Julia Mellão . Laura Bortolozzo Silva . Bruno Marcelo Halama . Li Soares
Segundo Pierre Bourdieu, “as diferentes classes e fracções de classes estão envolvidas numa luta propriamente simbólica para imporem a definição do mundo social mais conforme aos seus interesses, e imporem o campo das tomadas de posição ideológicas, reproduzindo em forma transfigurada o campo das posições sociais.” (BOURDIEU, 2009. p. 11)
Neste excerto do livro do sociólogo francês podemos ver a explicação do ato que ele chama de “violência simbólica”, conceito bastante apropriado quando o tema é o apagamento da história não branca da nossa sociedade. Contrário aos esforços de muitos integrantes da classe dominadora do início da cena artística de Curitiba, houve produções artísticas inspiradas e criadas por artistas que, independentemente de seus objetivos, ajudaram a preservar um pouco dessa história que a classe dominadora desejava apagar.
Em seguida estão apresentados alguns desses exemplos.
Água pro Morro é uma escultura em gesso que representa uma mulher negra, sob o morro, carregando na cabeça uma lata de água. Podemos localizar duas réplicas, esculpidas em bronze por Humberto Cozzo, da mesma escultura situadas na cidade de Curitiba, uma na Praça José de Macedo (1996) e outra no acervo do Museu Oscar Niemeyer (2008). Erbo Stenzel autor da obra original formou-se em escultura na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro, cidade onde residiu por 11 anos e também onde conheceu Anita, a moça que lhe serviu como inspiração para a escultura. Anita tinha então 25 anos, trabalhava como modelo e atendente em um café, e mais tarde também ingressou na Escola Nacional de Belas Artes por influencia de Stenzel.
Ambos mantiveram um caso amoroso mesmo com o retorno de Stenzel à Curitiba, quando Anita manteve contato por meio de correspondências românticas, nas quais podemos perceber a forte relação entre o casal, inclusive com o registro de envio de quantias em dinheiro para ela. O fato dele não a trazer consigo a Curitiba deve-se, provavelmente, a dificuldade de relacionamento de Anita (modelo, negra e pobre), com a família dele.
A obra originalmente em gesso, foi primeiro apresentada no Salão Nacional de Belas Artes de 1944 e foi considerada hors concours , ou seja, obra fora de competição, dada a sua qualidade superior. Foi com a sua volta à Curitiba, onde o artista nasceu em 1911, que sua obra foi premiada com a Medalha de Ouro no III Salão de Belas Artes do Clube Concórdia, em 1950.
Hoje em dia, há o debate considerando que uma escultura projetada em um espaço público tende a assumir um caráter de unidade de representação, seja por um ideal, ou por qualquer modelo de valores de uma sociedade, apagando assim, a rica história de vida de Anita, do conhecimento do povo paranaense. Evidência dessa dissonância, entre o teor original da obra e o caráter adquirido posteriormente à exposição no espaço público, é o fato da escultura ser conhecida na cidade por “Maria Lata d’água”, personalidade do carnaval carioca cuja história em nada se assemelha a de Anita. No intuito de resgatar a essência de sua personalidade, a sociedade civil negra da cidade, vêm tentando alterar o título da obra exposta, para o seu original Água pro Morro, e com isso reafirmar a identidade negra no país.
Uma identidade que encontra em Emerenciana Cardoso Neves - Anita, uma mulher negra, formada em Escultura na Escola Nacional de Belas Artes onde ficou conhecida artisticamente como "Anita Cardoso Neves" nasceu no Rio de Janeiro, em 14 de março de 1918. Mesmo que uma mulher negra, carregando na cabeça uma lata de água, tenha sido uma cena talvez comum no Rio de Janeiro da década de 40, não devemos deixar para traz a história real da figura representada, apesar de ser um recorte do cotidiano, esta mulher tem uma incrível história de vida assim como tantas outras mulheres negras que ela representa.
João Pedro, considerado como o primeiro cartunista do Brasil, dedicou-se à produção de aquarelas e ilustrações caricatas de tipos e costumes próprios da região Sul do país. Utilizou suas ilustrações para satirizar costumes típicos sulistas e a vida colonial daquela época. (CARNEIRO, 1975; ENCICLOPÉDIA Itaú Cultural de Arte e Cultura Brasileiras, 2017)
Segundo Carneiro, não se sabe se João Pedro, o Mulato, nasceu em Curitiba ou Paranaguá, entretanto, foi na capital paranaense que trabalhou e morou a maior parte de sua vida, no início século 19, "...admitida a naturalidade curitibana como regional e não citadina” (CARNEIRO, 1975, pg.22). Muito pouco se sabe sobre o artista, apenas que era mestiço, e tudo indica que possuía uma origem humilde devida a omissão do nome da família a sua origem devido as condições socioeconômicas inferiores oferecidas por Curitiba ao final do século XVIII. De acordo com o livro "O Paraná e a Caricatura" de Newton Carneiro, João Pedro foi aluno do carioca Francisco Inácio do Amaral Gurgel – Mestre Régio na Corte de Lisboa em Portugal.
