31/05 - Schnupftabak Polka
Na Schnupftabak Polka, é preciso usar rapé?
Existem alguns hábitos que, aos poucos, foram se tornando raros, ou pelo menos peculiares. Um deles é o uso do rapé, ou também chamado, em língua alemã, de Schnupftabak: o tabaco em pó para cheirar. Se no dia a dia ele saiu praticamente de cena, em uma dança típica dos Alpes austríacos, sua presença se mantém ativa.
A história do rapé teria origem nos povos ameríndios, provavelmente ligados a rituais religiosos, por motivos diversos. O tabaco em pó foi da América para a Europa, provavelmente pelas mãos dos ibéricos, ainda no século XVI, mas se popularizou somente no XVIII, virando moda. A palavra francesa “râpe” - o ato de raspagem, de ralar - teria se associado à imagem do moer fumo para cheirar. Com o tempo, foi caindo em desuso, todavia sobrevive como um hábito “cult”.
Um dado curioso é que, analisando a “Schnupftabak Polka”, a melodia e a coreografia, é possível verificar que ela tem como base a estrutura da popular “Drei lederne Strümpf”; tendo no lugar das palmas teatralizações. Pesquisadores já relataram que o mesmo acontece com a “De Hierig”, do Appenzell suiço, que é praticamente "irmã" desta dança austríaca: em ambas, os participantes representam o cotidiano “conflitivo” das pessoas, com brigas e reconciliações.
Mas por que, então, a referência a este tabaco para cheirar? O nome “Schnupftabak Polka” provavelmente veio de duas partes bem humoradas da dança, as quais imitam o consumo do “Schnupftabak” e, como reação, expiram de modo desajeitado. Seria um diferencial dessa coreografia frente a outras similares, caracterizando-a assim - mesmo não sendo sua parte principal.
Desta forma, os participantes não usam realmente o rapé durante a dança, só promovendo uma encenação. Uma pantomima que satiriza o cotidiano dos camponeses e expõe ironicamente suas pequenas grosserias e prazeres.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja os amigos de curitiba apresentando a “Schnupftabak Polka” em https://youtu.be/KgAq1YVNolQ e compare com a “De Hierig” em https://youtu.be/fUIueRBuiVk .
30/05 - Gah von mi
Gah von mi: é para ir embora ou é para voltar?
Certa vez, o professor Willi Schultz escreveu sobre essa dança:
“Toda estranheza deixou a pista de baile após a dança de abertura. As últimas inibições caem com a travessa Winktanz. Todos conhecem a canção e, portanto, também sabem que o que está contido nela não deve ser tomado de forma tão trágica. Dançando conforme a melodia, meninas e meninos executam seus passos. Eles acenam um para o outro de forma marota, e, com um fingido aborrecimento, mandam um ao outro embora!
Desejar, declinar e arrepender-se estão uniformemente distribuídos em ambos os lados, e a malandragem brilha nos olhos de todos. Assim, vai um por um, e, quando se completa o círculo, o riso irrompe. Todos os dançarinos tornaram-se pessoas alegres que não são mais inibidas por mil amarras da vida, mas que se sentem como jovens cheios de vida.”
Em suas palavras, o professor descreveu muito bem o que se vê durante essa dança. Tudo não passa de uma brincadeira entre os participantes, escolhendo seu par. Em sua canção, que costuma ser cantada em Plattdeutsch, eles dizem: “Sai de perto de mim (2x), eu não quero te ver,/ Venha até mim (2x), estou tão sozinho(a).”
Primeiro, mandam a pessoa embora, mas, rapidamente, já procuram um novo parceiro. E, com esse novo par, eles querem dançar. Porém, a alegria dura pouco: logo já estão entediados e despacham também esse dançarino para, em seguida, chamar outro.
Essa é uma das coreografias que a oficina de dança da escola Grundschule Demerthin, no estado de Brandenburg, ensaia em seu repertório. Quando as crianças ouviram pela primeira vez a canção em Plattdeutsch comentaram: “Nossa, mas isso parece inglês! Parece que estão dizendo ‘go’”. Outro comentário interessante foi que, ao ouvir o verso “Ick bin so alleen”, uma aluna prontamente disse: “Assim minha avó também fala! Ela também diz ‘ick’ e ‘alleen’”.
Uma dança que era encontrada em várias partes do norte da Alemanha e que proporciona não apenas a brincadeira, mas também o contato dos mais jovens com o idioma que era amplamente difundido na região.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja também a canção em https://youtu.be/C8U-8f1tz48 .
29/05 - Mühlenpolka
Mühlenpolka é uma dança que representa um patrimônio histórico cultural?
Você sabia que, na Alemanha, existe até o “Dia Nacional do Moinho”? Ele acontece sempre na segunda-feira após Pentecostes e, em 2023, está sendo comemorado hoje, no dia 29 de maio.
Essa data foi estabelecida pela Associação Alemã de Moinhos - Deutsche Gesellschaft für Mühlenkunde und Mühlenerhaltung e.V. - com o objetivo de chamar atenção para a proteção dessas estruturas, como patrimônio cultural. Busca conscientizar a população tanto do valor histórico dessas edificações, quanto da importância das antigas técnicas de moagem.
Neste dia, em toda a Alemanha, os mais de 1100 moinhos de vento e de água participantes da ação, estão abertos a visitação e passeios. Além disso, um programa diverso complementa essas atividades.
Geralmente, o “Deutscher Mühlentag” é aberto com uma saudação do primeiro-ministro do respectivo estado federal em um moinho selecionado anteriormente. Em 2023, comemora-se a 30ª edição do evento e a abertura será na cidade de Büren, no estado de Nordrhein-Westfalen.
Entre as danças típicas alemãs, também encontramos muitas referências ao moinho. Com coreografias diferentes, além de diversas variações, elas são geralmente chamadas de “Mühle”, “Müllertanz”, “Mühlradl”, entre outros nomes.
Também temos uma “do moinho” entre as danças criadas recentemente na Alemanha: a “Mühlenpolka”. Foi composta por Martin Ströfer em 1992 e coreografada em 1993 por Helga Preuß, do grupo de trabalho “Arbeitskreis Tanz Nordheide”, no norte da Alemanha. O nome foi dado por causa da sua figura central, executada pelos rapazes e pelas moças. Ela pode ser realizada por três, quatro ou cinco pares.
Curiosamente, a dança surgiu em 1993 e, em 1994, foi comemorado pela primeira vez o “Dia Nacional do Moinho” em toda a Alemanha. Coincidência? É possível que sim, porém, podemos perceber, através desses exemplos, a importância desse Patrimônio Cultural, que transcende ao tempo e vive ainda no cotidiano da sociedade, se destacando em meio a campos e cidades.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja essa e outras danças.
28/05 - Pfingstfreitag in der Probstei
Pfingstfreitag in der Probstei: uma dança ou um cortejo?
A região de Probstei tem uma história bastante peculiar. No século XIII, a parte norte do atual distrito de Plön foi cedida ao mosteiro beneditino de Preetz, para que a região pudesse ser colonizada e cristianizada. Os fazendeiros de lá, tinham certos privilégios em comparação com camponeses de áreas próximas, pois precisavam pagar apenas valores baixos de impostos ao mosteiro de Preetz. Dessa forma, os “Probsteier” puderam prosperar.
Os moradores de lá se destacam não somente em seus trajes, mas também na dança típica. A “Pfingstfreitag in der Probstei” remete à sexta-feira de Pentecostes. No século XIX, como parte dos festejos desse período, havia uma espécie de desfile acompanhado por uma banda de música. O cortejo ia de casa em casa, liderado pelo morador mais velho ou chefe da comunidade - der Ältermann -, visitando primeiro as residências dos camponeses, depois dos artesãos e, por fim, dos pescadores.
Ao chegar em uma casa, era servida uma cerveja escura. O Ältermann indicava ao casal proprietário a primeira dança a ser executada por eles. Um fato curioso é que o dono da residência anterior dançava com a esposa da próxima a ser visitada. O mesmo poderia ocorrer com uma empregada e o senhorio, assim como com a anfitriã e um trabalhador do local .
Atualmente, essa procissão acontece em apenas um dos vinte vilarejos de Probstei. Todos os anos, cerca de trinta casas são visitadas e, em cada uma delas, o ritual acontece com muita dança e bebida, mantendo esse costume vivo.
Alguns pesquisadores acreditam que a música registrada para a “Pfingstfreitag in der Probstei” é muito longa para uma dança, podendo muito bem ser uma melodia para cortejo, como no caso das festividades de Pentecostes. Ou seria para as duas coisas? Nela, como visto, existem alguns momentos para os quais serve muito bem a coreografia registrada. Infelizmente, muita coisa se perdeu com o tempo e não há registros que comprovem isso.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o vídeo do Probsteier Tanz- und Trachtengruppe em https://youtu.be/byLcL0W9xiU .
