Richard Swinburne
(Título original: The Probability of the Resurrection of Jesus. Publicado em Philosophia Christi, vol. 15, issue: 2, pages: 239-352. (2013). Traduzido com permissão)
Neste artigo, pretendo resumir um argumento apresentado no meu livro recente Was Jesus God? (e de forma mais completa no meu livro The Resurrection of God Incarnate¹) em favor da alta probabilidade de que Jesus tenha ressuscitado corporalmente no primeiro Dia da Páscoa.
Ao avaliar qualquer hipótese histórica, devemos considerar três tipos de evidência. O primeiro é o mais óbvio: o testemunho de testemunhas oculares e os dados físicos causados pelo que aconteceu no tempo e lugar em questão. Se é sugerido que João roubou um determinado cofre, a evidência histórica óbvia seria o que as testemunhas disseram (sobre quem estava perto do cofre na hora em questão e onde João estava naquele momento) e dados físicos como impressões digitais no cofre, dinheiro encontrado na garagem de João etc. Chamo essa evidência de evidência histórica posterior. Na medida em que a hipótese é simples e a evidência histórica posterior é do tipo que se esperaria encontrar se a hipótese em jogo fosse verdadeira, mas não de outro modo, isso constitui evidência de que a hipótese é verdadeira. Por exemplo, se João roubou o cofre, esperar-se-ia encontrar suas impressões digitais nele, mas não se esperaria encontrá-las se ele não o tivesse feito; e, na ausência de evidência de que as testemunhas são não confiáveis, se João roubou o cofre, esperar-se-ia que qualquer pessoa que o tivesse visto na hora ou estivesse perto do cofre dissesse que o viu lá, mas não se esperaria que dissessem isso se não o tivessem visto.
Enfatizo aqui, como em outros lugares deste artigo e em tudo o que escrevi, a importância crucial da simplicidade para avaliar a verdade de uma teoria. Sempre há um número infinito de teorias possíveis em ciência, história ou qualquer outra área de investigação que, se fossem verdadeiras, fariam com que se esperasse encontrar exatamente a evidência que se encontra. As impressões digitais de João no cofre, o testemunho de Jorge sobre a presença de João no local do roubo na hora do crime e João ter muito dinheiro escondido na garagem poderiam ser facilmente explicados por Harry ter plantado as impressões digitais de João como brincadeira, Jorge ter mentido porque não gostava de João e Jim ter colocado o produto de um roubo completamente diferente na garagem de João. Mas, na ausência de evidência adicional, a teoria de que João cometeu o crime é a mais provavelmente verdadeira (ou seja, a mais provável), porque é a mais simples ao postular que uma única pessoa (João) realizando uma única ação (roubar o cofre) causou, de diferentes maneiras, as três peças de evidência.
Além da evidência histórica posterior, precisamos considerar a evidência geral de fundo sobre quão provável é que a hipótese seja verdadeira, independentemente da evidência histórica detalhada. No meu exemplo simples, essa evidência seria o comportamento passado de João e o de outros suspeitos, que poderia, por exemplo, apoiar fortemente (como sua explicação mais simples) a teoria de que João não é o tipo de pessoa que roubaria um cofre, enquanto Jorge é exatamente esse tipo. Nesse caso, mesmo que a evidência histórica posterior seja exatamente o que se esperaria se João tivesse roubado o cofre, mas não exatamente o que se poderia esperar se Jorge o tivesse roubado, ainda assim poderíamos concluir corretamente que Jorge é o culpado mais provável.
Neste exemplo, a evidência de fundo era bastante estreita — o comportamento passado de João ou Jorge. Mas a influência conjunta da evidência de fundo e da evidência histórica posterior opera também quando a evidência de fundo é muito mais geral. Suponhamos que um astrônomo observe pelo telescópio um certo padrão de pontos brilhantes, exatamente o que se encontraria se esses pontos fossem os destroços de uma explosão de supernova. É correto interpretá-los assim se a teoria física, melhor apoiada por todas as outras evidências disponíveis ao físico — ou seja, a evidência geral de fundo — permitir que supernovas possam explodir. Mas se a teoria física diz que supernovas não podem explodir, então a hipótese de que uma explodiu nessa ocasião precisará de uma quantidade enorme de evidência histórica detalhada (ela mesma vastamente improvável em qualquer hipótese de simplicidade igual exceto a hipótese de que foi causada por uma explosão de supernova) antes que possamos considerá-la provável — e, se a considerarmos provável, teremos que considerar toda a teoria física que a exclui como ela mesma improvável, dada nossa nova evidência histórica detalhada.
A evidência geral de fundo pode indicar não apenas que a hipótese postulada é ou não provável de ser verdadeira, mas que é provável de ser verdadeira apenas sob certas condições — por exemplo, que João provavelmente rouba cofres quando e somente quando está financeiramente quebrado, ou que supernovas provavelmente explodem quando, e somente quando, atingem certa idade. Nesse caso, outro tipo de evidência histórica entra na equação: evidência mostrando que aquelas condições favoráveis (o que chamo de requisitos prévios) estavam ou não presentes. Isso novamente será forte na medida em que for do tipo que se esperaria encontrar se aquelas condições estivessem presentes, e não de outro modo (e na medida em que a suposição dessas condições seja simples). Chamo essa evidência de evidência histórica prévia.
