28/02 - Blumenpromenade
Onde fica a Blumenpromenade?
Existe uma expressão francesa que indica um local para passear, uma calçada de pedestres espaçosa e elaboradamente desenvolvida: a “Promenade”. A palavra foi exportada para o alemão com sentido parecido, destacando uma passagem, uma alameda, geralmente com uma vista interessante. No Brasil, chamariam de Calçadão. Faixas verdes, canteiros floridos, fileiras de árvores são alguns dos seus atrativos.
E onde fica a “Blumenpromenade”, o Calçadão das Flores? Pelo que se sabe, o nome desta dança não se refere a um local específico. A música foi composta em 1996 por Martin Ströfer (o mesmo da Großes Triolett, entre outras) e a coreografia foi escrita em 1997 por Helma Boltze (também coreógrafa da Kieler Sprotten) do grupo de trabalho “Arbeitskreis Tanz Nordheide”. Foi feita para o grupo de danças da Sociedade Ginástica de Hamburgo (Hamburger Turnerschaft von 1816).
Mas o que será que Martin e Helma imaginaram nesse Passeio? Estariam caminhando pela bela Promenade La Croisette, que fica em Cannes, ou na Promenade des Anglais, em Nice, ambas na França? Ou será que se viram nos trópicos, como no Calçadão de Copacabana, no Rio de Janeiro? Ou, quem sabe, o mais provável, imaginaram belas Alleen na primavera alemã?
Quando escutar a “Blumenpromenade”, seja na sala de casa no inverno, seja no escritório cheio de trabalho, seja no salão de baile, feche os olhos. Permita-se sentir o vento leve no rosto, o aroma das flores e a alegria do retomar da vida após um período de recolhimento. Pegue o arco florido e viva essa dança. Pode ter certeza que muitos sorrisos brotarão nessa alameda florida.
Quer saber mais? Veja o vídeo desta dança em https://youtu.be/45P71WbIiko .
27/02 - Henkenhagener Kegel
Será que o Kegel conseguirá arranjar um par?
As coreografias de “Kegel” representam uma grande brincadeira. Fazem parte das tradições onde um rapaz, ao centro, quer roubar o par dos outros, ao estilo "Dança da Vassoura”. Geralmente elas são executadas por 9 ou 10 pessoas, sendo 8 fixas e 1 (homem ou casal) que furta um dos lugares existentes.
A tradução de Kegel quer dizer cone ou pino. Para compreender a relação é possível olhar o jogo de Bolão - Kegeln, um parente do Boliche: no final da pista há 9 peças dispostas em forma de quadrado, a do meio é o “Kegelkönig”. É nesse cenário que há a similaridade com a dança.
Na versão da Kegel que vem de Henkenhagen, às margens do mar Báltico (Ostsee), na antiga Pomerânia, há uma canção. Nela, o “Pino Rei”, de uma forma um tanto convencida, convida as demais moças para dançar:
“Aqui, menina, você tem a minha mão,
mas apenas por um momento;
Eu sou um rei sem país
e amo passar o tempo.
Pense, deveras não é pouco,
uma vez com um rei dançar,
por isso, garota, arrume-se belamente,
para em meu castelo entrar!”
Contudo, ele não esperava a resistência dos demais dançarinos que participam da brincadeira:
“Vejam o vaidoso rei,
como ele gira e se enfeita,
provavelmente ele sofre de mania de grandeza,
sua majestade, o pino rei!
Deixem-no em paz,
nós queremos observar
se uma garota da nossa roda
ele consegue apanhar!
Se pelos braços e pelas pernas
ele ainda resmungar
queira, em caso de emergência,
sua rainha se tornar.
Sempre alegre e vivaz,
de cabeça primeiro, de cabeça pra baixo -
nos alcançar, ele não vai mais!”
Vemos aqui que as tradições locais mantêm um diálogo, tanto no desporto, quanto nos bailes. Os costumes regionais se retroalimentam e dão cor ao modo de viver simples de muitas comunidades. Às vezes se pode ter o especial prazer de roubar, na dança, a moça daquele seu amigo… aquele que na semana anterior te deu uma “lavada” no jogo de bolão. Como dizem, há o dia do caçador… e o da caça.
Quer saber mais? Veja também os amigos do Blumenauer Volkstanzgruppe dançando a Henkenhagener Kegel https://youtu.be/mxHGEL2fcO0 ou conheça uma variante do jogo em https://www.youtube.com/watch?v=hsHyz-pnuD4
26/02 - Kleiner Mann in der Klemme
De onde vem o nome “Kleiner Mann in der Klemme”?
“Bitte Mand i Knibe” é uma dança dinamarquesa provavelmente do final do século XIX, do município de Raders. Em alemão, ela é chamada de “Kleiner Mann in der Klemme” ou “Kleiner Mann im Gedränge”, ambas mantendo o sentido original: “Pequeno homem em apuros”. Mas quem é esse indivíduo diminuto? E por qual motivo ele está com problemas?
Pesquisas mostram que a altura da população masculina dinamarquesa é superior à média mundial (1,81m). Igualmente é sabido que os estivadores dos portos geralmente são de grande estatura. Assim, sendo Raders uma cidade portuária na península de Jutland, não parece difícil que lá a comunidade tenha visto muitos estrangeiros e esta tenha considerado eles “pequenos”. A correria dos passageiros, gente atrasada e um certo mistério nas docas, poderia dar o clima de “perigo”. Montamos o cenário do “pequeno homem em apuros”.
Mas como diz a “Navalha de Occam”, “diante de várias explicações para um problema, a mais simples tende a ser a mais correta”. Assim, outra possibilidade é olhar a coreografia da “Bitte Mand i Knibe”: na figura inicial os pares buscam outra dupla, como numa brincadeira. A dança só pode continuar se tiverem agrupamentos em quatro pessoas. Esse objetivo gera uma pequena confusão divertida, que acompanha o ritmo rápido e irreverente da melodia. Com certeza “ficar sobrando” será um problema. Essa pressa e urgência, mais movimentos velozes e bem marcados, aparenta que os participantes estejam em “apuros”. E a posição, um pouco curvada, também gera a ilusão que os dançarinos são mais baixos do que realmente o são. Isso poderia explicar o nome que ela ganhou.
E há outras sugestões para esclarecer o nome desta dança? Provavelmente sim. De todo modo, é adequado dizer que, muitas vezes, é o olhar do espectador (de 1,81m) que imagina o que uma coreografia quer dizer - assim como acontece ao olhar o céu repleto de nuvens. Nesse contexto, é ele que acaba, direta ou indiretamente, a denominá-la.
Quer saber mais? Escute a melodia dela em https://www.youtube.com/watch?v=cHGCzMpF-ck e veja a dança em https://www.youtube.com/watch?v=Dfr8KoU9L-k .
25/02 - Chumm go luege
Chumm go luege: “venha ver” os Stelserbuaba?
Em época de “Reality TV Shows”, todo mundo quer ser visto ou ganhar seu minuto de fama. Mas, mesmo fora da televisão, é normal que quem produz cultura queira dar visibilidade a ela. Podemos dizer que é nesse contexto, de publicidade, que nasceu a “Chumm go luege”.
