30/11 - Boarischer
A “Boarischer” é uma dança ou um estilo?
Dizem que alguns lugares do mundo tem seu estilo próprio de dança. O Brasil é mundialmente conhecido pelo “samba”, na Argentina e Uruguai reina o “tango”, no Rio Grande do Sul tem destaque o “bugio”… e se você for para o sul da Alemanha, especificamente na Baviera, vai ser a “Boarischer”.
Por mais que ela também seja dançada em várias partes da Áustria e Itália, o nome “Boarischer” é uma referência em dialeto ao adjetivo “bávara”: ao que é da Baviera. Trata-se de uma espécie de Schottisch geralmente dividido em duas partes: 1. separação e junção dos casais, 2. giros do par. Pela sua simplicidade tanto melódica quanto coreográfica, se tornou extremamente popular entre as comunidades tradicionais, ganhando diversas composições e variantes.
Hoje se pode encontrar muitas canções chamadas “Boarischer”, ou suas variantes dialetais, usando o ritmo de mesmo nome. São exemplos dessas danças “Rehragout Boarischer”, “Altenberger Boarischer”, “Boarischer aus der Ramsau”, “Lunzer Boarischer”, por mais que a estrutura delas possa ter se distanciado das formações originais.
Um dado interessante é que esse estilo acabou ganhando as paradas de sucesso dentre as “Schlager” do sul da Alemanha, Áustria e Itália. Assim, várias bandas que mesclam o típico e o moderno acabaram criando suas próprias “Boarischer”, como o famoso conjunto austríaco Die Mayrhofner, com o “Schei-wi-dei-wi-du”, AlpenRebellen, com “Holzknechtboarischzeit”, e o Zillertaler Haderlumpen, com seu “Nanana”. Em muitos casos elas foram acrescidas de coreografias modernas, essas não podendo ser chamadas de “típicas”.
Assim, a “Boarischer” conseguiu entrar tanto nas Volkstänze quanto na cultura Pop de regiões de língua alemã. É produto de uma mescla de elementos, constituindo uma forma de dançar com forte base identitária. Podendo ser tocada com cítara ou com uma banda moderna, ela se mantém atual há décadas, assim como suas irmãs internacionais.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz , veja a dança em https://youtu.be/IMg43Rlkcwc e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br
29/11 - Dreiertanz
A “Dreiertanz” vem da Itália ou da Áustria?
Uma dança muito popular dentre os tiroleses é a “Dreiertanz”. Essa “Dança em Trio” é tradicionalmente atribuída à localidade de Merano / Meran. Karl Horak apontou que ela é de 1944 e foi executada por jovens na região Ober-Lana. Por este motivo ficou conhecida como “Meraner Dreier”, “Südtiroler Dreier” e “Dreiertanz aus dem Burggrafenamt”.
Mas qual é a nacionalidade desta dança? Primeiramente, existe uma área geográfica denominada Tirol, que inicia ao norte da Áustria, na divisa com a Baviera, e segue por dentro do norte da Itália. Se for considerar a cartografia da região, Merano, onde teria surgido a “Dreiertanz”, está no mapa na parte sul do Tirol, chamado de Südtirol ou Alto Ádige. Assim, se ela tivesse um passaporte posterior a 1920, constaria que ela é “italiana” de nascença.
Entretanto, mesmo vendo a questão geográfica, é importante também destacar que a identidade tirolesa se expande além das áreas oficialmente chamadas de Tirol. Há comunidades em áreas italianas fora do Alto Ádige, por exemplo, que se consideram “Tiroler”, algumas delas, inclusive, de dialeto ladino. Uma questão muito mais ampla do que puramente uma demarcação de fronteiras. Trata-se de uma questão histórica, como se pode ver na antiga música “La Verginella”: “Ho girato la Italia e il Tirol” ou “I tirolesi son bravi soldati”, onde não apresentam o Tirol como uma parte de um Estado nacional. Ele tem sua unidade por ele mesmo.
E voltando à “Dreiertanz”, a estrutura desta dança tem características específicas austríacas ou italianas? É claramente uma sequência de figuras de Ländler adaptadas para trios, já que sua tradicional formação seria em pares. As regras básicas desse tipo de coreografia permanecem. É um contexto comum ao Tirol como um todo, assim como para as demais comunidades que assim se identificam.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz , veja a dança em https://youtu.be/8FIgztAHZho , escute a “La Verginella” em https://youtu.be/Z7a9jxZZtpU e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
28/11 - Der Kuckuck und der Esel
“Der Kuckuck und der Esel” é uma dança ou uma música?
O cuco e o burro estavam em uma discussão: “em maio, no início da primavera, quem cantaria melhor?” O pássaro falou “deixa comigo, eu faço isso” e começou a gritar. O burrinho ouvindo aquilo imediatamente disse “eu posso fazer melhor”. No final soou lindo e adorável, para quem escutava de perto ou de longe, quando ambos cantaram juntos “Kuckuck, Kuckuck, Iaaaaa, Kuckuck, Kuckuck, Iaaaa”.
Essa é uma releitura da canção “Der Kuckuck und der Esel” - “O Cuco e o Burro”. A letra seria de 1835, atribuída à August Heinrich Hoffmann von Fallersleben. Já a melodia seria mais antiga, de 1810, de Carl Friedrich Zelters, feita para o poema de Johann Wolfgang von Goethe “Schneider-Courage”, mais conhecido por seu primeiro verso “Es ist ein Schuss gefallen”.
O texto musicado de Goethe, diferente do de von Fallersleben, não tem nenhum cuco ou burro: um jovem atirador deu um disparo na casa dos fundos, assustou dois pardais e um alfaiate, que cairam com o tiro. Daí vem a explicação: os pardais caíram por causa do tiro, o alfaiate pelo susto… e o resto do texto é melhor ser lido no original.
E a dança “Der Kuckuck und der Esel”? Assim como acontece com outras canções infantis, esta segue como uma brincadeira. Uma das possibilidades é realizarem uma sequência no estilo “Kettentanz”, quando, em uma fileira que serpenteia na pista, vão se agregando - se encadeando - novos participantes enquanto estes cantam, podendo ter troca do puxador das figuras.
Um dado nesta música é importante: sua mensagem. Um pássaro cuco e um burro? Sim, eles podem cooperar. Não é sempre nas canções antigas que há uma mensagem tão evidente de que os diferentes, com distintas características, podem atuar muito bem juntos. Mostra que o princípio da empatia e tolerância, na busca de um objetivo comum, é algo almejado há muitas gerações.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz , escute a música em https://youtu.be/crawlT09qEU e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
27/11 - Schnedderedäng
“Schnedderedäng” é uma dança política?
“Schnedderedäng” ou “schnedderedeng” é uma palavra onomatopeica que imita o som de uma fanfarra ou trombeta e representa o nome de uma dança e uma canção originárias da região de Vogtland, ao sul do estado da Saxônia.
Na antiga Alemanha Oriental, o apoio generoso do Estado aos grupos profissionais de dança e à pesquisa de danças tradicionais era influenciado por propósitos ideológicos, contrastando com canções folclóricas ambíguas populares na cena “Folk” da antiga DDR. Grupos de dança que buscavam maior originalidade e independência do governo, pesquisando e resgatando danças típicas de forma original e não em coreografias para palcos, aproveitaram a oportunidade para expressar uma certa rebeldia.
Isso se reflete na letra da canção da dança. Originalmente, dizia:
“Zum Schnedderedäng, zum Schnedderedäng,
die Luft ist rein
von Plauen bis nach Falkenstein”, referindo-se a duas cidades de Vogtland, elogiando o ar puro entre elas.
No entanto, a letra foi modificada para:
“Zum Schnedderedäng, zum Schnedderedäng,
die Luft ist rein
von Bitterfeld bis Espenhain”. Mas por quê?
Na verdade, a região entre Bitterfeld e Espenhain não tinha um ar tão puro como a canção sugere. Isso foi uma ironia, pois ambas as cidades, Bitterfeld ao norte de Leipzig e Espenhain ao sul, eram conhecidas por suas indústrias químicas na Alemanha Oriental e a poluição era notória.