Quando lidamos com uma hipótese H que não seria muito improvável em uma visão de mundo T, mas seria imensamente improvável em uma visão de mundo rival, a evidência geral de fundo será toda a evidência relevante para a probabilidade das diferentes visões de mundo; e na medida em que apoie mais fortemente a visão de mundo T que torna H não muito improvável, precisamos de menos evidência histórica detalhada para que a afirmação de que H é verdadeira seja provavelmente verdadeira no conjunto. A hipótese de que Jesus ressuscitou dos mortos é exatamente desse tipo. Pois se não há Deus, o determinante último do que acontece no mundo são as leis da natureza, e alguém morto por trinta e seis horas voltar à vida é (com imensa probabilidade) uma clara violação dessas leis e, portanto, impossível. Isso pelo motivo que Hume deu — que toda a evidência de que alguma regularidade operou em muitas ocasiões passadas conhecidas é evidência de que é uma lei da natureza e, portanto, operou também nessa ocasião, e assim Jesus não ressuscitou. Mas se há um Deus do tipo tradicional, as leis da natureza só operam porque ele as faz operar, e ele tem o poder de suspendê-las por um momento ou para sempre. Portanto, se Jesus ressuscitou dos mortos, Deus o ressuscitou. Assim, trato a hipótese de que Jesus ressuscitou como equivalente a Deus o ressuscitou. Mas se há um Deus com o poder de ressuscitar Jesus, ele só o fará na medida em que tenha razão para fazê-lo; e, se não tiver, a Ressurreição não deve ser esperada.
Portanto, para determinar se Jesus ressuscitou dos mortos, não basta investigar se o que chamei de evidência histórica posterior (o que São Paulo e os evangelistas escreveram sobre o que testemunhas disseram ter visto de três a quarenta dias após a crucificação) é do tipo que se esperaria se Jesus tivesse ressuscitado, mas não de outro modo. Deve-se também investigar se a evidência geral de fundo apoia a visão de mundo de que há um Deus do tipo capaz e propenso a intervir na história humana desse modo em tal situação, ou se não há tal Deus. E devemos também investigar a evidência histórica prévia — isto é, se a natureza e as circunstâncias da vida de Jesus eram tais que, se há um Deus, ele provavelmente ressuscitaria essa pessoa dos mortos. Na medida em que nossa evidência geral de fundo e histórica prévia apoia a visão de que há um Deus que provavelmente ressuscitaria Jesus dos mortos, precisaremos de muito menos evidência histórica detalhada para que seja provavelmente verdadeiro, em nosso conjunto total de evidências, que Jesus ressuscitou dos mortos. Inversamente, na medida em que nossa evidência prévia (de fundo ou histórica) apoia uma visão de mundo rival de que não há Deus (do tipo tradicional) ou de que, se há tal Deus, ele não tem razão para intervir na história humana desse modo, ou de que, mesmo se Deus tivesse tal razão, Jesus não era o tipo de pessoa que ele traria de volta à vida, precisaríamos de uma imensa quantidade de evidência histórica posterior para que nosso conjunto total de evidências torne provável que Jesus ressuscitou. É o fracasso total de quase toda a disciplina acadêmica de estudo do Novo Testamento em levar em conta esse tipo crucialmente relevante de evidência que pode tornar suas conclusões sobre a probabilidade da Ressurreição e outros eventos do Novo Testamento seriamente errôneas.
Tenho argumentado longamente ao longo de muitos anos em favor da visão de que a existência de um universo, sua quase total conformidade com leis naturais, essas leis serem tais que levam à evolução de seres humanos, esses seres humanos terem almas (uma vida mental contínua cuja continuidade é separada da continuidade de sua vida física), a ocorrência de vários eventos na história e milhões de seres humanos tendo experiências que lhes parecem ser de Deus, é evidência que (apesar da ocorrência do mal) torna provável a existência de Deus.² Não há tempo para reargumentar isso aqui. Assim, suponhamos por ora, apenas para prosseguir, que nesse tipo de evidência (a evidência da “teologia natural”, como é chamada) é tão provável quanto improvável que haja um Deus. Se há um Deus, claramente ele poderia, se assim escolhesse, ressuscitar Jesus dos mortos. Portanto, na medida em que, em virtude de sua bondade, ele tenha razão para fazê-lo, é provável que o faça. Deus muito raramente ressuscita os mortos (em seus corpos originais enquanto outros na Terra continuam sua vida normal). Jesus, portanto, precisaria ser um tipo muito especial de pessoa para que Deus tivesse razão para ressuscitá-lo. Pode haver várias razões pelas quais Deus escolheria ressuscitar Jesus, mas considerarei aqui apenas as razões que Deus teria se Jesus fosse Deus Encarnado (isto é, Deus que adquiriu uma natureza humana) — porque, como veremos mais adiante, dada a evidência do tipo de vida que Jesus viveu, ele só o teria ressuscitado se fosse Deus Encarnado. Ou seja, argumentarei que, em virtude da bondade de Deus, ele tinha razão para se encarnar e viver certo tipo de vida, e que, se o fez, Deus tem razão para ressuscitá-lo dos mortos.