Segundo Felix Mugwyler, no lugarejo de Seewis, na região de Prättigau, no cantão de Graubünden, na Suíça, ocorreu uma festa. O local é conhecido por ter muitos e belos narcisos. Para o evento, foi convidado o Stelserbuaba, grupo de música típica da localidade de Stels, ali nas proximidades. Contam que na ocasião o clarinetista Otto Battaglia escreveu uma música com o título “Venham ver a Stelserbuaba tocar” que em dialeto ficou “Chumm go luege, d'Stelserbuaba”. Ali, das primeiras três palavras, surgiu o nome da dança.
E a coreografia? Também nas proximidades fica a comunidade de Küblis, onde reside ainda hoje Hanni Brand. Ela foi convidada para criar a dança e assim o fez. Desta forma, nascia a “Chumm go luege”, que se popularizou dentro e fora da Suíça.
Nessa história, há algumas curiosidades. Hoje, o conjunto “Stelserbuaba”, em tradução “Rapazes de Stels”, tem também moças - nada de sexismo. Na mesma localidade, de aproximadamente 50 habitantes, tem destaque a porcentagem de músicos: deve ser o maior percentual suíço de musicistas por habitante. Com tantos atributos, não foi preciso ser narcisista para ter visibilidade e tornar a “Chumm go luege” famosa. Aprende com eles, Boninho.
Quer saber mais? Veja a dança com Felix Mugwyler em https://www.youtube.com/watch?v=LG6-HbJM5gQ assim como conheça um pouco sobre Seewis im Prättigau em www.seewis.ch e também veja o site do Stelserbuaba : www.stelserbuaba.ch
24/02 - Märkische Viertour
Märkische Viertour é uma dança provinciana?
O termo provinciano, tanto no português quanto no alemão, é usado geralmente de forma pejorativa. Ele indica que algo é antiquado e do interior. Contudo, também podemos analisar o mesmo termo com outro olhar, valorizando seus aspectos histórico-culturais. Então, “o que vem da província” pode ser algo que remonta a uma cultura histórica antiga de regiões afastadas da capital. Com isso, podemos dizer sim que a “Märkische Viertour” é uma “dança provinciana”. Vejamos o porquê.
Até hoje na Alemanha, é comum usar a definição “Mark Brandenburg” (Marquesado ou Marca de Brandemburgo) e Província para se referir ao estado homônimo. Foi nessa região que, no século XV, a Casa Hohenzollern - uma família de nobres - iniciou seu reinado no norte, tendo como sequência o Reino da Prússia e, posteriormente, o Império Alemão.
No início do século XX, Berlim foi uma das grandes referências na Alemanha para o renascimento das manifestações populares. Contudo, por ser tradicionalmente uma cidade grande, há muitos anos não existiam mais trajes e danças típicas. Por isso, durante o Movimento da Juventude Alemã (ver “Schwingkehr”, de 13.02.2023), procurou-se, nos arredores de Berlim, inspiração para novas coreografias e músicas e, futuramente, para vestimentas tradicionais.
Foi no “Mark Brandenburg” que houve o registro de muitas danças e, a partir delas, novas foram criadas. Para marcar essa nova vertente, o professor Herbert Oetke coreografou a “Märkische Viertour”, cuja música foi composta por Heinrich Dieckelmann. O nome significa “quadrilha de quatro sequências do Mark Brandenburg”. Uma novidade que nasceu querendo ser e parecer bem provinciana.
Gostou? Veja mais em culturaalema.com.br/tanz e assista também o Arbeitskreis für Jugendtanz der DGV realizando esta dança em https://youtu.be/dmQR3kyl9e8 .
23/02 - Hiatabua
Na Hiatabua Schuhplattler, o pastor voa?
Uma dança muito popular na Áustria e sul da Alemanha é a Hiatamadl, em dialeto a “Pastorinha”, uma coreografia simples com pares que, nas figuras, há o destaque às belas pernas da moça que cuida das ovelhas. Por outro lado, existe um Schuhplattler austríaco chamado Hiatabua, o Pastorzinho, que, de tanto exercício que os rapazes fazem, ficam com as coxas bastante reforçadas. Tecnicamente uma não tem relação com a outra; contudo, a versão “masculina” está tendo seu momento de fama: ela faz os rapazes voarem.
Como assim? Vamos explicar: viralizou na Internet faz alguns anos um vídeo, no qual rapazes apresentam a Hiatabua em meio aos Alpes e em uma situação inusitada. O pitoresco está em colocar um dos dançarinos sobre um tablado e, após as partes de sapateado, os demais participantes atirarem o solista para cima. Fazem literalmente o “pastor de ovelhas” voar. O cenário alpino combina com o ofício, entretanto não com o salto. Nesse contexto, se faz a pergunta: essa dança é assim mesmo?
Na verdade, a variante com o tablado se mostra bem recente, provavelmente criada para atender a festejos locais ou mesmo ser parte de uma atração para turistas. A própria coreografia do sapateado recebe suas adaptações, ganhando novos nomes, como “Der Hupfau”, mas a base da “Hiatabua” segue presente. Mas é importante destacar: na sua interpretação tradicional, os dançarinos não “voam”.
Assim, tanto a Hiatamadl quanto a Hiatabua são danças originalmente nascidas em um terreno firme, como pistas de baile ou palcos. Se uma delas virou acrobática, foi produto da atualidade, para chamar a atenção e impressionar os espectadores. De todo modo, não se pode negar que, muitas vezes, as pastoras ficam de “queixo caído” pelos pastores “acrobatas”, assim como eles pelas “belas pernas” delas. São os cortejos da vida.
Quer saber mais? Veja os vídeos da Der Hupfau com o em https://www.youtube.com/watch?v=JRsqZL7u9Ug ou a versão “terrena” em https://www.youtube.com/watch?v=n19N2wHP8fs .
22/02 - Kontra mit Plü
Kontra mit Plü: como dança o pescador de Blankenese?
Se você for passear pela cidade-estado de Hamburgo, no Norte da Alemanha, pode conhecer o belo e arborizado bairro de Blankenese. Diriam alguns que “é um local muito chique”, sendo a Butterseite a zona com vista para o Rio Elba e a Margarineseite a do lado norte, duas áreas de imóveis bem valorizados. Contudo, poucos conseguem imaginar que ali onde hoje estão os palacetes e ostentosos prédios existia um vilarejo de pescadores, simples e repleto de tradições. Desde o século XIV, se tem registros sobre essa localidade, o qual faz a ligação entre o porto de Hamburgo e o Mar do Norte.
Na Blankenese do passado, esses pescadores realizavam uma dança típica, que os pesquisadores batizaram de “Blankeneser Fischertanz”, nada mais do que a “Dança dos Pescadores de Blankenese” - nome nada criativo. Porém, os aldeões chamavam-na de “Kontra mit Plü”, pois “Kontra” é uma contradança (geralmente formada por quatro pares), e “com Plü”, pois utiliza um passo chamado “Plü”.