27/05 - Schwarzerdner Pfingsttanz
A “Schwarzerdner Pfingsttanz” é um dança de Pentecostes?
Por mais que seja popularmente conhecida somente por “Schwarzerdner” -, a “Dança de Pentecostes que vem de Schwarzerdnen” pode não necessariamente ter uma origem “religiosa”. Uma tradução de forma apressada poderia sugerir que q coreografia teria alguma relação com “terra preta”, mas isso não corresponde à realidade. O nome faz referência a uma Escola - a “Schwarzerden Schule”, da região de Rhön, na Baviera.
Já outros detalhes sobre ela ou não são precisos, ou são desencontrados. Uma fonte afirma que ela é de 1944, e teria sido criada nesta escola. Outra aponta que seu autor, o compositor e coreógrafo Karl Lorenz (1915-2009), teria se inspirado em uma coreografia feminina do século XIX, criada na Schwarzerden Schule. Outra destaca que a melodia é antiga, vinda da Áustria, de Obersteiermark, de aproximadamente 1800. Seriam informações complementares ou desconexas?
E por qual motivo há a referência à Pentecostes? Dentro do cristianismo esse é o momento quando se rememora a chegada do Espírito Santo junto aos apóstolos de Jesus, por mais que venha de uma tradição do Antigo Testamento. A data está relacionada a 50 dias após a Páscoa, o que justifica o seu nome grego. Mas não se sabe claramente a razão de chamarem-na de “Pfingsttanz”. De toda forma, pode-se fazer algumas especulações: teriam criado-a neste período? O autor a pensou como ideal para esse feriado? Os movimentos podem ter alguma referência litúrgica? Ou nenhuma das opções anteriores? Perguntas que ainda não se tem resposta. Contudo, se analisada a coreografia, o que vocês diriam?
Hoje essa dança está presente em repertórios de vários grupos no mundo, tanto de Volkstänze, quanto das “Danças Circulares Sagradas”. Uma coreografia que, por sua sutileza somada à leveza melódica, cativa os dançarinos das mais distintas faixas etárias. Mesmo sem um possível elemento religioso, há nela uma rica oportunidade para concentrar-se e celebrar a vida.
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26/05 - Krüsel-Konter
O que surgiu primeiro: a Krüsel-Konter ou a Ältester Galopp?
Na região dos atuais estados de Berlim e Brandemburgo, chamada outrora de “Mark” - Marquesado ou Marca Brandemburgo -, existiam registros antigos sobre a existência de algumas danças chamadas “Krüsel-Quadrille”, “Krüseltanz” e “Kreiseltanz”. A princípio, elas teriam semelhanças entre si, especialmente na melodia, e uma observação chamava atenção: o ritmo delas era bastante acelerado.
Tendo Berlim como origem, foi anotada uma dança chamada “Krüsel-Konter”, também conhecida como “Ältester Galopp”. O termo “Krüsel”, em baixo-alemão, corresponde aos termos “Kreisel”, “Wirbel” e “Strudel”. Seu significado tem relação com dar voltas, podendo ser um pião ou um redemoinho, por exemplo. Ao conhecermos sua coreografia, entendemos por que essa seria a “Contradança do Giro”, uma vez que, em vários momentos, são realizados rodeios bastante intensos.
Mas como ela também ficou conhecida como “Ältester Galopp”, o “Galope mais Antigo”? O pesquisador Franz Magnus Böhme, em seu trabalho sobre a história da dança na Alemanha, apresenta os diferentes ritmos existentes até então. Entre eles, o galope. Segundo alguns registros, o mais antigo composto em uma obra clássica foi o presente na comédia musical “Die Wiener in Berlin”, do ano de 1825. Seria esse “galope mais antigo” o mesmo da “Krüsel-Konter”?
Essa peça musical conhecida como “Os vienenses em Berlim” foi composta pelo alemão Heinrich Marschner. Para suas composições, ele costumava se inspirar em canções e músicas típicas, sendo comum que suas obras tivessem trechos dessas melodias. E, para nossa surpresa, não é que, em uma parte de “Die Wiener in Berlin”, é possível reconhecer trechos da “Krüsel-Konter”?
Mas qual delas surgiu primeiro? Apesar de não haver nenhum registro oficializando isso, acredita-se que Marschner tenha se inspirado nessa antiga dança da capital alemã para compor o que seria o galope mais antigo em uma obra clássica.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o Blumenberg Volkstanz, de Petrópolis-RJ, dançando ela em https://youtu.be/JbL5IAVnCzI e o Grupo Folclórico Pomerano, de Pomerode-SC, em https://youtu.be/uZvryGtGzpE .
25/05 - Stelzentanz
“Unkener Stelzentanz” é dançada sob pernas de pau?
Alguns costumes antigos na atualidade parecem crenças um tanto estranhas. O que diriam se aparecessem em sua fazenda homens sob pernas de pau vindos para expulsar o inverno? E se essa personificação do frio viesse em forma de bruxa? É no mínimo um contexto curioso. Trata-se de uma das vertentes da tradição do Trester, que acontece em uma forma bastante particular, unicamente na comunidade de Unken, na região de Salzburg, próximo da divisa entre a Áustria com a Alemanha.
Contam que no século XVII uma grande enchente tomou Unken, nos Alpes, o que impediria que fosse realizado lá o tradicional Perchtenumzug, um costume pagão a ser anualmente reencenado. No que ele consistia: com a passagem do Dia de Reis, era hora de garantir que o frio fosse embora, para voltarem a plantar. Assim, era preciso "exorcizar o medo e pedir pela fertilidade”, passando nas casas das propriedades rurais tanto para realizarem o “bater de pés” e tocar os sinos, quanto para fazer suas danças com sapateado. Mas como contornar a cheia? Segundo as narrativas, usaram pernas de pau para ficarem sobre as águas, promovendo o ritual de expulsão do inverno, “garantindo” a vinda do calor.
Se foi realmente assim, não se tem como saber. De toda forma, ainda hoje em Unken se rememora esse acontecimento com a “Unkener Stelzentanz” - Dança das Pernas de Pau de Unken -, podendo ser seguida de uma Bändertanz - Dança das Fitas -, um costume que, segundo fontes, retornou após a II Guerra Mundial. Somente apresentada por homens, a 60 cm acima do chão, eles fazem figuras tradicionais das Ländler, se mantendo sempre em movimento - caso contrário podem cair. Uma personagem vestida de bruxa também faz parte do conjunto.
Podemos ver que não são só de hoje, nas comunidades de língua alemã, os “aficcionados pelo calor”. E olha que naquela época não tinham ainda o interesse pelas viagens à Palma de Mallorca ou ao litoral da Croácia.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja as atividades do Tresterer em Unken em https://youtu.be/vfuC2RFoOIM e o Volkstanzgruppe Tanz mit uns, de Porto Alegre, com uma versão do Stelzentanz em https://youtu.be/JrYyLhECnO0 .
24/05 - Patty Cake Polka
A “Patty Cake Polka” é uma dança alemã nos EUA?
Há danças que não se tem certeza de onde vieram e, muitas vezes, nem todos os locais para onde foram. Um exemplo especialmente interessante é a “Patty Cake Polka”, música assinada pelo escritor e compositor John Hugh McNaughton (1829-1891), famoso pelo hino “Love at Home”.
Em uma publicação da “Patty Cake Polka” de 1860, consta na letra: “Patty cake, patty cake, baker's man! Pick it, & roll it, & throw it in the pan!”. Essa rima não é realmente nova. Trata-se de um verso muito parecido com o também popular “Pat a cake” ou “Patty cake”: “Patty Cake, Patty Cake, Baker's Man; That I will Master, As fast as I can”. Esse texto tem um de seus primeiros registros em 1765, anterior ao nascimento de McNaughton, e outra de 1698, um pouco diferente.
Já na coreografia da “Patty Cake Polka”, vê-se que tem similaridade com a brincadeira com palmas presente na “Pat a cake”. Simultaneamente, no norte da Europa, em países como Finlândia, Suécia e Alemanha, há danças praticamente iguais, inclusive com a melodia com a mesma métrica da de McNaughton. É o exemplo da “Klappdans”. Será que a música veio do velho mundo ou foi para lá?
Richard Wolfram destaca a classificação de um conjunto de coreografias como “Klatschtänze” - Danças de Palmas. Basicamente a parte principal delas é a interação entre os participantes através de palmas. Neste grupo, segundo ele, estariam as conhecidas “Vögelischottisch”, “Spitzbuama”, “La Vinca”, “Deutschkatholischer”, “Fingerpolka”, entre outras, sem esquecer da “Kappdanz”.
