Possivelmente o aspecto mais distinto dos S&P em Purim é que a dignidade na sinagoga é mantida apesar da natureza festiva e alegre do dia.
Embora seja um costume consagrado em muitas sinagogas, Ashkenazi e Sefaradi, fazer barulho durante a leitura de Megillah quando o nome de Haman é mencionado, em alguns casos, bastante barulhento e frívolo em todo o serviço, isso nunca aconteceu nas comunidades de S&P, onde seriedade sempre foi um valor abrangente.
Rabbi Moshe Isserles ("Rema", século XVI Polônia) recorda a prática de muitas comunidades em que as crianças escrevem o nome de Haman em duas pedras macias ou pedaços de madeira e bate contra elas até que a escrita seja obliterada. Rabbi Leon de Modena (século XVII Veneza) similarmente reporta que era costume das pessoas escreverem o nome de Haman debaixo da sola de seus sapatos e então bater com o pé toda vez que Haman é mencionado durante a leitura da Meguilah. Mas recentemente matracas de madeira (ou chocalhos), datando da França e Alemanha do século XIII, largamente substituiu o costume de pisotear. Em nossos dias, fogos de artifício são levados ilicitamente para dentro da sinagoga, embora esse seja certamente um costume perigoso que deva ser universalmente condenado como um sério perigo para todos, especialmente idosos e frágeis.
Fazer barulho na menção de Haman foi por nenhum motivo aparente aceito pela maioria, especialmente pelas pessoas que continuam fazendo barulho quando o Baal Kore retorna a leitura da Meguilah, tornando assim impossível aos congregantes cumprir sua obrigação (de ouvir toda a leitura). Adicionalmente isto foi considerado quebra de decoro da sinagoga em 1866, a kehilah de Rogasen em Posen, Polônia, promulgou uma série de regras comportamentais dentro da sinagoga e incluiu a proibição de usar matracas (chocalhos ou qualquer outro objeto que emita ruído) na sinagoga durante Purim. Em comunidades iemenitas também era proibido fazer barulho ao contrário do decoro da sinagoga aceito.
Em 1783, o Mahamad(conselho) das Sinagogas Hispano Portuguesas de Londres ordenou que
In 1783, the Mahamad of the Spanish and Portuguese Congregation of London decidiu que qualquer pessoa que causasse perturbação durante o serviço de Purim seria "convidado a se retirar" da sinagoga.
Enquanto Purim é um feriado divertido e festivo - particularmente para a geração mais jovem - é perfeitamente razoável ensinar a nossos filhos que há momentos e lugares para exuberância e leveza, e há momentos e lugares que santificar o decoro é mais apropriado. Isto pode, no entanto, ser impreciso sugerir que nada mudou desde 1783, apesar da solenidade, a atmosfera de Purim certamente "relaxou" consideravelmente desde então!
No Shabat Zachor (o shabat antes de Purim, quando a parashat Zachor é lida) os S&P inserem um longo piyut(poema litúrgico) por R Yehuda Halevi em Nishmat Kol Hai. Nishmat contém uma frase retórica "(Deus)Quem é como tu?" (mi chamocha), e isto é usado como introdução do poema, qual o título é " quem é como tu? Não há nada como tu!", louvando a Deus pelos milagres da história de Purim. Muitas outras comunidades Sefaradi também cantam este poema no shabat, mas fazem isso um pouco antes da leitura da Torah. Unicamente os S&P dizem neste lugar específico, antes do Nishmat Kol Hai. Como o Keter Shem Tov aponta, isso está de acordo com o costume geral da S&P de manter a poesia litúrgica no local pretendido, em vez de considerá-lo uma interrupção da tefilah e adiá-lo até o final de um serviço. Os S&P fazem o mesmo com vários poemas litúrgicos nos Grandes Dias Santos (rosh hashangna e kipur).
Ao longo dos anos, sob a influência da cabala, mais e mais comunidades mudaram esses poemas para fora de seu local e contexto originais, e os cantam no final do serviço - onde são incongruentes e desajeitados. Um dos campeões nessas mudanças é o Hidah (R. Haim Yosef Azulai), outro é o Ben Ish Hai (R. Yossef Haim Baghdadi), e em nossos dias R. Ovadiah Yossef também era um entusiasta no assunto, entretanto também apoiou que comunidades com um costume estabelecido não precisem mudar.
Curiosamente, entre os Ashkenazim, há uma ruptura muito semelhante. Aqui havia muito menos influência mística em geral, e os poemas litúrgicos nas orações eram tradicionalmente muito mais difundidos. De fato, quase todas as comunidades inseriram piyutim ("Yotzrot") nas bênçãos do Shema nos Shabatot especiais. Hoje, após toda a influência cabalística sustentada pela chassidut, o costume quase desapareceu, exceto entre os Ashkenazim ocidentais ("Yekkes"), cuja abordagem racionalista tradicional à halachá se parece muito a dos S&P.