Um dado curioso é a origem do “Plü-Schritt”: os homens usavam botas grossas de cano longo e calças espessas e compridas, que mantinham as pernas secas para entrar e sair dos barcos. Essa vestimenta limitava os movimentos no dançar, o que com o tempo acabou dando forma ao passo do Plü.
Mesmo tendo se modernizado, como a segunda maior cidade alemã, o morador de Hamburgo está simbolicamente ligado ainda à pesca: são conhecidos como Fischkopp, “Cabeça de Peixe”, assim como os demais moradores costeiros do norte do país. Trata-se de um apelido antigo, como se vê na terceira estrofe cantada nessa dança: “Lá vem o Cabeça de Peixe, o Cabeça de Peixe…. e que fede a queijo. Ele dança com a Therese de Blankenees”. Por mais que muitas tradições se mantenham, provavelmente os distintos moradores de Blankenese da atualidade tenham mais aroma de perfume francês.
Quer saber mais? Conheça as tradições locais neste vídeo com a colega Claudia Santana: https://www.youtube.com/watch?v=L6SpsRq5Bvc.
21/02 - Italiener
Um Italiener que nasceu na Baviera?
Na língua alemã, de modo geral, o sufixo - terminações de palavras - “er” pode identificar algo ou alguém como de um determinado local. Isso pode ser visto em Münchener - muniquense, Hamburger - hamburguense, Deutscher - alemão, ou Amerikaner - americano, por exemplo. Mas por qual motivo a dança Italiener não é italiana e sim bávara
A resposta mais simples seria que na primeira metade do século XX a comunidade do Chiemgau, onde supostamente surgiu a Italiener, teria dito que a música seguia o estilo dos italianos, tipo “essa é aquela italiana” e o nome pegou. Outra versão explica que ela teria sido dançada na Baviera por ferroviários italianos - pois passam na região linhas férias que interligam a Itália, a Áustria e a Alemanha. Essa segunda hipótese justificaria também a sua outra denominação: Eisenbahner (Ferroviário).
Contudo, se você acha que essa dança é parecida com alguma Tarantela, você está redondamente enganado: é composta por figuras leves e lentas. A Itália tem muito mais do que só coreografias com saltarello, pizza e vinhos. Seja pela primeira ou segunda versão do surgimento da Italiener, o mais provável é que a influência seja do norte do país, como do Trentino-Alto Ádige, Friuli-Venezia Giulia, Veneto, Lombardia e Emilia-Romagna.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz. Veja o vídeo dela no tempo 01:24:00 nesta aula online de danças com Magnus Kaindl e Katharina Mayer https://www.youtube.com/watch?v=UaorCv2LhNI&t=1006s
20/02 - Jägerneuner
Jägerneuner: O quanto você sabe sobre uma dança?
É interessante ler o relato do professor Franz Pulmer escrito no ano de 1961 ao ser perguntado sobre o que ele sabe sobre a dança “Jägerneuner”:
“Anna Helms publicou a dança ‘Jägerneuner’ em 1913 no segundo volume [de seu livro]. Ela a chama - de forma errada - de ‘Quadrille’ (‘Neuner’ é melhor!) Eu mesmo a dancei pela primeira vez em 1919 e, alguns anos mais tarde, vi o antigo grupo ‘Ollenborger Kring’ (ou seja, círculo de Oldenburg) dançando-na.
O passo ‘Jägerschritt’ é assim como Anna Helms o descreveu no segundo volume, com o tocar da ponta do pé no solo. O círculo final foi, provavelmente, incorporado mais tarde. Originalmente, ela deve ser dançada de tal forma que cada rapaz possa ser o dançarino do centro, o que só pode ser conseguido se as fileiras trocarem de lugar durante o pequeno círculo ao final da dança. Então, a dança completa seria três vezes mais longa.
O passo ‘Jägerschritt’ foi dançado apenas recentemente (após a 2ª Guerra Mundial) com o balançar da perna para a frente (sem tocar o solo com a ponta do pé). A melodia foi encontrada em um Fistalbuch do ano de 1817. Ela vem de Ammerland, uma região no antigo Grão-Ducado de Oldenburg, com centro em Bad Zwischenahn, noroeste da cidade de Oldenburg.
A dança ‘Jägerneuner’ é provavelmente a única dança do norte da Alemanha nesse estilo; pois as danças ‘Kegel’ são mais no estilo de quadrilha com um quinto rapaz ao meio (também um quinto par). ‘Die drei Tore’ foi criada pela Anna Helms e a dança ‘Drei-Burschen-Tanz’ vem da Suécia.
Isso é aproximadamente tudo o que eu sei. Talvez o Carl Bergmann saiba algo mais. Se há alguma ligação com antigas danças inglesas, não posso opinar. A possibilidade existe.
Por hoje, seria isso! Não é muito, mas você queria saber o que eu sei!
Franz Pulmer. Hamburg-Neugraben, 9 de novembro de 1961.”
Então, ele sabia pouco ou muito? Para saber, só perguntando ao Carl Bergmann... se fosse possível.
Quer saber mais? Veja a dança com o Volkstanzgruppe Frommern: https://youtu.be/Dm8r2mmEPb8
19/02 - Pommersche Mazurka
Pommersche Mazurka: O que a mazurca pomerana tem de diferente?
As antigas crônicas do período medieval relatam que os pomeranos sempre foram um povo que adorava dançar. É bastante grande o número de danças pomeranas registradas.
Segundo o professor Dr. Alfred Haas, elas proporcionam “uma excelente visão sobre a vida alegre e feliz e a agitação do povo pomerano, especialmente dos campesinos”, e testemunham “a natureza alegre e ágil dos pomeranos, devotados à dança, que, muitas vezes, são descritos como um povo reservado e sério”.
Os jovens dessa região procuravam, ao mesmo tempo, preservar sua dança típica, porém, sem deixar de aproveitar também os ritmos mais modernos da época, muitos deles importados. Já é consenso que as Volkstänze e os modismos não são tão distantes quanto aparentam. A preservação de tradições, o compromisso com os valores da comunidade, a fidelidade à essência dos seus antepassados não se opõem de forma alguma a desfrutar da vida colorida do presente.
Sendo assim, ao longo do tempo, também a dança tradicional pomerana passou a adotar estilos, inicialmente, estrangeiros. Foi o caso da mazurca, que é de origem polonesa e que recebeu um toque da alegria e da musicalidade pomeranas, tornando-se a mazurca pomerana - “Pommersche Mazurka”.
Quer saber mais? Veja a dança com o Volkstanz- und Trachtengruppe des Heimatvereins Aurich em https://youtu.be/lw61yqx9T5A .
18/02 - Schwedische Maskerade
Schwedische Maskerade: uma zoação dos dinamarqueses?
Apesar de ter o nome de “Schwedische Maskerade”, segundo as fontes, a dança não é da Suécia, mas sim da Dinamarca, mais precisamente da região de Mitteljütland. Em dinamarquês, é a Svensk maskerad. A intenção dos vizinhos seria de representar os suecos em um festejo. Maskerade pode ser a pessoa mascarada, assim como uma fantasia ou um baile de máscaras.
