música é composta por trechos de antigas melodias da Turíngia.
Desde então, a dança ganhou novamente vida nas mais diferentes festividades tanto em Ruhla quanto também em outras regiões. Para sua execução, sugere-se o mínimo de quatro pares. Além disso, a troca de passos e figuras deve acontecer de forma bastante elegante (afinal, é a milionária!)
Quem já dançou a “Der Millionär” sabe bem do que estamos falando. Ela representa muito bem a junção perfeita entre melodia e variação de figuras, o que a torna “a milionária”. Um adjetivo que representa muito mais do que valor financeiro, mas sim valor artístico e cultural. Afinal, mesmo não tendo muito dinheiro, podemos ser ricos em outras áreas! Por isso, vamos dançar a “Der Millionär” e valorizar cada vez mais as diferentes manifestações culturais!
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja essas e mais informações deste projeto.
30/07 - Tsjerkessia
A “Tsjerkessia” e a “Fröhlicher Kreis” são parentes?
O nome “Tsjerkessia” se refere ao povo circassiano, grupo étnico originário da região do norte do Cáucaso, localizado entre o mar Negro e o mar Cáspio e que forma a fronteira entre Europa e Ásia. Cristãos desde o século VI, os circassianos adotaram o islamismo no século XVIII para se unirem a outros estados islâmicos dos Impérios Persa e Otomano contra o czar russo. Durante a Guerra Circassiana (1763-1864), mais da metade de seu povo morreu e cerca de um quarto foi deportado.
Mas como uma dança circassiana chegou aos primeiros israelenses?
De acordo com o estudioso de dança israelense, Dr. Zvi Fridhaber, os circassianos e os grupos de imigrantes judeus da área do Cáucaso, antes e durante as primeiras ondas de imigrantes pioneiros, tinham um background comum para suas danças e músicas. Então, em algum momento, os judeus que migraram do sul da Rússia e da Ucrânia - para onde o Czar havia realocado os circassianos - e os imigrantes circassianos - reassentados na Palestina pelos otomanos - inspiraram os judeus que viviam na Palestina a adaptar os motivos circassianos a uma ou mais danças chamadas “Cherkessia”.
Por isso, desde 1940, é possível encontrar publicações de diferentes danças que se referem a esse nome. Entre elas, está a “Tsjerkessia” - termo holandês - ou “Cherkessia”. Podemos dizer que ela é uma dança de Israel com características das circassianas.
Se você leu até aqui, talvez já tenha percebido que o nome “circassiano” soa até familiar, não é? A dança “Fröhlicher Kreis” (30.07.2023) também é conhecida como “Circassian Circle” - círculo circassiano. Porém, é pouco provável que as duas tenham a mesma origem. Talvez elas até possam ser parentes muito distantes. Contudo, é possível que tenham sido nomeadas assim por conterem alguns elementos comuns nas danças circassianas, especialmente a vitalidade acompanhada de uma melodia cativante.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja essa música em https://youtu.be/CRoeesbkJEQ . Nos acompanhe nas redes sociais do Der Hut e escute o nosso Boletim às quintas-feiras, 20h, na imperial.fm.br.
29/07 - Koseder
Koseder é a dança mais representativa da Cassúbia?
Era uma vez, em um pequeno povoado na Cassúbia, uma menina muito alegre e sonhadora. Um dia, ela ficou encarregada de levar o almoço para sua avó. Durante o caminho, a jovem acabou se distraindo e sujando seu lindo avental branco. A pequena se entristeceu, parecendo que nunca mais voltaria a sorrir.
Ao chegar à casa da avó, a menina não tinha mais o brilho em seu olhar como outrora. A pobre senhora quase não reconheceu a neta. Temendo que a pequena morresse de tristeza, a vovó teve uma ideia: pegou o avental e correu para o campo.
Como era primavera, a doce senhora encontrou todo o colorido da flora da Cassúbia. Uma a uma, ela foi colhendo as flores: o amor-perfeito, o lírio, a margarida, o cravo, a tulipa e a rosa. Com cuidado, foi colocando cada uma sobre o avental, formando um belo desenho. E, com suas mãos rápidas, foi bordando cada flor. Em poucos instantes, a avó fez uma representação do que havia de mais bonito ao seu redor.
Ao ver seu avental, os olhos da menina voltaram a brilhar e a tristeza desapareceu. E, assim, como costumam terminar os contos de fadas, a avó e a menina viveram felizes para sempre!
Assim como podemos identificar os cassubianos pelos bordados que trazem, o mesmo acontece via suas danças. Em seu repertório, uma de suas mais representativas é a “Koseder”. Seu nome vem de uma antiga expressão eslava que significa “cortar” ou “cortar com os pés”, movimento que é visível na dança.
E há alguma relação entre esse “corte” na “Koseder” e o “colher” das flores, como na história do avental? Muito improvável. Há alguns que acreditam que ela seja uma dança da colheita, mas não de flores e sim de alimentos. Seguindo essa lógica, estaríamos falando de uma dança camponesa provavelmente executada em períodos quentes. É uma hipótese.
Sendo da colheita ou não, a Koseder é com certeza uma das mais antigas e também principais danças da Cassúbia. Como ela se relaciona com suas lendas e narrativas é uma questão que, no momento, não temos como elucidar.
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28/07 - Hohenbuckoer Springer
A “Hohenbuckoer Springer” é uma dança pomerana da colheita?
No período da Alemanha Oriental, Gertud Küster dedicava suas férias de verão para pesquisar danças típicas. Ela passava por pequenos vilarejos e perguntava sobre antigas coreografias e melodias que os moradores talvez conheciam. Não era fácil ganhar a confiança dos mais velhos.
Em outra ocasião, Gertud participou de um curso que reuniu em Cottbus instrutores de Volkstänze. Nele, esteve presente Manfred Schmidt, do grupo da MTS Hohenbucko. Ele relatou que sabia uma dança que ninguém mais conhecia ou tinha registrado. Uma que ele aprendeu com sua avó.
Posteriormente, Gertud foi até Hohenbucko, no Brandenburgo, para conhecê-la. Ela quase não podia acreditar no que seus olhos viam. Uma dança típica alemã com tanta energia e empolgação! E os jovens executando ela com grande entusiasmo!
Logo, Gertud percebeu que a melodia era semelhante a da “Steieregger”. Outra dúvida que surgiu foi, como uma dança alemã tinha tantos saltos? Manfred explicou que, possivelmente, ela tenha as mesmas influências que a própria história da região de Fläming, onde fica Hohenbucko, a qual recebeu imigrantes belgas da região de Flandres e também de Boêmios com raízes eslavas.
Até o final do século XIX, a “Hohenbuckoer Springer” costumava ser executada na região em festas da primavera entre Páscoa e Pentecostes. Mas também durante o período da colheita, a “Springer” era dançada nos campos. Porém, nas festas da colheita, ela não tinha lugar.
No Brasil, a dança ficou muito conhecida por fazer parte da “Erntefest”, uma representação da festa da colheita na Pomerânia. Contudo, como podemos ver acima, a “Hohenbuckoer Springer” é uma dança do sul de Brandenburgo.
Aqui, vai um pedido: pergunte aos seus avós, se eles conhecem alguma dança, mesmo se você achar que eles não saibam. Pode ser que, em cem, teremos apenas uma resposta positiva, mas ela com certeza valerá a pena!
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja a Erntefest em https://youtu.be/yPd_IjCbGCA e https://youtu.be/54qh220PaQ0 . Veja as redes sociais do Der Hut e escute o “Boletim Der Hut” às quintas-feira: imperial.fm.br.
27/07 -Der Trülli
“Der Trülli” deveria ser uma lenta dança da Suíça?
Responda: qual é a capital da Suíça?
A) Basileia;
B) Zurique;
C) Berna;
D) Genebra;
Você errou se escolheu “B”! Zurique é a maior cidade, com 400.000 habitantes, mas Berna é oficialmente a capital da Suíça, mesmo com seus módicos 130.000 moradores.
O povo de Berna tem a reputação de não ser “muito rápido”. Em 1848 essa também teria sido a razão da escolha dela como sede do governo e do parlamento. Diziam que “nada estava acontecendo em Berna” e por isso os governantes não se distrairiam: “trabalhariam muito”. Provavelmente a mais importante justificativa era que lá tinham o melhor elo, no território helvético, entre os falantes do alemão e do francês.
