Deborah Agulham Carvalho, Juliana Santiago, Thaiz Zafalon e Gustavo Emanuel Basso
Foto: Arquivo Violeta Franco
No dia 21 de fevereiro de 1931, nascia, em Curitiba, Maria Violeta Franco de Carvalho. Devido ao fato de ser uma artista de suma importância, vem o questionamento, quais caminhos levaram Violeta a ser protagonista de uma ruptura nos padrões artísticos paranaenses?
Vamos descobrir.
Ainda durante a infância, através dos pais e avós, pôde ter contato com diversas expressões artísticas e até mesmo, um certo aprofundamento quando se trata do desenho. Segundo a artista:
Mais tarde, eu passei uma temporada com o meu pai e passei a desenhar. Ele me falava muito dos expressionistas, me mostrava quadros, reproduções [...] E eu acho que tive uma certa formação. Pelo menos maior do que o comum dos adolescentes e das moças da minha idade
(FRANCO, 1978, p. 02)
Anos mais tarde, estudou pintura com Guido Viaro, onde, através dele, conheceu Poty Lazzarotto, iniciando assim seus estudos com gravura. Ambos tiveram grande importância em sua trajetória artística, pois, através deles, pôde ser introduzida às ideias modernistas à partir de suas aulas.
Um grande marco na história da artista, foi a criação da “Garaginha”. Violeta escolheu a garagem da chácara dos avós como endereço e na sua feliz decisão pela criação do espaço, pode proporcionar um local de encontro para discussões sobre o rompimento com o academicismo, que tinha forte presença no fazer artístico do Paraná na época, e sobre ideias modernistas e encontro com intelectuais.
A Garaginha era um espaço de sociabilidade que permitiu para seus frequentadores a construção de um senso de grupo. Segundo Pierre Bourdieu, “cada grupo social, em função das condições objetivas que caracterizam sua posição na estrutura social, constituiria um sistema específico de disposições e de predisposições para a ação, que seria incorporado pelos indivíduos na forma do habitus” (Nogueira & Nogueira, 2004, p. 63).
Foto: Divulgação MON sobre a exposição Violeta Franco: a 'Garaginha' e a arte moderna no Paraná, com curadoria do crítico e historiador da arte Fernando Bini.
Para Fernando Bini:
A “Garaginha”, além de ateliê de Violeta Franco, foi um ponto de encontro catalisador que reuniu pessoas que procuravam um mesmo objetivo [...] A “Garaginha” por comparações de depoimentos , deve ter começado no final de 1949 e durado até 1951. Em 1952 Violeta já estava casada com o artista Loio-Pérsio Vieira Magalhães e seu ateliê foi transferido para sua nova residência (BINI, 2013, p. 14).
A artista comenta sobre como era a Garaginha e o que acontecia lá:
Sem título
Data: 1987
Técnica: água-tinta
Dimensões: 57,5 x 32,5
[...] era um ateliê, que foi criado por necessidade de trabalho, feito numa das garagens da chácara de meu avô. Ali nos reuníamos, líamos revistas, ouvíamos música. Eu e Alcy fizemos a decoração, com o dinheiro da venda de quadros, meus e dele, compramos esteiras, lâmpadas, panos coloridos. Era tudo em vermelho, mais parecia uma boate pequena do que um ateliê. Atrás, um barracão, onde tinha uma prensa e onde realmente trabalhávamos
(FRANCO, 1978, p. 03).
Além disso, Violeta foi a primeira diretora do Clube de gravura do Paraná, fundado em 1951. A associação durou cerca de um ano e deu origem ao Centro de Gravura do Paraná, coordenado por Nilo Previdi, que funcionou até a década de 1970.
Sem dúvidas Violeta marcou o cenário artístico paranaense, servindo de inspiração e abrindo caminho para artistas de futuras gerações.
Adalice Araújo, crítica e historiadora da arte, ao tratar da importância de Violeta Franco construiu o seguinte paralelo:
"Não tenho qualquer dúvida em afirmar que Violeta Franco está para a Arte Paranaense, na mesma proporção que Anita Malfatti e Tarsila do Amaral estão para o modernismo paulista.”
ARAÚJO, Adalice. Violeta Franco / uma trajetória mágica.
In FRANCO, Violeta. Violeta Franco. São Paulo: Masp, 1984.
Hora | óleo s/ tela | 116 x 89 cm
Acervo Museu Oscar Niemeyer
Foto: Arquivo Violeta Franco
A Garaginha, juntamente com a Galeria Cocaco, foram pioneiras na formação de instituições e artistas cujo pensamento divergia do movimento tradicional paranista, causando, assim, o que é chamado de “ruptura” entre o tradicionalismo e o modernismo no Paraná, segundo estudo das obras de Violeta feito por Mauricio Marcelino Lima.