Seria uma dança satírica dinamarquesa. Como assim? Ela faria piada com o que os daneses consideram ser o jeito esnobe dos suecos, mas que, na verdade, são pessoas simples e divertidas. Ou seja, segundo essa versão da história, a “Schwedische Maskerade” indica que os suecos até podem parecer esnobes, mas isso não passa de aparência, de uma máscara.
E essa explicação seria visível na prática da dança: na primeira parte, os dançarinos caminham se “pavoneando”, orgulhosos e altivos, imitando o que, segundo os dinamarqueses, seria o jeito de andar dos suecos. Na segunda, eles também se portam de modo elegante; contudo é na terceira parte que “as máscaras caem” e pode-se ver o verdadeiro habitante da Suécia: simples, divertido e alegre, dançando e pulando conforme a música, sem nenhuma pompa.
Quer saber mais? Veja também o vídeo da dança em https://youtu.be/Ch_LweerOQQ .
17/02 - Das Fenster
Das Fenster é apenas a dança da janela?
“Das Fenster” é uma dança alemã muito conhecida por grupos alemães, brasileiros e americanos. Seu nome significa “a janela”, devido a uma figura de sua coreografia.
Porém, onde e como ela surgiu? “Das Fenster” é uma das danças cuja origem é difícil de identificar. Em sua música, vemos claramente elementos ingleses, especialmente marcados pela introdução. Isso acontece, pois sua melodia original é uma Anglaise chamada “Artländer Nr. 9”, à qual, outro compositor, chamado Heinz Lau, acrescentou uma terceira parte em um novo arranjo.
A partir dessa nova música, surgiu a coreografia. Possivelmente, ela foi escrita por algum coreógrafo do norte da Alemanha (dada a localização da melodia inicial, além da presença dela em grupos da região). Com o objetivo de trazer elementos novos às danças do norte, é provável que esse professor tenha acrescentado uma figura muito comum no Ländler do sul da Baviera e da Áustria: a janela, dando, inclusive, o nome “Das Fenster”.
A janela sempre foi um elemento presente também na cultura popular, tanto em expressões como “os olhos são a janela da alma” (die Augen sind die Fenster zur Seele), quanto na vivência diária - seja a vizinha que fica na janela cuidando da vida dos outros, ou o casal que fica namorando na janela.
Por causa disso, se convencionou por décadas contar a seguinte narrativa: que a dança demonstra como era, antigamente, o namoro dos casais à janela, sem permitir que os jovens se tocassem. Para deixar o enredo mais romântico, se falava que havia ainda a supervisão dos familiares. Não poderia nem ter beijinho… A historinha é bonitinha, às vezes, mais interessante do que a realidade, contudo, nada disso tem relação com a “Das Fenster”.
E o que faz a “Das Fenster” tão popular? Provavelmente, sua diversidade de elementos (melodia inglesa, coreografia do norte e figura do sul da Alemanha) e vivacidade, a levando para outros continentes. Com namoro ou sem namoro, ela vai muito além de ser apenas a “dança da janela”: ela representa um processo criativo, que une diferentes elementos em uma mesma obra.
16/02 - Knödeldrahner
Knödeldrahner é uma dança ou uma comida?
Em um artigo jornalístico bávaro, o redator identificou a “Knödeldrahner” como uma dança de “nome pitoresco”. Inegavelmente, não é todos os dias que se vê uma mazurca - tipo de dança normalmente ligada à cultura polonesa -, composta no Südtirol na Itália, que aparece em bailes bávaros na Alemanha e que tem o nome relacionado a uma comida muito popular na Áustria. É para deixar qualquer um confuso. Para entender essa conexão coreográfica-gastronômica, é preciso primeiro conhecer como se faz o famoso Knödel, também chamado Klöße.
Dentre as muitas opções de Knödel, que é uma espécie de bolinho cozido, o mais popular é o de batatas - Kartoffelklöße: junte 1 kg de batatas cozidas descascadas, 80 g de manteiga, 200 g de farinha de trigo e 1 ovo. Após misturar tudo, sove até ficar uma massa homogênea. Para concluir, faça uma bola grande, girando ela na palma da mão, e cozinhe em água salgada. Mas há uma dica: pegue um cubinho de pão duro e coloque essa pasta envolta, pois ele ajuda a manter a forma do Klöße. E é neste último passo que há a similaridade com a coreografia da dança: girar o bolinho para que ele fique redondo, que, no dialeto do Südtirol, é o Knödeldrahner (Knödel dreher / girar dos bolinhos).
Muitas fontes atribuem a dança da Knödeldrahner ao modismo da mazurca no século XVIII. Por ter um ritmo que se aproximava da popular Ländler, porém vivo e marcado, teria sido bem recebida no Tirol. E foi apenas questão de tempo para que essa mescla de culturas gerasse uma coreografia simples, cativante, com muitos giros e que fosse relacionada ao enrolar dos bolinhos.
Assim, a Knödeldrahner não é uma comida, mas sim uma dança ou um passo do processo gastronômico da produção do Knödel. De todo o caso, todos fazem parte das tradições tirolesas. Com seus estilos pitorescos, ganharam as pistas de dança, as cozinhas e os cardápios das festas populares, tanto na Áustria, quanto na Alemanha e na Suíça. Tem que experimentar!
Quer saber mais? Veja o preparo do Knödel em https://www.youtube.com/watch?v=k0edCfig_fA
e a dança em https://www.youtube.com/watch?v=Gtjipe9jXCs.
15/02 - Reit im Winkler
Reit im Winkler é um sapateado inspirado na montaria?
O Schuhplattler é um estilo de dança único e bastante regionalizado, com destaque às suas variantes do sul da Alemanha, da Áustria e do norte da Itália. Por mais que possa ser traduzido como “sapateado”, ele não pode ser comparado ao que é visto na Irlanda, por exemplo. Assim, mesmo parecendo repetitivo dizer, ele não tem comparação, ou seja, “Schuhplattler é Schuhplattler”. E, dentre os títulos mais famosos da Baviera presentes na lista das coreografias clássicas desse gênero, está o Reit im Winkler.
À primeira vista, ao traduzir o nome, poderíamos ter pistas das origens dessa dança; contudo, sendo direto: NÃO tem relação alguma com “cavalgar no Winkler”, como seria no português. Para começar, esse Schuhplattler segue a tradição - como muitos outros - de ser relacionado a um local, nesse caso, a comunidade de Reit im Winkl, na Alta Baviera, na fronteira com o Tirol (Áustria), próximo do Chiemsee. Atualmente, ela é muito conhecida pelo turismo de inverno.
E por qual motivo essa comunidade chama-se Reit im Winkl? Mesmo que se quisesse ver o significado do nome da localidade, igualmente se cairia em erro: na verdade “reit”, que aparenta ser “cavalgar”, aqui surgiu do verbo “roden”, que quer dizer “desmatar” ou "roçar / fazer-se arável". Isso aconteceu, pois, naquela área, foi feito um assentamento em um canto das montanhas do vale do Kaiserwinkl, onde derrubaram a mata. Nesse processo de arroteamento da Idade Média, essa clareira ficou conhecida como “o desmatamento junto ao Winkl”.