Mas sendo a música da “Der Trülli” de Berna, ela teria que ser lenta e tranquila, não? Pelo contrário: a expectativa não correspondeu à realidade. Ela é bastante rápida e requer dançarinos experientes. Annelies Aenis criou a coreografia, na Basiléia, porque gostou muito da melodia e queria propor algo desafiador.
Ela provou que mesmo detalhes sutis podem embaralhar as ideias dos dançarinos mais bem preparados. O tradicional “taco, ponta e contrapasso” - “Ferse, Spitze, Wechselschritt” -, por exemplo, teve a ordem alterada: "contrapasso, taco, ponta do pé". Parece simples, mas essa mudança já causou muito “trabalho mental” a quem está determinado a dançá-la.
E uma curiosidade: o nome da música era diferente do atual da dança. Essa composição de Märku Hafner chamava-se “Där luschtig Gätzibrunner” - “O alegre morador de Gätzibrunnen”. Provavelmente isso ocorreu por "Trülli" ser uma denominação mais curta, fácil de dizer e descrever muito melhor o caráter dela: “trullen” significa “virar rapidamente”.
Assim, não se deixe levar pelas aparências, ou "sonoridades". A legendária “Huusmusig Jeremias vo Bärn” - “Casa de Música de Berna” - tocava-a com frequência. Portanto, se você se guiasse por isso e pela sua origem, a música deveria ser muito lenta e calma… “Só que não”.
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26/07 -Sommermorgen- walzer
“Sommermorgenwalzer” é uma dança ou uma canção?
Traduzindo seu nome, “Sommermorgenwalzer” é a valsa da manhã de verão. Parece meio aleatório existir uma valsa exclusivamente para a manhã de verão, não é?
Mas como chegamos a essa manhã de verão?
A “viagem” começa na Frísia, região que pertence tanto aos Países Baixos quanto à Alemanha. Com uma cultura bastante peculiar e um dialeto próprio, os Frísios possuem várias canções, mas poucas danças típicas.
Dessa forma, algumas danças foram criadas a partir de antigas canções. É o caso da “Sommermorgenwalzer” que, em dialeto frísio, é chamada de “Simmermoarnwals”. Ela foi coreografada pelo holandês Jan Kloetstra a partir de duas músicas: a “Simmermoarn” - que a nomeia - e a “Silerssankje”, ambas compostas no século XIX.
A canção “Simmermoarn” nos fala realmente de uma manhã de verão no campo. O narrador conta como é adorável vivenciar esse momento: o sol nascente sorrindo, o galo cantando e tudo o que vive está contribuindo para esse momento. Diante de tanta perfeição, ele não queria estar dormindo. Ele se sente maravilhosamente confortável. Tudo está feliz e ele também está feliz nessa manhã de verão.
Já a “Silerssankje” - canção do marinheiro - nos convida para um passeio de barco: “O vento sopra forte. Basta entrar! A água brilha ao sol. Entre no nosso barco!” O narrador continua contando que o timoneiro já está no leme e que a vela está içada. Enquanto passeiam, eles cantam alegremente. Nenhum lugar é melhor do que estar navegando naquelas águas.
Esta é uma verdadeira obra prima de Jan Kloetstra, unindo duas canções carregadas de sentimentos em uma dança simples, possibilitando aos dançarinos e aos espectadores serem levados pelas lembranças de uma manhã de verão, rememorando momentos em que a vida era tão mais simples.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o Volkstanz- und Trachtengruppe des Heimatvereins Aurich em https://youtu.be/Ye4WYDaFM9Y . E nos acompanhe nas redes sociais, curta, compartilhe e comente. Na Imperial FM o programa “Boletim Der Hut” passa todas as quintas-feiras, às 20 horas - www.imperial.fm.br
25/07 -Siebenschritt
A “Siebenschritt” imigrou para o Brasil em 1824?
É possível contar quantas variantes da dança “Siebenschritt” existem? Difícil. Só na região dos Sudetos, hoje parte da República Tcheca, há mais de meia dúzia catalogadas somente em um único livro. Some ainda as da Áustria, da Alemanha, da Itália, da Polônia, da Suíça, de Luxemburgo,... chega-se a uma quantidade impressionante.
Com o passar do tempo surgiram novas letras, nomes e coreografias para ela. Por isso, procurar só por “Siebenschritt” / “Sete Passos” pode ser insuficiente. Se necessitaria estudar em profundidade um grande conjunto de músicas e danças para promover um catálogo que levasse a esse resultado… e demoraria muitos anos para concluí-lo. É como procurar várias agulhas em um palheiro.
Vejamos algumas estrofes dessa canção na versão bávara:
Bauer, bind‘ dein Pudel an,
dass er mi net beißen kann.
Beißt er mi, verklag i di,
tausend Taler kost er di.
É similar à vêneta? Não, é bem diferente:
Córi, córi Bepi, se te me vo ciapàr,
córi, córi Toni, se te me vo ciapàr,
un, due, trè e un, due, trè;
fin ca córo no' me ciapè!
O que as une, então? A melodia e a coreografia. O mesmo vemos nesta outra versão popular:
Brüderchen, komm, tanz mit mir!
Beide Hände reich ich dir.
Einmal hin, einmal her,
rundherum, das ist nicht schwer.
E dentre tantas canções, uma faz referência à emigração para a América:
Eins zwei drei vier fünf sechs sieben
wo ist denn mein Schatz geblieben
ist nicht hier , ist nicht da
ist wohl in Amerika
E ela também foi para o Brasil? Sim! Não se tem como precisar se chegou em 1824, quando é considerado o início da imigração alemã no país. De toda forma, já no século XIX ela se enraizou junto às comunidades locais, sendo conhecida, entre outros nomes, como Rutsch-Polka - “Polca que Escorrega”.
Mas essa história merece ser melhor contada… Assim, aguarde nossa postagem do projeto “Uma dança por dia” de 20.09.2023 e conheça mais sobre a “Siebenschritt” brasileira.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz , aprenda a dança em https://youtu.be/WY_AInwBPQs e ouça a música vêneta em https://youtu.be/OKHB4Ny_mjs .
“Boletim Der Hut” - quintas-feiras, 20h - Imperial FM, www.imperial.fm.br.
24/07 - Oxdansen
O “Oxtanz” está na peça “Sonho de uma noite de verão” de Shakespeare?
Teatro dentro das danças típicas não é uma novidade, sendo uma junção antiga. O que se altera, de um lugar para o outro, é a temática, por mais que algumas narrativas clássicas sejam universais.
A “Oxtanz” - também chamada de “Oxdansen”, “Rüpeltanz”, “Rippeltanz”, “Männertanz aus Schweden”, entre outras denominações - é uma dança-pantomima que representa um conflito entre dois rapazes. Cada repetição da música teatraliza um tipo de agressão física - soco, pontapé, tapa,... - e termina com caretas e gozações - ou vice-versa. Já foram registradas 48 figuras em uma única sequência.
É provável que ela tenha surgido na Suécia, onde é popular. O nome original “Frikassé” teria dado lugar a “Oxdansen” - “Dança do Boi” - por influência dos estudantes de Karlstad, na província de Värmland. Seria uma ironia mostrar, no início, homens brutos que viram, ao final, pessoas cultas. O contrário também é verdadeiro, com um princípio educado e uma conclusão aos tabefes. Teria ido para comunidades de língua alemã pelos anos de 1930.
Mas como pode essa dança estar na peça “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare, da década de 1590? Essa confusão está em uma casualidade do nome: quando Felix Mendelssohn Bartholdy compôs, no século XIX, uma música inspirada nesta comédia, uma de suas partes foi denominada “Rüpeltanz”. Ela ficou muito famosa. De toda forma, o título é o mesmo, mas não é uma variante “Oxdansen” sueca.
Assim, “Oxtanz” ganhou popularidade e ainda hoje faz parte do repertório de muitos grupos de danças. Mesmo não sendo uma inspiração shakespeariana, já foi “encenada” em muitos palcos escolares suecos, assim como em audiovisual de língua alemã - https://youtu.be/kMgHfEVr9Z8 . Cada uma tem sua própria fama.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o vídeo dela em https://youtu.be/xJqKv3a2kUU . Acompanhe nosso trabalho nas redes sociais, compartilhe, curta e deixe seu comentário. Às quintas-feiras, às 20 horas, tem o “Boletim Der Hut” na Rádio Imperial FM, www.imperial.fm.br, 104.5 FM de Nova Petrópolis.
