Rossana Guimarães
Ana Paula Picolo Barreto - Gustavo Emanuel Basso
Ana Paula Picolo Barreto - Gustavo Emanuel Basso
Rossana Guimarães
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa tem por objetivo apresentar a artista paranaense Rossana Guimarães e contextualizar os movimentos que participou bem como alguns momentos vivenciados pela artista. Artista plástica, pintora, desenhista, gravadora, poeta, ceramista e performer e professora, Rossana é uma das mais criativas artistas curitibanas da Geração 80. Formou-se em pintura e licenciatura em desenho pela escola de Música e Belas Artes do Paraná em 1980. No decorrer da sua carreira uniu sensibilidade e refinamento à sua permanente inquietação, que segundo Adalice Araújo, é o lado positivo de uma constante reciclagem. Integrou-se a importantes grupos artísticos como o Bicicleta (1982) e Motocontínuo (1983). (ARAÚJO, 2012, p.1022)
As gravuras de Rossana funcionam como matrizes mágicas, que, não obstante sua contemporaneidade, nos fazem descobrir um mundo impregnado de sensibilidade peculiar. Em suas linoleogravuras dos anos 1980 podemos destacar três ciclos: o literário, o reflexivo e o cotidiano. As referências expressam a qualidade de os seres e coisas corriqueiras que transgridem o prosaico para serem metapoemas, resgatando o tempo da infância, ela não só expressa o fascínio pelo preto e branco como também reafirma seu discurso metalinguístico. Suas obras têm no símbolo e no questionamento, marcas registradas que permanecem indeléveis ao longo de sua trajetória como artista plástica, caracterizada por seis grandes fases que se interpenetram.
Na 1a Fase, enfoca a mulher como personagem principal, ela consegue envolvê-la no sutil mistério entre tensão e o silêncio que precede a ação. Na 2a fase, adensam-se as relações simbólicas, partindo de um caderno de anotações – espécie de diário existencial – registra por intermédio de desenhos e textos poéticos seus sonhos e experiências, misturando elementos de naturezas opostas, mediante a simetria da composição, interliga-os geometricamente e, em sentido amplo, presentifica o universo. Rossana, conta em sua tese de mestrado, que toda a experiência gerada pelos processos de anotações e criações eram produzidos para cadernos temáticos e específicos de viagem, que funcionavam com um lugar onde breves recortes do mundo eram possíveis (GUIMARÃES, 2011, p.97). Interessa-se por mitologia, especialmente por Narciso numa busca pelo reconhecimento de si mesma, eco, que se referia à reflexão sobre a obra pela cosmologia e o mistério do caos. (ver figura 1)
FIGURA 1: Narciso. Linoleogravura, 15x10cm, 1987
Fonte da imagem: Rossana Guimarães (Tese Mestrado)
Na 3a Fase, que pode ser denominada como Homenagem à Rosa, aprofunda o percurso dinâmico das polaridades. Torna possível nesta fase a busca da tridimensionalidade que se materializa em objetos como caixas de madeira com rosas e latão, as pesquisas bidimensionais prosseguem na mesma temática, as peças tridimensionais funcionam como mandalas, centros de energia, que se relacionam com seus pólos, a exemplo de punhais, associados à ideia de sacrifício, as formas se repetem como música minimalista, conforme Adalice Araújo tece o descritivo de materialidade das obras da artista.
Então na 4a Fase, sem abandonar o bidimensionalismo, Rossana se funde na amostragem triunfante da tridimensionalidade, utilizando como material o alumínio policromado na Mostra de Objetos (1987), no MAC-PR, a artista apresenta dois tipos de propostas: os “metais” propriamente ditos – jogos de construção / criação que se originam das caixas de flores para se expandirem no espaço, na livre recuperação do corte, da obra e da cor; e os “warables” – esculturas penduráveis e vestíveis, gestadas em indumentárias de teatro, que passam a construir linguagem independente que une espirituosidade e ironia.
Já na 5a Fase, Guimarães, perseguindo a sua pesquisa objeto em alumínio, consegue na instalação “Escudos Coração” (1991), nos apresentar um clima especial de grande força sígnica. Em meio a grande crise que o país atravessa, a artista trabalha pela redenção poética, por intermédio de corações de anjo, de lobo, de lata, de pedra, do sagrado coração, ela propõe enigmas visuais que desnudam os caminhos e descaminhos do ser humano. Obra “Coração de Anjo” concebida em dois níveis: poético e formal, tem como proposta adentrar a 6a Fase da artista.
Os objetos formadores da 6a Fase fazem parte de sua trajetória na Casa da Imagem, em 1992, as peças libertas da pintura assumem a cor do próprio alumínio, trabalhos com lixas, rompem a frieza do metal, para incorporar a maciez de pétalas de rosa, das asas dos anjos/pássaros, valorizando a magia dos reflexos de luz e das transparências policrômicas do espaço em seu entorno. São peças ou estruturas geométricas, que se unem à poética do momento, adentrando sua ambiguidade na busca da obra aberta, ultrapassando o sentido narrativo, para cultivar a capacidade de metamorfose da forma, sua flexibilidade, seu livre desdobramento no espaço. De fato a forma, se desdobra em inúmeras leituras podendo ser pétala, flor, chama, coração, asa de anjo, pássaro, raia, pipa, coluna grega, veste, sagrada.