Assim, a “Patty Cake Polka” poderia ser uma variante de “Klatschtanz” que se desenvolveu nas Américas e assumiu texto com base nas tradições locais. Ou poderia ser uma antiga tradição dos EUA que acabou se espalhando na Europa e igualmente se adaptando às culturas regionais. Certeza absoluta não se tem da origem de sua base. O que se pode afirmar é que, no passar dos séculos, em ambos os continentes, elas sobreviveram com o mesmo “taco e ponta”.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja a “Patty Cake Polka” em https://youtu.be/mQKZDFB9UWk?list=RDQMB-GzfmQyBRQ .
23/05 - Bohnenpott
Bohnenpott: uma dança ou uma comida?
A “Kreuzpolka” é um tipo bastante específico de coreografia da metade do século XIX e é encontrada em toda a Alemanha. Talvez a música mais popularizada para essa “Polca Cruzada” tenha sido a “Bohnenpott”, a qual também era conhecida, especialmente no norte da Alemanha, como “Rosenpolka”.
Conforme a região, vamos encontrar pequenas variações nesta melodia e também na canção, além da presença de mímica para encenar o texto cantado em Plattdeutsch ou em Niederdeutsch. A maior parte das canções nos diz que:
“Se aqui tiver um pote com feijão, e lá um pote com mingau.
Então, eu deixo o mingau e o feijão parados
E danço com minha Marie.
E se a Marie não sabe dançar,
então ela tem pernas tortas.
Eu visto nela uma saia longa,
então ninguém vai ver.”
Nesse contexto, é interessante conhecer o relato de um grupo de danças da cidade de Parchim, no estado de Mecklenburg-Vorpommern. Após a Segunda Guerra Mundial, eles estavam retomando a “Rosenpolka” e, após uma apresentação, os dançarinos foram abordados por um casal de mais idade. Emocionados, os dois contaram que, quando jovens, em seu vilarejo, também haviam dançado a mesma “Bohnenpott”. Eles lembravam que os jovens da época a realizavam com mais agitação e mais “batidas”, chegando a demonstrar como era feito.
Após a conversa, o grupo teve a ideia de fazer uma parte dramatizada da “Rosenpolka” . Inicialmente, conforme a canção, um rapaz está procurando a sua Marie, a qual se esconde e não quer dançar com ele. E, como ela está fugindo dele, ele faz graça, dizendo que ela tem as pernas tortas. Depois, um casal mais velho (assim como aquele que chegou até os jovens após a apresentação), mostra para os dois uma coreografia. Por fim, todo o grupo executa com empolgação essa “Kreuzpolka”.
Independente de quando e onde a “Bohnenpott” é dançada, com certeza ela traz ao público e aos dançarinos muita diversão.
Ah! A propósito, “Bohnenpott” também é um ensopado feito de feijão, mas, aqui, você já sabe que ela é uma dança, não é?
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e escute a música em https://youtu.be/Z_WTa-vmoqs ou https://youtu.be/iRgnuLwinm0 .
22/05 - Schlossparkwalzer
De qual palácio é a Schlossparkwalzer?
O parque do palácio (Schlosspark) em Pankow é apenas um dos espaços verdes espalhados pela capital alemã. Com uma história única, a visita ao local e também ao palácio Schönhausen valem a pena.
Esta edificação ficou conhecida como residência de verão da rainha Elisabeth Christine von Braunschweig-Wolfenbüttel-Bevern, esposa do rei da Prússia, Friedrich II. Enquanto seu marido passava os meses de verão no palácio Sanssouci, em Potsdam, ela ficava esse mesmo período ali em Schönhausen. Foi especialmente nesses veraneios, entre os anos de 1740 e 1797, que o jardim em torno do palácio foi ganhando forma em estilo rococó.
À primeira vista, dificilmente suspeita-se, mas o jardim foi ampliado e remodelado muitas vezes em seus mais de 300 anos de existência. Na época de Elisabeth Christine, ele era considerado um dos mais belos jardins barrocos da Prússia. Vestígios de todas as épocas são visíveis hoje, mas não há um conceito geral coerente.
Atualmente, o parque é muito frequentado por moradores de Berlim e visitantes. Com seus trinta hectares, o Schlosspark em Pankow é um pequeno oásis dentro da metrópole Berlim. Nele, é possível encontrar acácias, carvalhos e castanheiros, fazer passeios pelos caminhos sinuosos, acompanhar o curso do rio Panke, levar as crianças para brincar na pracinha e, inclusive, cultivar pequenas hortas conhecidas como “Schrebergärten”.
Já a dança “Schlossparkwalzer” é uma coreografia criada por Claudia Schier, do Berliner Volkstanzkreis. Nela, encontram-se figuras tradicionais das Volkstänze alemãs executadas no ritmo da valsa. Recebeu esse nome em homenagem ao parque do palácio Schönhausen, que ainda hoje é um dos mais belos locais frequentados pelos berlinenses.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja esta e outras narrativas.
21/05 - Schustertanz
Existe somente uma “Schustertanz”, dança do sapateiro?
Até meados do século XX a figura do sapateiro era obrigatória em qualquer cidade. Por sua importância, é um dos profissionais que mais aparecem entre os temas de danças, sendo estas muito tradicionais. As “Schustertänze” podem ser vistas nas atuais Alemanha, República Tcheca, Áustria, Polônia, Romênia, entre outros, tanto junto às crianças quanto com os adultos. Mostram o reparo dos calçados e a feitura. O cortar do couro, costurar, pregar a sola, lustrar o sapato pronto são algumas das partes mais vistas nas coreografias, geralmente teatralizadas.
Um dado interessante é que muitas das danças dos sapateiros surgiram a partir de canções populares. Por isso, as letras, por vezes, também conduziam as figuras, descrevendo os acontecimentos a serem encenados. Uma delas dizia o seguinte: “Sim, é assim que embrulhamos, (2x) / rasgamos (2x) / martelamos (3x). / A sapataria é divertida / o sapateiro canta sua música / canta sua música sem parar / até que o cadarço no sapato arrebentar. / Ah, caro sapateiro, você conserta o meu sapato! / Os sapatos são em pares. / O sapateiro os faz novos.”
Não é preciso grande imaginação, ao ler a letra, para perceber o que acontece nesta dança. Esse tipo de coreografia acaba sendo simples e de fácil aprendizado, o que justifica não ter sido esquecida no passar das gerações. E mesmo com o contexto dos calçados tendo mudado, as melodias com suas figuras expressivas sobreviveram, muitas vezes pelos cantares das crianças. É importante lembrar que a ideia de uma sapataria com muitos produtos à pronta entrega, com múltiplas numerações, é uma característica da atualidade.
Assim, novamente a cultura popular serve de indício para contar aspectos da sociedade do passado, preservando tradições. Isso não impede que os dançarinos do presente imaginem de modo todo atualizado os significados das canções: cada um é produto de seu próprio tempo, seja dançando de tamanco de madeira, de sapatos de couro, ou de tênis de lona.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja a Schustertanz da Alsácia em https://youtu.be/UHSeHzf9zXU e da Áustria em https://youtu.be/0iclPhMzYcM .
20/05 - Puttjenter
Como surgiu a dança Puttjenter?
Muitas vezes, dançar é voltar no tempo. Para conhecer um pouco a “Puttjenter”, é preciso realmente fazer uma viagem. Convidamos você a nos acompanhar até o vilarejo de Hille, na Vestfália, no século XIX. Não em um dia qualquer, mas sim, em um dia de feira: o Hiller Markt!
Em um documento de 26 de agosto de 1564, o duque de Braunschweig-Lüneburg deu aos moradores de Hille oficialmente o direito de realizar uma feira três vezes ao ano. Tudo começou como um mercado de gado e de objetos e, com o tempo, passou a ser também para entretenimento com brinquedos, música, comida e bebida.
É assim que vamos encontrar o Hiller Markt em nossa viagem. Ao darmos uma pequena volta pela feira, vamos ouvir comerciantes negociando cavalos, bois, porcos e outros animais, além de outros bens mercantis produzidos na região. Mais adiante, vemos crianças e adultos se divertindo e se deliciando com algumas iguarias regionais. E, ao longe, ouvimos diferentes melodias executadas por um grupo de músicos.
É nesse momento que um rapaz dá ao conjunto algumas moedas, pedindo: “Toquem aquela de puxar para trás!”. E, rapidamente, pequenos grupos vão se formando e os músicos já começam a introdução da dança. Em poucos instantes, surge uma figura em que os rapazes conduzem as meninas para trás de si, como se fosse uma corrente, na qual eles ficam parados no lugar. Claro que as moças também iriam repetir essa parte fazendo o mesmo com os rapazes.
