Caroline Tamplin
Gislaine Lopes dos Santos - Thays Beira
Gislaine Lopes dos Santos - Thays Beira
Imagem 3 – Autor desconhecido. Retrato de Tamplin.fonte: https://www.tocacultural.com.br/
Esta pesquisa busca resgatar parte da vida e obra de Caroline Tamplin, que foi uma artista e imigrante britânica que viveu no Paraná na segunda metade do século XIX. Tamplin, veio ao Brasil juntamente com o marido e os filhos, em 1868 foi encaminhada para a colônia Assunguy. Em 1874, seu marido falece, mas ela decide permanecer na colônia por mais seis anos, atuando como professora em uma pequena escola localizada no núcleo do Turvo.
Em 1880, na companhia de dois filhos, Mildred e Frederick mudou-se para Curitiba, onde passou a trabalhar para um segmento particular da sociedade curitibana constituído por famílias de luso-brasileiros e imigrantes bem sucedidos, onde lecionava aulas de inglês, francês e alemão, e ensinava desenho, pintura e piano para membros da alta classe. (GILLIES, 2010) Caroline, possuía um diário, onde registrava desde os acontecimentos importantes de sua vida até seu dia-dia, o que permitiu que fosse possível saber-se um pouco mais sobre a artista no período em que residiu no Paraná.
“Em seu Diário, Caroline Tamplin registra seus esforços diários, profissionais e sociais, para manter-se e aos filhos dentro de um padrão de vida civilizado, com a preservação de hábitos cotidianos, muitos dos quais praticados em Londres à mesma época.” (GILLIES, 2010, p.4) De acordo com Ana Maria Rufino Gillies, em sua tese de doutorado intitulada “O DIÁRIO DE UMA IMIGRANTE BRITÂNICA NO PARANÁ (1860-1890): MEMÓRIAS, TRABALHO E SOCIABILIDADES” (2010), explica:
“Tomamos os atributos culturais de Caroline Tamplin como indicativos de seu pertencimento a classes sociais mais elevadas na Inglaterra. (...) A memória familiar indica que o marido de Caroline, Albert, possuía uma fábrica de penas (canetas) que, ao falir, não deixou-lhe outra alternativa senão aproveitar a oportunidade que se apresentava de vir para o Brasil.” (GILLIES, 2010, p.5)
Diferentemente de muitas imigrantes que quando ficavam viúvas retornavam ao seu país de origem, Caroline decidiu permanecer no Brasil:
“Embora viúva, Caroline permaneceu na colônia até 1880, atuando inclusive como professora em uma pequena escola montada em suas terras. A escola era subsidiada pelo governo provincial, mas as fontes mostram que até mesmo a solicitação de recursos mínimos, como livros, encontrava resistência para o atendimento, a mesma resistência para enviar à professora o pagamento das gratificações que lhe seriam devidas.” (p.8)
“Caroline ficou e procurou ser bem-sucedida não só pelos atributos culturais que possuía, ou por ser de origem britânica numa sociedade razoavelmente anglófila, ou mesmo por possuir o savoir-faire para o convívio na alta sociedade. Ela ficou, possivelmente porque compartilhava de muitos dos valores daquelas pessoas em posição de incluir ou excluir indivíduos dentro de seu grupo mais amplo. Um desses valores era a religiosidade.”
“Durante o período coberto pelo seu diário, Caroline professava a fé católica. Frequentava assiduamente a igreja, registrava o santo do dia no diário, cultivava a amizade dos padres católicos e até do alto clero. Em Dezembro de 1881, ela foi crismada, tendo como madrinha, Dona Mariquinhas filha do Dr. João Manoel da Cunha, com cuja família os Tamplin mantinham laços estreitos de amizade. Na semana seguinte, Caroline foi madrinha de Crisma de Ritinha, filha de Dona Augusta Negrão.”(p.14)
“Para Tamplin, estar entre os estabelecidos significou não apenas gozar de prestígio entre parte da boa sociedade curitibana, mas manter o convívio, preservar as formas de vinculação, para si e os filhos, através de estratégias e práticas sociais que se confundiam com o seu cotidiano, aparentemente quase que só voltado para o trabalho.”(p.16)
Algo interessante de se notar é que a forma como registrava seu cotidiano no diário se dava a partir de uma determinada representação de si, como para mostrar que preservava hábitos e um modo de vida como a mesma Caroline que tinha deixado Londres há mais de dez anos atrás.
É importante lembrar que o hábito de escrever diários era muito comum entre as mulheres do século XIX, e que geralmente se planejava antes de escrever, ou seja, era feito uma seleção do que ia se relatar dentre todos os acontecimentos do dia e também se seria um diário mais íntimo ou se seria mais uma forma de registro “documental” como o que Tamplin fez. Pelo menos neste que foi encontrado.
“Uma das ocupações a que se dedicaram mulheres sós de origem burguesa foi a educação, ora abrindo colégios para moças, ora como professoras autônomas que, para dar suas aulas, iam às casas de seus alunos ou os recebiam em suas próprias casas.”(p.45)
Não sendo diferente com Caroline Tamplin que foi professora de línguas, piano, desenho e pintura. “A grande maioria de seus alunos eram mulheres, de todas as idades (...) aprendiam a desenhar e a tocar piano” (GILLIES, p.17). “Poucas moças burguesas não aprendiam a tocar piano ou violino, a cantar, desenhar ou pintar a aquarela. Tais capacidades artísticas eram consideradas habilidades que refinavam a sensibilidade de uma moça e a tornavam socialmente atraente.” (GILLIES, 2010, p.46)
Por mais que Caroline tenha produzido muitas obras, dentre elas, Vista de Curitiba, datada de 1888, publicada na página 98 da obra Pintores da Paisagem Paranaense, nada indica que ela tenha tentando se estabelecer profissionalmente como artista. Porém, isso não a impedia que produzisse muito e também lhe dava uma certa liberdade para pintar qualquer tema: como insetos de jardim, paisagens, construções como hospitais e igrejas, flores, entre muitos outros temas.