No entanto, até hoje, o rito Ashkenazi tem muitos piyutim durante os serviços das "Altas Festas"(rosh hashangna e kipur)
Aqui está o texto completo em um arquivo PDF, escaneado do livro de orações da comunidade S&P de Londres:
Mi Chamocha texto completo (Documento em PDF)
Para mais informações acerca do aspecto musical deste poema, veja na página de Purim do nosso site parceiro aqui
Tâmaras recheadas de Marzipan(uma espécie de paçoquinha) são populares em Purim entre dos judeus S&P Ocidentais , embora certamente de maneira geral, não possuam nem de longe a popularidade de Hamantaschen(orelha de Haman)! Podem ser polvilhados açúcar cristalizado sobre eles ou - preferivelmente - cobertos com uma fina camada de caramelo glacê. Os judeus S&P Holandeses tem um doce cujo o nome é "Huelos de Haman" (orelhas de Haman), também conhecido na Itália como "Sfoglia di Haman". Se trata de uma massa folhada frita e assada plana em uma forma de uma orelha e servida com açúcar polvilhado. isso significa que, além do amplamente conhecido Hamantaschen (Orelhas de Haman), existe ainda outra comunidade que come uma réplica das orelhas de Hamã em Purim! Isto é, suponho, uma pequena misericórdia que pelo menos a versão holandesa não inclua sementes de papoula ou qualquer outra representação da cera do ouvido de Haman (toques de Prof. Dumbledore!). Não se sabe qual a fonte dessa preocupação prejudicial - entre comunidades - com os ouvidos de Hamã, mas, de qualquer forma, posso relatar com alegria que essa obsessão não é evidenciada pelos S&P de Londres.
Não se pode terminar uma discussão sobre o decoro S&P sem mencionar uma referência famosa a este - ou da quebra dele - no diário de Samuel Pepys. A ocasião era Simcha Torah, um dia no qual, como purim, uma certa leviandade entra no processo, uma vez que o Rolo da Torah circula pela sinagoga sete vezes ao longo do serviço, acompanhado por cações e rezas e - sim - uma boa quantidade de bate-papo também:
...after dinner my wife and I, by Mr. Rawlinson’s conduct, to the Jewish Synagogue: where the men and boys in their vayles, and the women behind a lattice out of sight; and some things stand up, which I believe is their Law, in a press to which all coming in do bow; and at the putting on their vayles do say something, to which others that hear him do cry Amen, and the party do kiss his vayle. Their service all in a singing way, and in Hebrew. And anon their Laws that they take out of the press are carried by several men, four or five several burthens in all, and they do relieve one another; and whether it is that every one desires to have the carrying of it, I cannot tell, thus they carried it round about the room while such a service is singing. And in the end they had a prayer for the King, which they pronounced his name in Portugall; but the prayer, like the rest, in Hebrew. But, Lord! to see the disorder, laughing, sporting, and no attention, but confusion in all their service, more like brutes than people knowing the true God, would make a man forswear ever seeing them more and indeed I never did see so much, or could have imagined there had been any religion in the whole world so absurdly performed as this. Away thence with my mind strongly disturbed with them, by coach...
The Diary of Samuel Pepys, Wednesday 14 October 1663
"... depois do jantar, minha esposa e eu, conduzidos pelo Sr. Rawlinson, na Sinagoga Judaica: onde os homens e meninos em seus vayles¹ e as mulheres atrás de uma treliça (mechitza) fora de vista; e algumas coisas se levantam, que eu acredito ser a lei(Torah) delas, numa prensa² à qual todos os que entram se inclinam(como reverência); e ao colocarem seus vayles dizem alguma coisa, a que outros que o ouvem e gritam Amém, e a grupo beija seu vayle. O serviço deles, todo em forma de canto e em hebraico. E em suas Leis que eles tiram da prensa, são carregados por vários homens, quatro ou cinco fardos ao todo, e um alivia o peso para o outro; isto é se é que todos desejam carregá-lo, não sei dizer, assim eles o levaram pela sala enquanto esse serviço era cantado. E no final eles fizeram uma oração pelo rei, que pronunciavam seu nome em Português; mas a oração, como o resto, em hebraico. Mas oh senhor! que desordem, rindo, brincando e sem atenção, confusão em todos os seus serviços, mais parecidos com brutos do que pessoas que conhecem o Deus verdadeiro, faria um homem jurar que não os veria mais e, de fato, eu nunca vi tanto, ou poderia imaginei que houvesse alguma religião no mundo inteiro tão absurdamente executada como essa. Fora daí, com minha mente fortemente perturbada por eles, pelo treinador ..."
O Diário de Samuel Pepys, quinta-feira 14 de outubro 1663
Por mais que sejam decorosos, parece que o decoro de Simhat Torá simplesmente não é o de um culto da igreja do século XVII!