De toda forma, mesmo não sendo com base em uma cavalgada, o Schuhplattler “Reit im Winkler” pode ser considerado símbolo de uma viagem cultural alpina. É uma ponte de tradições entre a Baviera e o Tirol, assim como visto na exuberante geografia local.
Quer saber mais? Veja um vídeo da localidade de Reit im Winkl em https://www.youtube.com/watch?v=Natv-u96iEU ou o Schuhplattler com o Gaugruppe Inngau em https://www.youtube.com/watch?v=-0UpLNv1zdw.
14/02 - Hirschegräbler
Um fosso cheio de cervos é representado na Hirschegräbler?
Uma estratégia muito comum em cidades da Idade Média era gerar uma vala no entorno dos muros de castelos e burgos, o que auxiliava na defesa desses locais contra invasores: era mais uma barreira física a ser transposta. A leste da mais famosa cidade da Suíça, Zurique, um desses fossos também existia e ele era chamado de Hirschengraben.
Mas qual a relação do fosso com a dança Hirschegräbler? Na verdade, é uma conexão indireta. Essa vala de Zurique, que tem registros de sua existência desde o século XIV, tinha inicialmente outro nome: Stadtgraben - Fosso da Cidade. Entretanto, a denominação mudou a partir do século XVI, quando um tratador de corças limpou a área, que era usada para jogar entulhos e inclusive para a caça, e passou ali a criar cervídeos. O local se tornou uma atração, como um Zoológico, e motivou ser chamada de “Fosso dos Cervos” - Hirschengraben, ou também no dialeto de Hirzengraben. Em 1774, aboliram os animais e, poucos anos depois, transformaram o antigo fosso em estrada e passagem de pedestres com arborização. Mesmo com outro cenário, parte da região seguiu sendo o Hirschengraben e as pessoas que lá viviam de Hirschegräbler.
Assim, a dança ganhou esse nome pois era no entorno do “Fosso dos Cervos” que o “Zürcher Tanzkreis” - Círculo Zuriquense de Danças -, mais antigo grupo típico da cidade, se reunia (e ainda hoje se reúne). Foi uma homenagem a esses dançarinos. No entanto, Klara Stern fez a coreografia, com a música de Hans Flury, para um evento a 120 km de Zurique: para a Unspunnenfest de 1955 em Interlaken. Desta forma, mesmo que a Hirschegräbler tenha partes puladas, NÃO estão representando cervos: há um fosso de distância entre uma coisa e outra.
Quer saber mais? Veja em culturaalema.com.br/tanz ou conheça a dança da Hirschegräbler em https://youtu.be/-EvVjINQBro .
13/02 - Hopp Mariannele
Hopp Mariannele ou Polka Piqueé?
Para entender a origem desta dança, é preciso voltar um pouco mais no tempo. O ritmo já era conhecido nas gerações anteriores pelas crianças francesas. Se trata da canção "Marie, trempe ton pain" (Maria, mergulhe o seu pão). Possivelmente, também existia alguma coreografia ou brincadeira para ela, ou até mesmo alguma outra melodia com o mesmo ritmo. E, como a França sempre foi um país referência para todo o mundo na moda, nas artes eruditas e também nas populares, uma música bem difundida entre os franceses se espalhava também por outros países.
Dessa forma, no início do século XIX essa melodia francesa se tornou muito conhecida em todo o território de língua alemã. Dentre as teorias para a sua entrada está o fluxo informacional vindo da Revolução Francesa e as campanhas de Napoleão Bonaparte nos territórios do Sacro Império Romano Germânico. É interessante observar que “Marianne” é o nome da personificação da Revolução Francesa no quadro “A Liberdade guiando o povo”, de Eugène Delacroix, de 1830.
Devido aos poucos registros da época, não se sabe exatamente a coreografia que era executada nos salões alemães para essa música, contudo, é sabido que cantavam algumas rimas sobre a Marianne. De toda forma, na Alsácia, parte dessas tradições se mantiveram, onde se encontra a música tocada sob o título “Hopp Mariannele”. Lá, também se preservou a formação coreográfica, que tem como figura marcante a “polka piquée”, ou seja, uma polca “taco-ponta”. Por isso, muitos passaram a chamá-la de “Polka Piquée”.
Então, para não ter confusão, anote que a dança tem dois nomes: “Hopp Mariannele” e/ou “La Polka piquée alsacienne” (A Polca Taco-Ponta da Alsácia). Escolha uma e pode usar sem moderação.
Quer saber mais? Veja o vídeo do Musique Paysanne et Groupe folklorique alsacien de Geudertheim ( https://youtu.be/9yTatqxVOsw ).
12/02 - Schwingkehr
Schwingkehr: uma dança típica ou uma criação unitária?
A forma da Schwingkehr foi escrita pelo professor Herbert Oetke, com música composta por Heinrich Dieckelmann. São dois nomes que, aparentemente, não têm uma grande importância dentro da história alemã, contudo, entre os grupos de danças típicas, eles foram responsáveis pelo registro e pela criação de uma série de coreografias e melodias.
Ao final do século XIX houve na Alemanha um grande êxodo rural e forte industrialização nas grandes cidades. Isso gerou uma insatisfação frente essa “nova” sociedade repressiva, autoritária, industrializada e urbana. Isso fez com que grupos de jovens começassem a buscar por um espaço livre que os permitisse desenvolver o seu próprio modo de vida saudável. Neles, havia uma aspiração romântica por coisas em seu estado primitivo e por tradições culturais antigas. Esse foi o Movimento da Juventude Alemã (Die deutsche Jugendbewegung).
Foi nesse meio que os jovens Herbert Oetke e Heinrich Dickelmann passaram sua juventude, especificamente atuando no resgate de antigas canções e danças populares. Além disso, eles e seus colegas do Movimento queriam maior dinamismo e desenvoltura nas coreografias e músicas, o que incentivou novas criações com base nas antigas tradições. Disso, decorreu também o surgimento de vários grupos de danças, tanto nos vilarejos quanto em cidades grandes, especialmente em Berlim.
Assim, “Schwingkehr” é uma dança criada, composta e coreografada a partir de elementos das tradições da Alemanha do século XIX, porém, com passos e figuras mais dinâmicos e ágeis. Possivelmente, ela leva esse nome por causa de uma de suas formações com viradas rápidas. Sua origem se deu em Berlim, com referência à região antigamente conhecida como “Mark Brandenburg” (Marquesado de Brandemburgo ou Marca de Brandemburgo).
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz e acompanhe informações sobre outras danças típicas e seu contexto. E veja a dança com os colegas do DGV: https://www.youtube.com/watch?v=H6VvU6dEUkU
11/02 - Kieler Sprotten
O que é um Kieler Sprotten ou Espadilha de Kiel?
Os catarinenses são apelidados de barriga verde; os hamburguenses de cabeça de peixe; e os moradores de Kiel, no norte da Alemanha? Os moradores tradicionais da capital do estado do Schleswig-Holstein são conhecidos como Espadilhas de Kiel, ou em alemão Kieler Sprotten. Mas por qual motivo?