FIGURA 2: Detalhe da obra presente no painel. LOPES, Gislaine. 2022
FIGURA 1: Painel sobre Caroline Tamplin localizado no parque Gomm em Curitiba- Paraná. LOPES, Gislaine. 2022
No painel lê-se:
“Caroline Tamplin
Entre os primeiros britânicos de Curitiba está Caroline Tamplin, que aqui desembarcou no final de 1868, com seu marido e seus filhos, para viver na colônia assungui, cem quilômetros distante da capital. De 1874 a 1880 mesmo viúva, ela ainda permaneceu na colônia, trabalhando como professora e enfrentando muitas dificuldades. No final de 1880, ela anunciou seus serviços no jornal 19 de Dezembro e mudou-se para Curitiba. Professora de inglês e francês, piano, canto e pintura, também realizou muitos concertos e conviveu com a elite curitibana. nessa época, pintou aquarela referência da nossa paisagem urbana, mostrando a Catedral em construção, ainda sem telhado.”
Coritiba em 1872. Aquarela sobre papel, 18x 28,5 cm, 1872
A obra em questão é uma aquarela sobre papel, intitulada “Coritiba em 1872", sem data.
“Caroline trabalhava muito; na verdade, era quase compulsiva a maneira como se ela mantinha ocupada, (...) Quando não eram as aulas fora de casa, eram as que ela dava para os filhos, ou as inúmeras tarefas que ela determinava para eles e supervisionava: aulas de francês, italiano, pintura, desenho, música; a prática da leitura em voz alta, o catecismo e a leitura da Bíblia, muitas vezes tarde da noite, mesmo após exaustivos dias de trabalho. O ócio não tinha espaço em suas vidas” (...) (GILLIES, p.117)
Em seu diário, que cobriu o período de 1880 a 1882, Caroline sempre registrava como estava o clima naquele dia, curiosamente a maioria dos dias em Curitiba eram chuvosos, não sendo muito diferente da realidade atual. porém na época de Caroline a pessoas se locomoviam muito a pé, logo um dia chuvoso, com muito barro no caminho atrapalhava a vida pessoal e econômica das pessoas, como acontecia com Tamplin, pois muitas alunas cancelaram as aulas e isso afetava diretamente a renda de Caroline, apesar de muitas dificuldades, ela sempre se demonstrou uma mulher muito forte e persistente que não ficava apenas se lamentando das dificuldades, mas procurava uma forma de driblar tal problema.
Sua casa estava constantemente cheia, ela recebia muitas visitas, hospedava amigos, realizava aniversários e também como possuía um piano em sua casa, algumas alunas iam até sua casa para realizar as aulas.
“Destaque-se que Caroline trabalhava, e muito, mas buscava criar tempo para as relações sociais. Em alguns momentos, ela registrou em seu diário uma agenda muito intensa de acontecimentos. Além das muitas aulas, tem visitas e passeios, saraus e recitais, exposições e teatro, atendimento a doentes, parentes e amigos.”(GILLIES, p.154)
Caroline teve um círculo social extenso durante sua permanência na colônia Assunguy teve que lutar para conseguir sustentar a si e aos seus filhos.
“Como vimos, Caroline conquistou a confiança e o respeito necessários para poder transitar entre as famílias, ensinando, além de línguas, música e pintura, uma cultura com seus modos próprios de pensar e de agir, não devemos nos esquecer que uma parcela dessa mesma sociedade era muito conservadora e ainda se preocupava em definir um papel e um lugar para as mulheres.” (GILLIES, p.150)
Artista pioneira de Curitiba, Caroline Tamplin é lembrada no Ônibus Museu na Quarentena. disponivel em:
https://curitibadegraca.com.br/artista-pioneira-de-curitiba-caroline-tamplin-e-lembrada-no-onibus-museu-na-quarentena/ . Acesso em: 09, dez, 2023
GILLIES, Ana Maria Rufino. Diário de uma imigrante britânica no Paraná (1860-1890) : memórias, trabalho e sociabilidades. Curitiba, 2010. 200 f. Tese (Doutorado em História) - Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes, Universidade Federal do Paraná. disponível em: https://acervodigital.ufpr.br/xmlui/bitstream/handle/1884/24779/TESE%20VERSAO%20POS%20DEFESA%20FINAL%20REVISADA%2012%20OUT%202010.pdf?sequence=1&isAllowed=y. acesso em: 09, dez. 2023.
Imagem 3 – https://www.tocacultural.com.br/post/pintora-pioneira-de-curitiba-%C3%A9-lembrada-no-%C3%B4nibus-museu-na-quarentena Acesso em 09, dez, 2023
Pintora pioneira de Curitiba, Caroline Tamplin é lembrada no Ônibus Museu na quarentena. disponível em: https://ric.com.br/rn24h/arte-e-cultura/caroline-tamplin-e-relembrada-no-onibus-museu/. acesso em 10, dez, 2023.