Alcir Xavier, artista e parceiro de Violeta Franco na Garaginha, ao comentar sobre a importância desse espaço sociabilidades e de produção artística diz:
"A importância foi o fato dela ter aglutinado os interesses dos artistas da época exatamente nas teorias modernas da pintura, na época chamada de arte moderna e havia muita reação contra, a nossa briga, a nossa luta era contra o academismo que permanecia e com elementos estagnados."
(Alcy Xavier, entrevista 2014)
O ateliê era, também, visitado por pessoas que não se encaixavam no campo artístico, como, por exemplo, Mário Romani, um industrial que frequentemente viajava para a Europa e trazia consigo revistas que viravam fontes de discussões entre os jovens artistas. Uma dessas revistas é a “Art D’aujourd’hui”, a qual tinha o intuito de divulgar a arte abstrata na Europa.
Desenho por Alcy Xavier, produzido a propósito da exposição de Violeta Franco no MON, com curadoria de Fernando Bini, no ano de 2013.
Em entrevista, Fernando Bini descreve a decoração da Garaginha como “um escândalo para a época” e conta que os frequentadores andavam descalços e sentavam no chão.
Obra de Violeta Franco, sem data, acrílica sobre tela, 96,7 x 130,2 cm (Foto - Acervo do Museu de Arte Contemporânea do Paraná - MAC)
Citações em jornais
Diário do Paraná - Curitiba, Domingo, 30 de novembro de 1969 - página 9:
Violeta Franco, artista paranaense conhecida sobre tudo como gravadora e retratista (dirigiu nosso clube de gravura de 1953 a 1956), está apresentando suas telas atuais de temática vegetal, nas quais capta a violência e exuberância da flora tropical. Suas telas - exposta na livraria e galeria veríssimo - Rua Rêgo Freitas, 530 São Paulo - impressionam pela vitalidade cromática e pela textura rude e expressiva. "Comunicam uma visão pessoal marcadamente dramática do mundo vegetal brasileiro", diz o crítico Mário Schenberg, referindo-se à pintura de Violeta Franco em exposição.
Diário do Paraná - Ano 1970 - edição 043053:
É na garagem da casa de Violeta que os modernos se reúnem: Aucy, Previde, e Velozo começam a aparecer. Poty volta e dá um curso sobre gravura em torno de uma velha e sagrada prensa de Portinari.
Trecho de uma entrevista feita na mesma edição:
(Entrevistador) - A pintura? Como foi e de que serviu sua última exposição na Galeria Veríssimo em São Paulo?
(Violeta Franco) -Depois de tantos descaminhos, depois de ser engolida pela cidade grande... acho que me purifiquei no ter que fazer vitrines na rua Augusta, na Clipper, bonecos de ferro, cartazes, até que fundei e dirigi duas escolinhas de arte. Saí com vida e minha pintura a exposição recente provou os seus valores e acerto da temática.
Imagem retirada do Jornal diário da tarde do dia 6 de maio de 1971 - edição 21406
Violeta quando criança em um pequeno trecho do jornal O dia - ano 1934 - edição 02096
Imagem retirada do jornal Diário da tarde (PR) - Ano 1951 - edição 17262
Exposição Violeta Franco | A "garaginha" e a arte moderna no Paraná
"O Museu Oscar Niemeyer (MON) abre no dia 6 de junho, na sala 3, a exposição “Violeta Franco: a -Garaginha- e a arte moderna no Paraná”, com curadoria do crítico e historiador da arte Fernando Bini. A “Garaginha” (1949 -1951) era um espaço onde os artistas se reuniam para discutir as novidades da arte, especialmente a arte moderna, a nova escola que se propagava na Europa e nos Estados Unidos. O local representa, portanto, a primeira agremiação de artistas, no Paraná, interessados em realizar uma arte menos acadêmica e mais moderna, desvencilhada." - Trecho retirado diretamente do site do Museu Oscar Niemeyer (MON).
Folder da Exposição "Violeta franco - a Garaginha e a Arte Moderna no Paraná
Algumas das exposições que Violeta Franco participou até o ano de 1970:
1950 - Curitiba PR - 3º Salão da Primavera, no Clube Concórdia
1950 - Curitiba PR - 7º Salão Paranaense de Belas Artes, no Instituto de Educação do Paraná Professor Erasmo Pilotto - medalha de bronze e menção honrosa
1950 - Curitiba PR - Coletiva, no CCBEU
1950 - Curitiba PR - Exposição de Gravuras de Artistas Paranaenses
1950 - Curitiba PR - Salão de Maio, na Associação Paranaense de Artistas
1951 - Curitiba PR - 4º Salão da Primavera, no Clube Concórdia - menção honrosa
1952 - Curitiba PR - 5º Salão da Primavera, no Clube Concórdia - Prêmio Concórdia
1952 - Curitiba PR - Coletiva de Gravadores Alunos de Poty
1955 - Curitiba PR - 1º Salão da Cidade, na Câmara Municipal
1970 - Curitiba PR - Exposição Nacional do 5º Colóquio de Museus de Arte do Brasil
Acredita-se que as duas obras homônimas denominadas “Tropicália”, produzidas no ano de 1972, tenham sido fruto dos estudos da flora por Violeta Franco. As obras apresentam técnica mista (desenho, aquarela e pincel atômico sobre papel), tamanho 20 x 10 cm e foram doadas por Jorge Carlos Sade (dentre outras 80 doadas por ele), compondo hoje acervo permanente do Museu Municipal de Arte (MuMA).