Também chamado de Sprattus de Kiel, ele é um peixinho defumado típico da capital do estado alemão de Schleswig-Holstein. Sendo pescado no Mar do Norte, passa por uma defumação especial, fazendo-o diferenciado. Referências de sua comercialização existem desde o início do século XIX, tornando-o um dos símbolos de lá. Por esse motivo os nativos antigos da cidade ganharam esse apelido de “Kieler Sprotten”.
E por qual motivo esse se tornou também o nome de uma dança? Essa pergunta não é difícil de responder. Essa coreografia surgiu em Kiel, quando do Encontro Nacional de Danças Típicas em 1992, durante o intervalo de duas apresentações na praça que fica defronte à prefeitura. Devido a forma como ela nasceu, no coração da cidade, acabou batizada de Kieler Sprotten, como um típico cidadão nativo.
Quer saber mais? Veja a dança do Kieler Sprotten com os participantes da Landestrachten- und Volkstanzverbands SH: https://www.youtube.com/watch?v=pKsS4KnZCBo
10/02 - Der Budaker
Der Budaker: uma dança alemã, austríaca, romena ou húngara?
A região do Siebenbürgen - “Sete Burgos”, mais conhecida mundialmente como Transilvânia, na Romênia, traz consigo uma grande bagagem histórica. Ela foi colonizada tanto por alemães (a partir do século XII) quanto por austríacos (a partir do séc. XV) com o objetivo de defender a fronteira sudeste do Reino da Hungria. Esse grupo, que ficou conhecido por Siebenbürger Sachsen, convivia na mesma área com comunidades romenas e húngaras.
É de lá que veio “Der Budaker”, dança registrada na localidade de Deutsch-Budak (motivação para o nome), que fica no norte do Siebenbürgen, especificamente na área de Nösnerland. Sua formação lembra algumas quadrilhas do norte da Alemanha. Já sua melodia é bastante assemelhada à austríaca “Windischer aus Moschendorf”, da região de Burgenland - por mais que as coreografias delas sejam completamente diferentes. Contudo, qual música originou qual? Provavelmente, as duas não tiveram contato uma com a outra, sendo, sim, ambas inspiradas em uma terceira: como tanto Nösnerland quanto Burgenland pertenceram ao Império Húngaro, possivelmente uma antiga cantiga popular magiare foi a musa para o surgimento delas.
Deste modo, a “Der Budaker” é uma grande conexão de manifestações culturais. De toda forma, também é sabido que ela é uma expressão peculiar da identidade dos Siebenbürger Sachsen na Romênia.
Quer saber mais? Veja as demais danças que já foram abordadas neste projeto. Curta, comente e compartilhe.
09/02 - Kreuzpolka
Por qual motivo a “Kreuzpolka” é a Polca Cruzada?
Algumas respostas podem ser tão objetivas que parecem sem graça. Assim, se pode responder de um modo lúdico ou técnico. Para ser mais leve, comecemos pela historinha: no século XIX a Kreuzpolka era “top” da moda nas pistas de baile do norte da Europa. Era uma sequência de passos com polca / chote que se encaixava com várias músicas. Quando alguém ia pedir essa dança para o conjunto musical, diziam: “por favor, toquem aquela polca cruzada”, pois, visualmente, era assim que ela era lembrada. Dessa forma, com o passar do tempo, muitas localidades constituíram sua própria “Kreuzpolka”, mantendo a característica básica da coreografia original (primeira parte) e agregando outras figuras que eram do gosto local.
Já na visão mais técnica, ela tem esse nome provavelmente por dois pontos básicos de sua coreografia. O primeiro é pela sequência da parte inicial: dois passos de chote somado a cruzar um pé sobre o outro, tocando a ponta levemente no chão (em alemão parece bem mais fácil de explicar: “Schottisch mit Tupftritt über Kreuz”). O segundo, menos destacado, seria pela formação dos pares com braços cruzados, Kreuzfassung, podendo isso ser feito de vários modos, como cruzamento estando o casal lado a lado - seitliche Kreuzfassung-, ou com os braços cruzando pelas costas - Rückenkreuzfassung -, entre outras variantes. De toda forma, há também muitas Kreuzpolka que não usam o Kreuzfassung.
Qual das duas você mais gostou? Mas ainda se pode complementar: segundo Hans von der Au a dança teria surgido na Pomerânia e ido para Berlim, de lá ganhando visibilidade. Seria uma variação espontânea do Hackenschottisch. Outros autores já destacaram sua presença regional, como em comunidades que hoje fazem parte da Alemanha, Áustria, Dinamarca, Suíça, Polônia, Itália, Romênia, entre outras. E se formos analisar cada uma dessas “novas” Kreuzpolka que surgiram depois, provavelmente seriam mais interessantes e teriam mais a nos contar do que a base que as gerou: por mais que a “semente” seja o início de uma planta - a origem -, as pessoas acham graça é do que vem dela, com caule, folhas e flores. Faz parte da vida.
Ouça a Krezpolka tocada pela Blaskapelle Herbert Ferstl em https://youtube.com/watch?v=6daiVWFUHtI&feature=shares e também num tom tirolês com o Trachtengruppe Silberspitz https://www.youtube.com/watch?v=DXhZIVi2fnw . Também veja o formato bávaro dela sendo ensinada pela Katharina Mayer e pelo Magnus Kaindl em https://www.youtube.com/watch?v=vyPZaNjyXC0 e a variante Burgenländische Kreuzpolka, da Áustria, https://www.youtube.com/watch?v=ym9P8nA7kyE
BO onde se pode ver com clareza o passo típico da dança.
08/02 - Niederbayrischer Ländler
Qual a relação da Niederbayerischer Ländler com o Böhmerwald?
Há ligações que são maiores do que meramente o gosto pela dança: às vezes, de modo racional, outras, pelo sentimental. Um exemplo é a Niederbayerischer Ländler, de origem bávara, que é popular entre os grupos de danças na Alemanha de ascendentes do Böhmerwald - Floresta da Boêmia. Mas por qual motivo? Pode ser por essa coreografia ser de Wotzdorf, uma comunidade pertencente ao círculo de Passau. Ou pode ser mero acaso. Para entender essa conexão é preciso retornar à 1945.
O final da II Guerra Mundial gerou grandes alterações na Europa. Uma delas foi a diáspora - uma saída forçada - das populações de língua alemã dos territórios de fora da Alemanha e da Áustria. Para os moradores do Böhmerwald, nos Sudetos - atual República Tcheca-, onde essa expulsão também ocorreu, uma cidade ficou marcada nesse doloroso processo: Passau, na fronteira da Alemanha com a Áustria. Após terem sido tirados de suas casas no lado tcheco, sem poder levar quase nada, tiveram um longo período de caminhada ao relento. Somente depois de mais de 100 Km, conseguiram chegar à Passau, na Baixa Baviera - Niederbayern -, onde receberam acolhida e puderam descansar… e sobreviver. Por esse motivo, esse município ganhou o título, desde 1961, de “Patenschaft über die Böhmerwäldler” (que, em tradução livre, seria “Padrinho dos vindos da Floresta da Boêmia”).