Teólogos sempre afirmaram que uma razão principal pela qual Deus escolheria se encarnar era fazer expiação pelos pecados humanos. Todos os seres humanos ofenderam Deus seriamente (isto é, pecaram seriamente), porque falharam em mostrar gratidão e obediência ao seu criador que os fez do nada e os mantém em existência momento a momento. Quando fazemos mal a alguém, devemos nos arrepender e pedir desculpas, mas também devemos tentar oferecer reparação pelo mal feito. E é bom que alguém gravemente ofendido (neste caso Deus) exija que o ofensor faça alguma tentativa séria de reparação antes de perdoá-lo — pois isso força o ofensor a levar seu erro a sério. Mas, infelizmente, nós que já devemos tanto a Deus não estamos em posição de oferecer reparação por nossos pecados passados. Contudo, enquanto o ofensor deve ele mesmo se arrepender e pedir desculpas, outra pessoa pode fornecer a reparação para que ele a ofereça de volta à pessoa ofendida. Deus encarnado poderia oferecer uma vida humana perfeita para que nós a oferecêssemos de volta a Deus como reparação pela vida que deveríamos ter levado. Aquele que vive uma vida perfeita em circunstâncias humanas típicas pode muito bem ser morto por isso; e tal morte completaria uma vida perfeita. Podemos então dizer: “por favor, aceite esta vida e morte em vez da vida que deveríamos ter levado”. Essa reparação é então um sacrifício oferecido a Deus, e uma ressurreição constituiria a demonstração de Deus para nós de que o sacrifício foi aceito e que o perdão está disponível.³ Pois a ressurreição de alguém morto por trinta e seis horas seria, como notei, uma violação das leis da natureza, e isso só poderia ser feito por aquele que mantém as leis da natureza operativas — Deus.
A segunda razão pela qual Deus escolheria se encarnar é uma razão que operaria mesmo se os seres humanos não tivessem pecado. Deus fez os seres humanos sujeitos a dor e sofrimento de vários tipos causados por processos naturais. Deus, sendo perfeitamente bom, só teria permitido essa sujeição se servisse a bens maiores. A teodiceia busca explicar quais são os bens maiores relevantes⁴ — por exemplo, o grande bem de os seres humanos terem a escolha livre significativa de lidar corajosamente com seu próprio sofrimento e mostrar compaixão por outros que sofrem. Nós seres humanos às vezes submetemos corretamente nossos próprios filhos ao sofrimento por causa de algum bem maior (para eles ou para outros) — por exemplo, fazemos com que comam uma dieta simples ou façam algum exercício especial por causa de sua saúde, ou os fazemos frequentar uma escola “difícil” do bairro por causa de boas relações comunitárias. Nessas circunstâncias, julgamos bom manifestar solidariedade com nossos filhos colocando-nos em situação um tanto semelhante — compartilhar sua dieta ou seu exercício, ou nos envolver na associação de pais e professores da escola do bairro. De fato, se submetemos nossos filhos a sofrimento sério por causa de um bem maior para outros, chega um ponto em que não é apenas bom, mas obrigatório identificar-se com o sofredor e mostrar-lhe que o fizemos. Um Deus perfeitamente bom julgaria bom compartilhar a dor e o sofrimento aos quais nos sujeita por causa de bens maiores — tornando-se encarnado. Viver uma vida santa protestando contra a injustiça em condições difíceis provavelmente leva à execução. Deus precisa ter nos dito ou mostrado que ele é Deus Encarnado. Nesse caso, sua Ressurreição constituiria a assinatura de Deus nesse ensino, e assim nos mostraria que Deus se identificou com nosso sofrimento.
E finalmente, precisamos de melhor informação sobre como levar vidas boas no futuro, e encorajamento e ajuda para fazê-lo. Os seres humanos podem, e em certa medida nos séculos a.C. o fizeram, descobrir por si mesmos o que é certo e errado. Mas embora os contornos possam ser descobertos, os detalhes não são fáceis de descobrir — o aborto e a eutanásia são sempre errados, ou apenas errados sob certas condições? Relações homossexuais são às vezes permissíveis, ou nunca? E assim por diante — e em todas essas questões, os seres humanos tendem a não enfrentar as entregas de suas consciências. Eles precisam de informação. É verdade, isso poderia ser fornecido por uma revelação a algum profeta sem necessidade de encarnação. Mas informação moral precisa ser preenchida por exemplo moral — precisamos ser mostrados o que consiste uma vida perfeita, e que Deus não tem direito de dizer a ninguém mais o que fazer por ele. Seria bom que essa informação incluísse informação encorajadora, por exemplo, que Deus nos levará ao Céu se confiarmos nele e cumprirmos seus mandamentos. E seria bom se Deus nos desse alguma ajuda extra para levar a vida moral — uma comunidade de encorajamento, por exemplo, uma igreja. Novamente, Deus ressuscitando alguém morto por certo ensino e por viver certa vida constitui sua assinatura nesse ensino.
Temos agora três razões para que um Deus bom possa escolher se encarnar de modo a sofrer e provavelmente morrer, e como ele precisaria nos mostrar que foi ele quem fez isso — o que seria alcançado por um super-milagre como uma ressurreição. Na minha visão, embora seja bastante provável que, em virtude de sua bondade, Deus possa escolher se encarnar pelas primeira e terceira razões, ele não tem obrigação de fazê-lo e há outras maneiras (talvez menos satisfatórias) de lidar com os problemas aos quais sua encarnação por essas razões forneceria uma solução. Mas, na minha visão, dada a extensão do sofrimento humano, nosso criador tem a obrigação de compartilhá-lo conosco e, portanto, é necessário que ele se encarne pela segunda razão.