Agora está explicado, o porquê de ela ter sido chamada de a dança de “puxar para trás”. “Puttjenter” nada mais é do que uma palavra em baixo-alemão (Niederdeutsch ou Plattdeutsch) que tem esse significado. Ela acabou levando o nome de uma de suas figuras, pela qual era mais conhecida entre os músicos e o público em geral. Era típica na feira em Hille.
Já que descobrimos a origem da dança “Puttjenter”, nossa viagem de hoje fica por aqui. Esperamos que tenha gostado e nos acompanhe em nossas próximas excursões!
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o Grupo de Danças Folclóricas Alemãs Edelweiss, de São Paulo, com a Puttjenter: https://youtu.be/lQ0_y48Cn08
19/05 - Marschkonter
A Marschkonter indica quem é o seu futuro pretendente?
Na zona costeira da Pomerânia, a vista abrangia extensões planas de terra e mar. A paisagem literalmente obrigava as pessoas a passear pelos campos. O andar ritmado do passeio parecia uma marcha. Não é de se admirar que existam tantas manifestações conhecidas como “danças de marcha”.
Uma delas é a “Marschkonter”. Ela tem origem na aldeia de Zülkenhaben, no distrito de Neustettin. Ela é marcada exatamente pelo caminhar ritmado dos pares. Para muitos, era o momento que se tinha para ficar a sós, mas sob o olhar atento dos demais.
Mas como saber se o amor era recíproco ou se essa era a pessoa certa?
Para isso na antiga Pomerânia havia brincadeiras e superstições entre os jovens, permitindo supor o nome do possível pretendente.
Para descobrir quem seria seu futuro marido, as moças costumavam folhear o baralho, dizendo alguns versos. Quando virassem uma determinada carta, o Rei de Copas, por exemplo, a palavra do verso dita naquele momento seria a indicação do amor vindouro: “Costureiro, pastor de ovelhas, fazedor de vassoura, realejo ou limpador de chaminés. / Imperador, rei, fidalgo, advogado ou um Zé Ninguém.”
De forma semelhante, tanto os rapazes quanto as moças procuravam descobrir se seu amor era correspondido. Enquanto viravam as cartas do baralho, diziam o seguinte verso: “Ele (ela) me ama: de coração - com dor - além de todas as medidas - não pode evitar - um pouco - quase nada.”
Por fim, sabe aquelas manchinhas brancas que às vezes temos nas unhas? Então, na antiga Pomerânia, elas tinham um significado muito peculiar. Se elas apareciam no dedo anelar, poderiam significar amor ou que a pessoa estava prestes a se casar. Ou ainda, o número delas simbolizaria os pretendentes que a pessoa tinha ou a quantidade de presentes que ela receberia.
Apesar de a dança “Marschkonter” não ter nenhuma fórmula mágica para indicar se o seu par é o seu futuro pretendente, com certeza ela permite perceber se a pessoa está em harmonia com você. Para todo o resto, podemos aproveitar as superstições pomeranas!
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e conheça essa e outras histórias.
18/05 - Västgötapolska
Como a Västgötapolska, da Suécia, chegou à Alemanha?
Uma dança pode nascer e se movimentar de muitas formas. Vejamos o exemplo da sueca “Västgötapolska”, em alemão “Westgötatanz”. Há diferentes narrativas sobre isso, inclusive uma que atribui o aprendizado dela pelos alemães séculos atrás.
Contam que, com o fim da Guerra dos Trinta Anos, em 1648, com a chamada “Paz de Vestfália”, a Suécia tomou o controle de territórios de língua alemã, como da Pomerânia, Ilha de Rügen, da cidade hanseática de Wismar, se estendendo aos mares de Verden e Bremen (áreas de forte comércio). Essa presença sueca teria gerado vários diálogos comerciais e também culturais. Com base nesse relato, para a “Västgötapolska” estar nesse contexto, ela teria sido criada em meados de 1600 e 1700, o que parece pouco provável.
Já segundo outra narrativa, ela surgiu em 1906, quando uma associação em Göteborg - uma grande cidade sueca - decidiu criar uma nova coreografia para uma festividade. Esse trabalho ficou a cargo da Sra. Lotten Aström, que trouxe figuras tradicionais como círculos, fileiras, portões, torres, corrente e movimentos em pares. Como por esta cidade passa o rio Göta e já existia uma dança de nome “Ostgötapolska” - Polca do Oeste do Göta -, teria assim vindo a ideia de fazer a variante do Leste: “Västgötapolska”.
Seguindo essa segunda versão, a ida da “Westgötatanz” para fora da Suécia teria ocorrido no início do século XX. Dados apontam que isso aconteceu provavelmente nos anos de 1930, em seminários ligados a danças para jovens, no norte da Alemanha. Lá o passo principal passou a ser chamado de “Westgötaschritt”, por não ter um equivalente junto às danças tradicionais alemãs.
Então, ela surgiu e se espalhou no século XVII ou no XX? A segunda opção parece ser mais fácil de acreditar, além de ter mais fontes que indiquem essa história. O que se pode afirmar com certeza é que ela é uma linda dança: não necessariamente algo precisa ser muito antigo para ser valioso para sua comunidade.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja também a dança em https://youtu.be/wVx5RJojwnA com o Skansens Folkdanslag.
17/05 - Der Kobold
“Der Kobold”: um duende mitológico na dança alemã?
A dança “Der Kobold” foi composta por Heinrich Dickelmann e coreografada por Herbert Oetke; já o motivo exato para dar esse nome, infelizmente, não nos é conhecido. Eles foram os mesmos criadores das danças “Schwingkehr” (12.02.2023) e “Märkische Viertour” (24.02.2023), promovidas na década de 1920, em meio ao Movimento da Juventude Alemã (Jugendbewegung).
“Kobold” um nome bastante interessante, pois ele é um duende presente na mitologia de diferentes povos, entre eles o alemão, o britânico e os escandinavos.
Segundo essas tradições, ele é um espírito doméstico que protege a casa, mas que também gosta de provocar seus ocupantes sem fazer mal algum. Por exemplo, ele pode aparecer na forma de uma pena que cai no nariz enquanto você dorme, causando um espirro. Barulhos de batidas e cortinas esvoaçantes podem ser obra desses seres. Em outras culturas, surgem também seres semelhantes, como por exemplo, o gnomo, o goblin e o leprechaun.
O “Kobold” também deu nome ao elemento químico cobalto. Como assim? Na Idade Média, esse minério era frequentemente confundido com prata e cobre. No entanto, como não podia ser processado e exalava mau cheiro quando aquecido (devido ao teor de arsênico) era considerado enfeitiçado. Supostamente, os “Kobold” comiam a preciosa prata e excretavam minérios prateados inúteis em seu lugar. Por isso, os mineiros chamaram esse elemento de “cobalto”.
Caso você suspeite de ter em casa um “Kobold”, não se preocupe! Para agradá-lo, basta deixar à noite uma tigela de leite e, de presente, algo brilhante. Eles adoram! Pode ser uma pedra, um cristal ou algum enfeite antigo de metal. E, caso você queira se comunicar com ele, deixe à disposição um sininho de prata. Assim, ele pode avisar que está por perto sem se deixar ver. Ah! E se você colocar farinha ao redor da tigela de leite, poderá ver os rastros dele.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja a dança executada pelo Arbeitskreis für Jugendtanz der DGV em https://youtu.be/DEuZhACymrg .
16/05 - Kastilliano
Kastilliano é uma dança castelhana?
Especialmente para os brasileiros moradores da fronteira com a Argentina e com o Uruguai, o termo “castelhano” é muito comum no dia a dia. Ainda mais quando chega um “castelhano” na cidade ou, no rádio, é sintonizada uma frequência com música e notícias em “castelhano”. Até mesmo nas praias do litoral do sul do Brasil é possível encontrar muitos destes “castelhanos” na alta temporada. Esses “hermanos” que vem de países vizinhos, assim como o idioma espanhol, são chamados popularmente de “castelhanos”.
O termo vem de “Castela”, reino que se uniu ao de “Aragão” e formou a atual Espanha. Porém, teria a dança pomerana “Kastilliano” origem hispânica? De onde ela vem é difícil de identificar, pois ela já existe na Alemanha há muitos anos, especialmente na região de Stralsund. Alguns pesquisadores acreditam que é bastante antiga e que, muito provavelmente, teve origem nos movimentos em colunas. Seu nome pode ter vindo de alguma canção que acompanhava a coreografia e, provavelmente, continha a palavra “Kastilliano”, sendo, assim, nomeada a partir dela.