23/07 - Hagelpolka
Cai granizo quando dançam o “Hageln”.
“Nunca vi chover canivete, mas granizo do tamanho de um ovo, já.” Pode parecer conversa de pescador, contudo grandes pedras de gelo realmente caem do céu quando as condições climáticas são propícias. Nos Alpes há muita chance de isso acontecer. Foi por isso que surgiu lá uma dança com esse tema? O “Hageln” - “Granizo” -, também chamada de “Hagelpolka” ou “Hagl-Polka”, foi registrada na Alta Áustria.
Como o granizo tende a apresentar a forma esférica, ele é associado a ovos ou bolas, como a de golfe. Surge a partir de nuvens muito úmidas de elevada altitude: temperaturas negativas e a alta circulação de vento ajudam a transformar a água do estado gasoso para o sólido, gerando as pedras de gelo. Seu efeito nas plantações, casas, estábulos, ... pode ser devastador, deixando telhados perfurados como um queijo suíço. Quem viveu isso não esquece.
Essa dança tem praticamente só figuras circulares e com giros. Isso ligaria ela ao formato redondo do granizo? Pode ser que sim, se visto que uma das partes é chamada por alguns de “Hageln”: quando os rapazes ao centro formam uma roda com a mão esquerda no ombro do da frente e as moças circundam eles no sentido contrário.
Contudo, há outras referências que discordam dessa interpretação: o nome viria de “Hakeln” ou “Einhaken”: “enganchar”. Poderia ser um coloquialismo. Nestas é considerado “Hageln” a parte em que os pares se encontram e engancham os braços, promovendo giros.
Olhando as duas interpretações, a segunda parece mais factível. É mais provável que se destaque o “enganchado” de uma Volkstanz do que o “granizo”. De toda forma, após o nome dado, muitos podem ter reinterpretado essa coreografia, dando-lhe outro sentido. Um dado é real: nem todos os dias são de sol; às vezes é interessante haver uma tempestade para mudar o ambiente, nem que seja numa dança.
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22/07 - Schwedischer
A “Schwedischer” é uma sueca da Áustria?
“Schwedischer” quer dizer, em alemão, o adjetivo “suéco”. “Schweden” é Suécia. É bom observar que muitas palavras terminadas em “er” tem o significado de “que são de algum lugar”. São exemplos disso a “Berliner” - berlinense - da “Berliner Kontra”, ou “Deutscher” - alemão - do “Deutscher Dreher”.
O interessante é que a dança “Schwedischer” não é realmente sueca: é registrada como austríaca. Não se tem certeza de sua origem exata: ela é atribuída à Tragöß, no Steiermark, contudo pode ser mais antiga do que a versão registrada por lá. Ela segue um tradicional estilo alpino com três partes básicas: 1. lançar de pernas; 2. giro da dama; 3. valsa com o par. Após ela repete de acordo com a vontade dos músicos.
É bom saber que são considerados similares à “Schwedischer” os seguintes títulos: “Lustiger”, “Hausschlüsselwalzer”, “Hausschlüsseltanz”, “Haxenschmeißer” e “Vogel hupf auf”, entre outras. Por ser uma dança simples, muitos dos nomes podem ter surgido espontaneamente no “boca à boca”. Exemplos: um músico falando com o outro diz “me passa a partitura daquela música ALEGRE”; ou um dançarino conversando com o outro sugere “podíamos pedir para a banda tocar aquela que JOGA O JOELHO”. E assim vai.
Mas por qual motivo foi denominada de “sueca”? Na prática, parece ser uma antiga confusão. Dizem que em alguns locais as valsas eram chamadas de “Schwedischer”. O problema é que, na verdade, elas queriam dizer “Schwäbischer”. Por duas letras trocaram totalmente o povo de referência: deixou de ser “suábio” - comunidades do sul da Europa - para virarem “suecos” - do extremo norte.
Assim, seja por “qual” nome for chamada, ou de “quando” ou “onde” veio, a “Schwedischer” é mais um exemplo de cultura popular que se multiplicou no estilo “telefone sem fio”: guardando muitas tradições e também sofrendo transformações. Nesses caminhos conturbados, os suecos tiveram sorte de serem associados gratuitamente a uma bela dança dos austríacos. Faz parte das histórias a serem contadas.
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21/07 - Der Webstuhl
“Der Webstuhl” é a dança do tear ou da filha do cortador de palha?
“Rapidamente, prá lá e pra cá; cada vez, trocando o fio. Rapidamente, prá lá e pra cá; os fios vão e voltam. Hei, hei, pule por cima; assim como a lançadeira. Hei, hei, pule por cima; isso é tecelagem adequada.”
Ao vermos a dança “Der Webstuhl”, logo compreendemos o seu texto em alemão, traduzido acima. Ela representa o trabalho de um tear, no qual, os pares demonstram tanto a passagem do fio com a lançadeira, quanto a formação da trama e a batida com o pente.
Ela foi lançada na Alemanha, a partir de uma publicação Holandesa, a qual procurou registrar danças de diferentes países para crianças. Esta que conhecemos como “Der Webstuhl” (o tear), teve inspiração na dança francesa “La fille du coupeur de paille”, ou seja, “a filha do cortador de palha”, publicada na obra “Dix danses simples des Pays de France” - dez danças simples da França -, de J. M. Guilcher.
A canção é bastante popular na França e apresenta algumas variações na dança. Em seu texto, é cantado: “No caminho, conheci a filha do cortador de palha. No caminho, conheci a filha do cortador de trigo. Sim, sim, eu conheci a filha do cortador de palha. Sim, sim, eu conheci a filha do cortador de trigo.”
Como você pode perceber, o texto francês e o texto alemão não tem mais nenhuma relação, porém, alguns elementos da dança ainda são semelhantes. Aqui, podemos dizer que, a partir da inspiração original, teve-se a criação de uma nova dança com a mesma melodia.
“Der Webstuhl” proporciona tanto a quem dança quanto a quem assiste a possibilidade de conhecer como funciona um tear. E, que tal, a partir da coreografia, promover o resgate dessa arte? Essa técnica de produção de tecidos está presente no patrimônio de diferentes povos e permite um interessante trabalho intercultural.
E você já viu um tear de perto? Confira o vídeo do Sebrae apresentando técnicas da tecelagem manual: https://youtu.be/aeAc_3IxRbM
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20/07 - Einzugs-Stets
A “Einzugs-Stets” é para entrar na pista de danças?
“Rituais” são importantes em festas típicas. Em alguns lugares, por exemplo, os rapazes precisavam “reservar” uma dança das moças: elas anotavam os nomes dos sortudos em uma caderneta - que ficava presa à cintura. O registro dos casais para cada momento da comemoração poderia também ser feito em cartões. Em outros bailes eles “compravam” músicas, dando um donativo para a comunidade.
Em algumas situações os interessados já planejavam com antecedência o encontro com as pretendidas, garantindo o aceite antecipado. Tudo tinha que ser feito com a maior transparência possível. O objetivo era, na Auftanz - Dança de Abertura -, estar com a pessoa certa: questão de “sobrevivência social”.
Na região de Schönhengstgau, formada por povos da Silésia, nos antigos Sudetos Alemães, um momento importante das festas era a abertura com a “Einzugs-Stets”. O nome já esclarece se tratar de uma dança importante: a “Entrada Elegante”, em dialeto. Ela tinha três partes básicas: o desfile, o embalar das mãos dadas e o girar das damas. Provavelmente pelos seus movimentos leves e suaves que ela se destacou pela elegância.
Em sua terceira parte os presentes podiam também cantar. Veja o exemplo dos versos da primeira estrofe: O que o Hans deve estar pensando, já que ainda não apareceu: “Wos wet sich denn mein Hons gedenka, daẞa gar net zou ma kimmt, Eich wer on missn Bronntwein schenke, daß a meich zu'n Tonze nimmt. / Gela Husn, ruta Pandla, grüß dich Got, mein Schatz Mariandla! Eich wer mo a, eich wer mo a, gela Husn lusn machn a.”