Assim, se Deus se encarnou em algum ser humano (chamemo-lo de profeta) pela segunda razão e por uma ou ambas as outras razões, ele precisaria viver certo tipo de vida. Para identificar-se com nosso sofrimento e fornecer um exemplo para nós, Deus Encarnado precisa viver uma vida boa em circunstâncias difíceis, e uma vida boa mas dura terminando em execução judicial certamente seria isso. Para nos mostrar que ele é Deus que fez isso, ele precisa nos mostrar que acredita ser Deus. Para nos permitir usar sua vida e morte como expiação por nossos pecados, ele precisa nos dizer que está levando sua vida para esse propósito. Para tornar plausível que está pregando uma revelação, ele precisa nos dar ensino moral bom e profundo sobre como viver. E para tornar tudo isso disponível a gerações e culturas além daquela em que viveu, ele precisa fundar uma igreja para ensinar aos seres humanos o que ele fez e aplicar a eles sua vida expiatória. Assim, temos razão prévia para esperar uma ressurreição, não de qualquer ser humano, mas de um ser humano sobre cuja vida nossa evidência é o que esperaríamos se ele tivesse levado uma vida do tipo acima. Quanto mais forte a evidência de fundo de que há um Deus cuja bondade o levaria a se encarnar pelas razões declaradas, e quanto mais forte a evidência histórica prévia de que Jesus levou o tipo de vida descrito acima, mais forte razão temos para supor que Deus colocaria sua assinatura nisso através de um super-milagre como sua Ressurreição.
Minha avaliação das conclusões da disciplina acadêmica do Novo Testamento é que ela sustenta que a evidência é do tipo que esperaríamos se Jesus tivesse levado uma vida boa e santa, nos dado ensino moral bom e profundo e fundado uma igreja que ensinava que ele era Deus Encarnado que expiou nossos pecados. É, sugiro, impossível entender sua formação de uma comunidade de doze líderes exceto como formação de um novo Israel, quer no final ele pretendesse que se tornasse independente ou se fundisse de volta ao antigo Israel. A disciplina acadêmica do Novo Testamento está, porém, dividida sobre se a evidência é do tipo que se esperaria se e somente se Jesus proclamasse que sua vida e morte eram uma expiação pelo pecado; e no geral afirma que a evidência não é do tipo que se esperaria se Jesus acreditasse ser divino.
Voltemo-nos agora para essas questões mais disputadas sobre a vida de Jesus. Sugiro que, no saldo, a evidência mostra que Jesus acreditava ser divino. Se Deus fosse se encarnar para os propósitos que discuti, ele precisaria assumir uma natureza humana (uma maneira humana de pensar e agir) e um corpo humano além de sua natureza divina (do modo que o Concílio de Calcedônia definiu em 451 d.C.). Esse é um conceito bastante complicado de captar. Se Jesus tivesse anunciado durante seu ministério terreno “Eu sou Deus”, isso teria sido entendido como uma reivindicação de ser um deus pagão, um ser poderoso e lascivo que temporariamente ocupou um corpo humano (não a fonte todo-boa de todo ser). O conhecido estudioso judeu Geza Vermes escreve que “não é exagero afirmar que a identificação de uma figura histórica contemporânea com Deus teria sido inconcebível para um judeu palestino do século I d.C.”⁵ Assim, o fato de Jesus não ter dito “Eu sou Deus” durante sua vida não é evidência de que não acreditava ser Deus. Essa é uma mensagem que Jesus só poderia começar a proclamar abertamente após sua crucificação ter tornado muito clara a realidade de sua humanidade e, portanto, o tipo de deus que ele teria que ser; e após sua Ressurreição ter fornecido evidência de seu status único. E há evidência de que ele começou a proclamar isso mais abertamente então. O Evangelho segundo São Mateus termina com Jesus ordenando aos Onze que batizassem “em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo”.⁶ Essa frase coloca “o Filho” (Jesus) no mesmo nível que Deus Pai. Críticos, sempre atentos a interpolações posteriores, lançaram, é claro, grave dúvida sobre a autenticidade desse versículo; mas a tradição manuscrita é unânime e, portanto, antiga. Depois, São João registra a confissão explícita do antes duvidoso, agora convencido, Tomé, de Jesus como “Meu Senhor e meu Deus”,⁷ uma confissão que Jesus não rejeitou. Em duas ocasiões pós-Ressurreição, o Evangelho segundo São Mateus registra que os discípulos “adoraram” Jesus;⁸ e muitos manuscritos antigos registram uma “adoração” semelhante pelos Onze no final do Evangelho segundo São Lucas.⁹ Os escritores do Novo Testamento consideravam a “adoração” apropriada apenas à divindade. É assim considerada em vários trechos distintos do Novo Testamento. Em Mateus 4:10 (paralelo em Lucas 4:8), Jesus cita Deuteronômio 6:13, “Adorarás o Senhor teu Deus e só a ele servirás”, em resposta ao convite do Diabo para adorá-lo (o Diabo). Em Atos 10:26, Pedro impede Cornélio de adorá-lo com as palavras “Levanta-te; eu também sou mortal”. E duas vezes no Apocalipse o anjo ordena a “João” que não o adore com as palavras “Não faças isso! Sou conservo teu… Adora a Deus”.¹⁰ Jesus, por outro lado, nunca rejeitou adoração; e São Mateus registra também ocorrências pré-Ressurreição de adoração a Jesus. Essa evidência é do tipo que esperaríamos se Jesus fosse Deus Encarnado, mesmo que críticos liberais afirmem que pode ser explicada pelos evangelistas lendo tais reivindicações de volta à história à luz das crenças posteriores da Igreja.