Isso representou uma forma sutil de protesto do movimento das danças típicas na Alemanha Oriental contra as questões ambientais da época, uma vez que protestos formais eram impensáveis sob aquele governo.
Sigrid Doberenz de Leipzig, uma figura proeminente no movimento de danças típicas dos anos 1980, posteriormente publicou essa dança.
Embora a dança originalmente não tivesse uma mensagem política, ela ilustra como uma simples canção pode transmitir uma mensagem profunda, especialmente em um período em que a liberdade de expressão era restrita.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz , escute a música em https://youtu.be/TiCgK-7VAfQ e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
26/11 - Sonndesdanz
“Sonndesdanz” é uma dança de domingo?
A “Sonndesdanz” é uma brincadeira tradicional entre rapazes e moças. Inicialmente, todos se tratam com afeto, porém, em seguida, demonstram indiferença ao dar de ombros, pois nenhum deles quer demonstrar muito interesse no par. No entanto, no desfecho, a harmonia é restaurada com uma sequência de valsa.
Os luxemburgueses buscaram registros de Aenne Gausenbeck sobre danças típicas da região do rio Reno para resgatar sua “Sonndesdanz”. Eles encontraram a “Sonntagsnachmittag-Tanz”, coletada pela autora nas proximidades de Colônia. Tanto a dança luxemburguesa quanto a variação do Rheinland fazem referência ao domingo, sendo esta uma “dança de domingo”.
Porém, a descrição de Gausenbeck não explica por que a dança leva esse nome, mas presume-se que muitas festas nas aldeias eram realizadas após a missa dominical. Esse era o momento em que muitos aproveitavam para se aproximar de alguém de seu interesse e, quem sabe, até dançar juntos.
Segundo Gausenbeck, os moradores do Rheinland acrescentaram uma antiga canção e um toque de teatralidade à dança, transformando-a em um diálogo animado. O que começa com uma saudação simples e movimentos convidativos para dançar, rapidamente se torna um drama com pedidos e recusas. Portanto, é fundamental que os rapazes cantem a primeira parte e as moças entoem a segunda.
Mas o que eles cantam?
Na “Sonntagsnachmittag-Tanz” são incorporados os versos de uma canção conhecida em diferentes regiões: a “Mädel wasch dich”. Os rapazes convidam as moças da seguinte forma:
“Menina, lave-se, arrume-se, penteie seu cabelo,
então iremos ao baile juntos.”
No entanto, as moças respondem:
“Não, meu senhor, não tenho permissão para fazê-lo,
minha senhora não me permite.”
Agora surge a dúvida: será que as moças realmente não tinham permissão para ir ao baile, ou elas não desejavam acompanhá-los, ou ainda estavam fazendo jogo duro na esperança de que os rapazes insistissem?
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz , escute a música em https://youtu.be/kkUXUrd0gog e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
25/11 - Hänsel und Gretel
“Hänsel und Gretel” é a história do João e da Maria?
Uma narrativa popularizada pelos Irmãos Grimm no século XIX foi “Hänsel und Gretel”. Nela contam a história de dois irmãos que, em um momento de extrema pobreza e fome, acabaram sendo levados pelos pais para o meio da floresta a fim de não mais voltarem, para que sobrassem mantimentos para o restante da família. Entre idas e vindas, as duas crianças encontraram uma casa feita de doces, onde morava uma bruxa. Ela alimentou-os… com a intenção de engordá-los e comê-los.
Na língua portuguesa essa trágica história foi traduzida como “João e Maria”. Um exemplo de troca absurda de título? Até que não. Hänsel em alemão seria “Joãozinho”, já que vem de Hans, que, por sua vez, é diminutivo de Johann, equivalente a João. Neste primeiro caso fizeram uma reescrita literal. Já para Gretel a questão muda um pouco, pois Margareta ou simplesmente Greta não seriam nomes populares entre os lusófonos, motivo pelo qual optaram por chamá-la de Maria.
Assim como outros contos publicados pelos Grimm, “Hänsel und Gretel” acabou também se tornando uma canção infantil. Provavelmente composta no século XIX, ela se popularizou pelo seu primeiro verso “Hänsel und Gretel verliefen sich im Wald” - “João e Maria se perderam na floresta”. Sendo executada como uma dança de roda, à medida que ela é cantada as crianças interpretam acontecimentos dos personagens, com destaque aos dois irmãos e à velha bruxa.
“Hänsel und Gretel” é mais um exemplo onde a cultura popular se ressignifica, trazendo diversas formas de apresentar uma mesma narrativa: via literatura, música, dança, teatro, artes plásticas, entre outros. Ela apresenta um contexto histórico triste, como o ocorrido no período das grandes pestes, com a falta de comida de forma generalizada, somando ainda fantasia e lições de moral. É como cada povo traduz suas realidades, seja pelos nomes, seja pelos fatos.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz , escute a música em https://youtu.be/LB14TGMht5U , conheca a versao em português em https://youtu.be/BhSPeKx-UKM e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
24/11 - De valse zeeman
“De valse zeeman” é a valsa do marinheiro ou é o marinheiro infiel?
“De valse zeeman” é uma canção do grupo flamengo Laïs, originário da região de Flandres. Este conjunto belga se destaca por sua habilidade em explorar as letras das músicas flamengas, tocando profundamente as almas de pessoas de diferentes línguas e culturas.
A música foi lançada no álbum “Dorothea” em 2000 e narra a despedida de um marinheiro de sua amada antes de partir para o mar:
“Despeço-me de ti, Griet, pois vou para o mar
O vento sopra do nordeste
O navio está pronto para zarpar
Portanto, Grietje, cuide de si”
No entanto, mesmo pedindo fidelidade a Griet, o marinheiro não foi leal:
“Mas ao chegar a Oosterstrand, o marinheiro
Encontrou seu coração livre
E muitas moças morenas
Receberam seus beijos”
A canção termina com o relato de que, após descobrir a infidelidade do marinheiro, Griet ficou noiva de um contramestre da marinha no mesmo dia em que ele retornou à terra firme.
Apesar de muitos interpretarem “De valse zeeman” como “a valsa do marinheiro”, o nome significa literalmente “o marinheiro falso” ou “mentiroso”, mas, no contexto desta dança, pode ser traduzido como “o marinheiro infiel”. A dança foi coreografada pela holandesa Sibylle Helmer e busca retratar elementos da canção. Após a expressão de amor eterno pelo casal, o marinheiro parte para o mar, onde enfrenta ondas e o balanço do barco. No desfecho, o marinheiro é infiel à garota, e ambos buscam novos parceiros.
Rapidamente, a dança se tornou popular entre os grupos de danças holandesas e, através de seus cursos, Sibylle Helmer levou a “De valse zeeman” para outros países. A primeira vez que foi ensinada no Brasil foi em 2010, durante um curso para instrutores de grupos de danças alemãs na cidade de São Bento do Sul, Santa Catarina, ministrado pelo alemão Klaus Fink.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz , escute a música em https://youtu.be/U8FGh8fEopQ e veja a dança em https://youtu.be/xLjTSeUI-BM . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
23/11 - Dornröschen
“Dornröschen” é a Bela Adormecida ou a Rosa Juvenil?
Um conto publicado pelos conhecidos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm é “Dornröschen”. Nele uma princesinha foi amaldiçoada: quando adulta, morreria ao tocar o fuso de uma roca de fiar. O terrível feitiço teria sido atenuado pela magia de uma fada, que o converteu em um sono de um século. Você conhece essa narrativa?
“A Bela Adormecida” é um título popular no Brasil, praticamente o mesmo que em inglês, “Sleeping Beauty”. Eles seriam os equivalentes para o conto “Dornröschen” alemão. Em cada local e período em que foi publicado o nome recebeu variações.
Quanto à narrativa, por mais que os Grimm tenham publicado-a no século XIX, ela é bem anterior a isso. Na maior parte das versões desse conto de fadas o nome da princesa não é informado. Já em traduções para a língua portuguesa algumas denominações apareceram, como Rosa, Rosamond e Rosicler, claras referências à “Dornröschen”: “Rosinha dos Espinhos”.
