Anna Mariah Comodo
Ana Paula Picolo Barreto - Thays Beira
Ana Paula Picolo Barreto - Thays Beira
FIGURA 1: Anna Mariah Comodos. Artista
Fonte da imagem: Gazeta do Povo (Kraw Penas)
Percurso Artístico de Anna Mariah Prince Comodos
Esta pesquisa tem por objetivo apresentar a artista paranaense Anna Mariah Comodos, tecendo uma homenagem por seus trabalhos e legado deixados para as artes plásticas de Curitiba. Pintora, ceramista, objetualista e instalacionista segundo Adalice Araújo descreveu em seu dicionário de Artes Plásticas no Paraná, 2012. Anna, nasceu em Curitiba (PR), em 1931 onde começou seus estudos na Escola de Música e Belas Artes aos 17 anos, formou-se na primeira turma do curso Superior em Pintura de 1951, quando foi premiada com a 3a. Colocação no Salão de Belas Artes da Primavera. Logo após formar-se, casou-se com o mineiro Romero Lepesqueur, pai de sua filha, a psicóloga Anna Cristina, e mudou-se para o Rio de Janeiro (RJ), afastada por 30 anos das atividades artísticas, retornou em 1986. na década de 1980. Quando retornou a Curitiba, ela voltou a dedicar-se à arte, reciclando seus conhecimentos e descobrindo novas técnicas, como a colagem em projetos bidimensionais. Seu retorno marca exposições ocorridas em 1984 com duas mostras coletivas, que a impulsionou para novos projetos artísticos.
Descobre a Collage como veículo de expressão, num curso livre com Suzana Lobo, no Museu Guido Viaro, faz muitos outros cursos entre eles Performance, com Guto Lacaz, na Apap, em 1988; Tridimensional, com João Carlos Goldberg, no Centro de Criatividade de Curitiba (CCC), em 1992. Frequenta workshops com Laura Miranda e Eliane Prolik, com quem mantém contato e aprimora sua linguagem – como artista visual – das gerações de 1980 e 1990. Pertence a Anna, no ano de 1980, papel de destaque no emprego da collage como linguagem autônoma, técnica de pintura consiste em combinar diferentes elementos externos sobre um suporte.
Em 1987, é premiada no 44º Salão Paranaense, Anna Mariah Comodos foi a artista convidada da 3ª Bienal Internacional de Óbidos (Portugal), já no ano seguinte é premiada novamente no 49° Salão Paranaense de 1992, consagrando-se nessas duas décadas de trabalho com arte.
A artista faz parte de um grupo que se projetou no fim dos anos 80, tendo na bagagem os professores e artistas Guido Viaro e João Turin da Escola de Música e Belas Artes (EMBAP). Com o artista plástico Fernando Velloso, de quem foi colega de faculdade na primeira turma da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP), o grupo iniciou as aulas em 1948 e concluiu em 1951.
As suas colagens nos anos de 1980, a primeira fase, tem um caráter ilustrativo, que desanestesia o olhar, passando a operar na percepção do espectador. Os papéis colados, transformados pela ação da artista, impõem-se por sua plástica, pela utilização livre e dinâmica do espaço, pelo adensamento material, por sua riqueza associativa trabalhada mais em nível icônico. Em nova fase, iniciada em meados da década de 1990, a artista passa a trabalhar o tridimensional, criando esculturas em papel.
O colunista Francisco Souto, que escrevia para o Jornal Indústria e Comércio, na coluna Domingo Variedades, comenta em seu artigo de jornal, que presenciou a gradual passagem da artista para os trabalhos tridimensionais que foram ganhando em dramaticidade. O grande salto ocorreu no final dos anos 80, numa coletiva realizada no Centro de Criatividade, sob a curadoria de Edilson Viriato. A partir de então, Anna Mariah foi conferindo universalidade aos seus “objetos”, esculturas tridimensionais.