Como Jesus só poderia confessar sua divindade após sua Ressurreição, e mesmo então poderia não ser facilmente compreensível por seus seguidores, ele precisaria também deixar muitas pistas em sua vida, reflexão sobre as quais poderia dar a seus seguidores após sua vida terminada o entendimento de quem ele era. E acho que ele fez isso; e considerarei um exemplo importante disso, uma peça de evidência que críticos estão muito menos dispostos a considerar uma construção posterior. Essa é a afirmação de que os judeus consideravam Jesus “blasfemo”. Os sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) conectam explicitamente um comentário dos escribas que ouviram as palavras de perdão de Jesus ao paralítico com “É blasfêmia! Quem pode perdoar pecados senão só Deus?”¹¹ Marcos e Mateus relatam que a acusação contra Jesus perante o Sinédrio foi “blasfêmia”.¹² Claramente Jesus não amaldiçoou Deus, e assim sua blasfêmia deve envolver reivindicar prerrogativas divinas. E quer você pense ou não que São João realmente registra um comentário judeu, ele claramente entendeu a acusação de blasfêmia desse modo. Em João 10, os judeus tentam apedrejar Jesus, dizendo “Não é por uma boa obra que vamos te apedrejar, mas por blasfêmia, porque tu, sendo apenas humano, te fazes Deus”.¹³
Segundo os Evangelhos sinóticos, duas questões foram levantadas no julgamento de Jesus perante Caifás, ambas relevantes para a acusação de blasfêmia. Perguntaram a Jesus se ele era o Messias. Reivindicar ser o Messias por si só dificilmente seria arrogância de prerrogativas divinas. Mas a resposta citada de Jesus desenvolvendo o tema de ser Messias ao citar Daniel 7 — “Vereis o Filho do Homem assentado à direita do Poder e vindo com as nuvens do céu” — estava reivindicando um tipo muito alto de messianidade; e foi para esse comentário que, segundo Marcos, Caifás respondeu com “Ouvistes a blasfêmia”.¹⁴ Novamente, não é óbvio que mesmo essa frase de Jesus esteja reivindicando divindade; e críticos afirmaram que mesmo a confissão explícita de messianidade de Jesus nesse momento foi uma invenção de São Marcos.
Mas a outra questão levantada no julgamento é mais interessante, porque Marcos afirma que o testemunho foi falso e, portanto, dificilmente é invenção dele. Marcos (e Mateus) registram a acusação de que Jesus poderia ou destruiria o (santuário do) Templo e o reconstruiria em três dias. Para citar o muito liberal estudioso bíblico E. P. Sanders: “É difícil imaginar uma origem puramente fictícia para a acusação de que [Jesus] ameaçou destruir o Templo”.¹⁵ Marcos descreveu essa acusação como “falsa”.¹⁶ Mas provavelmente Marcos, e certamente Mateus, que tem o mesmo trecho, acreditavam que o Templo foi destruído (pois escreveram após sua destruição em 70 d.C.); e, como os outros sinóticos, Marcos relata em outro lugar uma predição adicional de Jesus de sua destruição.¹⁷ Assim, a falsidade da acusação (na visão deles) deve residir em uma de duas coisas: Jesus não ameaçou destruir ele mesmo o Templo, mas apenas predisse que seria destruído; e/ou não prometeu construir outro em três dias. Mas como tanto Marcos quanto Mateus acreditavam que ele construiu em três dias algo mais que havia sido destruído “não feito por mãos”, isto é, ele mesmo, que, quando o Templo foi destruído, passaram a considerar como substituto dele; a falsidade na visão deles provavelmente consiste no fato de que Jesus não ameaçou destruir o Templo, mas apenas predisse que seria destruído. Lucas descreve Jesus advertindo, na época da Paixão, as “filhas de Jerusalém” de um tempo de desastre,¹⁸ e Marcos, no capítulo anterior à narrativa da Paixão, registra Jesus predizendo a destruição do Templo.¹⁹ Assim, Jesus de fato predisse a destruição do Templo; mas por outro, não por ele mesmo. João também cita Jesus dizendo “Destruí este templo, e em três dias o levantarei”.²⁰ Substituir o culto divinamente instituído do Templo por outro tipo de culto era claramente prerrogativa de Deus; e Jesus não é relatado dizendo que Deus o comissionou para fazer isso — é relatado dizendo que ele mesmo o faria. E isso é uma reivindicação de divindade.
