Denise Queiroz
Marcos Araújo - Thays Beira
Marcos Araújo - Thays Beira
Sem título, Sem data. Fotografia colorida
15,3 x 16,8 cm
A artista negra Denise Queiroz nasceu em Curitiba em 02 de dezembro de 1967. Estudou odontologia na PUC-PR, formando-se em 1991 e trabalhando como auxiliar em cirurgias de trauma facial. Desde estudante frequentava a Feira do Poeta em Curitiba. Segundo Adalice Araújo, “Junto à equipe de arqueólogos do Museu Paranaense, pesquisa Patologia Pré-Histórica como bolsista de Antropologia Física do CNPq – Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, outra forte vivência que deixa transparecer em sua arte”. No Solar do Barão em Curitiba onde fez oficinas de gravura e artes com Dulce Osinski, Ricardo Carneiro e Raul Cruz. Seus estudos de arte continuaram com Eliane Prolik, tendo participado da ação “7 mulheres ocupam o espaço”. Também tem aulas com Geraldo Leão de quem permanece amiga até o fim da vida e que detém parte do acervo da pintora, bem como fotos e cartas. (MONACO; BATISTA)
Mais tarde, diante da mostra “Arte Atual de Berlim”, promovida pelo MAC-PR decide se tornar pintora, especialmente por conta da obra de Gernot Bubenik, com quem manterá contato e depois conhecerá na Alemanha, frequentando seu atelier e casando com ele, outro detentor de muitas obras da artista.
Sem título, Sem data. Fotografia colorida
15,3 x 16,8 cm
No Brasil, antes de viajar para a Alemanha ainda faz sua primeira e única exposição individual “Aqui, corpo e obra são 1:1” (1992), realizada no MAC-PR.
Instalada em Berlim, entra na Escola de Belas artes da cidade, mas um câncer no útero e nos ovários a impede de trabalhar. Apesar do otimismo inicial na recuperação, quando desenganada vem para o Brasil para ficar com sua mãe e amigos, retornando à Alemanha para falecer em 1994.
Depois de sua morte Gerrnot vem para Curitiba e doa peças para o MuMa numa exposição póstuma. Uma exposição posterior, no MUSA da UFPR, chamada de “Christofêmea” (a partir da obra Ac.371841) retomou suas principais obras, mostrando seu trabalho para uma nova geração, que passou a ver a transgressão da artista como vital para o estabelecimento de um discurso feminista e negro nas artes paranaenses, apesar de a artista não colocar as questões de gênero e raça tais como seriam colocadas três décadas depois e não sabemos o que a artista estaria fazendo, mas hoje as projeções sobre sua obra realçam esses aspectos mais que o fazer em si da body painting ou do valor e sentimento do ser humano esmagado pela doença. Assim, a pintora aparece como precursora e inspiração para artistas mulheres, negras, mas também precursora da forma de pintar com o corpo e o corpo de maneira quase impessoal, já que são auto retratos do corpo e não do rosto em si da artista.
Cristo Fêmea, 1994. Pintura sobre tela, 200 x 160 cm
Sem título, Sem data. Fotografia colorida, 15,3 x 16,8 cm
A obra de Queiroz lida com um tema central inicial que é o próprio corpo da artista. Da mesma forma que Yves Klein usava o corpo da mulher para pintar sobre tela, tecido ou papel, ela usa o seu próprio corpo para imprimir impressões sobre materiais que ficam impregnados de tinta vermelha que nos remete ao sangue. Esse primeiro aspecto da obra se mostra revolucionário, pois ao contrário das experiencias de outras artistas como Ana Mendieta, que fazia uma pintura controlada, o corpo de Queiroz aparece em movimento, deformado, mas vivo, desigual em sua postura e fixação.
Também suas referências à menstruação são óbvias e refletimos sobre a relação entre o sangue e o feminino, o que nos leva a outro tema central da obra da artista. O corpo de Queiroz, o corpo-feminino, como ela chamava, se expressa sob formas menores e mais caricaturais nas suas ultimas obras, quando desenhos ginecológicos e médicos formam um conjunto de referencias ao universo da doença e da vida de paciente. Talvez por não conseguir mais lidar com liberdade o seu próprio corpo, é com as dimensões menores que é capaz de lidar, sem perder, no entanto, a expressividade. Suas deformações e traços rápidos mostram angústia e desespero na trajetória do corpo-feminino em sua dor final.
Também experimentou outros materiais distintos em assemblagens em forma de vagina ou desenhos e pinturas que se relacionavam com temas religiosos, especialmente diante do sofrimento da doença, como em “Kone/Le sacre coeur” ( Ac.371765) ou como uma noiva em que o coração e o útero e ovários estão ligados por uma costura médica, procedimento pelo qual passou. A cicatriz e a dor se transformam em uma pintura delicada, quase simbolista com a personagem flutuando. São obras chocantes, provocativas, mas com uma estética e poética tão singulares e cuidadas que a obra não emana repulsa ou inconveniência, apesar de sua origem dolorosa.
Sem título, Sem data. Fotografia colorida
17,7 x 23,2cm
Sem título, Sem data. Fotografia colorida
15,3 x 16,8 cm
Por vezes, seus traços são minimalistas nos desenhos, mas carregam forte sentido e sentimento, como na personagem que tira seu próprio coração e oferece a alguém não presente. (Ac.371868)
O Museu Municipal de Arte de Curitiba tem em sua reserva, quase trinta obras da artista, sendo o maior acervo da artista num museu municipal do Paraná
ARAÚJO, Adalice Maria de. Dicionário das Artes Plásticas no Paraná. Curitiba: Edição do Autor, 2006. Disponível em: https://www.artesnaweb.com.br/index.php?pagina=home&abrir=arte&acervo=1501
Museu Municipal de Arte de Curitiba - MuMA. Acervo. Disponível em: https://pergamum.curitiba.pr.gov.br/pergamum/biblioteca/index.php#sobe_paginacao
QUEIROZ, Denise. Catálogo da exposição. Av. Candido de Abreu, 526. Curitiba, 1992. Disponível em MAC: Curitiba, PR.
Cristine Siqueira, Jean Jean e Matheus Hartman. QUEIROZ, Denise. Denise Queiroz: Christofêmea. Catálogo da exposição - MUSA: Curitiba PR, 2019. Disponível em: http://www.musa.ufpr.br/imagens/exposicoes/2019/Catalogo%20Christofemea%20- %20MusA.pdf
Rafaela Dittrich Guebert Stephanie Dahn Batista. Denise Queiroz (1967-1994) e sua poética do corpo. http://www.musa.ufpr.br/download/2021/Rafaela%20D.%20Gubert_Denise%20Queiroz%201967-1994%20e%20sua%20poetica%20do%20corpo.%20Rafaela%20D.%20Guebert.%201.pdf
BATISTA, S. D. & MONACO, O. L. CORPO, GÊNERO E AUTOBIOGRAFIA: UMA ANÁLISE DA OBRA DE DENISE QUEIROZ. http://www.musa.ufpr.br/download/2021/Oriana%20di%20Monaco_CORPO%20GeNERO%20E%20AUTOBIOGRAFIA_%20%20UMA%20ANaLISE%20DA%20OBRA%20DE%20DENISE%20QUEIROZ.pdf.