Contam que em 1890 a professora Margarete Löffler, de Dresden, ajustou a história da “Dornröschen” à canção popular “Anna saß am Breitenstein” / “Mariechen saß auf einem Stein”. Dessa adaptação veio uma teatralização e ambas se popularizaram entre as crianças. Nasceu, assim, a “Dornröschen war ein schönes Kind”, que inclusive transpôs as fronteiras alemãs.
Em português a canção foi chamada de “A Linda Rosa Juvenil”, uma referência ao nome em alemão. Já o texto traduzido, mesmo seguindo em parte a letra de Margarete Löffler, não deixa claro ao ouvinte que se trata do mesmo conto da Bela Adormecida, tornando-se praticamente algo à parte. Ou quem lembrava que as duas eram a mesma história?
Desta forma, “Dornröschen” gerou no Brasil duas narrativas diferentes, uma que levou à tradução do conto de fadas “A Bela Adormecida”, hoje sucesso pela animação das indústrias Walt Disney, outra à música “A Linda Rosa Juvenil”, ainda entoada pelo público infantil. Pode-se assim dizer que “quem canta um conto também aumenta um ponto”.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz , ouca a música em https://youtu.be/4gCo_UW26Dw e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
22/11 - Vetter Michel
A “Vetter Michel” é uma dança de “duplo sentido”?
Em uma anotação sobre os costumes do vilarejo de Mönchgut, na ilha de Rügen, no norte da Alemanha, Herbert Oetke disse que lá realizavam uma espécie de “suíte” de danças com a “Viertoure”, “Vedder Michel”, “Dunkelschattene” e “Schüddelbüxs”. O problema, segundo ele, é que em 1934 só poucos moradores ainda se lembravam delas.
Olhando esta lista, não é de se estranhar a presença da “Vetter Michel”, uma das músicas em dialeto “Plattdeutsch” mais disseminadas no norte da Europa. Essa canção antiga já foi citada pelo escritor Johann Wolfgang von Goethe e é datada do século XVIII. A melodia se manteve pouco alterada e a letra se adaptou dentro das variantes do dialeto, ganhando novos versos. Vejamos um trecho:
“Vetter Michel war wohl gestern hie,
er stieß das Mädel an das Knie;
das Mädel lacht, das Mädel schreit,
Vetter Michel ist es, der da freit.”
Como visto, há partes, dependendo da escrita, que são consideradas de duplo sentido. A música no geral apresenta as atividades do primo Miguel, o “Vetter Michel”. Por ter frases abertas, em suas muitas versões, o texto acaba permitindo que a imaginação complete as lacunas. E um dado é importante: não se pode presumir que só por ser uma música antiga ela necessariamente tem sua letra “comportadinha”.
Com a moda dos anos de 1960 de lançar em LP as antigas canções alemãs, valorizando as identidades regionais, ela acabou sendo gravada por muitos artistas, como destaque à Lela Andersen (1961), que a tornou famosa em todo o país. Eram músicas populares ganhando as paradas de sucesso.
Mas mesmo que a letra tenha suas peculiaridades, as coreografias ligadas a ela não tem duplo sentido. Provavelmente foi graças à moda e aos pesquisadores como Willi Schultz, que recolheram danças do norte da Alemanha, que parte dessa cultura popular ainda está acessível no presente. Histórias contadas no passar de muitas gerações.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a música da “Vetter Michel” em https://youtu.be/CRRgPMJLN4w . E nos acompanhe às quintas-feiras, 20h, no “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
21/11 - Pomehrendorfer
“Pomehrendorfer” é uma dança pomerana?
O vilarejo de Pomehrendorg está localizado na antiga Prússia Ocidental, cerca de treze quilômetros a nordeste de Elbing. Atualmente atende pelo nome de Pomorska Wieś e integra a Voivodia da Vármia-Masúria na Polônia.
Pomehrendorf foi fundada no final do século XIII e a maior parte de seus moradores se dedicava à fiação e à tecelagem. A comunidade de Pomehrendorf era caracterizada por sua ordem e trabalho árduo. Há registros indicando que a paróquia de Pomehrendorf se distinguia em vários aspectos das demais aldeias prussianas, com seus moradores sendo descritos como notavelmente decididos, quase teimosos.
Os antigos trajes e danças da região de Elbinger Höhe eram preservados com orgulho em Pomehrendorf. Em 1905, o imperador Wilhelm II e sua esposa Auguste Viktoria receberam dez casais de Pomehrendorf vestindo seus trajes tradicionais. No ano seguinte, esses casais parabenizaram o imperador pelas bodas de prata e receberam uma carta de agradecimento que foi apresentada na igreja pelo administrador do distrito.
É possível que esses dez casais que homenagearam o imperador estivessem familiarizados com a dança “Pohmerendorfer”, representativa de seu vilarejo. É notável que ela apresenta cinco repetições, com um novo verso sendo cantado a cada uma delas. Em um desses versos, os dançarinos suspiram: “Eu não sei como pode que estou tão triste assim, uma amável garota morena não sai do meu pensamento.”
Após a Segunda Guerra Mundial, Pomehrendorf passou para o domínio polonês, e aqueles aldeões que não haviam fugido antes foram posteriormente expulsos de sua terra natal.
No entanto, permanece incerto se o nome “Pomehrendorf” está relacionado à região da Pomerânia ou a um homem chamado Pomry ou Pomere. De toda forma, é certo que a região faz parte da antiga Prússia Ocidental, e a dança “Pohmerendorfer”, assim como o traje da localidade, é uma tradição da região de Elbing, não da Pomerânia.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a dança em https://youtu.be/CGGTj7hTi_4 e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br.
20/11 - Laubentanz
A “Laubentanz” é a mãe da “Dança da Coroa”?
Na língua portuguesa do Brasil, a palavra “coroa” tem tanto o sentido da diadema que simboliza o poder dos monarcas, quanto o apelido - um tanto pejorativo - atribuído a uma pessoa mais idosa. A frase musical “não interessa se ela é coroa, panela velha é que faz comida boa”, eternizada na voz do cantor Sérgio Reis, ilustra bem essa questão.
E como se poderia chamar quem é de gerações anteriores aos já longevos? Exemplo: se um “coroa” tem 70 anos, como chamar quem tem 90 ou mais de 100? Uma sugestão poderia ser “arco”, como na expressão popular “do arco da velha”. O que achas? Brincadeiras à parte, esse jogo de palavras caberia bem para comparar dois estilos de danças: as “Laubentänze”, as “dos arcos”, e as “Kronentänze”, as “da coroa”.
Por mais que as “Kronentänze”, danças que formam figuras com o aspecto de coroas, sejam antigas, anteriormente a elas surgiram as “Laubentänze”, que usavam de forma ampla estruturas de madeira arqueadas. Ambos os estilos coreográficos se popularizaram por usarem esses arcos, geralmente cobertos por verdes e fitas, mas a segunda não nasceu com uma definição fixa de quais imagens montar a partir de seus adereços.
Se pode dizer que uma “Kronentanz” é também uma “Laubentanz”, por mais que o inverso não seja verdadeiro. Nas áreas alpinas, essas “Danças de Arcos” são mais conhecidas como “Reiftänze / Reifentänze”. Nelas, são tradicionais figuras como a cesta, o túnel, o portão, a flor, entre outras.
Uma curiosidade é que essa “regra” de uma ser mais antiga que a outra tem pelo menos uma exceção: nos anos de 1920, quando as associações bávaras de trajes passaram a não só criar como também descrever novas danças, inclusive com uso de fotografias, houve oficialmente primeiro o registro de uma de nome “Kronentanz”. Somente décadas depois uma denominada “Laubentanz” apareceu, inclusive inspirada na “da coroa”. Nesse caso, a “coroa” é que era do “arco da velha”, se comparada a sua filha.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja uma “Laubentanz” em https://youtu.be/VaIR6qAHrBI e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br.
19/11 - Lausitzer Quadrille
“Lausitzer Quadrille” é uma dança típica ou uma nova criação?