A “Einzugs-Stets” / “Einzugstets” também faz a abertura do Potpourri “Sudetendeutsche Tanzfolge”, na parte em que os casais entram na pista de baile. Neste caso, tem que ter bom diálogo com as moças do grupo de danças: caso não haja ali uma boa parceira, não vai ter caderneta e nem gorjeta que salve sua reputação de pé de valsa.
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19/07 - Cha-cha-cha
Na “Cha-cha-cha”, deu a louca nos animais?
O que será que a gansa Agathe e o peru estão aprontando? É exatamente sobre isso que fala a canção infantil “Trat ich heute vor die Türe”, também conhecida como “Cha-Cha-Cha”.
O narrador conta que entrou pela porta e adivinha o que ele vê? A gansa Agathe e o peru dançando Cha-Cha-Cha. É possível? E não bastasse isso, os demais animais também faziam a festa: as galinhas e as pombas estavam balindo e mugindo! E, para completar, o cavalo, com suas ferraduras, batia no compasso.
Parece doideira, não é? Mas é isso mesmo que acontece na canção infantil do ano de 1968 escrita por Christel Süßmann e com música de Heinz Lemmermann. Eles retratam uma verdadeira loucura no curral!
O narrador conta ainda que o Max, o burro, dançava muito feliz a três com os porcos. Até mesmo a vaca Babette balançava no compasso de valsa. A gata Mieze latia, o Karo ronronava e a cabra, que estava sobre o estrume, cacarejava até sua garganta ficar rouca.
E vocês sabem por que os animais estavam se comportando assim? Vamos dar uma dica: em qual época do ano as pessoas costumam vestir fantasias?
Exatamente: no carnaval! E, segundo a música, os animais estão assim estranhos, só porque é carnaval!
Agora sim está tudo explicado. Com coreografia publicada pela editora alemã Fidula e com gravação feita pelo coral “Der Kölner Kinderchor”, esta dança é sucesso entre as crianças o ano todo e não apenas no carnaval!
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18/07 - Krawall im Stall
A “Krawall im Stall” representa um motim no estábulo?
Alguns anos antes do lançamento do famoso “1984”, onde ficou eternizada a imagem do “Big Brother”, o escritor George Orwell se destacou por outro título: “Animal Farm”. No Brasil foi traduzido como “Revolução dos Bichos” e trata de uma releitura da história da Revolução Russa, tendo nos animais a representação dos revolucionários. Nesse cenário, seria a dança “Krawall im Stall” uma versão suíça deste livro? Claro que não!
O compositor e clarinetista Bruno Brot é um entusiasta da cultura helvética e “Krawall im Stall” é o seu trabalho mais popular. Ele compõe músicas que alegram os ouvidos, assim como instigam movimentos do corpo, impulsionando dançarinos por toda a Suíça. Nesse contexto, seria mais fácil a ideia desse “conflito animal” ter vindo de inspirações regionais. Por que não perguntar ao próprio Brot?
Segundo Felix Mugwyler, que conversou com ele, a inspiração é regional: um cartão de propaganda do Cantão de Graubünden. Nele apareciam bebendo em um cocho diversas vacas e, entre elas, um cabrito montanhês. Abaixo vinha a frase: “Die Bündner Gastfreundschaft spricht sich halt herum”, ou seja, “A hospitalidade do Graubünden é conhecida por aí”.
Porém, o que tem essa imagem, um tanto cordial e bem humorada, com a ideia de um conflito entre animais? Exatamente da presunção de que aquela cena não acabaria bem… vem a ideia do “Krawall im Stall”.
O cabrito montanhês - “Steinbock” - é a marca deste cantão, havendo recorrentes publicidades com ele. O bom humor nessas publicações é habitual. Já o gado leiteiro tem grande ligação com a imagem internacional da Suíça. Unir essas duas espécies é um contexto pouco provável, contudo bastante simbólico.
Após a música criada e denominada, veio a coreografia em 2006, através do trabalho de Ina e Mario Albin. Trata-se de uma dança nova, dentro de um movimento cultural repleto de diálogos com tradições e inovações. Espera-se que dessa efervescência criativa venham boas e divertidas danças… sem conflitos.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz, veja a dança em https://youtu.be/nh8s0x4J8Gk e acompanhe-nos no Instagram e no Facebook do Boletim Der Hut.
17/07 - Dunkelschatten
Na “Dunkelschatten”, onde ficam as sombras escuras?
Na Alemanha, as quadrilhas também foram amplamente aceitas pela população
rural. Enquanto as “Quadrille” de salão foram cada vez mais padronizadas pelos mestres de dança, os “Tanzmeister”, as assim chamadas quadrilhas rurais se desenvolveram em uma variedade colorida e, em muitos casos, apresentando elementos das Volkstänze.
Estima-se que muitas das quadrilhas que conhecemos hoje, como a “Dunkelschatten”, já eram dançadas até antes de 1800. Apesar de não se ter uma data precisa sobre quando ela surgiu, a “Dunkelschatten” foi registrada em um livro sobre cultura pomerana ainda no final do século XIX.
Classificada como uma quadrilha em fileiras, ela é acompanhada de uma canção, cujos versos dão nome à dança:
“Komm mit mir in dunkeln Schatten,
Komm mit mir ins Branntweinhaus;
Wi will’n as de Katten
Kieken unnre Oken ‘raus.”
Venha comigo até as sombras escuras,
Venha comigo até a destilaria;
Nós queremos, como os gatos,
Olhar para fora do sótão.
Cada região apresentava alguns versos diferentes. Alguns até mesmo impublicáveis. Em Gilow, o final cantado era mais romântico:
“Kumm, min Leiwing, kumm man her,
Segg mi doch, wat ‘s din Begehr!”
Venha, minha amada, venha aqui,
Me diga então, qual é o seu desejo!
Já em Treptow no rio Rega, os versos eram mais cômicos:
“He, Mutter, he! Wo bieten mi dei Flöh!”
“Kumm mit mi in’n dunkeln Schatten,
Ick will di dei Flöh afklappen.”
“He, Mutter, he! Wo bieten mi dei Flöh!”
“Hei, mãe, hei! Como as pulgas me mordem!”
“Venha comigo nas sombras escuras,
Eu quero esmagar as pulgas.”
“Hei, mãe, hei! Como as pulgas me mordem!”
Independente do texto cantado, com certeza os camponeses se divertiam muito com esta dança.
De quais versos você mais gostou? Conta aí para nós!
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16/07 - Besentanz
A “Besentanz” é uma música, um teatro, um jogo ou uma dança?
Por mais que você só conheça a “Dança da Vassoura” do conjunto de pagode “Molejo” - “Diga aonde você vai, que eu vou varrendo…”-, existem no mundo muitas interpretações para esse tema. Nas comunidades de língua alemã ela é conhecida como “Besentanz”, não tendo, na prática, uma coreografia ou música específicas.
Basicamente ela tem a seguinte sequência: os pares estão a bailar, mas uma pessoa, que está sozinha, usa uma vassoura como parceiro. Em algum momento, que é surpresa, o objeto cai e todos precisam buscar um novo companheiro. Quem sobrar pega a vassoura e reinicia o processo.
Essa mesma lógica pode ocorrer de muitas formas. Há registros dessa dança, por exemplo, em partes da Áustria e Alemanha, com variações de posições, volume de participantes, maneiras de brincar com a vassoura, entre outros pontos. É uma atividade integrativa que podia se manifestar em festas e eventos.
Provavelmente antes de ter uma vassoura, a brincadeira já existia sem objeto algum, a estilo “Dança da Cadeira”, onde quem fica sem acento precisa sair do jogo. Há em diversos locais da Europa, por exemplo, danças de roda onde alguém sozinho entra e pega uma pessoa do círculo, remanejando os pares existentes e recomeçando o processo. Ou simplesmente há trocas repentinas de pares e quem sobra precisa “pagar uma prenda” - cumprir uma tarefa. As próprias “Kegeltänze” estão neste contexto.