FIGURA 2: “Sem Título” (1999),
escultura em metal e nylon
Fonte da imagem: MUMA
A peça “Sem Título” (1999), que consta no acervo do MUMA (figura 2) , é uma escultura em metal e nylon, formando uma vestimenta. Faz parte da coleção do museu desde sua doação pela artista, é uma obra expressiva que mede 94 x 51 x 12 cm, integrou a Exposição Acervo Contemporâneo Curitiba (2000), no Museu da Gravura cidade de Curitiba; Solar do Barão em Dezembro de 2000 até Março de 2001; a Mostra Contemporâneos no Acervo Março de 2005 à Janeiro de 2006, na SAP do Museu Metropolitano de Arte de Curitiba; Vínculos Contemporâneos com curadoria de Nilza Knechtel Procopiak em 2006, no Espaço Cultural BRDE – Curitiba/PR; Exposição Diálogos de um Acervo – Museu na Escola abril de 2009 à novembro de 2009 no MON – Museu Oscar Niemeyer; e na Exposição de Obras do Acervo do MUMA após os anos 80, de junho de 2012 até setembro de 2012 – Sala 01 – Portão Cultural.
Mais do que representações cênicas e de performances, suas obras constituem mitologias individuais, expressando sua consciência capaz de revelar – sob o ponto de vista da antropologia cultural – os complexos problemas de sua geração e da mulher em geral, perante os valores de uma rígida sociedade patriarcal, em conflitos com ícones da sociedade de consumo e da globalização.
FIGURA 3: “Sem Título” (1999), tela de náilon e arame de alumínio, uma das peças da coleção de vestidos Fonte: Gazeta do Povo
FIGURA 4: “Sem Título” (1999), ratoeira, tela e rede de náilon.
Fonte: Gazeta do Povo
As peças (figuras 3 e 4) que formam um conjunto tridimensional impressionantes inspirados no próprio vestuário da artista, que colecionava peças de várias épocas, nos mostrando o desprendimento da artista e sua perfeita execução. Essas obras percorreram diversos museus e salões curitibanos, hoje fazem parte do acervo do Museu Metropolitano do Portão – MUMA.
DESENVOLVIMENTO
Percorrer a trajetória de Anna Mariah Comodos nos faz pensar uma Curitiba em efervescência artística, mostrando que arte atrai grandes personalidades e as transforma. O meio artístico de Curitiba do final dos anos 1980 e início dos anos 1990, viveu grandes transformações artísticas e culturais, Lilian Gassen, em ‘Ensaios de sociologia e história intelectual do Paraná’, pontua que estas transformações na geração dos anos 80:
Na atuação dos grupos artísticos da geração de 1980 percebemos uma preocupação com o público da arte até então inédita, o que ocorreu de maneiras diferentes, em todos os grupos. Uma expressão dessa preocupação foi por meio da participação do público nas performances e happenings; … Além disso, a preocupação com o público foi expressa nas exposições de arte com a idéia, ainda incipiente, de curadoria, ou melhor, com algumas formas rudimentares de organização dos trabalhos para a sua melhor compreensão. (GASSEN, 2009, p.201)
Assim, na década de 1990, com a participação da geração de 1980, verifica-se a criação de galerias de arte que são sintonizadas com a ampliação do mercado de arte de Curitiba. Anna Mariah, buscou no meio artístico manter uma trajetória em que houvesse a pesquisa e busca de materiais e técnicas que interagissem com seu público, buscando um diálogo que motivasse o olhar a compreender o universo feminino e suas memórias.
FIGURA 5: “Sem Título” (1999), objeto feito em tela de náilon, arame de latão e alumínio.
A peça “sem título” (1999) (figura 5) de Anna Maria que era expert em colagens, com papel e diversos materiais. Contava ter migrado para o tridimensional por sugestão da amiga e orientadora Eliane Prolik, então muitas de suas peças, a matéria-prima passam a trabalhar com o tridimensional, passando por diversos estágios até obtenção da cor e da textura desejada, num constante fazer e desfazer. Desde o começo me trabalho teve vida e morte, a materialização e a desmaterialização da Arte, diz Anna Mariah. (ARAÚJO, 2012, p.668)
O curador e crítico de arte Ivo Mesquita, apresentou o livro que comenta a trajetória artística de Anna Mariah, em seu lançamento no Museu de Arte Contemporânea (MAC). Na ocasião do lançamento, uma de suas criações tridimensionais ficou em exposição no MAC. Tratava-se da instalação "Labirinto", feita em tiras de náilon tricotadas à mão. O material é um dos mais presentes no trabalho recente da artista na época com 75 anos, principalmente na confecção da sua série de vestidos, que combinam a rudeza de pregos, pesos de chumbo, tachas e correntes de ferro à delicada feminilidade dos bordados em tela de náilon.