A região conhecida como Lausitz, cujo nome deriva do idioma sorábio e significa aproximadamente “prados pantanosos e úmidos”, abrange em sua maioria áreas na Alemanha e na Polônia. Ela engloba o sul de Brandemburgo e o leste do Estado Livre da Saxônia, bem como partes da região polonesa da Baixa Silésia e uma pequena extensão do norte da República Tcheca.
Na década de 1920, Gernot Nietzsche, coordenador de um grupo de danças em Dresden, o Dresdner Volkstanzkreis, e um entusiasta importante da dança alemã na região, notou que a região da Saxônia carecia de danças típicas e músicas tradicionais. Sua publicação “Neue Sachsentänze” tinha o propósito de estimular o desenvolvimento da dança entre os jovens.
Devido à escassez de danças tradicionais, Nietzsche decidiu criar novas baseadas em antigos costumes. Embora muito se tenha falado sobre o Movimento da Juventude Alemã na década de 1920, com maior foco nas áreas do norte da Alemanha, como Berlim e Hamburgo, Nietzsche produziu uma quantidade considerável de materiais, conforme mencionado.
Ele destaca em sua obra que publicou criações originais de seu grupo para compensar a falta de danças na região. No entanto, uma observação notável é a inclusão de uma dança tradicional e típica da região, a “Lausitzer Quadrille”. Nietzsche destaca que esta é uma das poucas Volkstänze autênticas da Saxônia, que não passaram pelo processo de criação do Movimento da Juventude Alemã.
Conforme o registro de Nietzsche, a música para a “Lausitzer Quadrille” remonta ao final do século XIX, e a coreografia se destaca principalmente pelas trocas entre os dançarinos. Esta dança é um exemplo notável da riqueza cultural do estado da Saxônia.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a dança em https://youtu.be/LmgEMUlSxlg e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br.
18/11 - Romany Polka
“Romany Polka” é uma dança do povo romani?
No século XIX, longas coreografias de polca eram elaboradas para bailes de academias de dança. Nessa época, três renomados mestres de dança - Henri Cellarius, Charles D'Albert e Charles Durang - na França, Inglaterra e América, respectivamente, criaram extensas sequências de polca.
No século XX e XXI, o professor Richard Power tem se dedicado à reconstrução de longas polcas. Atuando como instrutor em história da dança e danças sociais contemporâneas na Universidade de Stanford, Power coreografou a polca com base na música “Romany Life”, de Victor Herbert, da opereta “The Fortune Teller” do século XIX. Para desenvolvê-la, ele utilizou descrições de manuais de dança do mesmo período, partituras que incluíam polcas e algumas ilustrações de época. Assim, embora seja uma coreografia contemporânea, ela poderia ter sido realizada entre 1844 e 1890.
Vale mencionar que a opereta “The Fortune Teller” de Herbert traz um enredo interessante: o Conde Berezowski, um compositor polonês empobrecido, almeja casar-se com Irma, uma aluna da escola de balé da Ópera de Budapeste, que herdará uma fortuna. Irma, por sua vez, ama o capitão hussardo Ladislas e foge para evitar o casamento com o conde. Uma reviravolta ocorre quando um grupo de romanis entra na trama, com a cartomante Musette se assemelhando a Irma. Fresco, o diretor da escola de balé, adquire Musette na esperança de enganar o conde. O plano funciona, levando a eventos inusitados durante o casamento.
Compreender o contexto da opereta ajuda a apreciar a composição de Herbert, demonstrando uma abordagem rica em diversidade musical. A trama envolvendo o casamento de Irma e as artimanhas para evitar o conde acrescenta uma camada intrigante ao significado da música e da coreografia, tornando a polca ainda mais interessante para quem aprecia sua história.
Apesar de levar em seu nome a referência aos romani, ela não tem relação com a riqueza cultural daquele povo.
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17/11 - Münchner Française
A “Münchner Française” é dançada com uma música do Strauss?
De forma curta e direta: a “Francesa de Munique” - pode ser executada com a melodia famosa da “Fledermaus Quadrille”, também chamada de “Le Quadrille Français”, provinda da opereta de Johann Strauss O Morcego. Contudo, não obrigatoriamente faz uso dela, tendo mais opções de músicas para essa dança em fileiras.
Primeiramente, o termo “Française” está ligado ao estilo coreográfico em colunas e com estrutura dividida em etapas, como as contradanças das cortes francesas do século XVIII. O mais conhecido exemplo delas é a “Les Lanciers”, com suas cinco partes.
A “francesa” muniquense é mais recente, tendo suas primeiras versões datadas do século XIX. Por mais que ela não tenha obrigatoriedade de usar a melodia de Johann Strauss, composta em 1874, a coreografia dela fortemente influenciou a atual forma da “Münchner Française” ser dançada. Basta uma comparação simples das suas etapas: Le Pantalon, L´Été, La Poule, La Pastourelle e Finale - não casualmente o mesmo nome das partes da “Fledermaus Quadrille”.
É interessante que, ao contrário das outras “Française”, que foram sendo esquecidas, essa está na moda em Munique. A explicação para isso pode ser o contexto dela ter mudado, já que deixou um ambiente erudito e foi assumida pelo público do “TTT” - Trachten, Tänze und Traditionen. Sua melodia ganhou arranjos das Blaskapelle e as figuras um claro sotaque camponês. Para essas pessoas, com significativa adesão de jovens, se a coreografia é mais contemporânea ou antiga, o tema tem posição secundária: o importante é manter uma identidade.
Hoje, a “Münchner Française” está presente nos grandes festejos a estilo “Volkstanz” da capital da Baviera, como o “Kocherlball”, que junta anualmente mais de 10.000 participantes no “Englischer Garten”, em frente à Torre Chinesa. Uma dança que, por mais que tenha um elemento francês no nome, tem uma “alma” tradicional bávara rejuvenescida.
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16/11 - Dreiburschentanz
“Trekarlspolska” é a dança do Ganso de Ouro?
A “Trekarlspolska” é uma dança típica da Suécia, cujos registros datam do século XIX. Ernst Klein, em “Nordisk Kultur XXIV”, faz menção a uma dança de origem renascentista chamada “Ryska polskan” que compartilha semelhanças com a “Trekarlspolska”.
Na Alemanha, ela é conhecida como “Dreiburschentanz”, ou a “dança dos três rapazes”. Entre as Volkstänze, encontramos outras que envolvem trios de dançarinos, geralmente três rapazes e seis moças. Algumas das mais conhecidas são “Jägerneuner” (16.11.2023), “Die drei Tore” (dança de Anna Helms) e “Neunertanz” (dança de Volkhard Jähnert).
Entretanto, o número três não se limita apenas às danças. Ele também desempenha um papel significativo nos contos populares. Os Irmãos Grimm registraram o conto “O Ganso de Ouro”, que exemplifica isso.
No conto, um homem tem três filhos, sendo o mais jovem chamado João Bobo devido à sua falta de habilidades. Dois irmãos mais velhos partem para a floresta e recusam ajuda a um anão faminto, resultando em acidentes. João Bobo, por sua vez, gentilmente compartilha sua comida com o anão. Como recompensa, o anão lhe dá um ganso com penas de ouro.
Enquanto João Bobo se hospeda em uma pousada, o ganso chama a atenção das filhas do dono, que tentam pegar suas penas de ouro e acabam presas a ele. À medida que João Bobo continua sua jornada com o ganso e as filhas do dono da pousada presas a ele, outras pessoas se juntam à estranha procissão, incluindo um padre e um sacristão.
Essa procissão chega a um reino onde a princesa nunca ri, mas a cena absurda dos grudados faz com que ela finalmente gargalhe. O rei concorda em dar a mão da princesa a João Bobo.
Embora a dança “Trekarlspolska” não tenha uma conexão direta com o conto popular dos Irmãos Grimm, ambos apresentam o número três como um elemento central.
Conhece mais danças com três rapazes ou outros contos que envolvam esse número? Compartilhe conosco!
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15/11 - Blau, ja blau
Quantas cores passam na “Blau, ja Blau”?