E isso me leva rapidamente à questão de se Jesus reivindicou que sua vida era uma expiação. A citação acima, que, como vimos, dificilmente pode ser considerada uma invenção, constitui a reivindicação de Jesus de que ele fornecerá um substituto para os sacrifícios do Templo, que eram feitos para alcançar expiação pelo pecado. E então há a Última Ceia, uma refeição solene na época da Páscoa, na qual Jesus deu a seus discípulos pão e vinho com as palavras “Isto é o meu corpo” e “Isto é o meu sangue”. Corpo e sangue são os elementos do sacrifício. Jesus está dizendo a seus discípulos que sua vida é um sacrifício; e assim que ele mesmo é o substituto para o Templo. Todos os relatos do Novo Testamento da Última Ceia a consideram uma “nova” aliança, e sabiam que Jeremias profetizou uma “nova aliança” que conectou com “o perdão dos pecados”.²¹ E, é claro, há o amplo consenso unânime do Novo Testamento, tão amplo que seria irracional supor que não teve origem no ensino de Jesus, de que Jesus morreu por nossos pecados.
Assim, sugiro que em todos os aspectos a evidência histórica é do tipo que esperaríamos se Jesus satisfizesse os requisitos prévios para ser Deus Encarnado. À luz de todas as nossas razões para supor que há um Deus que se encarnaria e viveria certo tipo de vida, temos boa razão antecipada para esperar um evento como a Ressurreição para culminar a vida de Jesus que de fato viveu uma vida do tipo requisitado. Assim, não precisamos de muita evidência histórica posterior detalhada para supor que a Ressurreição realmente aconteceu. Mas há evidência posterior significativa do tipo que se esperaria se Jesus ressuscitou (e não de outro modo); e assim, finalmente, vamos examiná-la. Se Jesus ressuscitou corporalmente no primeiro Dia da Páscoa, esperaríamos dois tipos de testemunho: testemunhas que falaram com uma pessoa que tomaram por Jesus, e testemunhas que viram o túmulo vazio.
Sobre o primeiro, Mateus, Lucas, João e 1 Coríntios fornecem listas de testemunhas que, afirmam, falaram com Jesus. Atos registra duas vezes que Jesus apareceu a seus discípulos por muitos dias. O texto mais antigo do Evangelho segundo São Marcos é geralmente considerado ter terminado em 16:8 com a história das mulheres encontrando o túmulo vazio, antes que alguém encontrasse o Jesus ressuscitado. Os versículos 16:9–20 são uma adição posterior resumindo o que está registrado em outros Evangelhos, principalmente Lucas. Mas as partes anteriores de Marcos contêm três predições separadas da Ressurreição, e Marcos 16:7 relata um jovem de branco predizendo uma aparição de Jesus aos discípulos na Galileia. Assim, Marcos certamente acreditava que Jesus apareceu a seus discípulos após sua Ressurreição, e, na minha opinião, a explicação mais provável de por que o texto mais antigo que temos do Evangelho segundo São Marcos termina em 16:8 é que há um final perdido. A última parte do manuscrito foi perdida, e assim o que temos na Bíblia de hoje foi adicionado por algum escriba posterior para resumir algumas das principais aparições de Jesus que os outros Evangelhos registraram.
Há, portanto, muitos relatos de indivíduos e, acima de tudo, de grupos de indivíduos aparentemente falando com o Jesus ressuscitado; e embora indivíduos possam imaginar coisas, seria massivamente improvável ter ilusões conjuntas de Jesus dizendo a mesma coisa no curso de conversas. Poderia-se supor que toda a comunidade cristã tivesse um programa deliberado de engano ao dar esses relatos. Mas nem mesmo o agnóstico ou ateu médio sugeriria isso — em vista do que sabemos sobre os caracteres dos envolvidos.
Nossas fontes principais, porém, dão listas um tanto diferentes de quem viu Jesus onde e quando; e isso é frequentemente considerado uma discrepância major que lança dúvida sobre toda a história. Há, contudo, uma razão para parte da discrepância: os escritores tinham propósitos diferentes ao produzir suas listas. Prioridade deve ser dada à lista em 1 Coríntios. 1 Coríntios é o mais antigo desses textos, escrito por Paulo por volta de 55 d.C. (Isso seria aceito por todos os estudiosos sérios.) O texto tem a forma de uma declaração credal, uma lista de “testemunhas” reconhecida pela igreja.²² Paulo a repete aos coríntios como o que havia dito anteriormente a eles, e o que ele mesmo havia “recebido” (exceto, presumivelmente, a aparição de Cristo a ele mesmo). Era que Jesus apareceu primeiro a Pedro, depois aos Doze, depois a “mais de quinhentos irmãos e irmãs de uma só vez, dos quais a maioria ainda vive, embora alguns tenham morrido”, depois a Tiago, e então a todos os apóstolos, e finalmente a Paulo mesmo “como a um abortivo”. A implicação da última frase é que a aparição a Paulo foi muito posterior às outras aparições. Os usos de “depois” implicam uma sequência temporal de aparições. Paulo nos diz em Gálatas que, logo após sua conversão, passou quinze dias com Pedro em Jerusalém, onde também encontrou “Tiago, o irmão do Senhor”, e onde deve ter ouvido o que Pedro e Tiago tinham a dizer sobre a base dessa mensagem cristã central;²³ o que ele registra em 1 Coríntios deve ter sido sensível a essas conversas.