FIGURA 2: Coração da Mata. Escultura em ferro, 300 x 120x 90 cm, 1991
Em 1992, a artista participa com a proposta Cuore di Rose, (ver figura 2) do projeto de Escultura Pública em comemoração aos 300 anos de Curitiba, sua escultura no Parque Barigui constitui-se de uma estrutura em forma de coração que abriga organismos vivos, roseiras, constituindo uma sensível linguagem iconográfica, a estrutura age como centro vital do universo, enquanto as rosas cantam o seu nome à natureza e à capital paranaense. É também selecionada com a série Corações entre os 25 finalistas que compuseram a Mostra Brasil na X Mostra da Gravura / Cidade de Curitiba, participando da Sala de Escultores que praticam gravura.
FIGURA 3: Título: “Soul” , Técnica: Pintura – acrílica e folha de ouro sobre madeira, 225 x 196x 5,5 cm, 1966
Fonte da imagem: Acervo MUMA – Artista: Rossana Guimarães
DESENVOLVIMENTO
Pensar a trajetória de Rossana Guimarães significa percorrer processos e fases que atravessam gerações e continuam perpetuando com clareza e felicidade sua arte, a artista tem como propósito de percurso e pensamento, a experiência integral com sua arte, pensando em sua própria qualidade estética.
Sua obra “Soul” (1966), que consta no acervo do MUMA (figura 3) é uma pintura acrílica e folha de ouro sobre madeira. Faz parte da coleção do museu desde sua doação pela artista, é uma obra representativa e traz a singularidade da visão criativa que nos transmite um objeto ou a natureza no caso desta pintura que mede 225 x 196 x 5,5 cm, integrou a Exposição Contrapontos do Museu Metropolitanos de Curitiba – MUMA (2001), e a Exposição ‘A Arte Brasileira nos acervos de Curitiba’ (2010) um percurso junto aos museus da Fundação Cultural de Curitiba – FCC, no Solar do Barão.
Participou de seu primeiro salão de artes em 1979, recebendo um prêmio pelo conjunto de obras apresentadas no VII Salão de Artes do Centro Federal de Educação Tecnológica (CEFET), o objetivo da mostra era despertar para a valorização estética. O destaque nos trabalhos que foram inscritos sob três proposições: o salão ficar com as obras selecionadas, tendências surrealistas e de vanguarda (alunos do CEFET), os clássicos, ingênuos e coloniais (estabelecimentos convidados). O trabalho de Rossana, aluna da Escola de Belas Artes “Sem Título” foi considerado o melhor do 7º Salão de Artes do CEFET, concorrendo pela categoria Proposição Visual e premiado com 6 mil cruzeiros.
Nas exposições em Ponta Grossa (PR) participou em 1981 no Centro de Criatividade da Universidade de Ponta Grossa, com três trabalhos individuais, a mostra contou com a participação de oito artistas (Fernando Canalli, Maeve Canobravo, Geraldo Leão, Douglas Mayer, Bernardo Matos, José Roberto Costa, Solange de Cácia e Rossana Guimarães). Em o Nicolau, jornal cultural que circulou em Curitiba por 11 anos de 1987 a 1998, e contou com a participação de muitos artistas da geração 80 para resguardar o acervo cultural da época, como se observa na citação abaixo transcrita:
FIGURA 4: Título: Objeto – Alumínio policromado, 1987– 100 x 80x 15 cm
Fonte da imagem: Lilian Gassen (Tese Mestrado)
Rossana instaura a perplexidade pelo modo simples com que coloca questões cruciais das artes deste século, quando sem se dizer “estruturalista” monta toda uma conversa com a estrutura da obra comentando a sua construção (malhas símiles do tecido textual). (BUENO, Ed. Nicolau. Curitiba, ano I, n.3 p.16, set. 1990)
Rossana Guimarães, é uma artista múltipla que a cada realização artística se reinventa e nos fascina com sua riqueza de criatividade, seja, em suportes bidimensionais, tridimensionais, performances ou música. Nasceu em 1958, participou de memoráveis exposições coletivas e individuais, atuou no teatro, doou seu carisma e experiência como professora de gravura e escultura na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (EMBAP).
A construção de sua carreira artística e a busca pela percepção da arte que sempre pulsou em sua vida, faz notarmos a intensidade das diversas ações que vivenciou no campo acadêmico e artístico.
GASSEN (2007) aponta em sua tese de mestrado uma passagem da experiência de Rossana sobre a ruptura com as molduras dos quadros típicos de pinturas, formas mais tradicionais de apresentar uma peça ou obra artística, em que a artista Rossana Guimarães, deixa esta prática ao trazer um ‘objeto’ para ser exposto em galeria ou até mesmo vestido:
(...) Rossana Guimarães, passa a incluir todos os elementos da obra – categoria estética, materiais e técnicas, título, modo de expor – de modo a ressaltar suas características de objeto físico, como um corpo no espaço. A partir daí, a obra de arte não poderia mais ser emoldurada ou colocada em um pedestal, separada do espaço que a circunda e do sujeito que a observa. Essa é a situação que temos com Objeto, obra de Rossana Guimarães, realizada em 1987. É um trabalho em alumínio policromado, com 80cm de largura, 100cm de altura e 15cm de espessura, feito para ser exposto na parede, mas que também pode ser vestido pelo observador; além de apreciá-lo, podemos usá-lo.