Você conhece a “Blau, ja Blau”? Não? E a “Grün, ja Grün”? Igualmente desconhece? E a “Grün, grün, grün sind alle meine Kleider”? Sim, essa você sabe qual é! Brincadeiras à parte, essa canção popular é amplamente cantada na Alemanha e também tem coreografia, publicada no livro “Ostdeutsche Volkstänze”, de Willi Schultz. São dois bons motivos para mergulhar nesta história.
Há diferentes registros dela no século XIX, já acompanhando danças. Uma versão ficou conhecida como “Liebe in allen Farben”, publicado em 1842 no livro “Schlesischen Volksliedern”. Contudo, outras variantes aparecem em muitos outros locais, sendo difícil mapear corretamente sua origem.
A primeira estrofe diz: “verde, sim verde, são todos os meus vestidos / verde, sim verde é tudo o que eu tenho / Por que eu amo tudo o que é verde? / Pois meu amado é um caçador”. E a música se repete, somente mudando as cores e as profissões. Há versões com cinco, seis…, dez partes. Aqui temos um exemplo: 1. verde - caçador, 2. vermelho - cavaleiro, 3. azul - marinheiro, 4. preto - limpador de chaminés, 5. branco - moleiro, 6. colorido - pintor.
É interessante que essas canções são dinâmicas, se atualizando conforme quem as canta. Um exemplo é a cor vermelha que caracterizava o “Reiter” - “cavaleiro”, que depois passou para o “soldado” e hoje pode ser o “bombeiro”. Ou o branco, que era o moleiro, virou “padeiro”... e que poderá, no futuro, ser o médico.
Na versão apresentada por Willi Schultz, atribuída à Pomerânia, o conteúdo do texto não altera a coreografia e é formada por três partes bem estruturadas, claramente para adultos. Há também em outros locais variantes simples das figuras, com dinâmicas em círculos, executadas por crianças. A dança reinicia à medida que há uma cor nova. Assim, não existe uma limitação de repetições… basta haver criatividade na escolha dos pigmentos e dos ofícios.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja essa versão simples em https://youtu.be/g2FsBGfoEJo e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
14/11 - Schwäbische Tanzfolge
Quais são as danças da “Schwäbische Tanzfolge”?
A “Schwäbische Tanzfolge” é uma sequência de danças da Suábia com cinco músicas representativas dessa região. Ela é composta da “Metzinger Kreuzpolka”, “Graf von Luxemburg”, “Rutsch hin, rutsch her”, “Hiatamadl” e “Patscher”, além de uma entrada - títulos que podem ser vistos em nosso projeto “Ein Tanz pro Tag”. Cada uma tem individualmente sua própria narrativa, contudo, juntas nesta composição se tornaram famosas.
Mas onde fica o “Schwaben”? A Suábia é uma região que está em sua maior parte em território alemão, principalmente nos Estados do Baden-Württemberg e Baviera, contudo chega a entrar um pouco nos países vizinhos, como França e Suíça. Na atualidade, não existe uma definição precisa de onde exatamente ela inicia e onde termina: é através das manifestações culturais que sua identidade se mantém viva.
Basicamente, três critérios dão base para definir os suábios: 1. aspectos culturais, 2. influências no idioma, 3. o contexto histórico. Mesmo não existindo hoje uma área política com esse nome, desde o Império Romano há referência aos “Sueben”. Na Idade Média, ainda existiam diferentes áreas que oficialmente se identificavam sob a bandeira “Schwaben”, com múltiplas subdivisões.
E eles não ficaram presos a um só local. No decorrer da história, acabaram migrando, gerando comunidades fortes e representativas. Os mais famosos são os “Donauschwaben” abrangendo áreas que hoje pertencem à Hungria, Romênia e Áustria. Um conjunto deles também foi para o leste europeu, como no caso da atual Polônia e Ucrânia, assim como para as Américas, a exemplo do Chile. No Brasil, a localidade de Entre Rios, em Guarapuava-PR, é também um efervescente polo dos “Suábios do Danúbio”.
Um dado é claro: a identidade de uma comunidade não é feita somente por um local de nascimento. Na verdade, é como uma “Tanzfolge”: uma sequência de elementos que vão se somando. Isso os suábios, no decorrer da história, mostraram muito bem.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a “Schwäbische Tanzfolge” em https://youtu.be/TBDVZppZjNw e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
13/11 - Goldaper Kirmestanz
“Goldaper Kirmestanz” é uma dança de lamber os ossos?
Goldap, outrora uma pequena cidade na antiga Prússia Oriental, atualmente faz parte do território da região polonesa de Ermland-Masuren, situada na fronteira com a Rússia, na região de Kaliningrado.
A origem do nome “Goldap” deriva do termo prussiano “galdape”, que significa “rio em uma baixada”, pois a região é atravessada por um afluente de mesmo nome. A colonização sistemática dessa área só ocorreu no século XVI, e, devido à sua localização fronteiriça, ela foi alvo de ataques de povos oriundos do Leste por muitos anos.
No início do século XVIII, a Prússia Oriental foi assolada por uma epidemia de peste que dizimou a população local. Como resultado, imigrantes de origens variadas, incluindo alemães, suíços, prussianos e lituanos, substituíram os habitantes falecidos.
Esses imigrantes trouxeram consigo diferentes festas tradicionais para a região. Uma delas era a quermesse que ficou conhecida como “Goldaper Kirmes”. Nessa festa, também era encontrada a “Goldaper Kirmestanz”, dança conhecida por sua vivacidade descontraída. É possível que ela também tenha sido introduzida pelos imigrantes. Acredita-se que sua origem remonta ao período do reinado de Frederico II da Prússia, também conhecido como Frederico, o Grande, que governou entre 1740 e 1786. Essa hipótese é sustentada pela posição dos pares de dançarinos no final da primeira parte, que seria a posição de saudação dos soldados da época.
A dança foi documentada posteriormente em 1929 pelo professor Fritz Kurlenski, natural da região de Goldap. Nesse período, os habitantes mais antigos de Stallupönen ainda se lembravam da dança. Eles inclusive ajudaram a registrar uma divertida canção que a acompanhava:
“Quando há quermesse,
quando há quermesse,
O pai abate um bode;
Então, a Maria dança,
então, a Maria dança,
E sua saia balança.
Hei!
Hoje tem quermesse,
amanhã tem quermesse,
A quermesse dura a semana toda!
Se não tivermos o que comer,
Lamberemos os ossos.”
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12/11 - Kontra Lustig
“Kontra Lustig” é a mesma dança que “Bananenkonter”?
Traduzindo literalmente, “Kontra Lustig” significa “contradança divertida” ou “engraçada”. Mas o que torna essa dança tão engraçada? Para desvendar o mistério, é necessário examinar o que seu criador registrou.
“Kontra Lustig” foi concebida entre 1922/24 por Heinrich Dieckelmann, um professor de Altona (Hamburgo), responsável tanto pela composição musical quanto pela coreografia.
Dieckelmann afirmou que poucas danças se difundiram tão rapidamente quanto essa animada dança para quatro pares. A razão para o nome “lustig” (divertida) é explicada na própria descrição de Dieckelmann, que se refere a um dos passos como “o passo divertido” - “der lustige Schritt”: os saltos realizados em par. Esse passo era inovador entre os do Movimento da Juventude Alemã da década de 1920, conquistando a preferência dos grupos de dança da época, e até mesmo dos atuais.
No entanto, uma observação adicional do autor chama a atenção. Ele ressalta que, naquele período, houve uma coincidência que pode ter contribuído para a rápida disseminação dela. Seu estilo irregular e ritmado também era encontrado em um sucesso mundial da época, lançado quase simultaneamente à publicação da dança.
Esse sucesso mundial tinha o título alemão “Ausgerechnet Bananen!” (algo como “precisamente bananas”, em português). Tratava-se do foxtrot norte-americano intitulado “Yes! We Have No Bananas”, lançado pelos compositores Frank Silver e Irving Cohn em 1922 em Nova Iorque.
Devido a essa coincidência, muitos passaram a se referir à dança “Kontra Lustig” não mais como tal, mas como “Bananenkonter” (“a contradança das bananas”). Alguns acreditavam que “Kontra Lustig” havia sido inspirada em “Ausgerechnet Bananen” e “Yes! We Have No Bananas”, o que logo foi esclarecido por Dieckelmann como sendo pura coincidência.