"Não obstante a natural e perceptível ingenuidade no desenho, as aquarelas atestam vivacidade de interpretação, vigor no colorido e inconfundível cunho pessoal." (CARNEIRO, 1975, pg.22)
As aquarelas do artista possuem como característica o teor altamente intuitivo e a preocupação pelo detalhe, a utilização de cores alegres e mesmo com o artista sendo de origem humilde, Newton Carneiro afirma que João Pedro só teria a possibilidade de obter materiais e manejar os pinceis se tivesse tido ensino prévio artístico. (CARNEIRO, 1975, pg.22).
A Igreja do Rosário, assim como outras igrejas em todo o país antes do século XIX, foi fruto da impossibilidade de negros frequentarem a “igreja dos brancos”. Entretanto, era de interesse da instituição católica a integração dessa população de forma controlada e regida pela mesma. Portanto, foram construídas com a aprovação cristã as irmandades negras e os compromissos a elas permitidos. As Irmandades Negras serviriam como um local social e religioso para moradores negros. Em Curitiba, não foi diferente, foi implantado no século XIX com este intuito. Era também proposta uma interpretação, que em meio a esse espaço era efetivo o sincretismo religioso. Entretanto, para o autor Carlos Lima, essa característica ocorria mediante a uma virtualidade de europeização. Ou seja, mantinham uma hierarquia própria dentro das irmandades sem exprimir uma ordem social maior entre os brancos. (2016, p. 156)
Nesse ponto, é importante tomar conhecimento e refletir sobre a quantidade e expressividade da população negra curitibana, visto que evidencia-se no Brasil, ainda hoje, uma tendência a embranquecer a história de modo geral e com a curitibana e de todo o Sul do Brasil, não seria diferente. Em documentos estudados por Silvio Adriano Weber, é possível notar o aumento desse grupo no decorrer do século XVIII em Curitiba, consequência da demanda de escravos para a atividade agrícola da pecuária (WEBER, 2005). Notando-se a invisibilidade negra, ainda mais ofuscada por discursos como o de Nina Rodrigues, que negava a cultura negra no Sul do país e exaltava a vinda de imigrantes europeus desse período. (SCIREA apud Costa, 2016, p. 160)
Muito disso ocorria paralelamente ao fim da escravidão no Brasil, e era necessário (visto que, em Curitiba era inegável a história escravagista) para uma hegemonia branca a uma narrativa civilizadora a partir da chegada dos europeus a região. Entretanto, já no final do século XIX, era aderido pelas elites, teorias do racismo científico que desconsiderasse as outras etnias (entre elas os indígenas também) e mantivessem seus privilégios. (SCIREA apud Costa, 2016, p. 161)
Visto isso, a principal motivação desse estudo se apoia na estrutura física e artística da Igreja do Rosário, a qual abrigaria a Irmandade. Ainda, é importante salientar a dificuldade de pesquisa perante o desaparecimento de documentos referentes a estrutura no “Arquivo Público do Estado do Paraná”, refletindo assim o valor que é dado (ou falta dele) a história negra curitibana. Isso demonstra o quanto a ancestralidade negra foi e é negligenciada perante a conformação de uma narrativa se tornou hegemonicamente branca. Desse modo, perpetuando no imaginário local e nacional de que o Sul é um Sul branco. (SCIREA, D. F.; VIDAL, L. A. P. et al, 2016, p. 162)
Os autores Kevin Lynch (1996) e Giulio Argan (1984), propõem a capitalidade, a observação do entorno da Igreja e sua conversa com os demais edifícios no local. Assim, nos interessa observar a primeira construção da Igreja do Rosário, por volta de 1737, com o nome de “Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos de São Benedito”, a qual não tinha grande estatura e mesmo que posicionada em um relevo alto da cidade, não possuía destaque perante outras torres e acaba por ser demolida em 1937 pelo seu péssimo estado de conservação. Sua reconstrução foi em 1938, e depois disso, passou por sucessivas reconstruções e modificações em sua estrutura, ocasionando um total desaparecimento da igreja original construída por escravos negros, e levando pouca informação além da existência de uma nave central, rosáceas e janelas laterais, em Estilo Colonial e semelhante ao romântico, acrescida por uma torre e vitrais que antes não existiam. (SCIREA apud Lynch e Argan, 2016, p. 162)
A Igreja do Rosário poderia ter sido a resistência dessa população não branca curitibana, ou apenas símbolo da reprodução de um discurso escravista que incitava uma união religiosa que propositalmente mantinha-os afastados da união contra o sistema que os oprimia. Isso não ocorreu. E gradativamente esse espaço que outrora foi destinado aos negro (na forma de um apartheid), desde a chegada de imigrantes europeus e o inicio de uma narrativa de uma Curitiba "civilizada" e mais branca, passou a ser frequentado por outros grupos que poderiam morar no centro de Curitiba e desfrutar da Igreja histórica do Rosário.