Suas esculturas vestidos, criam uma ampla metáfora do tempo, com seus bordados que criam grafismo pelo ponto de sombra elaborado com o fio de cobre e aço, agindo como marcas ou cicatrizes, bem como pátinas obtidas mediante oxidação, para propor emblemas do tempo conceitual como símbolos da realidade. As vestes de Anna Mariah, não são feitas para serem usadas, não podem, portanto, ser confundida com esculturas vestíveis. São elaboradas para habitarem o espaço. Além da dessacralização da obra da Arte, ela propõe que estes objetos instalados, mais do que contemplação, possam agir em seu environnement – como ícones da memória – como signos sociais de reflexão, consciência existencial e resistência. Como o próprio poema de Carlos Drummond de Andrade que a inspirou, ela cria a poética do Resíduo em que do seu eu e do nós fica sempre um pouco da memória do Universo.
FIGURA 6: “Sem Título” (1999), tela de náilon, pregos, arame de alumínio e cabide.
Fonte da imagem: MUMA
Assim, no vestido de menina (figura 6), confeccionado com nylon cinza, arremates de pregos e ganchos de aço na gola, barra da saia e mangas, a artista alude aos vestidos rigidamente engomados e extremamente desconfortáveis que as crianças eram obrigadas a usar até os anos de 1950, já no corpete preto, com pesos de chumbo – símbolo de sedução e tortura – reconstitui o new look Dior (1947), que impôs às mulheres as cinturas vespas e a volta do martírio dos espartilhos, caracterizando, ainda a psicologia da mulher objeto. Esta imagética é reforçada na camisola de casamento, na qual a aparente leveza da tela de arame criada pelo talhe, pela cor prata e pelo bordado abre um espaço visual ao charme, enquanto a corrente enfatiza a agressão à dignidade humana, a submissão e a incomunicabilidade. (ARAÚJO, 2012, p.669)
A artista nos leva a percorrer seu universo, colocando fatores que são caros as mulheres de nosso tempo, nos fazem refletir o quão marcante e complexo é estar na pele de uma mulher.
Colagens
Os primeiros trabalhos de Anna Mariah foram principalmente colagens e assemblages – técnicas que, segundo Mesquita, não serviram apenas como procedimento plástico, mas também estavam relacionadas ao conceito de combinar ideias e momentos históricos diferentes em superfícies fragmentadas.
O crítico divide essas colagens em dois grupos. As figurativas apresentam a justaposição de imagens acompanhada por uma pintura aguada, que determina o clima da obra. O imaginário feminino é o tema, tanto pelas manifestações da moda e do cinema, quanto pela vida doméstica.
As abstratas, por sua vez, influenciadas pelo abstracionismo histórico dos anos 50, apresentam o papel colado sobre superfícies rígidas. Segundo Mesquita, "são obras como que produzidas por efeitos musicais, estados de alma e que, por serem representações de pintura, põem em movimento questões como subjetividade, linguagem, autonomia da imagem e do campo". (Gazeta do Povo – ROMAGNOLLI, Luciana. 2007)
As obras de Anna Mariah, conversaram com o universo feminino, mostrando a força que a veste tecida em torno de um corpo feminino, capturam diferentes essências e conceitos que insinuam o imaginário proposto para alcançar as identidades de mulheres que determinam seu destino, ícones de sua memória individual e social.