Assim, a origem da dança e de seu nome está explicada, revelando como coincidências podem tornar certas danças verdadeiramente especiais.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a música em https://youtu.be/tbZ3CtZ_JvU e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
11/11 - Tampet
“Tampet” é inspirada na obra de Shakespeare?
A “Tampet” é uma dança tradicional difundida na primeira metade do século XIX no norte e centro da Alemanha e, ocasionalmente, também foi praticada no sul da do país e na Áustria, recebendo diversos nomes, como “Tapet”, “Trapez” e “Tampel”.
O termo “Tampet” tem sua origem na palavra francesa “tempête”, que significa tempestade. No entanto, as formas fundamentais dessa dança são típicas da tradição alemã. O uso da língua francesa nas aulas pelos mestres de dança da época explica seu nome francês.
A dança ganhou o nome “Tempestade” devido à disposição das colunas no salão de dança. Originalmente, duas colunas ficavam frente a frente e apenas as duas primeiras fileiras dançavam a primeira sequência. Aos poucos, as demais fileiras eram adicionadas. Isso criava um aumento de movimento no salão, semelhante a uma tempestade, que gradualmente se acalmava à medida que cada linha que dançava pela coluna adversária retornava ao seu lugar.
Com frequência, a “Tampet” era executada como uma dança de boas-vindas, na qual os anfitriões dançavam gradualmente por todas as fileiras, até que todos se juntassem e saíssem novamente no final. Ela era difundida em diversas regiões, desde a Marca de Brandemburgo, passando por Mecklemburgo, Pomerânia, Schleswig-Holstein, Baixa Saxônia, Oldemburgo, Lippe, Vestfália, Renânia, Turíngia, Saxônia e Hesse. Há registros que indicam que até em Viena a “Tampet” era praticada.
Apesar das variações nas melodias e pequenas diferenças na coreografia, a essência da dança permaneceu a mesma, caracterizada pela formação de colunas e pelo percurso progressivo no final.
Acredita-se que o nome “Tampet” também possa ter sido inspirado na obra “A Tempestade” de Shakespeare (1611) ou na ópera homônima de Henry Purcell (1695, autoria incerta). No entanto, entre a publicação das obras e os primeiros registros da “Tampet” existe uma lacuna de mais de 100 anos, deixando vários aspectos ainda sem explicação.
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10/11 - Böhmerwald Ländler
O "Böhmerwald Ländler" vem do Parque Nacional Šumava?
Se dirigindo ao sul da Alemanha, junto à tríplice fronteira com a Áustria e a República Tcheca, fica uma floresta dividida entre dois países: de um lado é chamada de Bayerischer Wald pelos alemães, de outro de Šumava pelos tchecos. Nessa região, até a metade do século XX, viviam conjuntamente as comunidades de ambos os idiomas, cada uma com suas tradições, canções e danças.
Foi com o final da Segunda Guerra Mundial que, por acordos internacionais das nações vitoriosas, as comunidades foram separadas: todos que falavam tcheco ficaram na área Boêmia e os de língua alemã precisaram se mudar para os territórios da Alemanha ou Áustria, em uma grande diáspora. Isso gerou aos emigrados um profundo sentimento de saudade da "Heimat", que superou gerações.
Na atualidade a dança que mais representa essa comunidade alemã que vivia na Floresta da Boêmia é a “Böhmerwald Ländler”. O que muitos não sabem é que essa Ländler tem uma pluralidade de nomes, sendo “Krummauer” o mais destacado deles. Faz referência à localidade de Krummau - Český Krumlov, em tcheco -, a cerca de 150 km da cidade de Pilsen.
Os registros mostram que a "Böhmerwald Ländler”,foi registrada pelos anos de 1940, contudo a coreografia tende a ser mais antiga. A melodia conduz os dançarinos entre introduções lentas e, na sequência, movimentos rápidos, como se enrolassem suas mãos. E, diferente das demais Ländlers da região, nesta os distintos casais interagem, como visto nas figuras finais da segunda e terceira repetições.
Se realmente a dança foi criada na Floresta da Boêmia, em Krummau, não se tem como precisar. Pode ser uma homenagem de aldeão de outros locais ou mesmo uma crença de que seja de lá. De toda forma, hoje a “Böhmerwald Ländler” é um pedacinho cultural remanescente dessas comunidades, que pode ser carregado pelas famílias. Ela ainda hoje reside nos corações dos que têm saudades dessa terra de belezas naturais.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a dança em ehttps://youtu.be/NU_lTf9AXK0 acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
09/11 - Langenschiltacher Siebensprung
A “Langenschiltacher Siebensprung” é uma dança de conquista ou de fertilidade?
O nome “Siebensprung” foi registrado pela primeira vez em um livro de música de um estudante de Kiel chamado Petrus Fabricius, por volta de 1605. Em 1712, outro registro mencionou a dança “Sieben-Sprünge” durante uma quermesse de camponeses.
Desde então, diversos registros sobre as danças “Siebensprung” surgiram em várias regiões, não se limitando apenas às áreas de língua alemã. Essas danças eram comumente realizadas em diferentes eventos da aldeia. Também era costume que os agricultores a executassem ao final da colheita, em torno do último feixe colhido, como uma invocação a “Freia”, a deusa nórdica da fertilidade.
Na tradição da “Siebensprung”, ainda é possível encontrar diversas formas de execução. A característica mais marcante da dança e que dá nome a ela é a série de sete saltos. Embora alguns movimentos e posições não sejam necessariamente “saltos”, mas sim passos da coreografia, eles também são assim chamados. Essas etapas refletem uma forte conexão com a terra, manifestada através dos movimentos de aproximação lenta com o solo durante a dança (os sete saltos): as batidas no chão, ajoelhar-se, tocar a testa ou o corpo no solo, beijar e até mesmo rolar no chão.
Apesar de, originalmente, a “Siebensprung” ser exclusivamente masculina, ao longo do tempo, surgiram mudanças na dança, realizando-a em pares, com um caráter de conquista. Isso é exemplificado na versão registrada na Floresta Negra. Nela, os rapazes tentam seduzir as moças. Em cada etapa, é acrescido um dos “sete saltos”, aproximando o homem cada vez mais do solo. Na “Langenschiltacher Siebensprung”, é possível perceber que apenas eles realizam os “saltos”, enquanto elas adotam um comportamento de rejeição, provocando-os. Por fim, após a sétima sequência, as damas cedem e aceitam dançar. Em um ritmo animado, todos dançam em círculo, representando a conquista.
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08/11 - Walzer für Christine
Quem é a “Christine” de “Walzer für Christine”?
Sob o título original “Valsen til Christine”, o renomado acordeonista dinamarquês Carl Erik Lundgaard Jensen compôs uma música em 1992 em homenagem à sua filha Christine, que, naquela época, residia no exterior. Jensen compartilha sua motivação, explicando: “Christine é minha filha mais velha, que, há muitos anos, vive distante de onde moro. A valsa dedicada a Christine é um conjunto de sentimentos e pensamentos que são transmitidos tanto na esperança quanto na angústia, no amor e na saudade.”
Em 1994, a coreógrafa holandesa Elsche Korf descobriu a música em uma gravação de Jensen. A melodia a cativou profundamente, e ela sentiu a necessidade de criar uma nova dança para acompanhá-la. Durante um evento musical nos Países Baixos, Korf teve a oportunidade de apresentar sua coreografia ao próprio compositor. Na ocasião, Jensen ficou profundamente comovido.
A nova coreografia de Korf incorpora passos e elementos das danças de salão tradicionais. Korf optou por dar um novo nome à dança em homenagem ao compositor, chamando-a de “Carl Eriks Wals”, publicada em 1997. Com o tempo, a dança ganhou popularidade entre grupos de dança na Alemanha. No entanto, entre esses grupos, a coreografia de Korf ficou mais conhecida pelo nome da música de Jensen: “Walzer für Christine”.