Assim, se a Niederbayerischer Ländler é apreciada pelos descendentes de Böhmerwäldler por questões de gosto ou afetividade, isso não se pode realmente precisar. Contudo, que a região de Niederbayern está no coração dessas famílias, isso é sabido e amplamente proclamado. Todos os anos, no final de julho, há o encontro dos descendentes de Böhmerwäldler na região, intercalando atividades entre Passau e o vilarejo de Lackenhäuser. Uma realidade de gratidão com a terra que os recebeu e de manutenção com a antiga Heimat.
Veja o link do site da cidade de Passau https://www.passau.de/LebeninPassau/Kultur/Passauinternational/Boehmerwaeldler.aspx
e também a dança da Niederbayerischer Ländler https://youtu.be/ggmmgkiiGac: https://youtu.be/ggmmgkiiGac
07/02 - Steirische aus dem Böhmerwald
A “Steirische aus dem Böhmerwald” é a mesma “Böhmischer Landler”?
Para essa pergunta se responde “Sim” e "Não", ou em alemão o famoso “Jein” (Ja und Nein). A “Steirische aus dem Böhmerwald”, “Steirer aus dem Böhmerwald” ou também tem o nome de “Böhmischer Landler”, “Böhmischer Ländler” ou simplesmente “Böhmischer”. O problema é que existem também outras coreografias de nome Böhmischer Landler e Böhmischer. Assim, é ao mesmo tempo uma mesma dança ou três diferentes.
E por qual motivo isso acontece? Pois “Böhmen” (Boêmia), ou Reino da Boêmia, como se chamou até 1918, era uma grande área da Europa Oriental vasta e importante. Pelo seu potencial político e por ter destacados centros intelectuais - como a capital Praga, usar o adjetivo “Böhmisch” passou a ser positivo. Ainda hoje na República Tcheca são comercializados os “Cristais da Boêmia”, por exemplo, que são objetos vítreos com destacado padrão de qualidade. Da mesma forma aconteceu com muitas músicas, danças e cervejas.
Nesta situação, inevitavelmente muitas danças e músicas de lá passam a ter repetições de nomes. Há várias “Böhmische Polka”, “Böhmischer Walzer” e, também, “Böhmischer Landler/Ländler” - só para citar três. Não por acaso a “Steirische aus dem Böhmerwald”, coreografia vista na Floresta da Boêmia e gravada por Ludwig Hoidn em 1925, tenha também sido chamada como uma das muitas “Böhmischer Ländler”. Mas o que é uma Steirische? É igual a uma Ländler? E por qual motivo estava no Böhmerwald? Isto veremos futuramente em outra postagem.
Veja a descrição da dança em https://www.dancilla.com/wiki/index.php/Steirischer_aus_dem_B%C3%B6hmerwald
06/02 - Würfel
Würfel é a dança do dominó ou do dado?
O que há de especial nas danças escocesas? A resposta é “protagonismo”: não basta ser uma coreografia em conjunto, é preciso que todos possam assumir em algum momento o papel principal. Claro que soma-se a isso a técnica de passos e a música característica, contudo a interação entre os participantes na progressão das figuras é essencial.
“Domino Five” é um exemplo disso. Ela foi publicada em coleções de danças escocesas e, possivelmente, foi assim chamada por causa da disposição dos dançarinos na pista: se for olhar de cima, lembra a peça de dominó com o número 5. É dessas coreografias que não se precisa pensar muito no motivo do nome.
É interessante que, ao chegar à Alemanha, alguns grupos chamaram-na de “Würfel”. Assim, para os escoceses, a dança é o “Dominó Cinco” e para os alemães é o “Dado” - indicando o número cinco em um dos seus lados. É também bastante compreensível a relação.
Mas por qual motivo não a chamaram de “Domino Fünf”? Provavelmente seja pelo protagonismo: enquanto os habitantes das Scottish Highlands destacam o papel central dos dançarinos em suas tradições, os alemães, por sua vez, agregam às coreografias que dançam seu ponto de vista, como nome “germanizado” e canções em língua alemã. Mesmo com suas diferenças, em ambos os casos, estão falando de peças de jogos: pelo menos concordam em alguma coisa, além de que a Domino Five é divertida de se dançar.
Veja a apresentação do grupo berlinense de danças escocesas “The Hopalots”: https://youtu.be/IP6h-Ysmoms
Outra bela dica é essa sequência de danças escocesas iniciada pela Domino Five, apresentada pelo grupo Dunedin Dancers, de Edimburgo, Escócia: https://youtu.be/wZpLQupGc
05/02 - Buchelklobber
Buchelklobber: trabalhar dançando ou dançar trabalhando?
A representação do batedor de nozes da faia.
Entre as danças alemãs, é possível encontrar muitas que retratam o trabalho diário do camponês. Uma delas é a dança “D´r Büecheleklopfer”, oriunda da Alsácia (área com influência alemã na França) e também encontrada na região francesa da Lorena e em comunidades próximas na Alemanha, como o Pfalz (Palatinado) - onde era dançada com sapatos de pau / tamancos e também era conhecida como “Holzschuhtanz”.
Com ritmo marcante, logo são percebidos três momentos distintos na dança: o primeiro representa um jogo de conquista entre o homem e a mulher; o segundo apresenta as batidas feitas pelo camponês para extrair o óleo da noz da faia (o Buchel / Buchecker); e o terceiro que é o momento coletivo de dança, no qual, em valsa, os pares giram pela pista.
Porém, o que o camponês fazia com esse óleo (Buchenöl / Bucheckeröl)? Hoje, ainda, ele é muito utilizado tanto na culinária, por apresentar um sabor semelhante ao da avelã, quanto, em algumas regiões, como óleo para lampiões e lamparinas.
Assim, “D´r Büecheleklopfer” faz a combinação perfeita da dança e do trabalho do camponês, sem contar que tem uma musicalidade toda especial com o bater dos tamancos.
Acesse o vídeo da dança: https://www.youtube.com/watch?v=7WDljGEeOQE com o Westfälische Tanzgruppe, do Brasil e o com o Grupo D' Kochloeffel https://youtu.be/RhHxWnq4d8o
04/02 - Krauteintreter
Krauteintreter: por que o chucrute tem um sabor tão especial?
A palavra chucrute teve um longo caminho até chegar ao idioma português. Hoje, o prato de repolho fermentado é encontrado na culinária de vários países europeus. Na Alemanha, ele é conhecido como “Sauerkraut” e, possivelmente, ele chegou às cozinhas francesas através da região da Alsácia, onde o repolho fermentado é chamado de “Sürkrüt”. A partir do nome alsaciano, o prato recebeu o nome “choucroute” em francês e, posteriormente, “chucrute” em português.
Alguns historiadores indicam que a técnica de fermentação do repolho tenha sido trazida da China à Europa pelos Hunos. O que se sabe é que a arte da fermentação foi muito importante para que os camponeses europeus pudessem ter alimentos ao longo de todo o ano, passando por longos períodos de frio no inverno.
Por isso, a preparação do chucrute era importante no trabalho do camponês. Tão importante que ela ganhou, inclusive, uma dança em homenagem à pisa do repolho: “Krauteintreter”, que significa “o pisador de repolho”. Como o chucrute era feito em grande quantidade, afinal, precisava ser o suficiente para quase um ano, era necessário literalmente pisotear o repolho picado para misturá-lo com os temperos e, assim, proporcionar a fermentação necessária para sua conservação.
