Lembro nitidamente do dia da minha contratação na Microlinea, uma empresa de atendimento técnico em âmbito nacional.
Fui indicado por um cliente que prestava serviços lá e, ao chegar para a entrevista, fui recebido pelo supervisor Caetano, um homem simpático e gentil.
Na mesma sala, porém, estava sentado outro homem: pernas esticadas e cruzadas, braços igualmente cruzados, olhar fixo no chão. Sua postura me deixava desconfortável. Enquanto respondia às perguntas do Caetano, pensava comigo:
"Mas o que esse sujeito azedo está fazendo aqui desse jeito, sem nem perceber que está acontecendo uma entrevista?"
Na minha cabeça, ele só podia estar indignado por estarmos usando sua sala.
Eis que, em meio à conversa, Caetano solta uma frase que me fez gelar:
— “Você vai trabalhar com o Daniel, supervisor de São Paulo.” — disse, apontando justamente para aquele homem de semblante fechado.
Daniel, o tal “azedão”, nem levantou os olhos para me olhar. Eu pensei:
"Pronto. Estou ferrado. Esse cara deve chutar até a própria sombra!"
E para piorar, descobri que minha função não seria técnica, mas administrativa: coordenação dos técnicos de São Paulo e outras tarefas do tipo. Naquele momento, a sensação era de ter “colocado o pé na jaca”. Mas Caetano encerrou a entrevista com um sorriso:
— “Wagner, você começa amanhã. Seja bem-vindo.”
Foi a única hora que Daniel olhou em minha direção. Saí dali pensando:
"Preciso muito do emprego, mas tenho certeza que isso não vai dar certo."
No meu primeiro dia, Daniel mal me cumprimentou. Apenas disse:
— “A Elaine vai te explicar o serviço.”
Elaine foi atenciosa, paciente, mas me despejou uma avalanche de informações: site, planilha, cartas, agendamento… tudo ao mesmo tempo. Eu me sentia um prego perdido dentro de uma caixa de parafusos. 😂
Enquanto eu lutava contra o sono e a confusão, olhava de lado para Daniel: dois telefones no ouvido, falando no MSN, respondendo e-mails, mexendo no celular… uma máquina. E eu, quase caindo da cadeira.
O segundo dia foi ainda pior. Já o terceiro trouxe minha primeira tarefa diretamente do Daniel. Confesso: não entendi nada do que Elaine tinha me ensinado. Precisei correr até ela em busca de socorro.
Quando entreguei a atividade, senti uma ponta de confiança: “Agora vai.” Mas logo veio outra demanda e minha vontade era de chorar. Foi então que desabafei com minha ex-chefe Lêlê, que havia me indicado para a vaga. Ela me deu um conselho de ouro:
— “Wag, anote tudo num caderno. Não confie só na memória.”
Segui o conselho, e foi o que salvou minha trajetória.
Com o tempo, comecei a entender o fluxo. Como sou detalhista e organizado, passei a criar padrões: planilhas, cartas, controle de estoque por região, técnico e chamado. Aos poucos, Daniel passou a perceber meu jeito pró-ativo e começou a valorizar meu trabalho.
O que antes parecia impossível, virou uma grande amizade. Aprendi a “ler” o Daniel: quando estava nervoso, tenso, descontraído. Passei a ser seu braço direito, otimizando suas rotinas e ganhando sua confiança. A admiração que desenvolvi por ele foi enorme: um profissional ético, sério, respeitável, organizado e justo. Viramos praticamente unha e carne.
Quando a Microlinea assumiu um contrato para atender impressoras do Banco do Brasil, o trabalho se multiplicou. Foi então que entrou para a equipe a Lídia — uma mulher espetacular, não apenas bela, mas dedicada, organizada e incansável, respeitável, respeitadora, pró ativa e vestia a camisa com força. Juntos, formamos um trio de peso.
Depois vieram outras colegas, como Angélica, e o Daniel passou a comandar um verdadeiro timão. Foram tempos dourados, de muita parceria, risadas e superação.
Com Lídia, em especial, construí uma amizade profunda. Na época eu estava noivo, prestes a casar, e ela sempre tinha uma palavra de sabedoria. Uma amiga verdadeira, de quem guardo carinho e respeito até hoje.
A Microlinea tinha um ambiente raro: respeito, união e liderança que ajudava, nunca atrapalhava. Foi uma empresa que amei trabalhar.
O único lado negativo era ser prestador de serviços: sem férias e com salário baixo. Depois de casar, isso pesou muito. Recebi uma proposta para voltar ao meu antigo cliente como CLT, com salário melhor e benefícios. Fiquei dividido.
Foi novamente Lídia quem me ajudou a tomar a decisão:
— “Nem sempre conseguimos tudo no mesmo lugar. Às vezes precisamos escolher de forma racional, pensando no futuro financeiro.”
Segui o conselho. Saí da Microlinea com o coração apertado, mas ciente da escolha.
Deixei para trás uma empresa que respeitava seus colaboradores, que me deu amigos valiosos como Daniel e Lídia, meus maiores presentes naquela fase. Até hoje carrego carinho, respeito e gratidão por eles.
A Microlinea ainda existe, e o Daniel continua lá. E eu sigo lembrando dessa história com um sorriso no rosto.