A “Besentanz” é um exemplo de dança típica que tem na espontaneidade sua principal característica. Não há coreografia fixa, nem música específica, nem compasso exato. Tem coisas nas quais as regras são intuitivas, com a simples lógica do entretenimento, mas que por algum motivo estão conectadas a um instinto de familiaridade. As vezes é por uma releitura teatral dessas danças… outras vezes é no som alegre e popular do pagode.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz, veja uma variante da dança em https://youtu.be/bVz0ohHp80M e também uma música sorábia da vassoura em https://youtu.be/zTGAFqSj-co . Acompanhe as postagens no Instagram e no Facebook do Boletim Der Hut.
15/07 - Nagelschmied
A “Nagelschmied” é uma dança da Transilvânia ou da Turíngia?
Na cultura popular as músicas e coreografias se deslocam: uma pessoa aprende em uma cidade e ensina na outra. Com a “Nagelschmied” isso também aconteceu; contudo, diferente do movimento lento das danças dos séculos XVIII e XIX, esta suíça nascida no XX já se espalhou através das mídias.
Quando Rosmarie Mast e Sämi Gasser criaram essa dança em 1972, na “Lenker Tanzwoche” em Bernese Oberland - no cantão de Berna, na Suíça -, eles não imaginavam que a “Nagelschmied” se tornaria tão difundida. Não demorou para que grupos dos diversos cantões do país acrescentassem ela em seus repertórios.
Com o advento das gravações fonográficas, filmes, publicações em livros, vídeos, conteúdos escritos e audiovisuais na internet, entre outros, se tornou muito fácil para uma dança chegar aos mais distintos cantos do mundo. Assim, hoje vários grupos de fora da Suíça já consideram a “Nagelschmied” como “parte dos seus”.
Sami Gasser e Rosmarie Mast foram diretores de dança no cantão de Berna por muitos anos. Naquela época, eles escreveram coreografias para muitas músicas de Luzi Bergamin, como por exemplo “Der Bärnermutz tanzt”, “Alter Marsch”, “Schäri Marsch”, “Meitschi Schottisch”, “Winterbärg-Schottisch” e muitas outras. Apesar de uma diversidade de criações a cada ano, elas "grudavam" nos dançarinos.
Já o nome “Nagelschmied” vem de uma profissão extinta: o ferreiro que faz pregos de metal. Antes da produção industrial dos pregos, feitos hoje em alta escala, era uma arte moldá-los um por um, mesmo para os ferreiros mais bem treinados. Era um ofício fundamental, seja para pregar uma esquadria na casa, seja para fixar uma ferradura em um cavalo.
Assim, por mais que as pessoas sintam que “Nagelschmied” “pertence” a seu grupo, cidade ou país, é Fakenews dizer que ela é de outro local fora a Suíça … ou quem sabe seja uma “Fakelore”? E faça a referência correta: os suíços agradecem.
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14/07 - Platschletanz
A “Platschletanz” é sinônimo de “Zigeunerpolka”?
Duas gêmeas bivitelinas, que são tecnicamente diferentes, mesmo que nascidas juntas, são a mesma pessoa? Claro que não! Igualmente as univitelinas, que em teoria teriam até o mesmo DNA, mostram-se distintas logo após o parto. Cada indivíduo é único e acentuam suas particularidades com o decorrer da vida. Então, por qual motivo com danças irmãs o resultado seria outro?
A ideia de tradições irmãs ou primas estão relacionadas a hábitos vindos de uma base comum. A “Platschletanz” / “Der Plotschtanz”, além de um conjunto de danças de nome “Zigeunerpolka”, são exemplos dessa realidade, estando nos chamados “Sudetos Alemães”, atual República Tcheca. A dificuldade é precisar quais manifestações surgiram antes, para definir a “semente” original. Nestes casos é pouco provável conseguir, com precisão, definir quem veio primeiro.
Segundo Ursel Großschmidt, “a Plotschtanz foi registrada no Schönhengstgau pelos anciãos do ‘Mährisch Trübauer Wandervogels’ e descrita na publicação ‘Schönhengster Volkstänze’.” Ela faz parte das “Klatschtänze” - “Danças de Palmas”, assim como a “Zigeunerpolka”, que teria sido coletada no Kuhländchen.
Na prática, mesmo tendo melodias parecidas e coreografias com estrutura similares, esse conjunto de danças também guarda diferenças de formação. As suas peculiaridades, mesmo que consideradas pequenas, as fazem únicas. E observando suas estruturas em geral, é nas partes das palmas que há seus maiores destaques.
Assim, confirmando, essas danças não são iguais. Elas são, sim, aparentadas. O que é preciso garantir, neste contexto, é que uma não se sobreponha à outra. Provavelmente uma das garantias de sobrevivência da “Platschletanz” seja ela estar dentro do Potpourri “Sudetendeutsche Tanzfolge”, por mais que a maioria das pessoas que a vê achar que se trata da sua irmã mais conhecida, a “Zigeunerpolka”.
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13/07 - Bauernmadl
Na “Bauernmadl” as camponesas trocam de pares?
A “Bauernmadl” é um claro exemplo de movimento cultural no estilo “telefone sem fio”. Ela faz parte do grande grupo de “danças de sete passos”, tendo na “Siebenschritt” a mais conhecida delas. É prima, se assim pode-se dizer, da “Settepassi” - ou “Cori, cori, Bepi” italiano - e do “Chote Carreirinho” - do sul do Brasil.
O que muitas vezes dá o nome para uma dança ou para uma variante é o texto que é cantado junto a ela. Isso também está presente na “Bauernmadl”, já que os versinhos que a acompanham falam da “Camponesa”:
Bauernmadl, Bauernmadl, d’Musi spielt scho auf,
Bauernmadl, Bauernmadl, tanz‘ ma no oan drauf!
Bauernmadl hin, Bauernmadl her, juche,
Gibts denn auf der ganzen Welt koa Bauernmadl mehr?
Como visto nessa primeira estrofe, a letra, ao falar que “a música já começou”, conta sobre o convite à camponesa para dançar e a pergunta retórica, talvez, sobre não haver mais moças do campo no mundo. Nas demais partes da canção as rimas seguem tratando do olhar dos rapazes em relação a essas moças, como no cortejo, nos elogios, como dançam, entre outros.
E como é tradicional nas antigas danças passadas de modo oral, não só as canções são formadas por versos simples - que vivem se alterando -, como também o mesmo acontece com as coreografias, que não são complexas e se repetem muitas vezes. Um exemplo é, em algumas versões da “Bauernmadl”, o acréscimo de uma parte de valsa entre os recomeços da melodia, deixando-a mais dinâmica. Outro detalhe que se popularizou foi a troca de pares ao final de cada etapa.
Assim, vê-se mais um exemplo de como a cultura popular é dinâmica e plural, estando em constante mutação espontânea. A ideia de uma tradição engessada é ilusória, vista geralmente por quem está de fora desse processo.
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12/07 - Mime Suse
“Mime Suse” é uma dança criada ou típica?
O primeiro registro encontrado sobre a dança “Mime Suse” foi feito por Kurt Wölfer, da cidade de Halle, Sachsen-Anhalt, no ano de 1763. Nele, aparecem informações sobre a melodia e a coreografia, além de Hettstedt como local de origem, na região de Mansfelder Land.
A dança não era mais executada na região, mas, no período da Alemanha Oriental, alguns moradores antigos ainda se lembravam dela. Foram eles que deram importantes informações para o resgate da “Mime Suse”, trabalho feito por Rosmarie Ehm-Schulz (ver dança do dia 12.07.2023).
“Mime Suse” é marcada pelo contraste entre a primeira parte, mais calma e sóbria, e a segunda, mais ligeira e alegre. Para que a dança seja muito bem executada, as passagens dos momentos rápidos para os mais lentos e vice-versa precisam ser muito bem ensaiadas pelos dançarinos.
Para completar o espetáculo, Rosemarie Ehm-Schulz sugere que os rapazes usem o “Mansfelder Kumpeltracht”, o tradicional traje festivo dos mineradores da região de Mansfeld, o qual, com sua cor preta e os adornos dourados, acompanhados do penacho branco do chapéu, trazem à dança, especialmente no início, uma grande presença. Já para as moças, ela sugere o traje do sul do Harz: saia colorida listrada, blusa estampada com mangas compridas e avental e lenço claros bordados, acompanhados de touca de seda rosa. Mas, como a dança era encontrada em toda a região próxima a Hettstedt, outros trajes do sul do Harz também seriam adequados.