A TERRA DE SANTA CRUZ, 19 Nov. 2020. Facebook: A Terra de Santa Cruz. Disponível em: https://www.facebook.com/BrasilisRegnum/posts/682865529283888/. Acesso em: 16 de Jun. 2021.
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ARGAN, G. História da Arte como História da Cidade. Martins Fontes, SP, 1984.
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Tradução: Fernando Tomaz. Rio de Janeiro, 2009.
BRAGA, Ubiracy. Maria Lata d’Agua – A Nudez da Memoria. Blog não passarão, 4, setembro. 2018. Disponível em: https://blognaopassarao.blogspot.com/2018/09/maria-lata-dagua-nudez-da-memoria.html?m=1 Acesso em: 10 de agosto de 2021.
BRASIL, Eliana. “Água pro morro”: A História e a identidade da artista brasileira que foi apagada. Brasil de Fato, 2021. Disponível em: <https://www.brasildefatopr.com.br/2021/04/01/agua-pro-morro-a-historia-e-a-identidade-da-artista-brasileira-que-foi-apagada>. Acesso em: 4 de jun. de 2021.
CALDAS, Ana Carolina do. Mulheres negras pedem reparação histórica á escultura no Centro de Curitiba. Brasil de Fato, Paraná, v. 206, p. 4, abr. 2021. Disponível em:<https://issuu.com/brasildefatopr/docs/brasil_de_fato_pr_-_edi__o_206.> Acesso em: 4 jan. 2021.
CAMARGO, Geraldo Leão Veiga de. Esculturas públicas em Curitiba e a estética autoritária. Revista de Sociologia e Política. Curitiba, n. 25, p. 63-82, jun. de 2021.
CARNEIRO, Newton. O Paraná e a Caricatura. MAC, 1975. Disponível em: https://docs.google.com/document/d/1hGyENmJavHeCwoaxExW1LHbcoyiVjtBFODGHDhpDB0g/edit?usp=sharing Acesso em: 16 de Jun. 2021.
COSTA, Hilton. Ilusão de ótica: presença negra e imigração para o sul do Brasil nas análises de Raymundo Nina Rodrigues e Sílvio Romero. In: V Encontro Escravidão e Liberdade no Brasil Meridional, 2011, Porto Alegre, 2011.
IMAGENS "Mulato Pedro" - João Pedro e os artistas não brancos:
§ "Sinhazina do Cairê dando passeio para a Missa de Coritiba." - https://museuafroparanaense.wordpress.com/2016/02/10/joao-pedro-o-mulato/ Acesso em: 16 de Jun. 2021.
§ Imagem 1 - "O Sargento Mór da Milicia de Paranaguá dando despacho e andamento aos feitos atrasados." - https://www.facebook.com/BrasilisRegnum/posts/682865529283888/ Acesso em: 16 de Jun. 2021.
§ Imagem 2 - "Cavalaria de Coritiba." - https://museuafroparanaense.wordpress.com/2016/02/10/joao-pedro-o-mulato/ Acesso em: 16 de Jun. 2021.
§ Imagem 3 - "Água sinhá de Paranaguá." - https://www.facebook.com/BrasilisRegnum/posts/682865529283888/ Acesso em: 16 de Jun. 2021.
IMAGENS "A Igreja do Rosário"
§ Imagem 1 - http://www.curitiba-parana.net/patrimonio/igreja-rosario-antiga.htm Acesso em: 12 de Jun. 2021
§ Imagem 2 - http://www.curitiba-parana.net/patrimonio/igreja-rosario-antiga.htm Acesso em: 12 de Jun. 2021
Imagem 3 - http://www.curitiba-parana.net/patrimonio/igreja-rosario-antiga.htm Acesso em: 12 de Jun. 2021
João Pedro, cartunista afro curitibano. Museu Afro Paranaense, 2016. Disponível em: https://museuafroparanaense.wordpress.com/2016/02/10/joao-pedro-o-mulato/. Acesso em: 16 de Jun. 2021.
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PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. Disponivel em:https://www.estantevirtual.com.br/livros/roberto-pontual/dicionario-das-artes-plasticas-no-brasil/1547348635?livro_usado=1&b_order=preco&gclid=CjwKCAjwzruGBhBAEiwAUqMR8GJwE4O9ERuGZxAK68_EhvYZrHo5e2U8mSiKX4puCVMtySLBE1PpAxoCFi8QAvD_BwE (sinto muito mas não encontrei PDF, tive que ir na minha biblioteca local para encontrar este livro). Acesso em: 16 de Jun. 2021.
SCIREA, D. F.; VIDAL, L. A. P. et al. A Irmandade do Rosário em Curitiba – A obliteração dos negros na história da cidade. Cadernos de Clio, Curitiba, v. 7, nº. 2, p.155-169, 2016.