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Quem é quem... quem é o quê?©

 

No inverno, o dia escurece cedo. Gabriel estava aborrecido com isso. O frio e o tempo fechado iam estragar seus planos de ir nadar na casa de Dalila. Havia marcado aquele encontro há dez dias, e agora... Bom, não podia saber que o tempo iria virar tão subitamente Telefonou para ela e acabou marcando um encontro para irem ao cinema. Mal colocou o fone no gancho, seu chefe entra.

“Que bom você ainda estar aqui. Preciso de alguém para ir ver a obra de ampliação do manicômio. Sei que serviço fora não é com você, mas vá lá, quebra o galho. O Justino ainda não chegou da Pampulha e preciso de alguém lá. Vamos entregar a obra na segunda. É apenas para anotar se está tudo legal mesmo.”

“Logo eu? Tá legal eu vou, só desta vez. Eu num manicômio...”

Gabriel pegou um táxi, no que entra, sua carteira cai, e ele só descobre na hora de pagar a corrida. Dá o endereço do escritório e pede ao motorista que o procure, na segunda-feira, para receber. Tocou a campainha várias vezes e ninguém atendeu. Percorreu a lateral direita do prédio e encontrou um portãozinho. Testou a maçaneta: destrancado. Sacudiu os ombros, olhou à sua volta e entrou. Fechou o portão, tentou abri-lo e descobriu que ele só se abria por fora. “Menos mal, pensa, assim, não há perigo de fugas.”

Deu de cara com um enorme pátio, cheio de pacientes. Suas pernas tremeram. Lembrou-se da frase famosa: “Em Roma, como os romanos. É isso. “No manicômio, como os doidos.” Bastou pensar e a sirene tocou. Os pacientes se reuniram e um deles se aproximou e pegou sua mão, dizendo-lhe: “Ô papai, que bom que você chegou. Venha, papai, vamos jantar!” Tentou puxar a mão mas foi inútil. O cara tinha muita força e ele não queria entrar em atrito físico com ele. Não sabia que tipo de doente era. O jeito foi segui-lo. Entraram num restaurante. Duas fileiras de mesas. De um lado, homens, do outro, mulheres. Nunca havia visto homens e mulheres tão separados. Tão perto e tão juntos. “É, deviam ser bem doentes para agirem assim” – conclui. Tomou sopa com eles. O seu pretenso filho levantou o prato e bebeu a sopa. Um enfermeiro se aproxima, chama a atenção do doente, chamando-o de Virgílio. Olha para Gabriel.

“Você é novo aqui?”

“Sou!”

“Por onde você entrou, que eu não vi?“

“Por ali” – disse Gabriel apontando a porta, enquanto Virgílio começa a rasgar a folha de controle da obra.

“Sei. Quem te atendeu?”

“Ninguém. Eu sou engenheiro. Vim ver a obra”

“Não recebi a sua ficha” – diz o enfermeiro pensando com seus botões: “Um engenheiro. Só o que faltava: um engenheiro. Espero que seja o único, senão vão demolir o prédio.”

Gabriel olha para Virgílio, que acaba de comer a folha. Enfurece-se e agarra o rapaz pelo pescoço, sacudindo-o .

“Seu desgraçado, comeu a ficha de controle da obra. Comeu! Seu merda! Comeu...”

O enfermeiro grita, e outros aparecem. Seguram-no à força. Alguém lhe aplica um calmante.

O sol bateu no seu rosto, incomodando os olhos. Coloca o braço no rosto. A cena do jantar lhe vem à mente. Assenta-se na cama. Olha o quarto, está numa enfermaria. Há outras pessoas deitadas.

Um enfermeiro, percebendo seus movimentos, se aproxima, toca a campainha, e o médico aparece, falando consigo mesmo: “Um doido internado sem ficha, sem diagnóstico. Era só o que me faltava para começar o plantão. Não tinha nem documentos, a não ser um papel escrito: ‘Dalila, estou louco por você. ’ Mais nada.” Depois da entrevista, o médico se convence de que ele era esquisito mesmo. Não, uma pessoa normal não podia dar aquele tipo de respostas. Ou podia? O cara quase o convenceu de que era “são”. Quase. Só quando tocou no nome da mãe e ele disse que não combinava com ela, que detestava o quanto ela dirigia sua vida, teve certeza de que ele tinha algum problema. Mas quem o internou? Será que foi a tal da Dalila? Seria ela a mãe dele? Uma irmã? Esposa? Não, esposa não. Ele não usava aliança. Estereótipos. Não entende porque ele estava com a ficha de internação. Será que é cleptomaníaco também? Ia chamar o Virgílio para saber se antes de engolir a ficha ele leu alguma coisa. Se ele souber ler. Mas também ele nada pode fazer, pois é clínico geral, o psiquiatra só virá na segunda-feira ou antes se houver uma emergência.