Elsche Korf é uma professora de danças tradicionais nos Países Baixos desde 1973, especializada em danças típicas holandesas. Ao longo dos anos, ela compôs suas próprias danças dentro dessa tradição e publicou muitos livros em holandês, além de traduzir várias de suas danças para o inglês para seus workshops internacionais, o que permitiu que suas criações alcançassem diversas partes do mundo.
É essencial reconhecer a contribuição de indivíduos que criam músicas, danças e narrativas, pois muitas dessas manifestações artísticas são protegidas por direitos autorais, como é o caso da música “Valsen til Christine”.
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07/11 - Dölziger Mühle
Em que localidade fica o moinho da “Dölziger Mühle”?
A “Dölziger Mühle” teve origem em 1923, como resposta à necessidade de criar novas danças para a juventude, baseadas em músicas e coreografias tradicionais já conhecidas. Ela reintroduziu uma forma circular, anteriormente extinta nas “Volkstänze”, composta por três pares.
Com música de Dolf Giebel e coreografia de Erich Janietz, a dança foi incluída na coleção “Neue Märkische Tänze” publicada em 1926, tornando-se popular em vários grupos de dança. Janietz e Giebel desempenharam papéis significativos no Movimento da Juventude Alemã e enfatizaram que as danças apresentadas no livro eram recriações destinadas a reviver tradições.
No entanto, a origem exata de “Dölzig” que inspirou Janietz e Giebel permanece incerta. Na década de 1920, quatro localidades alemãs compartilhavam esse nome, sendo duas delas ainda parte da Alemanha: uma em Schkeuditz, no estado da Saxônia, e outra em Starkenberg, na Turíngia. A intenção de Janietz e Giebel era criar “neue Märkische Tänze”, ou seja, novas danças do Marquesado de Brandemburgo. Assim, a busca pela inspiração nos leva a dois vilarejos na atual Polônia: Dölzig (anteriormente Soldin), agora Dolsk, parte de Dębno, e Dölzig (anteriormente Königsberg, no Neumark), hoje chamada Dolsko, parte de Moryń.
Embora não haja registros precisos que esclareçam a origem exata, a dança provavelmente se refere à localidade da região de Soldin. Próximo a essa área, está Tamsel, que inspirou outra dança composta por Dolf Giebel, a “Tamseler Dreigespann” (08.07.2023).
Independentemente da origem, a “Dölziger Mühle” alcançou plenamente seus objetivos. Ela é uma dança que preserva tradições antigas, ao mesmo tempo em que apresenta um caráter moderno e contemporâneo. Aqueles que já a dançaram nunca a esquecem.
É importante destacar que não existe um moinho relacionado à dança na localidade de Dölzig; ele é puramente uma representação simbólica na dança. Então, não adianta ir lá procurar!
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06/11 - Der Siederländer
“Der Siederländer” é a dança de uma mãe preocupada?
Siederland, uma localidade em Kolberg, antiga Pomerânia, era notória devido à presença da estação de trem local, que impulsionou a prosperidade do vilarejo. A dança “Der Siederländer” faz referência a este povoado e é conhecida em várias regiões pomeranas.
É intrigante notar que uma canção foi associada a ela. No entanto, seu texto não aborda o trem ou a estação, mas sim a história da noiva de um pescador. É relevante considerar que Kolberg é uma cidade portuária, cercada por diversas comunidades pesqueiras.
A canção narra a apreensão da mãe diante do noivado da filha com um pescador. Em cada estrofe, a progeniotora expressa suas preocupações, enquanto a filha tenta acalmá-la, assegurando-lhe que tudo correrá bem.
A mãe questiona: “Ó filha, querida filha, o que você fez para se prender ao pescador?”
A filha responde: “Ó mãe, querida mãe, deixe-me ser feliz; os pescadores de Kolberg são pessoas muito boas!”
A mãe persiste: “Quando o seu pescador sai para a pesca, você precisa levantar cedo, e o navio segue seu rumo pelas ondas.”
A filha tranquiliza-a: “Ele navega com o vento até Bornholm e lança suas varas de pesca e redes de arrasto.”
A mãe ainda não convencida continua: “E então, quando a noite chegar, você vai ficar olhando para o penhasco, para ver se o barco dele volta para casa em segurança pela rebentação do recife.”
A filha a acalma: “E quando ele então voltar, seremos felizes em casa e expulsaremos nossas preocupações pela chaminé afora.”
Finalmente, convencida pela filha, a mãe aceita o noivado: “Sim, filha, querida filha, então está tudo bem; aceite tranquilamente o seu pescador como marido.”
Alegre, a filha conclui: “Ó mãe, querida mãe, que Deus nos proteja dos desafios e perigos ao longo de muitos anos!”
Você já ouviu aquela frase “Mãe é tudo igual, só muda o endereço!”? Aqui, podemos ver que as matriarcas pomeranas também se preocupam com o futuro e a felicidade dos filhos.
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05/11 - Lanzer
“Lanzer” é a versão alemã da “Les Lanciers”?
A dança mais conhecida dentre essas duas é, sem dúvida, “Les Lanciers”, uma quadrilha francesa também conhecida como “quadrille à la cour”, que já estava em voga no século XIX. Executada por quatro casais, essa dança desfrutou de popularidade nos séculos XVIII e XIX. Um dos primeiros registros dela é de 1820, pelo mestre de dança Hart. Seu nome deriva do fato de que costumava ser dançada no teatro em trajes de lanceiros, soldados de cavalaria armados de lança que foram introduzidos nos exércitos europeus a partir do início do século XIX.
“Les Lanciers” é composta por cinco partes, cada uma sendo realizada quatro vezes, permitindo que cada casal execute a parte principal. Cada etapa da dança possui sua própria música, originalmente chamadas de: (1) Les tiroirs, (2) Les lignes, (3) Les moulinets, (4) Les visites e (5) Les lanciers.
Existem diversas variações dela em vários países. Embora tenha sido popular em toda a Europa, “Les Lanciers” caiu em desuso no início do século XX. No entanto, ela sobreviveu na Dinamarca, tendo sido introduzida a partir da Inglaterra em 1860.
Por outro lado, a quadrilha alemã “Lanzer” foi criada na década de 1920 por Heinrich Dieckelmann, uma figura proeminente na composição de músicas no Movimento da Juventude Alemã. “Lanzer” apresenta tanto a música quanto a coreografia como criações exclusivas de Dieckelmann.
Embora o nome "Lanzer" também faça referência aos lanceiros, é improvável que tenha sido inspirada na famosa contradança francesa. Possivelmente, Dieckelmann a nomeou assim devido à figura que envolve o cruzamento entre os pares em linha, assemelhando-se a verdadeiros lanceiros no campo de batalha. Além disso, enquanto “Les Lanciers” é composta por cinco partes independentes, “Lanzer” é uma dança única.
Portanto, não é apropriado confundi-las. No entanto, apreciar ambas é uma opção válida. Qual das duas é a sua preferida?
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a “Lanzer” em https://youtu.be/FguV_lYMTsg e a “Les Lanciers” em https://youtu.be/Tvez6SgdYMc . E nos acompanhe às quintas-feiras, 20h, no “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
04/11 - Spinnrad
A “Dreh dich, dreh dich, Rädchen” é a música do Rumpelstilzchen?
Contam que o dono de um moinho queria casar sua filha com o rei. Para isso, ele disse que ela, usando uma roda de fiar, transformava palha em ouro. Não tardou para que a jovem tivesse que provar suas habilidades, que na verdade não existiam. Ela só conseguiu realizar essa façanha com a ajuda de um personagem mágico e ardiloso: o “Rumpelstilzchen”.
Esse conto de fadas publicado pelos Irmãos Grimm provavelmente surgiu dentro de uma “Spinnstube”, assim como outras canções e poemas. A “sala de fiar” era onde as jovens teciam linhas usando a roca. Lá as conversas eram longas, assim como o tempo em que se permanecia lá trabalhando, o que podia durar noites “a fio”.
Foi nas “Spinnstuben”, como uma ladainha das fiandeiras, que também nasceu a música “Das Spinnrad” - “A Roda de Fiar”, mais conhecida como “Dreh dich, dreh dich, Rädchen”. Ela é atribuída ao Baden, área no sul da Alemanha.