Rosemarie Ehm-Schulz foi uma das fundadoras e responsável pelas coreografias do “Staatliches Folklore Ensemble der DDR”, o Balé Folclórico da Alemanha Oriental. Seu trabalho de pesquisa sobre danças típicas e as adaptações que criou para o palco ainda fazem parte do repertório de muitos grupos.
Dessa forma, “Mime Suse” é sim uma dança típica, mas a versão aqui citada é uma coreografia adaptada para o palco, a partir da dança e da música originais.
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11/07 - Dubeningker Wechselpolka
Na “Dubeningker Wechselpolka”, conseguimos voltar para nosso par?
Dubeningken é um antigo vilarejo que ficava localizado na Prússia Oriental - Ostpreußen - e faz divisa com partes da Lituânia e da Bielorússia. Por estar em uma região fronteiriça, ele sofreu muito com os dois grandes conflitos mundiais. Após a Segunda Guerra, a população alemã teve que deixar a região e Dubeningken passou a pertencer ao território Polonês, sendo parte da voivodia de Ermland-Masuren.
É de lá que vem a dança “Dubeningker Wechselpolka”. Dubeningken junto com várias outras localidades próximas a Goldap apresentava um forte movimento cultural. Esta dança foi registrada na região exatamente no período entre as duas Guerras Mundiais, em abril de 1929.
Em um relato sobre a melodia, foi anotado também uma canção em dialeto prussiano:
“Wat schient de lewe Mond so hell
On sitt so frindlich ut?
Dat mokt, wilt eck nu gone wöll
To Lieske, miene Brut.
Se ward all wachte lang opp mi
On sehne hen on her -
Ach, wenn eck doch man erscht bi di,
Mien lewet Lieske, weer!”
Em tradução livre, seria algo como:
Por que brilha tanto a querida lua
E parece tão tranquila?
Isso pode ser, porque quero ir agora
Para Liese, minha noiva.
Ela espera por mim acordada há tempo
E olha pra cá e pra lá -
Ah, se eu já pudesse estar contigo,
Minha amada Liese!
A canção segue com mais três estrofes, na qual o rapaz continua falando sobre seu amor pela Liese e que queria estar com ela. Há ainda uma observação que, se o círculo não for muito grande, a dança pode ser repetida tantas vezes até que o rapaz volte para sua moça, afinal, o rapaz quer chegar novamente até sua Liese!
Essa manifestação típica da Prússia Oriental é um dos poucos legados culturais deixados pelas comunidades alemãs de lá e que ainda permanece vivo entre os grupos de danças.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o Grupo Folclórico Grünes Tal, de Jaraguá do Sul, com esta dança em https://youtu.be/vjcCNdtv8VA .
10/07 - Zwoasteyrer
A “Zwoasteyrer” foi registrada em cartões postais?
No final do século XIX a fotografia se tornou popular no mundo ocidental. Mesmo ainda não sendo comum as máquinas portáteis, os retratistas iam nos eventos com seus grandes equipamentos e registravam os acontecimentos da sociedade. Colocavam cenários e buscavam aproveitar a iluminação natural.
Se por acaso um fotógrafo não estivesse por perto para fazer um retrato dos noivos no dia do casamento, por exemplo, a lembrança matrimonial poderia ser reencenada até meses depois, quando ele estivesse por ali de passagem. O ato não era somente para guardar uma lembrança para a posteridade: a presença desse profissional era um “acontecimento” por si só.
Um fato curioso é que a “Zwoasteyrer” foi uma dança que teve todas as suas figuras registradas fotograficamente, já em 1907. Segundo as fontes, foram ao todo 20 imagens, posteriormente publicadas em forma de cartão postal. O mentor da ideia foi o presidente do “Trachtenverein Alpinia Salzburg”, August Neubauer, também desta cidade austríaca. Teria sido a primeira experiência desse gênero de uma associação ligada à preservação dos trajes típicos.
Devido a esse trabalho, detalhou-se cada etapa da “Zwoasteyrer” da primeira década do século XX, que era chamada de “Salzburger Almtanz”.Nas imagens se pode ver formações de vários tipos, como cruzadas, janelas, sapateado típico - Schuhplattler -, entre outras. Cada parte é executada em um “Gsatzl”, que corresponde ao tempo de oito compassos.
Interessante é que décadas depois, em 1924, um procedimento similar foi feito, inclusive com a mesma dança, o mesmo cenário, entre outros pontos. E após essas duas primeiras, outras se sucederam, retratando variantes e expondo detalhes de como uma dança ganha novas nuances no decorrer do tempo.
As fotografias do passado, os vídeos digitais do presente e o que mais vier no futuro. Esse caso da “Zwoasteyrer” é o exemplo de como as tecnologias se mantêm em diálogo com as expressões populares: às vezes o método de registro chama mais a atenção do que o que está sendo registrado.
09/07 - Guten Morgen, Frau Fischer
“Guten Morgen, Frau Fischer” é uma dança, uma canção, um teatro ou um filme?
“Bom dia, Senhora Fischer. Hoje teremos clima ruim e não poderemos ir para casa. Nós precisamos ir agora para casa”. Essa é a base da canção “Guat Morgn, Frau Fischer”, ou “Guten Morgen, Herr Fischer”, além de outras pequenas variantes. Uma dança sem figuras que aparece com frequência em fechamentos de eventos no sul da Alemanha e Áustria.
Um dado interessante é que há várias referências ao nome “Guten Morgen, Herr Fischer” em manifestações culturais de comunidades de língua alemã. Isso vai da música ao cinema. Mera casualidade?
Segundo Christoph e Michael Well, a melodia e coreografia que se popularizaram na Baviera seriam de 1931, atribuídas à Erna Schützenberger, em Oberfrauenwald, na Floresta da Baviera. Já Walter Bucksch acrescenta que Hermann Derschmid já teria publicado ela em 1924, em Rohrbach im Mühlviertel.
Anterior a isso, há registro de que, em Munique, pela metade do século XIX, existia uma “Bockbierlied” - Canção de Cerveja Escura - com o mesmo nome. Há também uma gravação em disco de vinil, provavelmente de 1910, de nome “Guten Morgen Herr Fischer”, da “Tyroler Bauernkapelle” - um conjunto de sopros austríaco. Nesta os versos iniciais, tanto na letra quanto na melodia, são similares com a versão de Erna Schützenberger. Todas viriam de uma base comum?
Outra citação interessante deste nome é uma opereta atribuída a W. Friedrich, com músicas de Eduard Stiegmann, que teria sido publicada na primeira metade do século XIX. Um folheto do “Städt. Schloßpark - Theater Steglitz” de Berlim já apresenta-a na sua programação em 1946. Também aparecem registros de um filme homônimo, feito na capital alemã, em 1915.
Todas essas referências, de diferentes procedências, seriam casualidade? Não há como dizer… pelo menos não neste momento. O que se pode precisar, com certeza, é que na cultura popular, como em um efeito dominó, alguns temas se espalham e inspiram novas manifestações artísticas. Quem imaginaria onde um simples “Bom dia, Sr. Fischer”, poderia chegar.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja a dança em https://youtu.be/gD7HqgAz2r4 .
08/07 - Tamseler Dreigespann
Qual é o problema na “Tamseler Dreigespann”?
A dança “Tamseler Dreigespann” faz referência à localidade de Tamsel, próximo a Küstrin. Originalmente, é um vilarejo de pescadores e um dos mais antigos da região chamada de “Neumark”. Atualmente, ela está em território polonês e, junto com Küstrin, faz fronteira com a Alemanha.
Com coreografia de Arthur Nowy e Dolf Giebel, da antiga Tanzgruppe Oberspree, de Berlim, essa “Jugendtanz” tem como música uma valsa do austríaco Wolfgang Amadeus Mozart. A composição data de fevereiro de 1791, ano de sua morte. Nessa obra, Mozart compôs o que chamou de seis danças alemãs para orquestra, o que serviu de base para o arranjo da “Tamseler Dreigespann”.
Acredita-se que a dança tenha surgido na década de 1920. Logo, ela passou a ser muito apreciada por todos que a conheciam. Porém, desde então, ela vem sempre sendo dançada de diferentes maneiras. Como assim?