Contudo, outros estudiosos tentaram ir mais longe. Devido a idade da “Kastilliano”, precisou-se buscar informações sobre a história medieval da Europa. Poucos sabem que boa parte do território da atual Holanda, Bélgica e Luxemburgo foi governado por cerca de dois séculos pela coroa espanhola. Essa influência hispânica foi forte na cultura da região.
Acredita-se que marinheiros holandeses, com influências culturais espanholas, possam ter disseminado especialmente nos países nórdicos e nas regiões costeiras do Mar Báltico, algumas danças, entre elas a “Kastilliano”. Com o tempo, ela foi incorporada à cultura local e o seu nome foi mantido para indicar que era a “castelhana” ou a “dança dos castelhanos”.
Assim, apesar de parecer estranho existir alguma dança de origem espanhola na Alemanha, é possível sim que a base da “Kastilliano” realmente tenha vindo de lá. E será que cantariam “Kastilliano se você me ama… me diz”? Acho que não.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e conheça mais danças de nosso projeto.
15/05 - Hämpergglünggi
A “Hämperglünggi” é da Basiléia ou de Zurique?
Uma dança não nasce sem uma melodia e uma coreografia. Se o compositor é da Basiléia e o coreógrafo é de Zurique, de onde, então, é essa combinação? Às vezes a resposta pode ser simples, como no caso da “Hämperglünggi”, de Urs Mangold, Johannes Schmid-Kunz, Nelli e Martin Dubach .
Urs Mangold é conhecido como o difusor da “Volksmusik” na Basiléia, sendo lá um músico de destaque. Segundo especialistas, ele conseguiu pluralizar esse estilo na região, onde comandou dois conjuntos: o Oberbaselbieter Ländlerkapelle e o Sissecher Holzmusig. Sabe tocar Schwyzerörgeli (um tipo de acordeon diatônico), clarinete, violino, violão e flauta doce. Um artista de primeira linha.
Contudo, mesmo tendo uma relação especial com a Basiléia, Urs Mangold compôs um de seus títulos com base em uma situação vista em Zurique: em uma das suas apresentações ele percebeu que as camisas dos dançarinos constantemente saiam para fora das calças enquanto se divertiam na pista de baile. Essa inspiração gerou a “Der Hämperglünggi”: em dialeto Hämper pode ser sinônimo de camiseta ou camisa e Glünggi pode significar um tecido que saiu do seu lugar.
Já a coreografia é claramente de Zurique: escrita por Johannes Schmid-Kunz, famoso instrutor do Volkstanzkreis Zürich, juntamente com Nelli e Martin Dubach. Eles agregaram à melodia passos como a Ländler, mazurca e muitas formações com giros. Será que tantas voltas que a dança dá tem alguma relação com as camisas retorcidas? Provavelmente não, mas tentar imaginar uma relação entre elas não custa nada.
Assim, seja pela melodia, seja pela coreografia, a “Hämperglünggi” está ligada à maior cidade da Suíça: Zurique. De toda forma, ela deve trazer em seu íntimo uma conexão com a Basiléia, base de seu compositor e músicos.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja a “Hämperglünggi” sendo apresentada pelo Volkstanzkreis Zürich em https://youtu.be/RBOJr3tVVZY .
14/05 - Uri Zion
“Uri Zion”: uma canção em homenagem à independência de Israel?
Nos primórdios da dança israelense, por volta de 1940, muitos coreógrafos tentaram incorporar raízes autênticas da comunidade em suas criações. Para elaborar novas danças, muitos passaram a considerar também as antigas escrituras. Isso aconteceu por três motivos:
1. Vários dos eventos festivos realizados nos kibutzim (comunidades coletivas voluntárias de caráter social, militar e agrário) foram baseados em feriados judaicos, cujas referências podem ser rastreadas até os textos sagrados.
2. A dança na tradição e na história judaica é mencionada por escrito. Alguns desses textos têm mais de 2.500 anos.
3. Muitos compositores e letristas procuraram buscar raízes tão remotas quanto possível e materiais autênticos, optando por utilizar em suas canções letras que vieram diretamente dos textos que compõem o Antigo Testamento.
Um dos temas favoritos era o povo judeu despertando de séculos de sono para começar uma nova vida. As palavras do profeta Isaías (52:1,2) foram relevantes para essa composição de Moshe Wilenski, no ano de 1959, capturando a emoção desse renascimento: “Desperte! Desperte!, ó Sião, vista-se de força. Vista suas roupas de esplendor, [...] Sacuda para longe a sua poeira; levante-se, sente-se entronizada, ó Jerusalém. Livre-se das correntes em seu pescoço, ó cidade cativa de Sião.”
“Uri Zion”, que, em hebraico, significa “Desperte, ó Sião”, é a primeira frase desse trecho do texto do profeta Isaías e também o primeiro verso da canção. Sião é uma referência ao Monte Sião, uma das colinas de Jerusalém e que, por extensão, tornou-se sinónimo da Terra de Israel.
Mas “Uri Zion” seria uma canção em homenagem à independência de Israel? Apesar de não haver muitos registros sobre a motivação da composição, em um documento, a música de Moshe Wilenski é relacionada a essa data, ocorrida no dia 14 de maio de 1948. Apenas no ano de 1968, Rivka Sturman criou uma coreografia para a canção, tornando-se logo muito popular entre os grupos de jovens.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja a danca explicada e demonstrada em https://youtu.be/oMNLwK8L4Os .
13/05 - Feistritzer Ländler
A “Feistritzer Ländler” tem compassos e figuras fixas?
A pequena comunidade de Feistritz am Wechsel, que pertence à Neunkirchen, na Baixa Áustria, tem pouco mais de 1000 habitantes e apresenta aos visitantes, além de seu castelo, um elemento em destaque: a tradição. É de lá que vem a “Feistritzer Ländler”. Em antigos registros ela é apresentada sem contagem dos compassos; já nos mais recentes há precisão dos tempos e dos detalhes das figuras. Por qual motivo isso acontece?
Um dado secular é que esse tipo de dança, que tem formações com nós e giros, era executada como numa pista de baile: mesmo que no círculo, cada par dançava de modo independente, sem preocupação com o sincronismo dos participantes. Dentro desta lógica, quem registrava as coreográficas não via sentido em informar o número de compassos de cada etapa: os acontecimentos simplesmente fluíam.
Contudo, depois da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) muita coisa mudou. Houve simultaneamente um movimento cultural de preservação e de renovação: se, de um lado, queriam garantir a sobrevivência dos antigos costumes das comunidades rurais, de outro, os melhoraram instintivamente. Segundo Simon Wascher, nesse movimento de "restauração" das tradições, pelos anos 1930, passaram a implementar o que as pessoas “imaginavam” ser a vida no campo “de antigamente”, de modo um tanto idealizado. Isso fez com que, por exemplo, as antigas danças fossem aprimoradas, com maior cuidado no sincronismo e arrojo na estética.
Assim, hoje é possível dançar a “Feistritzer Ländler” tanto de modo mais livre, quanto com maior apuro visual. Só é preciso compreender que, no primeiro caso, possivelmente, muitos achem as figuras “dessincronizadas” um pouco estranhas, pressupondo que estão erradas. Isso é compreensível, já que a nova estética do pós-guerras “reeducou”, através do “folclore”, o olhar da sociedade sobre a cultura popular: a fez parecer em um produto bonitinho e “perfumado”, mesmo que assim não o fosse.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja também o vídeo da “Feistritzer Ländler” em https://youtu.be/BLXtVD7umhA .
12/05 - Familienwalzer
A “Familienwalzer” era dançada somente com a família?
A “Familienwalzer” - Valsa da Família - é um grande exemplo de dança coletiva. Sua coreografia se espalhou rapidamente, mas sem se fixar a uma única melodia: as comunidades passaram a agregar músicas regionais de ritmo ternário. As muitas pesquisas apresentam dúvidas quanto à data que foi criada, mas pressupõe-se que não seja nova, já que ganhou vários nomes, como “Kreiswalzer”, “Rosenwalzer”, “Ringwalzer”, “Familjevalsen”, “Famliy Waltz”, “Familie Vals”, “Familievals”, entre outras. Ela também tem similaridades com a variante em círculo da “Hulaner”.
E como ela é? Segundo Richard Wolfram “a chamada "Familienwalzer" é popular em festivais de dança na Dinamarca, mas também na Suíça. Todos os casais se posicionam em um grande círculo. Com quatro balanços leves das pernas, o casal vira alternadamente para os vizinhos esquerdo e direito, em seguida, desfazem a posição circular e ele com a dançarina da esquerda faz quatro compassos de valsa, de modo que elas fiquem do lado direito dos rapazes quando todos se juntarem novamente em formação de círculo. Isso continua até que todos tenham dançado uns com os outros, no avanço constante dos dançarinos.”