Os Evangelhos, porém, todos incluem aparições anteriores à primeira aparição listada por Paulo — Mateus e João incluem uma aparição a Maria Madalena, e Lucas inclui uma aparição a Cleopas e outro discípulo. Então por que essas não ocorrem na lista oficial? Há uma resposta óbvia. A lista oficial contém pessoas que os judeus levariam a sério. Eles não levariam testemunhas mulheres a sério. (O escritor judeu contemporâneo Josefo afirma que Moisés proibiu reconhecer mulheres como testemunhas. Cleopas não era um líder sênior da igreja, e sua companheira pode muito bem ter sido sua esposa aparentemente mencionada em João 19:25 como presente na Crucificação.) Os Evangelhos, escritos mais tarde (quando atitudes judaicas haviam endurecido) e mais interessados na sequência histórica, colocam as coisas de modo diferente.
E então o túmulo vazio. Todos os quatro Evangelhos começam seus relatos da Ressurreição com a visita das mulheres ao túmulo, que encontraram vazio. Costumava-se dizer que, como 1 Coríntios, a fonte mais antiga, não menciona o túmulo vazio, essa visita e o túmulo vazio seriam uma invenção posterior dos evangelistas. Mas mesmo os judeus reconheciam que o túmulo estava vazio. Pois Mateus 28:15 registra que eles afirmavam que os discípulos haviam roubado o corpo, o que não teriam afirmado se não acreditassem que o túmulo estava vazio. Por que Paulo não o mencionou é porque não precisava. Ressurreição para um judeu significava ressurreição corporal.
E há uma peça crucial de evidência, em grande parte não reconhecida, em favor de que as mulheres visitaram o túmulo no primeiro Dia da Páscoa e o encontraram vazio. Comunidades cristãs se espalharam de Jerusalém muito rapidamente — dentro de três ou quatro anos dos eventos da Paixão. Levaram consigo seus costumes, incluindo o costume de celebrar a eucaristia; e toda a evidência que temos sugere que havia um costume universal de celebrar a eucaristia num domingo, o primeiro dia da semana. Isso deve ter antecedido a dispersão; caso contrário, teríamos ouvido falar de disputas sobre quando celebrar, e algumas instruções sendo dadas de cima (análogas à maneira como disputas sobre circuncisão e comer carne sacrificada foram supostamente resolvidas pelo “Concílio de Jerusalém” descrito em Atos 15). Todas as referências na literatura cristã primitiva sobre quando a eucaristia era celebrada referem-se a uma celebração semanal de domingo. E a única referência explícita aparente no Novo Testamento a uma celebração particular pós-Ascensão da Eucaristia também descreve uma celebração de domingo. Atos 20:7 registra uma “fração do pão” num “primeiro dia da semana”. “Partir o pão” era a expressão usada por São Paulo (1 Cor.) para o que Jesus fez na Última Ceia, e sempre foi usada depois como descrição da refeição cristã comum, que incluía a eucaristia. Esse versículo é um dos trechos “nós” em Atos. Esses são os trechos nos quais as viagens de Paulo são descritas em termos do que “nós” fizemos e do que aconteceu a “nós”; e assim provavelmente refletem a participação do autor de Atos (Lucas) ou sua fonte imediata. 1 Coríntios 16:2 implica que comunidades cristãs se reuniam aos domingos; e Apocalipse 1:10 chama o domingo de “o dia do Senhor”.
Há outros dias em que poderia ter sido mais natural para os cristãos celebrar a eucaristia (por exemplo, no dia da Última Ceia original — provavelmente uma quinta-feira e certamente não um domingo — ou anualmente em vez de semanalmente). Não se conhecem tais costumes. Não há origem plausível da sacralidade do domingo fora do cristianismo. Há apenas uma explicação simples para esse costume universal, que, argumentei, deve derivar no máximo dos primeiros dois ou três anos pós-Ressurreição. A eucaristia era celebrada num domingo (e o domingo tinha significado teológico) desde os primeiros anos do cristianismo porque os cristãos acreditavam que o evento cristão central da Ressurreição ocorreu num domingo. Contudo, tal prática inicial teria incluído a dos próprios Onze, e assim só poderia acompanhar uma crença deles de que os cristãos tinham visto ou o túmulo vazio ou o Jesus ressuscitado no primeiro Domingo de Páscoa. Isso mostra que a visita ao túmulo no Domingo de Páscoa não foi uma invenção tardia lida de volta na história para fazer sentido das aparições, mas um incidente separadamente autenticado.
Concluo que há uma pessoa na história humana que satisfez bastante bem os requisitos prévios e posteriores para ser Deus Encarnado (isto é, para viver o tipo de vida que esperaríamos que um Deus, se houver um Deus, vivesse na terra); e essa pessoa é Jesus. Pelos requisitos prévios, repito, quero dizer viver uma vida boa e santa, dar-nos ensino moral bom e profundo, mostrar-nos que acreditava ser Deus Encarnado e que estava fazendo expiação por nossos pecados e fundando uma Igreja que ensinava as últimas coisas. Pelos requisitos posteriores quero dizer sua vida ser culminada por um super-milagre, como uma ressurreição dos mortos. E não há outro candidato plausível na história humana para satisfazer qualquer desses conjuntos de requisitos.