Na canção todas as estrofes iniciam com “Dreh dich, dreh dich, Rädchen, spinne mir ein Fädchen, Viele, viele hundert Ellen lang!”. Seria aproximadamente “Gire, gire oh roquinha, teça um fiozinho para mim, muitas e muitas centenas de metros”. Terminam, também, com a mesma frase: “Darum, Rädchen, ohne Ruh, dreh dich, dreh dich immerzu.” - “por isso, roquinha, sem descanso, gire, sempre, continue girando”.
No meio das estrofes há diferentes contextos das salas de fiar, como a necessidade de tecer linhas, fazer panos, roupas de cama e travesseiros - que “estão sempre a rasgar” - assim como camisas para as crianças pequenas. A canção apresenta o trabalho como interminável… pelo menos pela percepção das fiandeiras.
Por mais que ela não seja a canção do “Rumpelstilzchen”, a letra da “Das Spinnrad” conta a interminável tarefa das fiandeiras, similar ao que passou a filha do moleiro no conto. Quem sabe as novas gerações só conheçam ofícios como este através dessas histórias, músicas e danças. É a ficção recontando a realidade.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Escute a música em
https://youtu.be/rf5-oe82MLo e acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
03/11 - Natanger Polka
“Natanger Polka” é uma dança em homenagem ao rei Widewuto?
Natangen é uma região histórica na antiga Prússia Oriental, cujo território está atualmente dividido entre a Rússia e a Polônia, na fronteira entre esses dois países. O significado de seu nome ainda permanece incerto, mas antigas sagas podem, talvez, lançar luz sobre suas origens.
De acordo com a lenda, por volta do século VI, os irmãos Widewuto e Bruteno eram os líderes do povo germânico Cimbri, uma tribo do norte da Jutlândia (atual Dinamarca). Após serem expulsos de sua terra natal pelos godos, os Cimbros chegaram à região de Ulmiganea, habitada por povos bastante primitivos que não possuíam agricultura ou cidades.
Widewuto e Bruteno civilizaram essa região, que passou a ser chamada de Prússia em homenagem a Bruteno (Pruteno). Sob o sábio governo de Widewuto, foram promulgadas leis que regulavam diversos aspectos da vida, como questões familiares, a vida pública e as punições para atividades criminosas. Bruteno desempenhava o papel de sumo sacerdote encarregado das práticas religiosas.
Na sua velhice, Widewuto (com 116 anos) e Bruteno (com 132 anos) decidiram dividir as terras da Prússia entre os doze filhos de Widewuto, e cada distrito da Prússia foi nomeado em homenagem a um dos filhos. Por exemplo, a Lituânia recebeu o nome do filho mais velho, Litthuo, enquanto a região de Samland foi nomeada a partir do nome do segundo filho, chamado Samo.
Assim, a região conhecida como “Natangen” surgiu, recebendo o nome em referência ao sexto filho de Widewuto, chamado Natango. Foi nesse território que ele viveu e reinou, tendo sua residência no Castelo de Honeda, hoje conhecido como Balga.
Apesar de os antigos prussianos terem tradições musicais e de dança, é improvável que a dança “Natanger Polka” tenha origens tão antigas. Ela foi registrada por Hermann Treike de Königsberg e publicada por Hermann Huffziger, coordenador do grupo de danças de Gumbinnen, em sua obra “Der Tanzkreis”, volume 1, de 1930.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a dança em https://youtu.be/-OiGNIE1pTg . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
02/11 - Trampelpolka
Na “Trampelpolka” se perde o solado dos sapatos?
Uma música que foi popular entre as crianças do Schwarzwald, no Baden-Württemberg, é a “Trampelpolka”. A coreografia mais conhecida na atualidade é atribuída à pesquisadora Anna Helms, contudo há relatos de muitas variantes, tanto do texto quanto da dança. Vejamos uma:
“Trampelpolka tanz ich gern, mit dem schönen jungen Herrn
Aber meine Mutter spricht: Kleine Mädchen tanzen nicht!
Immerzu, immerzu, bis die Sohle fällt vom Schuh (2x)”
O contexto da letra é de uma jovem que gosta de dançar a “Trampelpolka” e o deseja fazê-lo com um bonito rapaz, contudo sua mãe é contra e diz “uma pequena menina não dança”, como se fosse algo impróprio. O refrão diz “Sempre, sempre, até a sola cair do sapato”.
Outra variante apresenta o seguinte texto:
“Trampelpolka jeden Tag, weil ich gerne tanzen mag.
Jeder tanzt heut fröhlich mit, kommt dabei nicht aus dem Schritt.
Immerzu, immerzu, bis die Sohle fällt vom Schuh (2x)”
Aqui a criança relata que gosta de dançar e, por isso, executa a “Trampelpolka” todos os dias, estando hoje todos felizes a dançar, sem perder o passo. Nesta rima o contexto não muda muito, mesmo que o rapaz não apareça explicitamente, mantendo o mesmo refrão.
E qual o significado do nome? Há distintas interpretações. Pode vir de “Trampeln”, do ato de bater os pés no chão ou pisotear, relacionado ao primeiro movimento feito na dança. Já “Trampel”, seria alguém desajeitado ou grosseiro, tornando-se o adjetivo para essa polca. É possível que ambos os pontos de vista tenham validade, já que “bater os pés”, no contexto popular, também é sinônimo de birra ou teimosia.
E essa dança teria aceitação hoje? Crianças gostam de cantar e dançar, indiferente da época. A imaginação fértil dos pequenos não nutre preconceitos se o tema é do presente ou do passado, vide os contos de fadas. É provável que, com a abordagem correta, ela ainda possa ser muito dançada, “sempre, sempre, até a sola cair do sapato”.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja uma versão da dança, apresentada na Alsácia, em https://youtu.be/rXJIsQvVGok . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .
01/11 - Widele, wedele
A dança “Widele, wedele” é do século XVI?
O que você pensaria, se atrás do vilarejo encontrasse um mendigo se casando? Estaria o piolhinho assobiando, um ratinho dançando e um ouricinho batendo o tambor. Pode ter certeza que todos os animais que têm calda viriam ao matrimônio.
É exatamente esse o contexto da canção infantil “Widele, wedele”, ou “Bettelmanns Hochzeit” - o “Casamento do Mendigo”. Uma provável base dela seriam rimas que zombariam dos pobres: em um matrimônio como esse, segundo a época, só iriam os bichos - “todos que têm caldas”. Mais tarde essas sátiras chegariam às crianças, que seguiram imitando os adultos e ridicularizando os ditos “indigentes”.
Há certo consenso de que a letra hoje popularmente conhecida tem base no dialeto suábio, devido às palavras do texto e seus diminutivos. Ela já aparece no atual formato na coletânea “Des Knaben Wunderhorn”, de 1808. Mas sua origem pode ser muito mais antiga. No século XVI, por exemplo, o satírico Johann Fischart apresenta entre os jogos do personagem “Gargantua” a “Widele, wedele”, sem dar mais detalhes sobre o assunto. Seria essa a origem da música e da dança?
Na atualidade a música não faz mais referência a essas críticas do passado. Mesmo antigamente a “Widele, wedele” aparecia também em festas de casamento e era cantada para ninar, práticas que não combinam com “ofensas”. Para as crianças contemporâneas é uma narrativa de fantasia, onde os animais assumem personagens, assim como as posições sociais não estão sendo julgadas.
E sobre a coreografia, não se tem como precisar quando a “Widele, wedele” passou a ser dançada. As filas que serpenteiam podem ter surgido espontaneamente à medida que as crianças cantavam… ou mesmo ser uma composição mais contemporânea para dar dinamismo à música.
Trata-se de uma canção repleta de história, que muitos pesquisadores ainda hoje se debruçam para compreendê-la melhor. Uma clara pista do passado que está aguardando para ser totalmente esclarecida.
Quer saber mais? culturaalema.com.br/tanz . Veja a música em https://youtu.be/lEiggvpyHMQ . Acompanhe às quintas-feiras, 20h, o “Boletim Der Hut”, em www.imperial.fm.br .