E quando era realizada? Não há dados para trazer afirmações concretas sobre isso. Uma possibilidade é que tenha sido executada em festas de casamento, pois é o momento da formação de uma nova família e ponto alto de recordar a sua importância. De todo modo, trata-se de uma especulação. Walter Bucksch destaca que “a “Familienwalzer” é frequentemente utilizada para que os participantes em noites de danças se conheçam ou para encerrá-las.”
Seja qual for o motivo de sua origem, essa dança ganhou importância pelo seu potencial inclusivo, sua formação em círculo e suas trocas constantes de pares - que ampliam o contato entre os participantes. Ela mexe com a curiosidade das pessoas, que buscam explicá-la através de suas próprias realidades, gerando novas narrativas, deixando-a cada vez mais “familiar” ao imaginário coletivo.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja a “Familienwalzer” em https://youtu.be/uV0VGiz_s-o .
11/05 - Figaro
“Figaro” é a dança do Barbeiro de Sevilha?
Com certeza, o “Fígaro” mais conhecido no mundo é o personagem da comédia “O Barbeiro de Sevilha” (1773), do francês Pierre Beaumarchais. Nesta peça, pertencente a uma trilogia, Fígaro é o nome do profissional que cuida da barba e cabelos dos moradores dessa cidade espanhola: ele sempre dá um jeito de participar de todos os planos e intrigas que acontecem na narrativa.
Sua fama se espalhou pelo mundo após a história se tornar óperas, especialmente as compostas pelo austríaco Mozart (As Bodas de Fígaro, 1786) e pelo italiano Rossini (O Barbeiro de Sevilha, 1816). Por causa do sucesso delas, o termo “Figaro” passou a ser usado por muito tempo em alemão como sinônimo para “barbeiro”.
Porém, como pode existir uma dança alemã chamada “Figaro”? Bem, são comuns no norte da Alemanha as coreografias que levam esse nome, apresentando algumas variações. O que elas têm de similar é a formação em fileiras de dois pares, frente a frente. Muitos pesquisadores dizem que as “Figaro” seriam uma meia “Tampet”, outro estilo parecido, mas com quatro pares.
E qual seria, então, a relação dessas danças com “O Barbeiro de Sevilha”? Infelizmente, não existem dados que os unam. Provavelmente seja mera casualidade. Nas óperas ligadas ao Figaro também não são reconhecidas melodias que acompanhem as coreografias recolhidas sob esse nome.
Quem sabe, teria, então, a “Figaro” alguma relação com a profissão do barbeiro? Muito difícil. Sobre isso, não há nenhum registro. Há sim, em diferentes regiões, as Barbiertänze (ver “Ein Tanz pro Tag” de 19.01.2023 - Der Bartschrapertanz). Geralmente, elas são teatralizadas, encenando a ação de um profissional do setor e de seus aprendizes, levando todos a muitas risadas. Todavia, essas, novamente, nada tem de ligação com as “Figaro”.
Fica, assim, a dúvida sobre a origem desse nome para essa formação coreográfica. De qualquer forma, ao conhecermos a Volkstanz “Figaro”, não tem como não lembrar de um dos trechos da ópera “O Barbeiro de Sevilha”, quando ele repete várias vezes o seu nome: “Figaro, Figaro, Figaro…”!
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10/05 - Giuvens Grischuns
“Giuvens Grischuns” tem base em uma dança sueca?
Segundo Karl Klenk, “no verão de 1939,[...], os suecos convidaram grupos de dança e de folclore [...] para uma grande reunião de fraternidade em Estocolmo. A juventude da Europa foi chamada a fazer amigos em todas as fronteiras e, assim, evitar a guerra iminente. A Suíça delegou o Volkstanzkreis Zürich, que, na época, era o único grupo de dança capaz de representar todo o país, [a ir no evento].”
Foi lá que eles tiveram contato com o animado “Hambo”: “ficamos todos entusiasmados com sua beleza e leveza [...]. O Hambo é dançado ao som de uma mazurca sueca lenta chamada polska.” Seriam dois passos fortes para a frente, seguidos por três graciosos que preparam para, em posição fechada, o movimento rodado no círculo.
Após a guerra, em Borgonha, houve um novo encontro com os suecos, com variantes da Hambo. Em uma noite, ao retornarem aos alojamentos, tiveram a oportunidade de dança-la à luz do luar. Ali, a instrutora do Volkstanzkreis Zürich, Klara Stern-Müller, teria sussurrado: “Poderíamos muito bem usar esta figura para nosso novo Zürcher Mazurkatanz”. Assim, somaram a mazurca suíça a elementos do Hambo suecos.
Ironicamente a melodia de Hans Luzi Flury e a criação de Klara, feita para Zurique, acabaram tendo outro destino: o “Schweizerische Trachtenvereinigung”, pediu que uma das novas danças do Volkstanzkreis Zürich fosse usada para representar o povo do Cantão dos Grisões na festa em Interlaken, pois estes não tinha coreografia própria. “Com o coração pesado, demos a eles nossa mazurca e a chamamos de “Giuvens Grischuns” - “Jovens Grisoenses”,” disse ela. E mais: o grupo foi ao Unspunnenfest de 1955 e apresentaram a sua “nova dança" usando trajes de Engadin, uma região grisoense. Mas por qual motivo os dançarinos de Zurique usariam a indumentária de outro local? “Naquela época, também tínhamos mulheres vindas do Graubünden - Grisões - em nosso grupo de dança”, justificou-se. Na verdade, queriam manter em sigilo a história toda.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e vejam a “Hälsingehambon Hambo contest Final 2010” com a Hambo suéca em https://www.youtube.com/watch?v=vQuzdLd6iwM .
09/05 - Warschauer
Como a dança Warschauer se difundiu?
Poucas são as danças que podemos relacionar a muitas culturas e regiões diferentes. Uma delas é a Mazurca. Especialmente na Europa, é possível encontrar em quase todos os países variações dela.
Como apresentado no dia 13.04.2023 (La Varsovienne), acredita-se que uma variante da Mazurca conhecida como “Varsovienne” ou “Warschauer” tenha saído da Polônia e caído no gosto dos dançarinos dos salões franceses, de onde foi difundida, tornando-se popular em várias regiões e países, especialmente nas regiões de língua alemã.
Acredita-se que ela tenha se difundido a partir de uma melodia composta por Johann Strauss Filho chamada “Warschauer Polka”. A música teria sido composta por ele durante uma turnê pela Polônia e, com a passagem por Varsóvia (em alemão, Warschau), tem-se a explicação de seu nome. Por isso que a dança é ora chamada em alemão de “Warschauer”, ora em francês de “Varsovienne”.
Contudo, ela também é conhecida por outros nomes como “Dreh dich mal um”, “Wask use Jenne” e “König von Rom”, entre outros. Uma das canções que acompanham a dança foi registrada em Mecklenburg. A tradução livre seria mais ou menos assim:
“Vire-se uma vez, porém não curvada,
mas belamente reta, como um soldado.
Escorrega o orvalho, escorrega o orvalho,
e agora fique parado.”
Já na Westfália, o texto em tradução livre nos diz o seguinte:
“Lave-nos Jenne, lave-nos Jenne, ela está suja!
Ela não fica parada, ela não fica parada, a água está molhada.
Vire-se uma vez, não seja boba.
Vire-se uma vez, não seja boba.”
Por fim, também é conhecida uma outra rima que zomba da queda do domínio de Napoleão na Europa:
“O rei de Roma, filho de Napoleão,
era jovem demais para ser imperador.”
Independente da rima criada e de como a dança é executada, “Warschauer” nos mostra como uma coreografia simples consegue se adaptar e ganhar novos traços, tornando-se uma Volkstanz em diferentes grupos culturais.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja também o vídeo da https://youtu.be/RrorEG8f010 com um conjunto de gravações e https://youtu.be/s06nu1Q1sZc com a instrucao do Deutsche Gesellschaft für Volkstanz e.V.
08/05 - Iseltaler Masolka
A “Iseltaler Masolka” é dançada a 1000 metros acima do nível do mar?
Um ritmo que se popularizou muito na Áustria faz alguns séculos foi a mazurca. Ela se irradiou por lá e alcançou as comunidades dos mais longínquos Vales, ganhando seus próprios trejeitos e intensidade, se encaixando aos estilos locais. A “Iseltaler Masolka” é um exemplo clássico desse movimento cultural e é, para os amantes das Volkstänze, um dos símbolos dessa linda região.