Com certeza, o pisotear do chucrute dá ao prato um diferencial! E você achando que era somente os italianos que pisotearam a comida, como no preparo dos vinhos.
Que tal tentar fazer chucrute em casa? Segue uma receita vinda de Rio do Sul (Santa Catarina), sem a necessidade de pisar : https://youtu.be/-k8UD2kymkg
Mas, se quiser uma receita em grande quantidade e com o pisotear, dá uma olhada nesse vídeo vindo de Flossenbürg, região de Oberpfalz na Baviera: https://youtu.be/Sptn-310zTM
03/02 - Herr Schmidt
Como surgiu a conhecida Herr Schmidt?
Tem muitas músicas populares que, de tanto serem cantadas, no passar de séculos, acabaram ganhando um milhão de versões da letra. Esse é o caso da Herr Schmidt, que pode ser vista na Alsácia francesa, no Tirol austríaco, em Hamburgo na Alemanha, na Nova Petrópolis brasileira ou em muitos outros locais. Fácil de cantar, com rimas que ganham novos versos constantemente, a canção se disseminou, tanto entre crianças quanto entre os adultos e, por esse motivo, não demorou para ser espontaneamente coreografada (como também se vê com as cirandas e rodas).
Mesmo que Schmidt (e suas muitas variantes) seja o ferreiro - que trabalha na ferraria-, nessa música, é para ser um sobrenome. Diz uma das variantes conhecidas: “Senhor Schmidt, Senhor Schmidt, / o que traz a menina? / Um véu e um chapéu de pena, assim a moça fica bem com isso (fica bonita)”. Essa é popular na América do Sul. Mas, de modo geral, a lógica dos versinhos é similar: perguntar para o Sr. Schmidt o que uma determinada moça ou menina vai levar junto (pode ser a Matilda, a Sabine, a Julia, a Dorinha, Rosalia, Minna... os nomes variam) e as respostas são das mais normais às mais absurdas, como “Senhor Schmidt, o que a Matildezinha vai ganhar? Um porco inteiro abatido e, além disso, dois barris de manteiga”. A diversão faz parte da sobrevivência da tradição. Há também algumas opções da Vera Schmidt, que perguntam o que o menino leva junto.
Alguns teorizam que o ritmo da Herr Schmidt teria vindo de longínquas canções militares da Península Ibérica. O problema é que, em cantares muito simples, que passam de boca em boca e colam no ouvido - “efeito chiclete”-, há dificuldades de fazer um rastreio eficaz dos passos que a trouxeram ou levaram de um local para o outro. Descendentes argentinos dos Wolgadeutschen dizem que seus antepassados trouxeram essa música na memória. No Brasil, essa mesma melodia foi gravada pelo conjunto Os Três Xirús em 1969 por ser muito popular no sul do país. O que se tem certeza é que a música persiste ainda hoje em salões de baile pelo mundo, alegrando muita gente.
Veja uma variedade de versinhos da Herr Schmiedt no link https://www.volksliederarchiv.de/herr-schmidt-herr-schmidt-wir-haben-eine-bitt/ ou https://www.lieder-archiv.de/herr_schmidt_herr_schmidt-notenblatt_300636.html
A dança pode ser vista na versão da Alsacia em https://www.youtube.com/watch?v=gmAU4RCSKYI
ou no Brasil em meio ao baile da Schützenfest https://www.youtube.com/watch?v=68gyLDOz2ro
02/02 - Klodrauer Råja
Klodrauer Råja vem de qual cidade de nome “Kladruby”?
Imagine um país onde muitas cidades e distritos tenham nomes iguais? Isso acontece muito na Alemanha e República Tcheca na atualidade. Há vilarejos, por exemplo, que existem com a mesma designação desde a Idade Média e não se pode, séculos depois, querer mudar o nome. É o exemplo de Kladruby, na República Tcheca.
Kladruby pode ser encontrada uma dezena de vezes no país. Só no Google Maps cinco aparecem logo na primeira tentativa de busca. Então, como saber de qual vem a Klodrauer Råja? Neste caso é necessário ser um pouco detetive e conhecer um pouco mais sobre essa dança típica. Klodrauer Råja, que em alemão quer dizer “Kladrauer Reigen”, é o “Círculo de Kladrau”. E de qual dialeto é? Essa pode ser a chave da questão: do Egerland. No Eghaland (em dialeto alemão e Chebsko em tcheco), havia muitas comunidades de língua alemã e lá também existia uma Kladruby, denominada pelos locais de Kladrau. Se tem notícia que já existia uma igreja lá pelo século XIV.
Resolvido! Se descobriu de qual Kladruby se está falando: fica perto da fronteira com a Alemanha e tinha também o nome de Kladrau. Contudo, como diferenciar então uma da outra? Com as novas organizações nacionais na Europa foram colocados “sobrenomes” em muitos locais, como o exemplo de “Frankfurt” do rio Oder, já que tem outra mais famosa homônima no rio Main. No caso do berço da Klodrauer Råja, chama-se atualmente Ovesné Kladruby.
Assim, para conhecer um pouco de geografia também é preciso ter dados da história e saber um tanto das culturas locais. As danças típicas carregam em seu “DNA” muito mais do que simples formações coreográficas: contam muito sobre os locais de onde vieram e das pessoas que as dançavam.
Quer saber mais? Acesse culturaalema.com.br/tanz. Quer ver a Klodrauer Råja em um vídeo com um grupo do Egerland, veja o link https://www.youtube.com/watch?v=fooBL0gwgO8.
01/02 - Baonopstekker
Baonopstekker foi feita para delimitar um espaço no Pub?
Imagine um Pub onde está cheio de gente. Lá tem a pista de dança, mas foi “invadida” por quem está parado batendo-papo: tem dois no meio tomando cerveja; outras moças na lateral rindo; no outro lado aquele círculo de piadistas onde um tenta ser mais engraçado que o outro… um monte falando ao mesmo tempo. Pedir para liberar o espaço para começarem a dançar é sempre um problema, pois ninguém escuta nada no meio do burburinho.
Foi supostamente neste cenário que nasceu essa coreografia holandesa do início do século XX, também conhecida como Tulpentanz - Dança da Tulipa. O nome Baonopstekker pode ter relação com “abrir o espaço", como a expressão “abrir caminho para o trem”. Se pode ver essa ideia durante a dança em várias figuras, como círculos que se expandem e retraem, linhas e movimentos rápidos. E uma curiosidade: no início somente as mulheres participavam dela. Seria uma boa forma de liberar a pista do Pub e deixar quem quer dançar ocupá-la.
Assim, quando você estiver numa festa e quiser abrir o espaço para o bailado, comece com a Baonopstekker. Seja com música ao vivo ou com uma bonita gravação, é um bom estímulo para manter a pista ativa, bem frequentada, mesmo que os rapazes ainda não tenham chegado para a “balada”.
Veja a dança em https://www.youtube.com/watch?v=RCXxJ1Tl09o
e escute o áudio em https://www.youtube.com/watch?v=tNaeawoTqngo