Para isso também existe uma explicação. Diferentes descrições desta mesma dança estão em circulação. A grande dúvida é para qual direção as torres se deslocam: no sentido da dança ou em sentido contrário?
Em uma de suas primeiras publicações em 1929, Nowy havia descrito que as torres se deslocam no sentido contrário da dança. A mesma descrição é publicada novamente, sem alteração, na obra “Dreigespann”, de 1933. Porém, em uma nova edição de 1951 do mesmo livro, ele corrigiu indicando que as torres se deslocam, na verdade, no sentido da dança. Para deixar isso bem claro, no impresso de 1951, “Tanzkette”, foi feito até um desenho mostrando o deslocamento das torres.
Mas o que fazer se pares de distintos grupos se juntarem para dançar? O jeito é conversar e combinar antes. De qualquer forma, a regra é clara: tolerância com quem dança diferente! Às vezes, essas particularidades são pequenas variantes que não conhecemos, mas que existem e têm uma explicação.
E você, para qual direção vão suas torres da “Tamseler Dreigespann”? Conta aí pra nós!
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja a música da composição original de Mozart em https://youtu.be/KXsNIb-omws e o vídeo da dança em https://youtu.be/xZJvlyj4jAs .
07/07 - Siebenbürger Rheinländer
A “Siebenbürger Rheinländer” é da Transilvânia?
Segundo a visão de um conjunto de pesquisadores, antes do irlandês Bram Stoker lançar o romance “Drácula”, em 1897, a imagem da Transilvânia era bem menos conhecida do grande público. Ele não inventou Vlad III, o Empalador, e nem a figura dos vampiros, mas foi ali que houve um novo interesse popular pelo tema.
Assim como Stoker popularizou uma história ligada à Transilvânia, Eduard Charvat teria feito o mesmo com uma dança: a “Siebenbürger Rheinläder”. Contam que antes da Segunda Guerra Mundial, pelos anos de 1930, ele teria levado-a da Transilvânia para a Áustria, onde esta teria ficado conhecida por ter troca de pares. Provavelmente por sua melodia leve, acabou transpondo fronteiras.
Trata-se de uma música em ritmo ternário ao estilo “Rheinländer” que tem a coreografia formada por três partes simples: passeio, círculo com cumprimento e giro do par, tendo toda a sequência executada em oito compassos. Ela se repete ao gosto dos instrumentistas. É interessante que em toda a dança não é utilizada a posição típica das “Rheinländer”, a “Kiekbuschfassung” ou também chamada de “Rheinländerfassung”.
Pelo estilo dela, não haveria dúvidas que se trata de uma dança típica. O que alguns põe em dúvida é se sua melodia e coreografia são inteiramente do Siebenbürgen ou se, no seu trânsito para a Áustria, recebeu outras influências. De toda forma, ela também tem registros semelhantes feitos por outros pesquisadores, o que permite presumir que sua estrutura não sofreu grandes mudanças na sua “caminhada”.
Mas essa Rheinländer vem da Transilvânia ou do Siebenbürgen? Na verdade os dois nomes são sinônimos, sendo “Sete Burgos” a tradução para a segunda. Trata-se de uma região no coração da atual Romênia que, por muito tempo, foi uma ilha de falantes de língua alemã.
E quando for dançar a “Siebenbürger Rheinläder”, não precisa levar alho ou estaca: sem a posição do Rheinländerfassung não tem risco do seu par ficar mirando sorrateiramente o seu pescoço. Vai ver que por isso ela não é utilizada.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja e dança em https://youtu.be/zmUQPijHTwQ .
06/07 - Kuss-Quadrille
“Kuss-Quadrille” é a dança para arranjar namorado?
O beijo é um dos poucos símbolos presentes em praticamente todas as culturas do mundo. Ele pode ser usado como expressão de amor ou amizade e até para cumprimentos e despedidas.
Não podemos esquecer que um beijo também tem o poder de acordar uma princesa, como no conto “A Bela Adormecida” dos Irmãos Grimm, ou de transformar um sapo em príncipe, como no filme “A Princesa e o Sapo”, animação da Disney.
É claro que também vamos encontrar o beijo na dança típica alemã. Em diversas regiões do norte da Alemanha, são encontrados antigos registros de “danças do beijo”: “Kuss-Quadrille” (região do Mark), “Küssertanz” (Mecklenburg), “Kussquadrille” ou “Fünftour mit dem Kuss” (Pomerânia). Cada uma delas apresenta pequenas variações e, inclusive, algumas canções!
Em uma encontrada em Mecklenburg, os dançarinos cantam algo mais ou menos assim:
Em um lugar escondido,
Lá está meu amado.
Sob a Tília,
lá eu posso encontrá-lo.
Gosto dele,
Sou sua amada.
E, ao fim,
Sou beijada.
A dança representa uma brincadeira entre os pares que dão um beijo com consentimento. Como ela é conhecida por todos os dançarinos, eles já se preparam sabendo que vão beijar! Mas calma, não precisa tirar as crianças da sala! É um beijo com carinho e amizade, representando uma verdadeira brincadeira.
Mas vai que esse beijo de brincadeira não dá certo e pode virar namoro? Não custa tentar, não é?
Internacionalmente, no dia 6 de julho, é comemorado o dia do beijo. Que tal comemorar com a “Kuss-Quadrille”?
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja essa e outras danças do nosso projeto.
05/07 - Éisleker
Na “Éisleker” se pode dançar e comer sorvete?
As danças tradicionais de Luxemburgo são bastante interessantes. Este Grão-Ducado traz um conjunto cultural repleto de diálogos entre comunidades de idiomas luxemburguês, alemão e francês, gerando um espaço de múltiplas identidades.
É de lá que vem a música da “Éisleker”. Pelo título, essa seria a dança do “Sorvete”? Certamente não! Por mais que no alemão a palavra “Eiscreme”, ou simplesmente “Eis”, esteja ligada a esse doce gelado, não tem real ligação com esse nome. A origem do termo vem de “Éislek”, uma região de Luxemburgo ao norte do país.
Assim, “Éisleker” trata-se de um adjetivo do que vem de “Éislek”. São exemplos de produtos assim designados o “Éisleker Ham” - presunto defumado típico - e o “Éisleker Kéis” - tipo de queijo local. Mas não só de gastronomia que vive a região: as belas florestas chamam a atenção dos turistas, com suas trilhas para caminhada e ciclismo, assim como charmosas edificações nos seus vários vilarejos.
E é de lá a dança típica “Éisleker”? Pode ser que ela tenha uma abrangência mais ampla. No francês a mesma música é chamada de “Valse Ardennaise” - a “Valsa das Ardenas”. Ardenas é a área que tem uma ligação territorial com a Bélgica, França e Luxemburgo. A parte luxemburguesa desse conjunto é o “Éislek”, também chamada de “Ösling”. Assim, ela pode ser internacional.
Um dado interessante é que a “Éisleker” foi gravada junto a uma coletânea, em forma de CD, de danças de Luxemburgo, onde figura entre os músicos Julot Faber, famoso entusiasta do folclore luxemburguense. Será que ele se envolveu com a pesquisa dessa melodia e/ou coreografia? Isso não temos como precisar… pelo menos não “ainda”.
Que surpresas novas pesquisas podem nos trazer? A cultura e as tradições de Luxemburgo são muito ricas e quem está de fora tem muito a conhecer. E se for possível fazer um passeio, veja tudo em loquo, dance com a comunidade, prove as iguarias locais… e porque não tomar um bom sorvete? Em cada lugar pode se ter uma nova experiência.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja essa danca com o “Lët'zFolk Lëtzebuerger Folklor” em https://youtu.be/1-3cYOxvBxY
04/07 - Halbe Kette
A “Halbe Kette” é uma dança da mitologia nórdica?
“Die halbe Kette” ou “Den halve kæde” é o nome desta dança vinda da ilha dinamarquesa de Seeland. Mas, o que uma dança da Dinamarca faz na Alemanha?