O fim de semana acabou. Segunda-feira, Gabriel ouve o barulho da obra. Estava salvo. Sai correndo da enfermaria, caindo pelos cantos de tanto sedativo que lhe deram para mantê-lo quieto. Os enfermeiros, tentando segurá-lo. Ele, correndo. Perde as forças e cai. Alguém lhe aplica uma injeção. Na semiconsciência, ouve alguém mandar transferi-lo para uma solitária, como se fosse um preso. “Cuidado com o Anjo” – ouve alguém dizer. Anjo era ele, Gabriel, preso naquele inferno.

No mundo fora dos muros, podia-se ler nas manchetes:

“Filho de deputado federal desaparece. Seqüestro? Vingança?” (pág. 7)

O texto, mais preocupado em falar das atividades pouco honestas do pai do rapaz, pouco acrescentou à chamada da manchete. Ele não era ninguém perto das trapalhadas do pai, que era deputado federal, conhecido no país e no exterior por suas falcatruas. No hospital ninguém deu muita atenção à notícia. Era mais um seqüestro. Mais um.

Alguns meses se passaram. Os médicos descobriram que o Anjo não tinha doença alguma. Tirando as seqüelas da dose maciça de remédios, ele até parecia normal. Continuava dizendo que era engenheiro. Dava até para acreditar. Pena que o abandonaram ali. Nunca apareceu alguém para visitá-lo. Para saber como estava. E agora ele era um problema. Ocupava uma vaga. Ocupava o lugar de alguém mais necessitado. Não podiam pô-lo na rua, simplesmente.

Aos poucos ganhou a confiança e transitava livremente pelo prédio. Fazia pequenas tarefas de pedreiro. Cuidava dos colegas, ensinava-lhes noções de higiene. Era um tipo interessante. Devia ter sido muito inteligente. Agora... agora estava meio pancada.

Um dia, Anjo foi até a portaria fazer uns consertos e viu um telefone. Sentiu-se emocionado. Um telefone. Pegou-o, numa pressa, como se ele fosse aquele último pedaço de bolo, que todo mundo quer, mas todo mundo quer ser educado e deixar para o outro comer. Ah, como desejara um telefone! Como! Olha o aparelho. Decide telefonar. Coloca o dedo no dial. Telefonar... telefonar para quem? Sua cabeça está vazia. Não há nomes, não há números. Não há mais desejos. A necessidade já não existia. Tudo está muito longe. Muito.

À noite, deita-se pensando naquilo. Precisa telefonar. O rosto de Dalila lhe vem à mente. Sim, um rosto e um número de telefone. “Dalila”. Pega o tubo de dentifrício e escreve o número no chão. Adormece ali mesmo. Continuava louco por ela. Desde menino. Queria namorá-la e ela só queria a sua amizade. E ele rastejava atrás dela e nada. “Ah, Dalila, como te amo!”

Sonhava com ela, quando o acordaram. E era a voz dela que ouvia. Abriu os olhos. Olhou à sua volta. “Onde estava? Estava sonhando?” Não! Estava na sua cela, no manicômio. E ela estava ali com ele. Chorando. Tocando-o. Beijando-o. Chamando-o de Amor da Minha Vida. “Será que enlouquecera de vez?” Lembrou-se do número do telefone que escreveu no chão. Alguém deve ter telefonado para Dalila. Por instantes, há um átimo de lucidez.

“Graças a Deus, estou salvo.”

Quer gritar, a voz presa na garganta... doem-lhe as cordas vocais.

Sente uma dor, um ardor subir no peito sufocando-o, e a liberdade completa chega. O Anjo está livre.

No dia seguinte, o jornal estampa a manchete:

“Filho de deputado desaparecido há quase um ano morre de infarto do miocárdio, num manicômio onde estava internado por engano.” (pág. 4).

Uma semana depois, Gabriel já estava esquecido, Dalila voltou para o anonimato. Somente o pai, aliás, o deputado, era notícia relevante.


 


 

 

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