Por não ser tão extenso, em torno de 27 km de comprimento, o Iseltal é bucólico e menos conhecido do turismo de massa. Está localizado no lado austríaco do Tirol, com altitude entre 975 a 673 metros acima do nível do mar, e sua primeira referência conhecida é como "in regione Isala", nos arquivos do Bispado de Brixen, datados de 1065-1077.
Devido às belas paisagens naturais, a região desenvolveu, na atualidade, um caminho para amantes das “pedaladas”: a ciclovia de Isel conecta Lienz com St. Johann im Walde e Matrei in Osttirol, seguindo o curso do rio. Cascatas, arquitetura típica, castelos e pequenos vilarejos são atrativos aos visitantes, assim como seus restaurantes e hospedarias.
É de lá que veio a “Iseltaler Masolka” e ela tem uma peculiaridade: depois dos compassos iniciais com mazurcas - mais “leves” do que aqueles realizados no norte da Europa -, há trocas de posições no par, havendo meio-giros em passo ternário. Essa mudança é a tônica da coreografia. Por mais que essa figura possa acompanhar outras melodias regionais - inclusive visto em Mazurkas, a exemplo da “Varsovienne” -, nesta dança austríaca ela tem papel de destaque.
É interessante que, se fosse na atualidade, com tantas tecnologias e mídias, provavelmente essa dança não teria surgido, pelo menos não nesse formato: ela veio do processo de transmissão oral das informações e das músicas por partitura, sem ter uma gravação para comparar. Desta forma,
à medida que as melodias e coreografias eram repassadas, ganhavam novos detalhes e regionalismos.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o vídeo da “Iseltaler Masolka” com o “Volkstanzgruppe Villanders” em https://youtu.be/2UyosGYPD6c
07/05 - Schäfflertanz
A Schäfflertanz foi dançada na Peste Negra?
Segundo os relatos, tudo começou em 1517. A Peste Bubônica havia voltado à Munique após dois anos de pausa. Assim, as pessoas se esconderam em suas casas temendo a morte. A cidade ficou moribunda e as associações profissionais - guildas - entraram em profunda crise, inclusive a dos tanoeiros. Nesse contexto, um membro da corporação resolveu animar a população a sair às ruas e retomar suas vidas. Ele viu como “remédio” um desfile em forma de dança: a “Schäfflertanz”. E deu certo. O nome ficou associado aos fazedores de barris - “Schäffler”.
Mas como se pode provar isso? A primeira referência que se tem da “Dança dos Tanoeiros” de Munique é de 1702. Assim, tudo antes disso foi transmitido pela tradição oral. Mesmo assim, em 2017 comemorou-se o 500º aniversário da “Schäfflertanz”, tendo apresentações “fora de época”. Mas qual é o período certo? Diz a tradição que, a cada 7 anos, os membros da “Fachverein der Schäffler Münchens” executam-a.
E sua coreografia? Como no princípio, ela ainda hoje é executada por homens usando arcos enfeitados. A sequência de figuras foi mudando com o passar do tempo, tendo destaque a cobra, o arco, a cruz, a coroa, além de várias formações em círculos. Os personagens que compõem essa grande encenação são: os Schäfflertänze, dançarinos tanoeiros; os dois Vortänzer, os puxadores, com suas flâmulas; o Reifenschwinger, membro que faz um solo girando arcos; os Kasperln, uma dupla de pierrôs que, desde 1802, alegram o espetáculo; a Münchner Kindl, personagem com capa que personifica o símbolo de Munique.
Em 2022, após a pandemia do Covid19, eles fizeram aparições especiais na cidade; contudo, a próxima temporada oficial deles será em 2026. Já quem quiser presenciar os Schäffler dançarem fora de época, podem vê-los representados nos bonecos do carrilhão da Prefeitura de Munique: no mínimo uma vez por dia o mecanismo, ao som de sinos, faz um pequeno show.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o vídeo da Schäfflertanz produzido pelo “Boletim Der Hut” e “Imperial FM” em https://youtu.be/4CU_Ts7VgFM . A dança completa está em https://youtu.be/6v9UYsJP8Oc .
06/05 - Gigsi
A Gigsi repete a coreografia 7 vezes para dar sorte?
Quando se dançam coreografias onde há um solo - quando uma pessoa ou par tem destaque individual - é normal que haja o número suficiente de repetições para que todos tenham chance de serem solistas. Trata-se de dar as mesmas oportunidades a cada dançarino. Já a “Gigsi” reinicia sete vezes, mesmo feita para quatro pares. Por qual motivo?
Esta dança sueca na verdade não traz novidades, tendo seus coreógrafos se inspirado em tradicionais formatos de Squaredance: as repetições não seguem a quantidade de solos e nem são guiadas por uma crendice numérica. A intenção é outra. Nas primeiras quatro partes há os solos dos pares 1 a 4; já na quinta e sexta as duas duplas que estão frente a frente (1 e 2 + 3 e 4) fazem as figuras simultaneamente. A conclusão está na sétima, com todos executando a coreografia principal ao mesmo tempo.
Como numa ópera ou em um filme, a Gigsi tem seu “clímax”, seu ponto alto: na sétima repetição, onde todos dançam a figura “solo” juntos, os participantes se cruzam, gerando uma composição esteticamente bonita. As primeiras quatro partes são como uma preparação, pouco interessante visualmente para o espectador - mas divertida para os dançarinos. Já a quinta e sexta trazem novidades, deixando quem vê curioso. A “cereja do bolo” vem somente ao final. Assim, geram uma crescente de expectativa, que sem esse processo a conclusão pareceria simplória.
“Gigsi” pode ser um nome ou apelido, como Gigi. É interessante que a dança “Madeleine” / “Marleentje”, de música francesa e coreografia dos Países Baixos, que igualmente tem sete repetições, muito se assemelha com esta sueca. Será que é casualidade que ambas tenham prenomes? No mundo da cultura popular nada é de se duvidar.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o vídeo da Gigsi sendo interpretada pelo Siebenbürgische Kindertanzgruppe Herzogenaurach: https://youtu.be/WnAZ1RuF-EY .
05/05 - Holzhacker
A Holzhacker é uma música? Uma dança? Ou duas?
Algumas músicas são “hits” por décadas… outras por séculos. Uma delas é a “Tiroler holzhacker buab'n” - “Os Jovens Lenhadores Tiroleses”, de Josef Franz Wagner (1856 - 1908). Esse compositor vienense, o “Rei da Marcha”, com mais de 200 títulos, conseguiu atingir o interesse do grande público de seu tempo, escrevendo muitos sucessos.
Já a letra é atribuída a Josef Hadrawa, autor de mais de 600 textos. O refrão “Mir san ja dö lustigen Holzhackersbuab'n, (holaröh yodel) / Mir fürchten koan Teifi, koa Wetter and Sturm (yodel)” ganhou versão também em outros dialetos e no Hochdeutsch , sendo ainda hoje cantado pelo mundo - claro, com muitos sotaques.
E não demorou para que esse sucesso chegasse às “mãos e pés” dos grupos de danças típicas. Da "Holzhacker" surgiram duas coreografias muito diferentes. Sobre a alpina Richard Wolfram comentou:
“Uma das apresentações populares das tradicionais Trachtenvereine é o "Holzhackertanz". Um tronco de árvore inteiro é arrastado para o palco, serrado e cortado na hora, para que as lascas de madeira voem e tenham que ser varridas depois. De repente, eles interrompem essa cuidadosa tarefa e começam a “schuhplattlern”. Alguém involuntariamente se pergunta “por quê”? Então a panela e o jarro aparecem em cena, todos mastigam a comida da maneira mais cômica possível, etc. Uma pantomima pura.”
Já a outra é atribuída ao Jugendbewegung do início do século XX, provavelmente no norte do país. Eles vão escrever a “Holzhacker” totalmente diferente da lógica do sul: nesta os pares - homens e mulheres - vão, com movimentos exagerados dos braços, imitar o corte da madeira pelos machados. Acrescentam ao término uma cambalhota dos rapazes, como que uma brincadeira dos lenhadores.
Em ambos os casos as coreografias nasceram relacionadas à moda e identidade. Provavelmente Josef Franz Wagner e Josef Hadrawa não faziam ideia de onde o trabalho deles chegaria, impulsionando movimentos e dando sentido aos ofícios das comunidades, ainda no século XXI.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o vídeo dessa dança na versão com Schuhplatter: https://youtu.be/eSbYSNzyiOg?list=RDeSbYSNzyiOg .
04/05 - D'r Conscritdanz
D'r Conscritdanz: a dança dos recrutas?
O termo “conscrito”, no francês, significa um grupo de pessoas que nasceram no mesmo ano. Por isso, a palavra também é usada para indicar os recrutas que se alistam no mesmo ano, ou seja, os noviços que vão servir o exército.
