Por Antônio Silva
Até 2030, as cidades do Google receberão mais de 1,3 bilhão de pessoas. O crescimento da população vai evidenciar a divisão entre ricos e pobres, com favelas se expandindo rapidamente ao lado de arranha-céus. As estruturas sociais serão desgastadas, com redes criminosas oferecendo oportunidades para a massa cada vez maior de desempregados. Esse é o mundo do futuro para o qual não estamos preparados.
Mas precisa mesmo ser assim? A Google acha que não e quer provar isso: está erguendo - do zero - um bairro planejado, formado por um conjunto de tecnologias radicais e técnicas de análise de dados que atuarão em sintonia para aumentar a qualidade de vida. O projeto está sendo tocado pela Sidewalk Labs, uma subsidiária da Google que, em suas próprias palavras, “imagina, projeta, testa e constrói inovações urbanas”. Ela foi fundada em 2015 e, em 2016, surgiram rumores de que a empresa estaria interessada em construir uma “cidade digital” em algum ponto dos EUA. No ano seguinte, ela recebeu autorização para fazer isso, mas no Canadá.
A empresa manifestou interesse em assumir uma área de 190 acres (o equivalente a meio Parque Ibirapuera) e transformá-la num verdadeiro paraíso urbano, com construções ecológicas, transportes ultramodernos, aluguéis subsidiados e soluções urbanísticas radicais. E também terá uma “malha digital”, que monitora diversos elementos do bairro, e estão conectados ao Model, um software de inteligência artificial que controla tudo e, supostamente, consegue até prever, com alto grau de certeza, o que vai acontecer durante os próximos 30 minutos: a quais lugares as pessoas vão, o que elas vão fazer e consumir. “Queremos transformar essa parte de Toronto em vitrine global”, diz Stephanie Chow, porta-voz da Waterfront Toronto.
Quayside é um modelo para a reinvenção das metrópoles do futuro, com a filosofia da Google. A principal característica de Quayside é que praticamente tudo, das árvores aos semáforos, poderia ser redefinido com um simples click. Imagine, por exemplo, um reles banco de praça; os sensores podem mostrar que ele está num lugar ruim, longe do fluxo de pessoas, ou que recebe excesso de radiação solar. Então, seria reposicionado. Toda a “mobília pública” - placas, semáforos, lixeiras, que nas cidades atuais é organizada de acordo com previsões urbanísticas - poderia ser disposta segundo dados reais, que refletem os verdadeiros hábitos da população.
Em 1950, um ano após a fundação da Alemanha Oriental, o país criou a Stasi (abreviação para “Serviço de Segurança Estatal”).
O propósito dessa agência, que foi montada com a orientação da KGB, era proteger o regime. E ela fazia isso, principalmente, espionando o povo em escala jamais vista: a Stasi manteve registros detalhados sobre 5,6 milhões de alemães, um terço da população. O objetivo da Stasi era coletar o máximo possível de informações sobre o máximo possível de indivíduos, incluindo até o odor deles.
Mas nem em seus sonhos mais delirantes os espiões da Alemanha Oriental poderiam imaginar o mundo atual. A Google tem um registro com todos os lugares onde você esteve, minuto a minuto, ao longo de toda a sua vida (pois o Google Maps, mesmo quando não está sendo usado, monitora e envia a localização do seu smartphone).