O mesmo ocorre com a obra “Niké”, não há uma superfície sobre a qual se desenha, na qual vemos uma imagem – de um rosto, de uma carroça. Essa obra é apenas a superfície. No entanto, ela não é plana, é algo que se curva, se desenha sobre a superfície: é a superfície que se desenha, no espaço tridimensional da obra. Niké, 1992, medindo 120 x 110x 60 cm, é um objeto artístico em alumínio escovado, é o nome grego de uma deusa da antiguidade, chamada de Victória pelos romanos. Costuma ser representada como uma mulher de asas, coroando com folhas de louro vencedores de batalhas ou compleições esportivas. Ao observar a obra percebemos algo de humano em sua forma.
Também, não podemos deixar de relembrar de suas máscaras corporais, usadas como figurino de teatro, peças que saltavam aos olhos pelo palco, em 1986 na estreia do “Auto do Automóvel”, do grupo Zen Rumo, no miniauditório do Guaíra. Em um texto independente, “A mais”, Rossana apresentava uma estilização de figurino suas ‘máscaras corporais’ ou ‘cascas’ alegóricas a vestir atores. Cascas que ela mesma confeccionava, expandindo sua expressão da mera criação no palco, para a pintura e o recorte escultural em papelão.
O impacto visual foi tão grande, a comunicação com o público tão perfeita, que Rossana, que há muito tempo já trabalhava com objetos em suas telas, sentiu que ali estava a continuidade de sua própria pesquisa como artista plástica: o vestido era um objeto independente, funcionava sozinho, tinha uma carga de ideias, leitura própria: um quadro que daria para pendurar e vestir no palco, trabalho que pode ter o próprio corpo como suporte. A suprema ousadia do artista que quer ver o espectador fundido na obra e a obra fundida nele mesmo.
GEMAEL, fala em seu artigo que Rossana e duas atrizes, subiram no palco, dublaram e gesticularam vestidas de papelão e... desbundaram. Os vestidos, que tem perucas e até complementos, tem um caráter lúdico muito forte: a boneca de papel de vestir está aí neste momento, saída da infância de toda mulher, e está lá também, a ‘máscara’ ou caricatura do concurso de miss, da debutante, do consumismo feminino.
Recortado, pintado com tinta acrílica, chapado, às vezes dotado de babados, feitos de renda de papel daquelas de enfeitar pratos de bolo, os vestidos criavam muita ilusão. E Rossana navegava nessas ilusões: fez a mulher punk, a noiva dálmata branca com pintas pretas, a mulher peixe, uma princesa… Versões românticas e ao mesmo tempo jocosas, de um discurso muito feminino que Rossana mostrou no palco na época.
A ideia de cobrir o corpo é antiga, é impossível deixar de lembrar das armaduras, ao ver os vestidos. Mas estes vestidos não protegem, ao contrário, expõem e abrem caminho para um jogo divertido de criação, imaginação e vida, que criam personagens. Neste momento Rossana se debruça neles e leva sua antiga pesquisa em direção ao metal, compondo um “guarda roupa” muito cobiçado no teatro Guaíra.
CONCLUSÃO
A artista Rossana Guimarães, acredita que devanear através das histórias que suas tias lhe contavam e também a música que era própria de sua casa, lhe deram maravilhamento pela vida, um aprendizado ímpar que a conduz a uma viagem de encantamento que culminou em suas experiências artísticas e de vida.
As obras de Rossana, vão permear a tripla ligação: imaginação, memória e poesia, que situam valores de uma infância cósmica, e a partir dessa ligação que a artista pode transformar seus devaneios nos proporcionando através de sua arte um pouco de seu universo.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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_____ . Editorial. Nicolau. ‘Rossana Guimarães’. Curitiba, ano I, n.8, p.4, fevereiro/1988.
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_____ . Editorial. Nicolau. ‘Rossana Guimarães’. Curitiba, ano III, n.24, p.16, p.27, junho/1989.
CRÔNICAS DE ARTE AÇÃO. Base de dados sobre Arte de Ação na região de Curitiba,PR. ‘Rossana Guimarães’ 2019 . Disponível em <https://cronicasarteacao.art.blog/arquivos-do-mac-parana/rossana-guimaraes/> . Acesso em 29 de novembro de 2023.
FERES, Gilce Chueire Calixto. O processo de criação e construção do conjunto de obras Vestidos, de Rossana Guimarães. Monografia (Curso de Especialização em História da Arte do séc. XX). Escola de Música e Belas Artes do Paraná, Curitiba, 2003.
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VICENTINI, Daniela; BURJATO, Fernando. Arte brasileira nos acervos de Curitiba. 2010. Segesta Editora 204p. Principalmente il., 22x27cm.