Por Ana Carolina Kafrouni Tomazi
UCS Orquestra em concerto
http://difusora890.com.br/concerto-de-integracao-leva-a-orquestra-sinfonica-da-ucs-para-nova-prata/No dia 12 de fevereiro de 2020, a Orquestra mantida pela Universidade de Caxias do Sul (UCS Orquestra) perdeu treze músicos integrantes; segundo a Universidade, esta foi a forma que a instituição encontrou para enfrentar a crise econômica. No dia três de julho deste ano, a mesma orquestra, infelizmente, foi encerrada. Após 19 anos fomentando cultura e trazendo a música de concerto para a região, perdemos mais uma orquestra… mas por que as orquestras estão morrendo?
O ser humano é um intercâmbio musical, desde nossos ancestrais que, após a caça, se reuniam em volta de uma fogueira para cantar e dançar. Sentimos a forte necessidade de expressar e “suspirar” nossos sentimentos. A música erudita, por sua vez, é a maior variedade de sentimentos que alguém possa sentir, pois é uma linguagem que transforma a sua perspectiva do mundo; não é a toa que a maioria das trilhas sonoras de filmes e séries é composta pela música clássica. Segundo Georges Snyders,“[...] O som é instantâneo, fugaz, desaparece assim que nasce, sucede a si próprio sem deixar vestígios; estando fora de nós, não tem dificuldade em nos penetrar profundamente; como é móvel, adapta-se facilmente aos movimentos do espírito; já que é vir-a-ser, incorpora-se a um ser que está fundamentalmente em processo de metamorfose. Daí a intensidade soberana das emoções musicais”.
Infelizmente, a sociedade atual sofre pela falta de conhecimento, que se dá pela falta de incentivo e investimento à cultura por partes governamentais e institucionais, o que provoca julgamentos absurdos ao estilo de música e generalização de que a música clássica refere-se somente a uma elite social, o que no Brasil tem se provado o contrário, além de estar totalmente fora de contexto. De acordo com Marlon Porto, “A música artística também se refere à matemática, arquitetura, simbolismo e filosofia, esses tópicos foram menosprezados na imprensa em geral ou na televisão a cabo, e a nossa capacidade coletiva de se relacionar com a música por meio de uma lente de ciências humanas se atrofiou. Por que tantos estão satisfeitos em se envolver com a música apenas no nível raso do sentimento?”
Em uma escala de prioridades para o governo, a cultura some desta lista e, para algumas instituições, não há o reconhecimento do valor e da necessidade de investimento na cultura e, principalmente, na música. Não há suporte nem condições adequadas para que mais jovens se insiram no mundo da música, uma vez que há poucas orquestras para ter como referência e pouquíssimas escolas que profissionalizem e dêem uma visão de futuro próspero no Brasil. Há, por outro lado, vários projetos sociais que auxiliam e apoiam jovens e crianças a aprenderem e viverem a música, como o programa NEOJIBA (Núcleos Estaduais de Orquestras Juvenis e Infantis da Bahia), que tem como objetivo promover o desenvolvimento e a integração social prioritariamente de crianças, adolescentes e jovens em situações de vulnerabilidade por meio do ensino e da prática musical coletivos; outro exemplo é o projeto “OSPA na comunidade”, que leva não só a música clássica, mas também dos mais variados estilos musicais, a escolas, hospitais, bibliotecas etc.
*OSPA= Orquestra Sinfônica de Porto Alegre.Turnê da orquestra infantil da NEOJIBA
http://www.dsvc.com.br/2017/05/nucleo-conquista-crianca-da-neojiba-realiza-turne/Coro jovem da OSPA se apresenta no hospital Fêmina no projeto "OSPA na comunidade"
https://revistanews.com.br/2019/06/15/coral-da-escola-da-ospa-fez-apresentacao-no-hospital-femina/O outro fator que contribui para a falta de conhecimento é o excesso de informação. A mídia industrial bombardeia seus consumidores, tirando o espaço da cultura diversificada; a música erudita vem se adaptando, mas o seu “habitat natural” é teatros e etc, assim não estando no topo das mídias sociais.
E como deixar esta arte mais visível e de fácil acesso? Os governos e as instituições privadas deveriam criar mais projetos e apoiar/patrocinar grupos pequenos que, na maioria das vezes, não conseguem se sustentar sozinhos. Além disso, e principalmente, levar a música desde a educação inicial, como base curricular. Platão já dizia que “a música é um instrumento educacional mais potente do que qualquer outro”. A cultura e a educação andam juntas, e é por isso que “música” não é somente “algo bom de ouvir”; ela engloba tudo, desde história a matemática, entender o contexto histórico da obra, a intenção do compositor e o que estes sons provocam em nós, é muito enriquecedor. Ela desenvolve a mente humana, promove o equilíbrio, facilitando a concentração e o desenvolvimento do raciocínio.
Segundo estudos realizados por pesquisadores alemães, crianças que desenvolvem um trabalho com a música apresentam melhor desempenho na escola e na vida como um todo. Despertando o gosto pela música erudita desde crianças, não pensando somente no âmbito profissional, mas sociocultural, tenho certeza de que aquela região, o país, seria um lugar melhor, culturalmente rico. Mozart já dizia, “Não consigo escrever poesia: não sou poeta. Não consigo dispor as palavras com tal arte que elas reflitam as sombras e a luz, não sou pintor… Mas consigo fazer tudo isso com a música.”
Gosto não se discute, mas conhecimento nunca é em excesso. Talvez a sua descoberta seja uma nova porta para sua vida, antes de julgar, procure saber. Quanto mais pessoas conhecerem a música erudita, mais irão se apaixonar por ela, e pela vida!
OSPA apresenta: Pink Floyd Sinfônico
https://www.google.com/url?sa=i&url=https%3A%2F%2Fm.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DDuh6_6c8bs0&psig=AOvVaw18YXtZarlksDhgHS17ZWla&ust=1601997763262000&source=images&cd=vfe&ved=0CA0QjhxqFwoTCKjW5vPgnewCFQAAAAAdAAAAABAEConcerto gravado no canal da OSPA: ⤵