É comum encontrar algumas danças dos países escandinavos em publicações alemãs. A “Halbe Kette” é um exemplo disso. Ela tem esse nome por causa da figura de meia corrente executada pelos pares. Se tornou popular entre os grupos alemães especialmente a partir da gravação do áudio do conjunto musical “Schmelztiegel”, de Schleswig-Holstein, divisa com a Dinamarca. Segundo eles, como o norte da Alemanha até a região de Altona, em Hamburgo, já esteve sob domínio dinamarquês, esta dança típica foi escolhida para fazer parte de seu repertório.
Que tal conhecer um pouco mais sobre Seeland?
Ela é a maior e mais populosa ilha da Dinamarca, onde também está localizada sua capital: Copenhague.
Segundo a mitologia nórdica, a ilha de Seeland, em sua origem, era uma península ligada ao oeste dinamarquês. Mas, em sua jornada para chegar até Asgard, a terra dos deuses nórdicos, o rei sueco Gylfi ofereceu à deusa Gefjun parte de seu território, mas somente aquilo que ela pudesse arar em um dia com quatro bois.
Prontamente, Gefjun aceitou o desafio e, para a tarefa, convocou seus quatro filhos gigantes. Ela os transformou em bois e os usou para arar a terra. Será que eles conseguiram?
Não só conseguiram, como também acabaram arrancando essa parte do território do reino de Gylfi. Durante a tarefa, eles criaram sulcos tão profundos que a então península se separou do continente, formando a ilha de Seeland.
Apesar de não ter relação direta com a dança, a origem mitológica de Seeland se tornou também parte da história da Dinamarca. Hoje, na capital Copenhagen, pode ser vista uma estátua da deusa Gefjun segurando um arado e sendo puxada por quatro bois, seus quatro filhos gigantes.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o Büsumer Reetdänzer, do Schleswig-Holstein, com a “Halbe Kette” em https://youtu.be/ieVsCupLK7I .
03/07 - Fackeltanz
A “Fackeltanz” é uma cerimônia pagã com tochas?
A origem das danças com tochas é variada e está ligada a tradições pré-cristãs, intimamente feitas à noite. Seguem, em muitos casos, as mesmas bases de coreografias de espadas, de paus ou de arcos. Elas se manifestam principalmente em rituais e momentos festivos, como casamentos, datas religiosas e celebrações profissionais.
Há vários registros de casamentos da nobreza onde tochas ou velas são utilizadas em danças. Este costume também foi visto junto às pessoas comuns de língua alemã. Richard Wolfram relata que no Steiermark, na Áustria, há um caso onde as velas acesas são colocadas dentro do “Gugelhupf” - bolos enfeitados com furos no meio. Estes eram postos na cabeça das moças e elas precisavam manter o equilíbrio e dançar até as chamas se apagarem. Após, este doce era cortado e dividido entre os presentes.
Em algumas regiões, antes do amanhecer na Páscoa, os agricultores fazem fogueiras, trazendo luz à escuridão, e ali se acendem tochas, conduzidas em marcha. As “Fackeltänze” ocorrem ainda, neste contexto, em frente às igrejas. Também é possível encontrá-las em eventos natalinos. Em muitos casos a “chama” da vida está relacionada ao nascimento ou à ressurreição de Cristo.
Em períodos anteriores à 1900 era comum que lampiões, tochas e velas iluminassem cidades, vilarejos, oficinas e residências. Não é anormal que esses objetos incandescentes participassem de outros eventos com danças. Como as conhecidas festas ligadas às profissões, que já na Idade Média se usavam de bastões com chamas para promover coreografias. Eram verdadeiros espetáculos, para deleite dos espectadores.
Ainda hoje é possível observar que em festas populares, por todo o mundo, coreografias que unem movimentos à objetos flamejantes, realizando verdadeiros shows pirotécnicos. Uma tradição antiga que se ressignifica com o passar dos séculos, em diferentes contextos. O fogo é um elemento que atrai as comunidades, inclusive as de língua alemã, efeito que transcende ao tempo.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja exemplos de Fackeltänze em https://youtu.be/HrS2Ml_PPFY e em https://youtu.be/8Djgr48JOjY .
02/07 - Kornmäher
A “Winneweh, kreuz und quer” foi salva pelo Hans von der Au?
Enquanto que no norte da Alemanha predominam quadrilhas e contradanças, em Hessen e regiões próximas, as danças de pares, chamadas de “Paartanz”, estão em maior número. É o caso da “Winneweh, kreuz und quer”.
E pode uma dança ser salva por uma pessoa? Sim, pode! E foi isso que aconteceu com a “Winneweh”. Na década de 1920, o então jovem Hans von der Au, percorreu diversos vilarejos do estado de Hessen, especialmente em sua terra natal, o Odenwald. Em suas excursões, von der Au foi recolhendo e anotando diferentes danças típicas. O repertório encontrado passou de 160 títulos.
Um dia, ele se deparou com a dança “Winneweh”. Na verdade, ele ouviu falar dela. Um fazedor de quepes chamado Karl Wolf, de 81 anos, morador de Höchst, no Odenwald, contou para von der Au sobre uma dança típica que conheceu em Rimbach. Com sua curiosidade aguçada, von der Au saiu a procura de mais informações em outros vilarejos e eis que, por acaso, ele encontrou um antigo músico de 71 anos de idade, o senhor Valentin Hönig, do vilarejo de Hummetroth. Pouco antes de sua morte, Hönig compartilhou com von der Au a coreografia até então conhecida da “Winneweh”.
Segundo os relatos, a dança recebeu esse nome a partir da expressão “Winde wehen”, ou seja, “os ventos sopram”, indicando que, durante a dança, as pessoas se divertiam tanto que as pesadas saias pareciam que estavam voando. Por outro lado, a partir de uma explicação etimológica, “Winneweh” seria uma variação do termo “Menuett”, o minueto, dança muito popular entre os nobres europeus no séculos XVII e XVIII. Mas, do minueto, a “Winneweh, kreuz und quer” não tem nada.
Graças ao trabalho do professor Hans von der Au, muitas danças e inclusive o traje do Odenwald, no estado de Hessen, puderam ser preservadas e mantidas vivas até hoje.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja essa e outras danças.
01/07 - Russenpolka
Seria a “Russenpolka” uma dança dos russos em Berlim?
De onde veio o nome desta dança, pouco se sabe. Acredita-se que, para ela, tenha sido usada uma composição do flautista e compositor austro-húngaro Adolf Terschak. Mas com certeza, ela não tem nenhuma relação com a presença russa na capital alemã.
Já a coreografia, sabe-se que foi escrita por Arthur Nowy, coordenador do Tanzgruppe Oberspree, que, segundo uma carta do próprio Nowy datada de 02.02.1935, foi fundado em 1921, sendo, então, o grupo mais antigo de Berlim. Arthur Nowy foi o responsável pela criação de várias outras danças, como “Tamseler Dreigespann” e “Spielmann”, por exemplo.
Aqui, é interessante observar algumas informações, especialmente sobre o “Spree” (a pronúncia é com dois “es” mesmo - e não com “i”, como no inglês!). Oberspree é uma região que fica em Berlim, nas proximidades do bairro de Niederschöneweide, às margens do rio Spree. Esse curso d'água tem três nascentes na região chamada de Lausitzer Bergland, na fronteira com a República Tcheca, correndo do sul para o norte e passando pelos estados da Saxônia, Brandenburgo e Berlim, desembocando no rio Havel.
Você deve ter achado estranho um rio ter três nascentes. Mas há uma explicação para isso!
Reza a lenda que um gigante chamado Sprejnik reinava na região de Lausitz e, para proteger melhor seu reino e seus súditos, ele construiu um arco e flechas. Um dia, ele resolveu testá-los para ver quão longe as flechas chegariam. Quando os súditos foram procurar as flechas, eles as encontraram exatamente na região de Lausitzer Bergland, em um vale. Mas quem disse que eles conseguiram arrancar as flechas do chão? Eles precisaram cavar para retirá-las da terra. Dos buracos que surgiram, começou a correr água fresca. Assim, surgiram as três nascentes do Spree, que, fora assim chamado, em homenagem ao bondoso gigante Sprejnik.
Mas, voltando à dança, infelizmente, o Tanzgruppe Oberspree não existe mais. Contudo, seu legado permanece vivo em muitas danças conhecidas ainda hoje!
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o Folkloregruppe Linsengericht com a Russenpolka em https://youtu.be/7mkd-4fw7yc .