Outros fundadores de grandes religiões, é claro, viveram vidas boas, deram ensino moral profundo e fundaram igrejas — o Buda, por exemplo. Mas manifestamente o Buda não ensinou sua própria divindade, nem Maomé o fez. E manifestamente nenhum dos dois ensinou que suas vidas expiaram nossos pecados. Houve muitos messias modernos que reivindicaram ser Deus, mas não satisfizeram os outros requisitos — em particular, suas vidas não foram santas. E nenhuma grande religião além do cristianismo fez uma reivindicação de ser fundada num super-milagre para o qual há de algum modo o tipo de testemunho detalhado que há para o milagre fundacional do cristianismo (inadequado embora possa parecer a alguns). Contudo, a inexistência de qualquer outro candidato plausível para satisfazer ou os requisitos prévios ou os posteriores mostra que a coincidência da evidência prévia e posterior (mesmo que fraca) em um candidato é um evento extremamente improvável no curso normal das coisas — isto é, a menos que Deus o tenha causado. Mas se Deus não se encarnou pelas razões declaradas em Jesus, mas se encarnou em algum outro profeta ou planeja fazê-lo no futuro, seria enganoso dele causar a existência da quantidade e tipo de evidência prévia de sua encarnação em Jesus junto com a quantidade e tipo de evidência histórica posterior que há de sua Ressurreição. Seria como deixar as impressões digitais de alguém na cena do assassinato quando essa pessoa não cometeu o assassinato. Em virtude de sua perfeita bondade, Deus não faria esse tipo de coisa. Se Deus planejou a coincidência em Jesus dos dois tipos de evidência, então Jesus era Deus Encarnado; e é muito improvável que houvesse essa coincidência a menos que Deus a tivesse planejado.
Assim, se há uma quantidade modesta de evidência da teologia natural de que há um Deus do tipo tradicional que com modesta probabilidade poderia ser esperado a se encarnar pelas razões declaradas e ter sua vida culminada por um super-milagre como a Ressurreição, e há apenas um candidato plausível (Jesus) que satisfez de algum modo bem os requisitos prévios para tal encarnação, não se precisa de muita evidência histórica posterior para tornar provável que Jesus ressuscitou. Pois seria extremamente improvável que houvesse essa combinação de evidência prévia e posterior a menos que Deus a tivesse arranjado, e seria enganoso dele arranjá-la a menos que Jesus fosse de fato Deus Encarnado. Assim, mesmo se for apenas tão provável quanto improvável que haja um Deus (isto é, uma probabilidade de 1/2), e uma probabilidade de 1/2 de que tal Deus se encarnaria; e mesmo se a evidência histórica fosse apenas tal que não é muito provável que se encontraria se Jesus fosse Deus Encarnado que ressuscitou dos mortos — chamemos de uma probabilidade de 1/10, então no saldo ainda é provavelmente verdadeiro que Jesus era Deus Encarnado e que ressuscitou dos mortos — porque é tão improvável que se tivesse essa evidência se ele não fosse.
Se supusermos que a probabilidade de termos essa combinação de evidência prévia e posterior se Jesus não fosse Deus Encarnado é 1/1000, então pode ser mostrado que a evidência total dá uma probabilidade de 97/100 de que Jesus era Deus Encarnado que ressuscitou dos mortos. Para tomar uma analogia — se a evidência de fundo dá uma probabilidade significativa, digamos 1/4, de que João cometeria certo crime; e assim 3/4 de que não cometeria; e as pistas no saldo não são tais que é provável encontrá-las se ele cometesse o crime (embora haja menor probabilidade de que ainda ocorressem se ele cometesse o crime), mas são tais que é muito improvável de fato encontrá-las se ele não cometesse o crime, então elas tornam provável que ele cometeu o crime.²⁴
Concluo que, a menos que minha avaliação de quão provável a evidência da teologia natural torna a existência de Deus esteja muito equivocada, é muito provável que Jesus fosse Deus Encarnado e que tenha ressuscitado dos mortos.
NOTAS:
¹ Swinburne, The Resurrection of God Incarnate (Oxford: Oxford University Press, 2003).
² Ver meu The Existence of God, 2ª ed. (Oxford: Oxford University Press, 2004); e a versão mais curta Is There a God? (Oxford: Oxford University Press, 1996).
³ Para um relato muito mais completo de como a vida e morte de Deus Encarnado tornaria disponível expiação pelos pecados humanos, ver meu Responsibility and Atonement (Oxford: Clarendon, 1989), esp. caps. 5, 9 e 10.
⁴ Para minha teodiceia completa, ver meu Providence and the Problem of Evil (Oxford: Clarendon, 1998).
⁵ Geza Vermes, Jesus the Jew (Norwich: SCM, 1994), 186.
⁶ Mt 28:19.
⁷ Jo 20:28.
⁸ Mt 28:9 e 28:17.
⁹ Lc 24:52.
¹⁰ Ap 19:10 e 22:9.
¹¹ Mc 2:7.
¹² Mc 14:64.
¹³ Jo 10:33.
¹⁴ Mc 14:64.
¹⁵ E. P. Sanders, Jesus and Judaism (Norwich: SCM, 1985), 72.
¹⁶ Mc 14:57.
¹⁷ Mc 13:2.
¹⁸ Lc 23:27–31.
¹⁹ Mc 13:1–2.
²⁰ Jo 2:19.
²¹ Jr 31:31–34.
²² 1Cor 15:3–8.
²³ Gl 1:18–19.
²⁴ Para uma exposição matemática dos pontos deste parágrafo e sua aplicação à Ressurreição, ver The Resurrection of God Incarnate, apêndice, “Formalizing the Argument”.