Tropicália. Aquarela e pincel atômico sobre papel,
20 x 10 cm, 1972
Tropicália. Aquarela e pincel atômico sobre papel,
20 x 10 cm, 1972
E sobre os estudos de flora, Violeta Franco pontuou: “Apenas em 68 começo o estudo da flora, para simbolizar a cor e a atmosfera, a inquietação e a exuberância do mundo brasileiro. A princípio, eram plantas enormes, ainda com grandes camadas de tinta; pouco a pouco vou simplificando e limpando a cor... Eventualmente, a figura humana entra no contexto onde não há luta, mas complementaridade, onde a cor, o grafismo e a composição se complementam num universo de símbolos e formas...”.
Em 1991, na Galeria Banestado, foram expostas obras pintadas em tinta acrílica dentro da temática “flora”, correspondentes a “30 anos de trabalho e, portanto, um marco especial” e uma fase na trajetória de Violeta Franco: “no princípio, pintava plantas seccionadas, que simbolizavam o embrião da vida. Depois vieram as plantas esquematizadas, grandes, em cores violentas. Mais tarde, surgiu a flora inserida num contexto, seguindo-se a fase da revolta. Hoje, o que parece é uma pintura ‘mais lírica, poética e pictórica’, diz a autora. Essas fases, segundo ela, correspondem à transformação do próprio homem”.
Dentre outras características pontuadas sobre a obra de Violeta Franco, nota-se que é possível observar que “a procura de uma linguagem nacionalista está presente na obra de [Violeta Franco], em que a força violenta da tropicália rompe limites da matéria. Sua arte vive em termos de brasilidade com a consequente e complexa coexistência de realidade – suas flores gigantescas, esfomeadas, alucinantes em sua louca veemência, deliberam, informam, desmistificam, criticando nossa infraestrutura. [...] Uma viagem à Amazônia somada ao culto a Delaunay inspiraram a sua tropicália”.
Outra obra da artista, também doada por Jorge Carlos Sade, é a imagem abaixo:
Sem título, acrílica sobre tela, tamanho 55 x 46 cm.
LIMA, Mauricio Marcelino. Patrimônio Artístico Paranaense: A Arte Moderna na Obra de Violeta Franco. Maringá: UEM/IFPR, 2015.
MARTINS, João Cândido. As cores de Violeta Franco (1931 - 2006). Câmara Municipal de Curitiba, 2013. Disponível em: https://www.curitiba.pr.leg.br/informacao/noticias/as-cores-de-violeta-franco-1931-2006. Acesso em: 07 jun. 2021.
NOGUEIRA, Cláudio Marques Martins; NOGUEIRA, Maria Alice. Bourdieu & a Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2009.
SPERANZA, Clarice Gontarski; SCHEER, Micaele. Trabalho Democracia & Direitos: Projetos políticos, movimentos organizados e debates contemporâneos. Porto Alegre: Editora Fi, 2019.
VIOLETA Franco. Escritório de Arte, c2021. Disponível em: https://www.escritoriodearte.com/artista/violeta-franco. Acesso em: 07 jun. 2021.
VIOLETA Franco. Arte Brasileira UTFPR, 2013. Disponível em: https://artebrasileirautfpr.wordpress.com/2013/07/23/violeta-franco/. Acesso em: 07 jun. 2021.
VIOLETA, a que faz história. O Estado do Paraná, Curitiba, 31 mar. 1991. Acervo Documental do Setor de Pesquisa e Documentação do Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Dossiê da artista – FRANCO, Violeta, matéria de periódico, pasta a/v 4.7 PR. Acervo consultado em 5 dez. 2023.
VIOLETA FRANCO. In: ARAÚJO, A. M. de. Dicionário das artes plásticas no Paraná. Curitiba: Edição do autor, 2006. v. 1. p. 94.
VIOLETA Franco. Correio de Notícias, Curitiba, 6 abr. 1991. p. B-3. “Programe-se”.
VIOLETA Franco expressa admiração pelo cinema alemão. Jornal do Estado, Curitiba, 25 out. 2001. Acervo Documental do Setor de Pesquisa e Documentação do Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Dossiê da artista – FRANCO, Violeta, matéria de periódico, pasta a/v 4.7 PR. Acervo consultado em 5 dez. 2023.
VIOLETA Franco volta a expor em Curitiba. Jornal do Estado, Curitiba, 24 abr. 1990. Acervo Documental do Setor de Pesquisa e Documentação do Museu de Arte Contemporânea do Paraná, Dossiê da artista – FRANCO, Violeta, matéria de periódico, pasta a/v 4.7 PR. Acervo consultado em 5 dez. 2023.