Duas décadas
"Comecei com arte contemporânea, fazendo colagens, fui para a obra bidimensional e depois para a tridimensional", diz Anna Mariah, resumindo sua trajetória. Nessas duas décadas de criação artística, ela reuniu seu trabalho em séries, como "Cão sem Plumas", inspirada no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto, "Mariscos", na qual a artista partiu de folhas de jornal pintadas em tons escuros e dobradas na forma dos animais marinhos.
As experiências com o náilon, que marcam as obras mais atuais da artista, já estão ficando para trás. "Tenho a impressão de que essa fase talvez esteja se encerrando", afirma. Embora os próximos passos sejam imprevisíveis ("a gente nunca sabe o que vai fazer na frente"), Anna Mariah manifesta uma crescente atração pelo audiovisual. "Talvez eu trabalhe com vídeo, tenho algumas ideias, mas isso ainda vai ser pensado", adianta.
CONCLUSÃO
A Pesquisa que figurou neste espaço, homenageia a artista Anna Mariah Comodos, levantando algumas matérias de jornal, revistas e catálogos e verbetes de arte que oportunizam seu público conhecer a sua arte, seus contornos e a escolha determinante dos materiais de suas obras onde tudo é estudado, pesquisado e ali colocado com objetivos que a artista conhece de antemão, na medida reflexiva de conceituar com sucesso o objeto de arte.
Assim Anna Mariah Comodos, nos deixa com seus 84, mas, também nos presenteou com sua ampla presença nas artes plásticas do Paraná. Pintora, de início, experimentou e se expressou em diversas técnicas, foi inovadora com sua arte e se manteve conectada em seu tempo, e isso forneceu combustível para que seu legado não fosse esquecido no campo da arte e sociedade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARAUJO, Adalice Maria de. Dicionário das artes plásticas no Paraná. Adalice Maria de Araújo – Curitiba: Edição do autor, 2012. 385p. v.1
GASSEN, Lilian Hollanda. In: “Dos cavaletes às metalúrgicas: uma análise geracional nos caminhos da arte em Curitiba”. In: Ensaios de sociologia e história intelectual do Paraná. José Eduardo Léon Szwako, Márcio de Oliveira (orgs), – Curitiba: Editora UFPR, 2009. 264. : IL., - (Pesquisa; n. 141)
GAZETA DO POVO. Caderno G . Artes Visuais. Anos 2007-2015. “Anna Mariah Comodos”.
_________________. FERNANDES, José Carlos. 2015. “Anna Mariah Comodos: a dona da história”. Lista de Falecimentos. Curitiba, 20 de agosto de 2015. In: <https://www.gazetadopovo.com.br/curitiba/falecimentos/anna-maria-comodo-a-dona-da-historia-6z11dm8mlcxs3hys3ajzr7nio/> . Acesso em 07/12/2023.
_________________. GAZETA DO POVO. 2015. "Morre a artista plástica Anna Mariah Comodos" . Curitiba, 29 de julho de 2015. In: <https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/artes-visuais/morre-a-artista-plastica-anna-mariahcomodos-dbb8jnjcd3pr6volxgj1p7orh/> . Acesso em 07/12/2023.
_________________. ROMAGNOLLI, Luciana. 2007. “Tramas de náilon” . Anna Mariah Comodos lança livro no Museu de Arte Contemporânea. Curitiba, 18 de setembro de 2007. In: <https://www.gazetadopovo.com.br/caderno-g/tramas-de-nailon-anatbpsn27cs23un7dg3ag4zy/?ref=busca> . Acesso em 07/12/2023.
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NETO, Francisco Souto . 1995. Expressão & Arte. Jornal Indústria e Comércio na Coluna de Domingo Variedades . A coletiva do Museu Guido Viaro. Curitiba, 17 a 23 set. 1995. p.4 . In: <https://fsoutoneto.wordpress.com/2013/02/07/2400/> . Acesso em 29 de novembro de 2023.
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NETO, Francisco Souto. 1991. Revista Charme Ano VI de 1991. nº 53 . Em sintonia com Viriato. p.38 . In: <https://fsoutoneto.wordpress.com/2012/07/21/expressao-arte-por-francisco-souto-neto-curitiba-9-dez-1991-p-c1/> . Acesso em 29 de novembro de 2023.
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