Na Alsácia, antes de partir para o serviço militar, os infantes recrutados se reuniam em sua localidade para comemorar. Nessa festividade, eram executadas algumas danças. Assim, normalmente os futuros soldados faziam a “Polca dos Recrutas”, em alemão “Recrutenpolka”. Os homens costumavam se vestir de branco e usavam um avental com seu ano de nascimento bordado. Também usavam chapéu preto enfeitado com fitas coloridas, representando o número de namoradas que ele já teve. Será? Claro que, aqui, a brincadeira também era permitida e, por isso, muitos tinham várias fitas em seu capelo. Ninguém queria ficar para trás.
Por mais que hoje o serviço militar na França não seja obrigatório, a comemoração continua. Apesar de ser um festejo originalmente para os homens, na atualidade é aberto também para as mulheres nascidas naquele ano. Ela marca, assim, de alguma forma, a entrada dos jovens no mundo dos adultos.
Os grupos de conscritos variam de região para região e, mesmo com alguns quilômetros de distância, as diferenças podem ser gritantes. Em algumas localidades, por exemplo, ela acontece durante o “Messti”, a quermesse. Alguns encaram esta tradição como uma bebedeira, enquanto outros, sobretudo nas zonas rurais, a consideram uma tradição profundamente enraizada, que tal como o serviço militar representa um período rico em anedotas, deixando aos seus protagonistas uma experiência inesquecível.
De qualquer forma, este evento desempenha o papel de catalisador e permite um encontro pontual de pessoas de diferentes origens culturais ou sociais, marcando uma importante passagem na vida dos jovens.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o Folklore Obermodern dançando a D'r Conscritdanz em https://youtu.be/LSwabN_5-HI e a Festa de “Les conscrits” na messti de Roeschwoog em https://youtu.be/ffWCGjDRXTc .
03/05 - Schwabentanz
Schwabentanz tem mais de 500 anos?
Todo mundo conhece alguma canção que não sai da mente. São versinhos simples que podem embalar rodas, teatros, brincadeiras e tantos outros movimentos. Por algum motivo algumas músicas e coreografias conseguem, mais do que outras, vencer o tempo, passando para futuras gerações. Neste contexto, a “Schwabentanz” - a "Dança Suábia” - está na lista das mais perenes: com base em pinturas e grafias das letras, é datada por pesquisadores como do século XV.
A “Schwabentanz” é uma manifestação camponesa que teria nascido na antiga Áustria, se espalhando pelas regiões de língua alemã. Se sabe, por exemplo, que a música não era cantada sem a dança, sendo uma complementar à outra. Em outros casos, há dúvidas sobre a comunidade que a criou, se era realmente suábia emigrada, ou se outras que a imitavam. Em grande parte de suas versões há referências dela ser realizada “do modo feito na Suábia”, como visto neste texto:
“Hiaz tanz’ m holt den Schwabentanz,
so tanzt man holt in Schwobn,
und weil mir holt nit olle san,
so müaß ma no an hobn”
Diferente da maioria das Volkstänze, ela é feita em forma de “cobra” - em fila -, não em círculo, tendo em uma ponta o puxador e na outra a entrada de novos participantes. Richard Wolfram e Herbert Oetke a classificaram como uma “Kettentanz”, agregando novos dançarinos à medida que as estrofes são cantadas, em uma reação em cadeia. Também há referência à corrente nos giros que acontecem na segunda parte da coreografia.
Um dado curioso é que no conto “O judeu no meio dos espinhos”, publicado pelos Irmãos Grimm, supõe-se que a dança da história seja a “Schwabentanz”: a medida que o violino mágico tocava, o juiz, o escrivão, os oficiais de justiça, o judeu, o carrasco, os espectadores… todos iam entrando. A cada repetição da melodia novos se agregavam. “A multidão, também, saltava e dava cambalhotas. Jovens e velhos, gordos e magros, todos entravam na dança, até mesmo os cães se levantavam nas patas traseiras e dançavam como gente grande.”
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja o Volkstanzgruppe Frommern interpretando a Schwabentanz: https://youtu.be/alhoF7mR2Ho .
02/05 - Reinickendorfer Mühle
A Reinickendorfer Mühle é uma dança ou um moinho em Berlim?
Em sua origem, Reinickendorf nem pertencia a Berlim. Com o objetivo de povoar a região, foram recrutados camponeses do Harz e de outras regiões do oeste da Alemanha. Um dos responsáveis por esse engajamento foi o senhorio Reginhard, que, de forma mais curta, era chamado de “Reinhard” ou, no baixo-alemão, de “Reinicke”. Assim, em 1230, foi criado o vilarejo do Reinicke: Reinickendorf.
Nessa aldeia, não há registros conhecidos sobre um moinho. Mas, na localidade vizinha, em Tegel, já no ano de 1361, se fazia menção à existência de uma azenha movida a água: o “Tegeler Wassermühle”. Era para lá que as pessoas da região levavam seus produtos para moer. Geralmente, essas estradas eram chamadas de “Mühlenweg”, o caminho do moinho. Elas saiam de Heiligensee, de Hermsdorf, de Wittenau e de Reinickendorf.
No ano de 1920, Reinickendorf juntamente com os vilarejos próximos passaram a fazer parte de Berlim e todo esse novo distrito foi denominado também de “Reinickendorf”. A partir de então, a moenda localizada em Tegel, igualmente conhecida como o “Moinho Humboldt”, passou a ser a azenha do distrito de Reinickendorf.
Apesar de estar desativado desde 1988, o Humboldtmühle foi de extrema importância após a Segunda Guerra Mundial, sendo ele o responsável pelo processamento de boa parte dos grãos consumidos em Berlim no período.
Mas qual é a relação entre o moinho de Reinickendorf e a dança “Reinickendorfer Mühle”? Apesar de não terem relação direta, ambos apresentam uma história interessante. Nas danças tradicionais da Alemanha, é encontrada com frequência diferentes figuras de moinho, chamadas de “Mühle”. A partir de uma antiga melodia, o berlinense Volkhard Jähnert criou essa coreografia utilizando a Mühle como ponto central. Dessa forma, a partir de sua criação, também as Volkstänze de Berlim passaram a contar com uma dança de moinho, homenageando essa antiga localidade.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e veja também o Volkstanzkreis Reinickendorf https://youtu.be/Eeh6iFMebD8
01/05 - Bändertanz
A Bändertanz é realizada na Árvore de Maio?
Existem tradições que se entrecruzam e acabam se manifestando de várias formas. Uma delas, muito popular nas comunidades de língua alemã, são as “Danças de Fitas”, lá conhecida como “Bändertänze”, “Zopftänze” - “das Tranças”-, ou “Netztänze” - “da Rede”.
De acordo com Sepp Pfleger, a “Dança das Fitas” surgiu por ocasião da campanha russa de 1812, quando mercenários em retirada, para passar o tempo, trançavam faixas de cores diferentes ao som de músicas. Já Richard Wolfram diz que ela data do século XV, com sua origem na Espanha, tendo se disseminado também para os povos das Américas e comunidades mouriscas. Há casos também na França, Itália, Suíça e Inglaterra. De toda forma, há pinturas antigas que permitem crer que os ameríndios já dançavam algo parecido com a “Zopftanz” antes mesmo da chegada dos europeus.
Herbert Oetke destaca que em Munique uma dança das fitas foi apresentada em 1895 no “Volkstrachtenfest”, sendo lá narrado que ela surgiu em 1813. Em Unken, na Áustria, ele destaca que a “Bandltanz” há décadas é executada com pernas de pau. Pesquisadores encontraram íntima relação dela com os alpinos no decorrer dos últimos séculos. Observando tantas versões e vertentes diferentes de sua história, conclui-se que houve distintas crenças e fatos que as formaram.
E qual a relação dessa dança com o “Maibaum”? Vários autores ligam a “Bandltanz” bávara à Árvore de Maio. Trata-se de uma correspondência regional à “Árvores da Fertilidade”. Hans Meinl e Alfons Schweiggert listam diversas dessas, como na Índia, Egito, Síria, Grécia, Irlanda, entre outras, estando esse símbolo relacionado à prosperidade, como visto em ritos pagãos. Na Europa também está conectada à expulsão do inverno para a chegada da primavera, usando a personificação do clima como monstros e cavaleiros.
De qualquer mod, é importante destacar que nem todas as danças conhecidas de fitas são feitas em “Árvores de Maio”. Há relatos de algumas ligadas a festas de mascarados, carnaval, ritos de passagem, culto solar, entre outros. Pluralidade cultural se manifestando em movimentos.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz